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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Oráculo da Cigana: um curioso baralho de Cartomancia


Conheci esse baralho ano passado, nas postagens do Alex Tarólogo. Primeira referência que conheci a respeito desse oráculo, mas não pensava um dia conhecer o baralho em minhas próprias mãos. E confesso que, tendo o conhecido em outubro, não achei que fosse tão bom. Não foi um baralho que acelerou meu coração imediatamente, mas, talvez justamente por isso, tenho o carinho por ele que o mantém entre meus favoritos. Existem paixões que demandam tempo e vivência. O estranhamento inicial não foi um obstáculo; antes, foi um caminho.
O meu, eu ganhei de presente da Priscilla Lhacer. Um mimo, um carinho que, makhtub! tinha uma razão de ser. Quando um oráculo chega às nossas mãos por vias misteriosas como um presente ou surpresa, é bom que estejamos atentos aos seus efeitos. E, nesse caso, os efeitos foram preciosos ao ponto de eu indicá-lo, veementemente, para quem se interessa por Cartomancia, sobretudo a italiana, no qual ele se baseia.
O baralho é formado por 52 cartas - o mesmo número de cartas de um baralho comum  - o que o predispõe a ser a ilustração de significados anteriores propostos para cada uma das cartas do baralho comum. Se hoje não possuímos acesso às referências que nortearam a elaboração das imagens, pelo menos podemos pressupor que a metologia do jogo será semelhante àquela que norteia sessões de Cartomancia. Muitas cartas, frases curtas, porém precisas. 

Uma possibilidade de desenvolvimento desse oráculo é ser uma contração do Vera Sibilla Italiana, hipótese altamente plausível, proposta pela Socorro, da De Keizerin Boutique (recomendo). Eu tenho encontrado alguns outros baralhos que também corresponderiam a esses desenvolvimento imagético de conceitos cartomânticos de matriz comum. Mas é cedo ainda para que eu possa afirmar qualquer coisa. 
Minha experiência com esse oráculo tem apontado que ele é precioso para revelar intenções e fazer previsões de curta duração. Nada muito extenso, nada muito amplo: aquilo que é passível de se resolver com uma frase, mais elaborada que um simples sim/não, mas menos elaboradas que um panorama.
Como exemplo, posto uma das minhas cartas favoritas, o Mercador. Eu pensei nela justamente por ela dialogar com as minhas leituras no momento - Malba Tahan, Rumi (indicação preciosa do Claudiney Prieto), Omar Kayyam e As Mil e Uma Noites (livro e baralho).  E daí, temos um primeiro passo para analisar as demais 51 cartas.


 O Mercador
Oráculo da Cigana
Lo Scarabeo

Seguindo a orientação do livreto que acompanha as cartas, vamos trabalhar com a formação do conceito da lâmina a partir do cruzamento entre o título e a imagem. 
Mercador é o título dado àqueles que mercadeiam. Que comerciam. Que levam e trazem. Em todos os sentidos.
Conforme o Dicionário Aurélio:

s.m. Indivíduo que compra por atacado para vender a varejo. / Negociante de panos. // Fazer ouvido de mercador, v. OUVIDO.
Estar em contato com várias culturas, com vários povos, fazem do mercador um personagem ambivalente. Por um lado, nunca saberão exatamente o que ele pensa, já que ele conheceu um mundo diferente demais para se prender unicamente aos limites do seu povo ou região; por outro lado, as questões a que se apega tem para ele um valor maior do que para aqueles que se mantém devido ao costume, ao hábito, num mesmo comportamento. Ele escolhe manter um comportamento, porque sua natureza o leva a voltar sempre ao local de origem, com o desejo de partir novamente.
Por outro lado, ele sempre saberá mais dos outros que os outros pensam que ele sabe. O contato com pessoas tão diferentes o deixa atento aos hábitos, tiques, vícios. Só assim ele sabe diferenciar pesos e medidas - pelo que não se diz, mas se deixa dizer... pelo que não foi dito.

