segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Tarô e colecionismo

Quatro de Ouros
Universal Waite
Tá aí um rapaz que gosta de guardar coisas...

Quando eu era menor, eu queria fazer uma coleção de alguma coisa. O que mais deu certo foram selos... depois revistas de videogame. Era divertido repassar aquelas páginas e ver nelas, mais que matérias, lembranças.
Acho que é para isso que a gente coleciona. Para manifestar, plasmar fisicamente, recordações. Porque, cada vez que retomamos nossa coleção, ela parece mais bonita. O tempo faz uma pátina interessante na nossa relação com as coisas. Algumas ficam mais bonitas com o passar dos dias, outras perdem completamente o sentido. E algumas agregam novos usos.
E esse lance de colecionismo é sério. Existe inclusive um Instituto de Pesquisa do Colecionismo. O processo que nos leva a agregar valores a objetos e reuni-los dentro de uma lógica particular e específica está ainda longe de ser devidamente interpretado, entendido e vivenciado conscientemente. É um prazer, e, por ora, isso basta.
Evidentemente, existem pessoas que colecionam baralhos de Tarô, e eu sou uma delas. Cada baralho que chega é uma novidade, um carinho novo, um novo alento, um novo olhar sobre um mundo já conhecido com um universo por conhecer. Existem baralhos para tudo: desde os clássicos em fac-símile até aqueles voltados para o último modismo em voga no momento. 
Contentar-se com um só é difícil, ainda que possível. 
Mas não é fundamental ter vários baralhos para ser um bom cartomante. Na verdade, creio que isso mais atrapalha que ajuda. Porque Tarô se vivencia, e vivenciar algo demanda tempo. O estudo do Tarô não é cartesiano. Você tem que entender como aquele grupo de imagens lhe afeta, como e por que determinadas imagens do conjunto lhe afetam mais do que outras. Paralelo a isso, é importante estudar os significados clássicos, para que as cartas não subjuguem o conceito, mas o conceito se aplique a qualquer conjunto de cartas. Dessa forma, você possui o conceito interiorizado, o que lhe permitirá ler qualquer maço com precisão, somado a uma sensibilidade apurada para aquele baralho que é seu e, portanto, possui um simbolismo que lhe é familiar. 
Eu, por exemplo, possuo uma série de baralhos que utilizo em minhas aulas. É importante que o aluno conheça iconografias específicas. Mas eu tive formação no Tarô de Marselha. Ainda tenho interiorizados seus desenhos e aplicações. Estou estudando o Waite-Smith com afinco, mas não nego minhas raízes - na verdade, as venero. E tenho por baralho de trabalho o Ancient Italian. Sua iconografia é em muito semelhante a um Marseille, mas os detalhes em que um e outro diferem são dignos de toda a atenção. Nesse ponto, é o que digo: por conhecer os significados básicos dos Arcanos, poderia jogar o Ancient Italian como qualquer outro baralho de Tarô. Mas meu interesse por seus detalhes específicos faz com que eu o compare com outros conjuntos, buscando as intenções do Dellarocca quando produziu tais imagens e ressignificando as mesmas para meu uso cotidiano (falamos sobre isso quando analisei o Mago, aqui).
Em termos de Cartomancia, eu já estaria satisfeito. Tenho um baralho que eu amo e confio, e tenho segurança nos detalhes que vejo. Acho que esse é o ponto em que todos nós deveríamos chegar. Encontrar o baralho que mais lhe atende. Normalmente, esse baralho é um Marselha (sobretudo nos países latinos; predomina o padrão Grimauld, embora vejamos outros padrões serem comercializados), um Waite-Smith (mais comum em países anglo-saxões, mas atualmente tem um mercado crescente, dado possuir ilustrações nos Arcanos Menores que, aparentemente, facilitariam o acesso ao conteúdo simbólico. As diferentes versões mantém o traço da Pamela Smith, alterando o material com o qual o colorido é produzido, ou inspiram-se nas imagens para produzir um baralho diferente.) ou um Thoth (cujas imagens, de rara beleza e apurado senso estético e simbólico, falam por si mesmas. Considero esse baralho irretocável e incomparável com os que nele se inspiraram).
Mas, anualmente, os catálogos das editoras se enchem de novas possibilidades, belíssimas, de baralhos. Temáticos, voltados para o paganismo, para o cristianismo, para culturas específicas, históricos, voltados para práticas mágicas, voltados para o cotidiano. A despeito de sua beleza, nem todos os baralhos que estão à venda são baralhos adequados à uma prática séria de Cartomancia. 
É muito complicado dizermos se um baralho é bom ou ruim. Bom ou ruim baseado ou comparado com o que? Eu costumo me ater a baralhos históricos e clássicos. Para mim, são os melhores. E, quando digo melhores, não entenda que estou denegrindo os demais. Na verdade, são os melhores para um único cartomante - eu.
Fora minhas escolhas pessoais de baralhos para trabalho, eu gosto de ter outros pelo prazer de tê-los. Conhecê-los, experimentá-los, compreender a intencionalidade do artista na elaboração das imagens. Cotejá-los em relação aos Tarôs clássicos. Verificar sua simbologia específica. E, evidentemente, testá-los. Amo muito tudo isso.
Atualmente, tenho alguns baralhos em fase de apaixonamento e teste. São iconografias específicas, que pedem, mais que estudo, um mergulho. Estou até o topo da cabeça mergulhado em contos, músicas, pinturas, comidas, danças, usos e costumes da cultura árabe. Estou vivenciando as Mil e Uma Noites, não só em relação ao baralho de Tarô homônimo - que é um capítulo à parte, merecendo, portanto, uma postagem à parte - como em relação ao Persian Garden, baralho COPAG magnífico e de baixíssimo custo diante da sua beleza. 

