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sábado, 16 de abril de 2011

Cisne Negro: caleidoscópio cartomântico [Parte 3: Nina e a estética de Grünewald]


Olá pessoal. Encerrando a trilogia de postagens sobre o filme Cisne Negro, façamos uma comparação entre a estética do filme e a pintura de Matthias Grünewald, Crucificação.


Cisne Negro é permeado por diversas cenas do cotidiano, de dores que somos capazes de compreender. Nem todos nós somos capazes de alcançar a dimensão proposta por Natalie Portman ao afirmar que sapatilhas de ponteira são aparelhos de tortura; mas qualquer um de nós sabe o quanto um arranhão, uma cutícula arrancada, um corte de unha exagerado, um apertão de mão, é capaz de doer. Mesmo.




E é aqui que esse filme, a meu ver, supera as expectativas. As dores de Nina crescem à medida que o filme se desenrola e sua neurose se torna mais aparente. Pequenos sinais apontam para o desfecho, mas são tão sutis que dependemos de tempo para entender. Para que, no clímax, entendamos o que a protagonista sentiu, precisamos de pequenos detalhes esparsos que, somados, concedem-nos a incômoda sensação de sinestesia com tamanha dor. Tal como a tela de Grünewald.

Este óleo sobre madeira pintado entre 1512 e 1516 é, para mim, uma das pinturas mais cheias de pathos de todos os tempos. Na verdade, ela exala pathos.
A experiência da crucificação é praticamente nula para nós. Não é possível imaginar o contexto no qual ela ocorreu, por dois motivos: em primeiro lugar, pela distância temporal entre a condenação e a nossa visão de castigo (creio que uma pessoa ficaria horrorizada se visse uma imagem de alguém na cadeira elétrica;  teria muito mais ojeriza do que por uma imagem de um crucificado). E em segundo lugar, a imagem da crucificação tornou-se, desde o século XIV, aproximadamente, passível de ser representada nas igrejas como exemplo de prova de amor. O contexto da imagem modificou o sentido atribuído a ela. 





E assim, quando uma obra como Paixão de Cristo surge, é tido como de mal gosto, exagerada, non sense. A falta de contexto é tanta que as pessoas se sentem bem vendo tamanho sofrimento. Quer sofrimento? Vá assistir Jogos Mortais que é mais intenso (e de gosto bem mais duvidoso...)!
Achou o comentário de mau gosto? Pense bem: se não fosse o Cristo, conforme te ensinaram na igreja, você aguentaria ver esse filme, com a intensidade que possui?
Bem, mas voltando a Crucificação de Grünewald...
A cena como um todo, já nos é familiar, pelas diversas reproduções do texto bíblico que conhecemos. Mas atenha-se aos detalhes. Em primeiro lugar, o corpo do Cristo:




Em segundo lugar, seus pés:




Repare que as expressões são fortes. O mais interessante, quando passa o mal-estar próprio de ver tal cenas, é que elas, isoladamente, são possíveis em nossa experiência diária. Uma ferpa no dedo, um chute na quina da mesa com o dedinho do pé... Dores intensas e isoladas que são somadas num pathos difícil de conceber. Mas plausível dada a violência desse método de execução e tortura. E aí temos a sinestesia deveras incômoda de entender o que se passou. Terrível.
E onde isso se aplica ao filme Black Swan?
As pequenas sensações de Nina são sempre marcadas por sangue. Não litros, mas gotas. As mesmas gotas que você deixa na manicure quando a mão dela está pesada. Ou quando você se surpreende mordendo o lábio com mais força que deveria. Ou ainda, com um escapulir da faca que você cortava uma maçã ao meio. Talvez o escapulir de uma agulha do seu bordado...




Nove de Espadas. Sangue, suor e lágrimas, escorrendo de lâminas tão gastas pelo uso que cabe-nos pensar se ainda possuem sua função original.


Unhas. As unhas de Nina são delicadas como cabe a uma mulher tão frágil. Contudo, o efeito causado por elas não tem nada de sutil. Veja o quadro novamente. Olhe as ferpas no tórax. Agora lembre-se da coceira da Nina. Parece familiar?




Contudo, a coceira de Nina tem muito de nascimento. O incômodo epitelial se mostra coeso com o clímax, quando as penas nascem (atenha-se a sombra na parede). As penas são metáforas dos aspectos sombrios emergentes e incômodos. Tem que haver espaço para sair. Como a emergência dos primeiros dentes, ou dos primeiros pêlos, tão incômoda quanto, a Sombra rasga o espaço tênue entre o intra e o extra sensorial da personagem. 