Dentro dessa perspectiva, e poderíamos estendê-la muito mais, verificando filologicamente as demais possibilidades oferecidas - Mercante, Marchand, Mercader, Kaufmann - o Mercador é um personagem cujo olhar anseia pelo horizonte, a quem ninguém é ilimitado o bastante para uma análise comportamental. Os termos parecem ser a mesma coisa, mas não são. Significados se depreendem de termos aparentemente sinônimos e, pouco a pouco, percebemos que o poder do termo está em ser único, mas passível de ser substituído por algo que, mesmo parecido, não é igual. Como exemplo, pensemos no termo francês Marchand. Além de Mercador, esse termo define aqueles que entendem de Arte o suficiente para indicar a compra de algo; seria o representante de um artista. O intermediário. Apesar dos significados se tocarem, há que se notar expansões. Os termos se cruzam, se reproduzem, e significados se apresentam ante nossos olhos.


Atente, nessa imagem, para os olhos do Mercador. Através de seus olhos,
ele não só expõe sua mercadoria, como todas as possibilidades que encontrou
de belo em seus tecidos. Comprar-se-ia tecidos dele por seus olhos. 


Diante disso, da ideia de intermediação, tão concernente ao termo, vamos para a imagem. 
Apesar de estar ligado à ideia de viagem, de busca de mercadorias em locais distantes, nessa carta vemos essa ideia como secundária. Temos uma carta ativa nesse sentido - a Viagem, cuja iconografia do personagem remete à do Mercador. Aqui, vemos o navio ao fundo partindo, não sabemos se o navio deixou o mercador ou se irá buscar mercadorias para ele. Só sabemos que ele já não participa do processo - o que chega, ou o que parte, apesar de passar pelo Mercador, não lhe compete mais. O navio também aparece nas cartas Suspiros, Esposa e Consolação, mostrando aquilo que vem de longe... ou remete para longe.


À esquerda: Suspiros. À direita: Consolação.
Observe o navio, dialogando com o personagem principal.
Oráculo da Cigana
Lo Scarabeo


Se falamos do navio, falemos do mar. Como diria a Ana Carolina: "por que me mostra o mar, se eu quero ver o navio?" 


À esquerda: A Esposa. À direita: Desgosto. 
Em uma o navio. 
Na outra, a imensidão do mar.
Oráculo da Cigana
Lo Scarabeo


Diante da imensidão, os detalhes se diluem. Para o melhor ou para o pior. Além disso, o mar une o aqui ao lá. Com um horizonte de possibilidades no meio. O mar transcende o espaço visível, mostrando que o que se busca ainda não está ao alcance. Mas já é possível desejar. Além das já citadas Consolação e Suspiros, o mar aparece em Desgosto. Mas aqui o navio já não se vê. E a frase de Ana Carolina faz todo o sentido. Coloca os Suspiros ladeando Desgosto e dá uma olhada.
Dos diálogos entre as iconografias, partimos para o personagem principal. Um árabe, irmão dos árabes. Suas vestes apontam para isso. Moro, mouro. E aí precisaríamos entender como um italiano veria um mouro para sabermos como essa carta seria vista pelo italiano que a delineou. Novos sentidos se depreenderão disso. Se você der uma olhadinha nesse link aqui, ficará sabendo que os italianos já dominaram a Líbia, durante o declínio do Império Otomano, na chamada Guerra Ítalo-Turca, em 1911. Apesar de italianos terem ocupado o território, eles não foram capazes de colonizar o espaço, perdendo terreno durante a I Guerra Mundial. As culturas coexistiram como água sob azeite. O conflito mistura, o tempo assenta cada coisa em seu lugar - conforme seus atores veem a questão de "lugar".
Alguns barris, caixas, e um acolchoado no qual esse mouro se apoia, correspondem às suas mercadorias. Ele está a postos, pois se dali se afastar, perde o que tem - é sua presença que atesta que o que o rodeia é dele. Mas sua posição é relaxada - logo, carregadores irão levar o material para o local correto.


Espera
Oráculo da Cigana
Lo Scarabeo


Seu olhar se perde à frente, como em SuspiroEspera. Se o olhar se perde, é porque os pensamentos importam mais. E não são pensamentos coesos, direcionados; são sonhos, devaneios, alimentados pela espera, que permite uma certa esperança.


