quarta-feira, 25 de abril de 2012

Eu não acredito em Anjos.

Dürer

Quando eu era menor, eu acreditava. Acho que todo mundo acreditava que Eles existissem. Estranhamente, essa crença não era de todo confortante - se eles existissem, seus contrários também deveriam existir, e acho que eu era novo demais naquela época para confiar numa coisa dessas, sobretudo à noite, no escuro, sozinho no quarto, quando os ruídos ganhavam significados aterradores por demais. 
Eu dormia com o rádio ligado, só para constar.

Universal Wirth

Não acreditar em algo é uma forma muito confortável de enfrentar o problema que esse mesmo algo desperta. Olhando agora, como adulto, para os meus terrores infantis, parece-me correto minha forma pueril de ter desacreditado. Afinal de contas, é mais fácil não acreditar que casais estáveis homoafetivos sejam tão hábeis quanto suas contrapartes heterossexuais para criar um indivíduo. É mais fácil acreditar que a ferida causada por um estupro se curará com o nascimento da criança. É super mais fácil acreditar que um guru qualquer de uma religião ou seita qualquer guarda as chaves do seu Paraíso ou Inferno, e ele permutará com você só pelo tempo de uma vida toda.
É mais fácil desacreditar da própria responsabilidade que aceitar seu destino, fazer suas escolhas.

Dellarocca

Enfim, voltando a falar dos Anjos, já que falar do seu sexo é lugar-comum para discussões sem sentido, eu acreditava, desacreditando (antes de dormir, principalmente). Asas perfumadas, penas macias, um abraço acalentador que me fizesse esquecer todos os problemas, como um milagre que aparentemente não mereço.
Mensageiros da Divindade, velozes como um pensamento, trespassavam seu coração com brasas ardentes de devoção, lembrando sua origem. A sua, e a deles, que também é sua. Num momentum - porque deveria parecer que nada existiu antes, nada depois faria sentido - você finalmente entende o porquê de ser quem é e de estar onde está.
Tudo se cruzaria. Ordenadas e abscissas criariam finalmente um ponto. E, como é da própria natureza do ponto, o infinito ficaria ali, contido. Um universo contendo universos e ladeado por universos.
Mas a vida não é cartesiana a esse ponto, e eu continuo não acreditando em Anjos.
Os nomes dos Anjos são construídos a partir de permutações de letras hebraicas, dando a entender que, mais que personalidades, os Anjos são ações, verbos que qualificariam a ação de Deus. Sendo assim, cada Nome é um Codinome, um código de acesso a uma faceta d'Aquele que é Senhor de Todas as Faces. Contatando a Face certa, obter-se-ia uma certa vantagem em determinado acontecimento. Ele, pessoalmente, através daquela Face, viria em auxílio daquele que o invocara.
Anjos. Deus em ação. Qualitativa e quantitativamente.


Existem outras formas de abordar o conceito. Algumas até comerciais - vide Cidade dos Anjos, com Seth (Nicholas Cage) e Supernatural, com Castiel. Perto, talvez perto demais, do que por humano chamamos de divino. 
Não, eu continuo não acreditando em Anjos.
Eu não preciso acreditar. Eu brinco de pique-esconde com eles. Especialmente alguns que, mesmo escondendo suas asas, aliviam corações como se fossem capazes de fazer milagres, que fazem mesmo não se considerando capazes.
Abraços a todos.



12 comentários:

  1. Eu também não acredito em anjos. Não nesses anjos de asas, cabelos cacheados...rs

    Parabéns pelo delicioso texto.
    bjos

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  2. Eu também não acredito, querido. Anjo com asas e tal, acho que nãozinho mesmo, mas que já vi/percebi/intui sua passagem, ah...isso já! Vem do nada e com um leve sopro esmigalha pelo âmago minhas ideias mais tenebrosas. Passa ligeirinho e delicadamente surrupia todas as minhas armas afiadas e venenosas das mãos. Num gesto invisível e suave domestica a ratazana mais perversa que insiste em habitar a minha mente...
    Me dou conta de sua passagem depois que já se foi, sem tempo nem cabeça para averiguação de suas asas ou camisola. Só fica a gratidão...

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    1. E por isso mesmo, a gente continua brincando de pique-esconde com eles... Sabendo que, quando eles falarem "te peguei", já é tarde, estamos pegos...

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  3. Oi Emanuel, também não acredito em anjos, não sei se é por que sou espirita, eu acredito em reencarnação, outras vidas,e os seres de luz que existem entre nós, foram um dia tão pecadores quanto nós, porisso não são anjos, são seres que reencarnaram muitas e muitas e muitas vezes pra chegar no plano elevado em que se encontram hoje. Bom, essa é uma opinião minha, talvez muitos discordem, mas é o que penso e acredito. Bjos

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    1. Não há porque discordar, Josy. A graça está justamente em não sabermos exatamente o que eles são, e, ainda assim, sentirmos sua ação entre nós.
      Beijo!

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  4. Ai Emanuel, que tão boas reflexões!É tão mais fácil esperar que cuidem de nós, que nos cortem as unhas, nos alimentem e nos escovem o pelo... Mas crescer evoca algo em nós que hesita em perder a inocência e tornar-se o herói ou o bandido de nossa própria estória...Adorei esse texto!
    Mas, com esse quê de sagitariana, vivendo entre a filosofia e a loucura, acredito em anjos sem asas, anjos tortos, assim como eu. Tinha um amigo que me dizia que eu dava muito trabalho pro anjo da guarda porque sou mt distraída, rsss...
    Um bjo querido!

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    1. É bem por aí, Sonia. Eu brinco de pique-esconde com os meus, e de vez em quando até mesmo sinto um certo par de asas nas costas. Mas é tudo muito evanescente, dada a matéria de sonhos da qual somos feitos. Um beijo!

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  5. Emanuel, vim retribuir a gentileza de sua participação no Sorteio do Projetando Pessoas e dizer que o resultado será publicado amanhã.
    Sandra
    http://projetandopessoas.blogspot.com//

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    1. Obrigado, Sandra. Seja sempre bem vinda por aqui.

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  6. Eu estava passeando pelo blog quando vi esta postagem. Podemos afirmar que não acreditamos neles mas eles sempre vão dar um jeito de mostrar sua presença.. cabe a nós estarmos com os olhos "abertos" para isso.Eu não posso dizer que não acredito neles... eles acreditam em mim e já me disseram isso.E me disseram pra cuidar da minha vida!

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    1. Pois é, eles tem um jeito todo peculiar de dizer.
      Sem asas e sem harpas.

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Quando um monólogo se torna diálogo...