Mas, para que nós, expectadores, possamos entender, é necessário sentir com a personagem sua dor sadomasoquista com requintes de crueldade em eventos aparentemente sem conexão, mas sempre permeados por gotas de sangue. Assim como na estética proposta por Grünewald para a Crucificação, só entendemos a dor de Nina por partilharmos em algum aspecto dos eventos que ela vivencia, dos quais temos conhecimento e memória. Já disse, antes, não entender de ballet; mas já me cortei com minhas próprias unhas em momentos de tensão e sei que isso não é nada bom.


Abraços a todos.


sábado, 9 de abril de 2011

Cisne Negro: caleidoscópio cartomântico [Parte 2: Self-destruction]



Olá pessoal. Continuando nossas possibilidades de análise do filme Cisne Negro, analisemos agora o background no qual ele se desenrola. Em minha opinião, o self destruction de Nina.
Atenção! Esse texto contém spoilers. Se não viu o filme ainda, assista-o primeiro.


Trailer legendado aqui.

Partindo da perspectiva analisada anteriormente da relação entre Nina e a Princesa de Copas, o background no qual o filme se desenrola é diametralmente oposto ao necessário para a nutrição de uma jovem tão frágil. Como quem desperta de um sonho - a forma como se inicia o filme, por sinal - a perfeição originalmente vista se parte e se estilhaça. E, tal estilhaçar, ao meu ver, se apresenta alegorizado nos espelhos que permeiam todo o enredo.


Os espelhos são naturalmente relacionados com a Sacerdotisa. Como Arcano II, é o reflexo do I, seu duplo e seu oposto; seu complemento perfeito, em essência, que estabiliza sua tendência projetiva inicial. É a relação entre aceleração e atrito.


Explorados à exaustão e sendo os causadores de grande parte dos sustos e surpresas dadas pelo filme, por sua referência direta fui remetido ao filme Psicose. Ao contrário de grande parte dos expectadores, a minha cena favorita é a da mulher ao espelho. Juro que procurei melhores referências, mas os comentadores só citam a cena do chuveiro...


O espelho reflete a possibilidade que temos de vermos a nós mesmos. Não é real, em essência, o que se vê, já que é reflexo e refração de luz de uma forma captável por nossos sentidos; mas é o máximo que nos aproximamos disso nos mais recentes séculos. 
Mas existe uma forma alegórica de espelho, sub-reptícia, metáfora da rede de relacionamentos a que pertencemos, que dá sentido à frase somos fruto do meio em que vivemos. A herança familiar e a convivência alteram a forma como vemos o mundo.


Nina é filha de uma bailarina que, aos 28 anos, se viu forçada a abandonar o ballet devido à gravidez. As projeções desta, portanto, são que Nina siga seus passos, mas não mais que isso. É notável a cena em que, ao trazer um bolo em rosé et blanc para celebrar a obtenção do papel, num ímpeto de fúria decide jogá-lo no lixo. 


O papel que Nina obtém deve-se à aposentadoria (forçada) de Beth MacIntyre, bailarina anterior. Explosiva, impactante, destrutiva; esta é a imagem que a personagem, interpretada por Winona Rider, passa em sua curta aparição. Ídolo de Nina, que furta seus objetos pessoais. Uma forma de se aproximar dela. Uma forma de integrar sua personalidade ao estilo que possui.





Tudo isso motivado pelo implacável e mordaz diretor do espetáculo. Acostumado a relacionar sua sexualidade ao seu trabalho, motiva Nina, já naturalmente competitiva e perfeccionista, a encontrar seu lado mais selvagem, primitivo, volátil, explosivo, intenso e ígneo para interpretar o Cisne Negro. 




Diante da perspectiva de perder seu posto obtido a custa de sangue, suor, lágrimas, ossos deslocados e unhas quebradas, Nina mergulha de cabeça no que seria a maior aventura de sua vida. Talvez, a única.
Talvez.


A experiência atemporal desse mergulho não nos permite antever, no decorrer do filme, se Nina havia tido vislumbres do seu lado sombrio. Vê-se a dificuldade encontrada para o toque em seu corpo. Talvez, ou justamente por isso, sua coceira destruidora. Sua pele lacerada é o matiz rubro da necessidade de contato. Onde há dor, há, paradoxalmente, prazer, em dicotômica relação de busca do Outro, no caso, idealizado e distante, assim como necessidade de destruir esse mesmo Outro que, próximo demais, a desvia do seu foco e libera, mesmo que por instantes, um instinto aprisionado e urrante. 




Desde a mordida inicial, até o corte das unhas - uma das cenas mais impactantes, culminando no assassínio da imagem, que, facelada, libera finalmente  o alimento necessário à manifestação plena da Sombra.