Sinbad conta sua história ao carregador.
Seis de Ouros
Tarô das Mil e Uma Noites
Lo Scarabeo


Se nos remetermos à literatura, sobretudo Às Mil e Uma Noites, veremos que a figura do jovem afoito por aventuras, que vende tudo o que tem em busca de negócios no estrangeiro é recorrente. O personagem mais emblemático dessa perspectiva é Sinbad, que, por sete vezes, vende o que tem e sai em busca de aventuras. E da história de Sinbad apreendemos outros detalhes: quando vivemos algo maravilhoso, precisamos compartilhar com alguém. 
A história de Sinbad ocorre nos tempos do Califa Harun Al-Rashid, personagem que também se carrega de significados. Conforme consta, ele se disfarçava de mercador para visitar seu reino, de forma a assegurar-se pessoalmente de que tudo corria bem. Diversas histórias d'As Mil e Uma Noites o referenciam, seja como marco temporal ("No tempo do Califa Harun Al-Rashid..."), seja como personagem. Como personagem, talvez, seja o mais interessante. Ele é curioso, imiscuindo-se em qualquer assunto que considere interessante; contudo, não revela sua identidade até o momento oportuno, saindo-se muito bem como mercador para alguém que foi treinado para ser Califa. Conforme vimos antes, ao Mercador pertencem todos os pensamentos que o rodeiam, enquanto seus pensamentos não pertencem a ninguém. Ele precisa contar sua história, ele deseja contar sua história. Mas você jamais conseguirá ler seus pensamentos.
Daí, poderíamos sintetizar os significados observados em algumas palavras-chave, para além das óbvias comércio e troca: Intermediação consciente e proveitosa. Saber ouvir. Captar intenções com facilidade. Estar longe do que é familiar, ou ansiar por esse distanciamento. Notícias que vêm de longe. Um presente aguardado. Espera ansiosa, resultado breve. Uma história. Lucro, dividendos. Contato com culturas diferentes. Afirmação da identidade. Disfarce temporário. Teus pensamentos são terra de ninguém. Conhecimento de causa. Ansiedade pelo novo. Aguardo de novidades. Estar em território estranho. Diplomacia. O que se vê é mais precioso do que o que se ouve.


É muito divertido fazer isso, observar um oráculo novo com olhos de primeira vez, caçando respostas às indagações que surgem. Desses mergulhos, obtemos respostas preciosas às possibilidades de interpretação do oráculo. Eu não fazia a menor ideia de que chegaríamos aonde chegamos com esse texto - eu só escolhi a minha carta favorita, e saio mais rico na minha leitura dela. Dá um pouquinho de trabalho, mas vale a pena - quem falou que Cartomancia é fácil?
Abraços a todos.

Post Scriptum: Há um livro sobre esse baralho, com visualização acessível aqui. O irmão Euclydes Cardoso Jr., do TarotCabala, publicou o seu primeiro olhar sobre as cartas, aqui. Vale a leitura, vale o mergulhar nas imagens. O Ricardo Pereira, autor do Substractum Tarot, postou sua vivência com esse baralho aqui, vivência essa que dispensa comentários e atesta a rapidez das previsões.  E, caso queira adquirir o seu, clique aqui.

Atualização em 07 de novembro de 2012: Alguns links interessantes para o entendimento da profundidade dessa lâmina: aqui, aqui e aqui

domingo, 20 de março de 2011

Curso de Petit Lenormand. O Chá Cigano.

Olá pessoal. O Curso foi um sucesso! Muito bacana a interação entre as pessoas, e destas com o Petit Lenormand. Me diverti e celebrei muito!
Durante a tarde, tomamos um chá cigano, delicioso. Mas isso merece uma explicação...
Tente procurar sobre "chá cigano" no Google. Existem repetições de receitas, mas não uma receita. Então, decidi criar uma!  Mas primeiro, falemos do chá.


Segundo a Wikipédia, O chá é uma bebida preparada através da infusão de folhas, flores, raízes de chá, ou Camellia sinensis. Geralmente é preparada com água quente. Cada variedade adquire um sabor definido de acordo com o processamento utilizado, que pode incluir oxidação, fermentação, e o contato com outras ervas, especiarias e frutos.
"Chá de ervas" é frequentemente utilizado para designar todas as infusões feitas a partir de diferentes partes de plantas (não necessariamente ervas - casca, folhas, flores, etc). Exemplos mais comuns: chá de camomila, chá de erva-cidreira, chá de tília, chá de menta, chá de limão, chá de flor de laranjeira, etc.
No entanto, essas infusões são tisanas e não rigorosamente chás, uma vez que o termo chá designa única e exclusivamente a bebida preparada através da infusão de folhas, flores ou raízes da planta Camellia sinensis.