Isso porque teremos agora, em dezembro, 15% de desconto em qualquer produto COPAG comprado pelo site, bastando curtir a página da COPAG no Facebook e adicionando o código NATALCOPAG ao seu pedido, até o dia 31 de dezembro de 2011. Que vontade de comprar mais um :)


Da mesma forma, o Grupo Editorial Pensamento estará com uma promoção entre os dias 13 e 15 de dezembro: 30% de desconto em qualquer livro. Para quem gosta do Hajo Banzhaf, é uma mão na roda. Dois baralhos merecem atenção: o Antigo Tarô de Marselha, de Nicholas Conver, e o Oráculo Wicca. Tenho me divertido muito com o segundo, e o primeiro é um baralho clássico, produzido em 1760, de baixo custo, que não deveria faltar em uma coleção.


E meu atual vício é testar a capacidade da Priscilla Lhacer em encontrar baralhos raros para minha coleção. Ela trouxe para mim o Mage: The Awakening e o 8-Bit, entre outros. Em breve teremos notícias deles por aqui. Com calma, para termos tempo de degustar cada um deles com o carinho que merecem.
Fica aqui meu conselho: compre quantos baralhos puder e quiser (nessa ordem). Conheça os catálogos. Conheça os baralhos, os artistas, os idealizadores. Jogue quantos baralhos quiser. Mas lembre-se: o trabalho feito com um baralho é tão valioso quanto o trabalho feito com dez - o que importa é o quanto você estuda. Divirta-se colecionando - eu me divirto - mas lembre-se: o mais importante é o mergulho na simbologia, não a quantidade de baralhos que você vier a possuir. Mas estude, muito. Mesmo.
Abraços, aproveite as compras.

Caso você leia em inglês, segue um artigo da Barbara Moore sobre coleções de Tarô.

1 comentários:

  1. Concordo em gênero, número e grau! Vou pedir um Persian Garden ou o Mil e Uma Noites pra estudar tb... no fim, esse é o verdadeiro conhecimento que os decks trazem através de sua simbologia, não importa o contexto. Depende mesmo é da nosa atenção e boa vontade em buscar referências confiáveis, e da dedicação em aprimorar tais estudos. Bjs!

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