Quanto mais destruída, destroçada, facelada, esfolada, arranhada e ferida, quanto mais exposta é sua dor pela ausência da plena perfeição, mais próxima ela se vê dessa mesma perfeição, elevada ao limite da existência. 
Já havíamos visto isso antes, por aqui, quando eu citei o Fight Club. No extremo, no limite representado pelos Dez yang - Paus e Espadas - somos obrigados ao Salto. Naipes projetivos nos impelem para a frente... mesmo quando o "para frente" é uma parede de tijolos.
Abraços a todos, até o próximo post.




sábado, 2 de abril de 2011

Cisne Negro: caleidoscópio cartomântico [Parte 1: Nina]



Olá pessoal. Tendo assistido (e ficado visualmente impactado) o filme Cisne Negro, proponho aqui, em postagens distintas, mas complementares, explorarmos o universo criado no filme.




Ficha técnica:
Cisne Negro (Black Swan)

Gênero: Drama e Fantasia
Duração: 107 min.
Origem: Estados Unidos
Estréia 04 de Fevereiro de 2011
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Mark Heyman e Andres Heinz
Distribuidora: Fox Filmes
Censura: 16 anos
Ano: 2010

Assista o trailer aqui.

Cisne Negro é um thriller psicológico ambientado no mundo do balé da Cidade de Nova York. Natalie Portman interpreta uma bailarina de destaque que se encontra presa a uma teia de intrigas e competição com uma nova rival interpreta por Mila Kunis. Dirigido por Darren Aronofsky, Cisne Negro faz uma viagem emocionante e às vezes aterrorizante à psique de uma jovem bailarina, cujo papel principal como a Rainha dos Cisnes acaba sendo uma peça fundamental para que ela se torne uma dançarina assustadoramente perfeita.

Vale, na contextualização do filme, ver o que a atriz e o diretor têm a dizer.




A primeira coisa que aponta, como um iceberg no oceano, nos primeiros momentos do filme, é o aspecto perfeccionista e infantilizado no qual Nina (Natalie Portman) vive. Entre a Corte, inicialmente cotei a Rainha de Copas como sua máscara, mas não; é mais jovem, é Princesa. Princesa de Copas. A Princesa de Copas proposta por Crowley no seu Thoth Tarot é verde, pois sua carência de Fogo ainda não lhe permite o rubor da pele. Ela dança um nível abaixo das ondas, nem tão profunda, nem tão rasa, caminha rumo ao fundo lentamente. Um cisne coroa sua cabeça, curiosamente fazendo referência às possibilidades iconográficas propostas aqui. Junto ao golfinho (aparenta bem mais ser um marlim) e o quelônio em seus braços, apresenta seres de águas medianas, não tão profundas, apontando para sua disposição para o mundo dos sentimentos - não tão profundos. Uma ave, um réptil, um peixe - não há aqui anfíbios, ela não está propensa à versatilidade destes, plenamente adaptados à terra e à água.



E assim, Nina, a Princesa de Copas, é perfeccionista em sua arte, levando ao extremo as possibilidades do seu corpo - nem sempre o corpo acompanha o desejo do espírito, sendo um limite que apresenta todas as possibilidades plausíveis. E dentro dessas possibilidades, Nina se supera indo ao extremo de suas forças, apresentando o Cisne Branco em sua mais diáfana e perfeita possibilidade. Ela não o interpreta; ela é.
Ver Natalie Portman se portando de forma tão suave foi extremamente chocante para mim, acostumado que estava com sua personalidade marcante nos personagens que interpretou anteriormente. Ela exala força e magnetismo, naturalmente; vê-la suavizada ampliou todas as minhas possibilidades de vê-la como atriz. Contudo, a forma como ela apresenta a firmeza de propósito de Nina corresponde fielmente ao que eu espero de um título que carregue seu nome.
Num ambiente confortavelmente opressor, onde seus hormônios não poderiam se manifestar - por vezes, pensamos que sequer tinha consciência de sua existência - Nina vive no blanc et rosé de um quarto de menina, de uma vida de menina, de um sonho de menina, tão acalentado por sua mãe, que, ao tê-la, desfez-se dos seus próprios. 
O seu despertar se dá no momento em que a idealização não condiz com a realidade do gesto. Um beijo, uma mordida, um convite para a intimidade, a total inexperiência, a mentira que a confirma. Cisne Branco, quem é você frente sua atual necessidade? Até onde poderá ir em sua busca insana pelo perfeito? Como aponta Hannah Arendt em A Condição Humana, a ação perfeita esgota o agente...
Abraços a todos, até o próximo post.
Parte 2: 09 de abril.