O chá é uma bebida envolta em lendas. Segundo Osho


Tarô da Transformação. Disponível em OSHO.com.



As pálpebras de Bodhidharma e as origens do chá


Consciência vem através da sensibilidade. Você tem que se tornar mais sensível a tudo aquilo que você faz, de forma que mesmo uma coisa trivial como o chá... você pode pensar em coisa mais trivial do que chá? Você pode encontrar coisa mais comum do que chá? Não, não pode, e os mestres e monges Zen elevaram essa coisa tão comum ao ponto de torná-la extraordinária. Eles interligaram "isso" e "aquilo"... como se chá e Deus tivessem se tornado um só.
A menos que chá se torne divino você não será divino, pois o menor precisa ser elevado para o maior, o ordinário tem que ser elevado para o extraordinário, a terra precisa ser o paraíso. É preciso criar uma ponte, não pode haver nenhuma brecha.


O chá foi descoberto por Bodhidharma, o fundador do Zen. É uma bela história.
Ele esteve meditando por nove anos, olhando para uma parede. Nove anos, apenas encarando uma parede, continuamente, é natural que eventualmente ele começasse ter sono.
Ele lutou e lutou contra o seu sono – lembre-se, o sono metafísico, a inconsciência. Ele queria permanecer cônscio mesmo enquanto dormia. Ele queria manter a consciência permanentemente – a luz deveria brilhar dia e noite, por vinte e quatro horas. Eis o que dhyana é, o que meditação é: percepção.
Uma noite ele sentiu que seria impossível manter-se alerta; pois estava caindo de sono. Ele cortou suas pálpebras e as jogou fora! Agora não havia mais como fechar os olhos.
A história é linda. Para obter a visão interior, esse olhar para fora deve ser abandonado. Esse é um preço que deve ser pago. E que aconteceu depois? Após alguns dias, ele descobriu que aquelas pálpebras que ele havia jogado no chão, tinham começado a brotar novamente. Esse broto tornou-se o chá.
Eis porque quando você bebe chá, alguma coisa de Bodhidharma penetra em você e o mantém acordado. Bodhidharma estava meditando numa montanha chamada T’a, daí o nome, chá. Isso procede dessa montanha onde Bodhidharma meditou por nove anos.
Isto é uma parábola. Quando um Mestre Zen diz, “Beba uma xícara de chá,” ele está dizendo, “Prove um pouco de Bodhidharma. Não se importe com essas questões, se existe Deus ou não, quem criou o mundo, onde fica o paraíso e onde fica o inferno e qual é a teoria do Karma e da reencarnação.”
Quando o Mestre Zen diz, “Esqueça suas dúvidas e beba uma xícara de chá,” ele está dizendo: “Melhor ficar mais atento, não se prenda a essas coisas sem sentido. Nada disso irá lhe ajudar.



Outra interpretação dada por Osho

O chá é um símbolo Zen, o qual significa consciência, porque o chá torna você mais alerta, mais consciente. O chá foi inventado pelos budistas, e por séculos eles o têm usado como um auxílio à meditação. E o chá ajuda.
Conta-se que Bodhidharma estava meditando em certa montanha da China chamada ‘Ta’. De ‘Ta’ vem o nome ‘chá’. Essa montanha podia ser pronunciada como ‘Ta’ ou como ‘Chá’; é por isso que na Índia o chá é chamado ‘chai’ ou ‘chá’.
Bodhidharma estava meditando e ele era realmente um grande meditador. Gostava de meditar por dezoito horas, mas isso era difícil. Muitas vezes sentia-se sonolento, suas pálpebras fechavam-se repetidamente. Assim, ele cortou suas pálpebras e as jogou longe. Agora, não havia qualquer possibilidade de fechar os olhos.
A história é linda – aquelas pálpebras tornaram-se as primeiras sementes de chá, e uma planta nasceu delas. Com essa planta, Bodhidharma preparou o primeiro chá do mundo, e ficou admirado ao perceber que, se pegasse as folhas e as bebesse, podia permanecer alerta por períodos mais longos. Assim, por séculos, as pessoas que praticam Zen bebem chá, e o chá se tornou algo muito, muito sagrado.
E Osho nos faz esta sugestão: “Toda vez que você perceber que está agindo inconscientemente, pare. Não seja um robô. Não aja a partir do ego. Tome uma xícara de chá. Acorde – e então aja com consciência”.
As paradas que interrompem a rotina da pressa, a qual a nossa sociedade está submetida, são vitais para o restabelecimento da ordem interna e da clareza de visão. Nas pausas, adquirimos fôlego novo para seguir adiante, em condições de tomar decisões mais assertivas, com menos desgaste.


Outra lenda aponta para um Imperador como descobridor do chá.

Conta a lenda que a árvore do chá foi descoberta, no ano 2737 a.C., por acaso, quando o imperador chinês Shên Nung, mais conhecido como o “Curandeiro divino”, dava um passeio pelas suas propriedades.
O imperador pediu a determinada altura que os seus servidores lhe fervessem um pouco de água enquanto descansava à sombra de uma árvore. Foi precisamente dessa árvore que uma folha se soltou e caiu dentro da taça de água fervida. Sem reparar, o Imperador bebeu, sendo dessa forma que nasceu a primeira chávena de chá. Terá sido este imperador que criou a medicina natural ou ervanária, testando ele próprio uma enorme variedades de bebidas medicinais à base do chá.


Na verdade, o primeiro registro escrito sobre o uso do chá data do século III a.C. O tratado de Lu Yu, conhecido como o primeiro tratado sobre chá com caráter técnico, escrito no séc. VIII, durante a dinastia Tang, definiu o papel da China como responsável pela introdução do chá no mundo.


Não conheço a procedência das receitas que permeiam o espaço virtual. Mas deu para perceber algumas similitudes, que geraram a receita que repasso a vocês. Primeiro, o chá. Embora tenha encontrado receitas com chá mate, a maior parte das receitas indica o chá preto, que é o que eu utilizo, por ser mais fiel à história.


Para preparar a infusão, primeiro eu adiciono à água canela, cravo-da-índia e cardamomo. Não tenho muita medida nessa hora não, mas geralmente é um pauzinho de canela, umas 15 flores de cravo-da-índia e umas cinco sementes de cardamomo (a medida é a concha da mão, difícil precisar). Enquanto a água é aquecida, liberando a essência das especiarias (e perfumando a casa toda), pico em cubos não muito pequenos uma nectarina, duas ameixas, um pêssego, uns seis damascos secos, uma pêra, uma maçã (prefiro a argentina, para o chá). São frutas doces, relacionadas à prosperidade e à fertilidade. Vi receitas que utilizam morangos, limões (a casca), uvas, figos, caquis... 
Com a água em ponto de ebulição, desligo o fogo e adiciono uma quantidade de saquinhos de chá preto que considere suficiente; algo por volta de um saquinho para cada meio litro de água. Aguardo a infusão (dois ou três minutos é suficiente) e despejo o conteúdo sobre as frutas, já no recipiente para servir. Mais uns cinco minutos e a bebida está pronta para ser consumida.


Há quem adicione bebidas alcoolicas ao chá, como o whisky; outros há que adocem o chá com mel. Há também quem coloque as frutas para serem maceradas na xícara, individualmente, escolhendo as frutas que correspondem aos desejos de quem degustará a bebida. Eu prefiro colocar todas as frutas juntas, para obter uma homogeneidade no sabor. 
Divirtam-se com esse chá maravilhoso! Tanto para o ritual quanto para receber amigos, esse chá é uma delicia. 
Abraços a todos.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Significados do Petit Lenormand / Baralho Cigano.

Olá pessoal. Esse post foi retirado do meu blog antigo, Cartomancia - Por Emmanuel. Como esse post foi feito há alguns anos, eu perdi alguns dos links que me serviram de fonte, eximindo-os deste post, e modifiquei algumas informações que, com o tempo, verifiquei serem anacrônicas. Essa versão portanto é atualizada e ampliada em relação à anterior.
Conforme sabemos, não existe um baralho cigano, mas sim um baralho dito cigano e uma dita forma cigana de jogar (incluo uma aqui, só que com o Tarot). O baralho dito Cigano foi creditado, ainda no século XIX a uma francesa, Marie Anne Adelaide Lenormand, nascida em 27 de maio de 1772 em Alençon, França. Era uma cartomante muito popular e entre seus clientes podemos citar Napoleão, Josephine de Beauharnais, Robespierre, Louis XVIII entre outros. Uma resenha excelente sobre sua vida e seu baralho encontra-se no Clube do Tarô, de autoria de Constantino K. Riemma.
Além de cartomante, Mademoiselle Lenormand era astróloga, quiromante, numeróloga e tinha muitos outros conhecimentos como geomancia, dominomancia, cafeomancia. Ela revolucionou o conhecimento da Cartomancia, na época, utilizando flores, ervas e talismãs junto com seu jogo de cartas, como podemos observar no Grand Jeu de Mlle. Lenormand, de 54 cartas. - as 52 do baralho comum mais duas, representando o homem e a mulher mais importantes para a consulta. Segundo o Alexander, do blog Lenormando, esse baralho bebe diretamente na fonte aberta por Etteilla, a hipótese mais plausível e mais aceita até então pelos que buscam uma origem para essas cartas.
Sendo esse baralho de 54 cartas complexo e de difícil compreensão, Mlle. Lenormand criou uma segunda versão, o Petit Lenormand, de 36 cartas. E é esse último que foi adotado pelos Ciganos. Sabendo que Etteilla trabalhou com o Baralho de Piquet, de 32 cartas, somando mais uma, o consultante, e vendo nos baralhos de Lenormand tal referência, fica atestada sua referência em Etteilla.
Com seu desencarne, em 25 de junho de 1843, muita desta sabedoria desapareceu com ela. incluindo suas fontes e métodos que utilizou para desenvolver o seu próprio Somente cinqüenta anos depois, alguns manuscritos de Lenormand foram recuperados e mais tarde divulgados - ou melhor dizendo, relidos.
Nesse vídeo temos algumas atribuições às cartas Lenormand, em inglês, que correspondem ao livretinho que acompanha qualquer desses baralhos mais simples, aqui no Brasil. Esses significados, muitas vezes estão impressos nos baralhos; são oriundos de pequenos poemas que são vistos, por exemplo nas Cartas Mundi - por exemplo, na carta 24 (thanks, Alex, por essa informação). Os poemas, é importante dizer, diferem de edição para edição do baralho.
Todavia, sendo nômades e de natureza mágica, os Ciganos se apropriaram do oráculo e dele usufruiram, assim como da Quiromancia e do Tarot, desempenhando, muito bem devo dizer, tais mancias. Por isso, podemos dizer também que o fato desse oráculo não ter sido perdido foi devido ao esforço desse povo mágico e sofrido para sobreviver, tendo nas mancias um meio de troca que lhes permitia conseguir algum dinheiro.
Minha experiência particular com esse baralho me permite dizer que embora simples, de forma alguma esse oráculo é superficial. Ao contrário, suas respostas são diretas e francas, como as de um bom amigo. Mais que isso: com a devida compreensão, estudo e - claro - com o auxílio de egrégoras podemos ver além da compreensão literal das lâminas.
É importante, porém, frisarmos que esse baralho sofreu modificações com o tempo, desde sua utilização na França até sua chegada no Brasil. Devemos, inclusive, a Katja Bastos e César Bastos, com sua edição do Tarot Cigano, algumas da interpretações que perpetraram no nosso imaginário e nas publicações seguintes à essa publicação, que acresceram a esse baralho um quê de Brasil, aproximando-o de nossa realidade, mas afastando-se da tradição - vale a pena comparar a edição, de 1993, dos referidos autores, com as edições posteriores de diversas editoras, sobretudo no que concerne à atribuição de determinados Orixás à certas cartas.
A melhor edição deste baralho que encontrei, aida que com imagens simples, foi o Baralho de Ver a Sorte, Série Pingüim, da COPAG. Contudo, essa edição está esgotada e, pelo que percebi quando entrei em contato com a empresa, não há interesse em reeditá-lo. Uma pena, pois além de bonito, o baralho possui a durabilidade das cartas COPAG, garantindo uma vida útil bem bacana e possuindo um deslize entre as mãos muito bom; seu tamanho também facilita a manipulação. Minha versão favorita desse baralho, sem dúvida.

Mas voltando...
Mesmo sem uma história coesa, devidamente organizada, estamos diante de um oráculo fascinante, sem dúvida.
Segue minha interpretação das lâminas. Creio que, obviamente, não é a melhor, dado ser baseada em palavras-chave, mas foi a que abriu as portas do oráculo para mim. Baseado na apostila Tarô Cigano: Breves considerações... de Silvia Theberge. Como esse post foi retirado de um blog anterior, resolvi ampliá-lo, baseado em meus estudos da cartomancia.

01 - O Cavaleiro - 09 de Copas
Concretização, sexualidade, velocidade (acelera o tempo da previsão). Carta sob influência de Exu.
02 - O Trevo ou os Obstáculos - 06 de Ouros
Dificuldades momentâneas, atrasos. Se bem que já ouvi falar que significa sorte passageira. - para aqueles que seguem a tradição francesa, inclusive esse significado está no vídeo que postei. Mas não funcionou para mim com esse significado não.
03 - O Mar ou o Navio - 10 de Espadas
Viagem, saúde (alguns cartomantes vêem saúde na carta 05), mudança inexorável. Indica velocidade também, mas ao invés de ser uma aceleração, como o Cavaleiro, está mais próximo do sentido de "tempo certo". Carta sob influência de Yemanjá.
04 - O Equilíbrio ou a Casa - Rei de Copas
A casa, a família, o lar, em alguns casos o corpo físico. Indica homem gentil, psicólogo (se junto a 20) ou médico (junto a 30)
05 - As Árvores - 07 de Copas
Comunicação, troca, compartilhar, prosperidade. Alguns cartomantes vêem nessa carta questões de saúde. Carta sob influência de Oxóssi e dos Caboclos.
06 - As Nuvens - Rei de Paus
Confusões, instabilidade, stress, brigas. Carta sob influência de Iansã.
07 - A Serpente do Arco Íris - Rainha de Paus
Fofoca, intriga, inimizade próxima, traição, esperteza. Representa geralmente a(o) amante. Carta sob influência de Oxumaré.
08 - O Caixão ou a Vela ou a Caveira - 09 de Ouros
Morte, perda, prejuízo. Atrasos. Pode representar também uma vida passada. essa carta também representa os espíritos que ainda não conseguiram Luz para recuperar a consciência (Eguns).
09 - A Chuva ou o Ramalhete - Rainha de Espadas
Sabedoria, felicidade, sonhos realizados, lentidão (torna lenta a realização da previsão). Representa pessoas mais velhas, geralmente a avó. Carta regida por Nanã Buruquê.
10 - A Foice - Valete de Ouros
Transformações, cortes. Carta sob influência de Obaluaiê.
11 - O Chicote - Valete de Paus
Magia, poder, força de vontade. Competição. Ambição.
12 - Os Pássaros - 07 de Ouros
Alegrias, affairs, "namoricos", pequenas coisas que muito significam. Emoções leves. Neutraliza a influência da carta 07.
13 - A Criança - Valete de Espadas
Pureza, inocência, imaturidade, os filhos, o jovem mais importante da vida do consulente - os demais serão representados pelos outros três valetes (10, 11, 24). Influência dos Erês.
14 - A Raposa - 09 de Paus
Armadilhas, covardias, problemas inesperados, contudo, relaciona-se com situações, não necessariamente com pessoas - uma situação tensa, não necessariamente causada de maneira intencional por uma pessoa.
15 - O Urso - 10 de Paus
Amizades falsas, o "amigo urso", influências negativas de outros planos ("encostos"). Aqui temos a intenção de alguém em prejudicar ou oprimir o consulente.
16 - A Estrela - 06 de Copas
Sorte, karma - no sentido de sorte ou destino - , confiança, alegria, felicidade. Recompensa.
17 - A Cegonha - Rainha de Copas
Novidades, gravidez, mulher amiga, confidente, auxiliar.
18 - O Cão - 10 de Copas
Amigo fiel, Anjo da Guarda, neutraliza 15.
19 - A Torre - 06 de Espadas
Isolamento, espiritualidade, "ver de cima". Solidão ou solitude - depende da postura do consulente.
20 - O Jardim ou as Ervas - 08 de Espadas
Cura, medicina (pode indicar intervenção médica ou cirúrgica), coisas/situações a caminho devido ao esforço e postura do consulente. Resultados. Influência de Ossain.
21 - A Montanha - 08 de Paus
Justiça, o Poder Maior, Direito. Carta kármica: o que você merece lhe será dado, independentemente do que você acha que merece. Influência de Xangô. Essa carta também é interpretada como dificuldades e obstáculos que se mostram intransponíveis, ou que necessitam de um grande esforço para serem transpostos.
22 - Os Caminhos - Rainha de Ouros
Possibilidades, caminhos a serem trilhados ou desvios dos problemas. Carta sob influência de Ogum.
23 - O(s) Rato(s) - 07 de Paus
Desgastes, pequenos roubos, obssessão espiritual. Atente para essa carta pois ela pode indicar tanto indolência quanto depressão - o que pode ser exatamente a raiz do problema do consulente.
24 - O Coração - Valete de Copas
Todos os sentimentos são representados por essa carta, desde os mais puros aos mais sombrios, de acordo com as cartas que a acompanham. De qualquer forma, sempre representa emoções intensas. Emoções suaves são em 12.
25 - O Anel ou as Alianças - Ás de Paus
Alianças, sociedades, casamento. A natureza dessas alianças é dada pelas cartas que lhe cercam.
26 - O Livro - 10 de Ouros
Trabalho, estudo, negócios. Materialismo. Mistério, segredo.
27 - A Carta - 07 de Espadas
Convites, cartas, recados, sonhos, avisos. Atente para as cartas ao redor de 27; elas indicam os primeiros passos que o consulente pode dar em direção à solução do que o motivou a se consultar.
28 - O Homem - Ás de Copas
A figura masculina mais importante da vida da consulente, o próprio consulente. As demais figuras masculinas estarão representadas nos Reis (06, 04, 30, 34)
29 - A Mulher - Ás de Espadas
A figura feminina mais importante da vida do consulente, a própria consulente. Representa a energia Cigana do baralho. As demais mulheres estarão representadas pelas Rainhas (07, 09, 17, 22)
30 - Os Lírios ou os Rios - Rei de Espadas
Paz, tranquilidade, ser guiado ao caminho certo e desviado dos obstáculos suavemente. Recebe influência de Oxum. Pode indicar um homem da lei, militar, médico (junto com 04) ou advogado (junto com 21)
31 - O Sol - Ás de Ouros
Iluminação, cura, purificação, sabedoria, sucesso, prosperidade. Recebe influência de Oxalá: Oxalufan, se rodeado de cartas Yin, Oxanguian, se rodeado de cartas Yang.
32 - A Lua
Honrarias, merecimentos, intuição, inimigos ocultos, segredos e mistérios, mediunidade ou herança (material ou espiritual - atente-se para o derredor dessa carta).
33 - A Chave - 08 de Ouros
Soluções para os problemas apresentados. Fechamento ou abertura de alguma questão.
34 - Os Peixes - Rei de Ouros
Matéria, dinheiro, riqueza. Carta neutra; são as cartas que a ladeiam que lhe dão o devido significado. Pode representar o chefe ou superior imediato. O provedor de recursos.
35 - A Âncora
Fé, firmeza, resoluções, segurança. Indica muito mais uma postura do consulente do que uma situação externa.
36 - A Cruz - 06 de Paus
Vitória. Finalização proveitosa. Influência dos Pretos-Velhos.

Como efetuo o jogo

Abro o jogo com uma oração pessoal, pedindo que a Visão se abra para que eu diga apenas a Verdade que o consulente precisa ouvir, mesmo que ele tenha vindo buscar outra;em seguida, corto e retiro uma carta para saber se posso abrir o jogo e quais energias influenciarão a consulta, assim como quais são as áreas da vida do consulente que serão mais focadas. Em seguida, disponho as cartas pelo sistema da Mesa Real (vide post abaixo), que se utiliza de todas as 36 cartas. Após a leitura, caso o consulente ainda tenha dúvidas, respondo cada uma de suas perguntas com cinco cartas e, após sanar suas dúvidas, retiro uma mensagem final contatando a energia cigana.
Encerro com uma oração pessoal, dizendo "fecho este jogo mas não fecho seus caminhos. que você possa caminhar sempre para a Luz, e eu possa ver cada vez mais e melhor, para o bem de todos os envolvidos."

Até o próximo post.