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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Dia das Crianças, ou lembranças douradas.

Traumzeit


Olá pessoal. Durante todo o dia, conversei sobre as lembranças de infância de amigos meus, inspirado como estava pela proposta do Leo Chioda (artigo na Revista Personare aqui, no Café Tarot aqui). Fotos vieram à tona, de álbuns há muito soterrados por obrigações e rotinas, limpando escaras ocultas há tanto tempo... em uma capa de ausência de tempo para ver o tempo que se ausenta.

Sol (Detalhe)
Tarô Iniciático da Golden Dawn

Eu também viajei nessa, mas minha viagem foi musical. Meu primeiro ímpeto, ao que me lembro - pasmem - foi pedir para meu pai um LP do José Augusto. Eu, ainda hoje, sei cantar todas as músicas sem fazer nenhum esforço. É engraçado como certas lembranças se mantêm vivas à despeito de serem ou não condenáveis pelos outros. É, eu sou cafona. :)


Louco
Tarô Iniciático da Golden Dawn

Na transição infância/adolescência, aquele lance de puberdade, puber, pelagem nova em certos lugares, voz desafinada, indo do mais agudo ao mais grave em menos de uma sílaba. E, se hoje temos homens querendo ser meninos, naquela época - que nem é tão distante assim na minha contagem - os meninos queriam ser homens.


Louco (detalhe)
Tarot da Golden Dawn

Eu sei que, nessa época, eu costumava acordar de madrugada - primeiros indícios de insônia com ares de serão - para ouvir música. E, nem tão longe assim, utilizávamos cassetes para gravar músicas, nada desse lance de baixar rapidinho. Demorei cinco anos (!) para saber o nome de uma música e poder baixá-la. E por aí vai. A dificuldade era grande, mas o prazer imenso ao obter aquele nome ou gravar aquela música - mesmo que fosse da metade para frente.

AJ, Howie, Kevin, Nick, Brian. 
Cabelinho de cuia... Meu Deus.

E foi numa madrugada dessas que eu conheci Backstreet Boys. As Long As You Love Me. Hoje, olhando com os olhos do coração para um passado que só existe na minha memória (era madrugada e as pessoas estavam dormindo, lembram-se?), é engraçado pensar que eu acordava nos primeiros acordes e ficava sonambulando sonhador enquanto eles cantavam. E eu nem sabia o nome deles ainda! E não entendia nada do que estava sendo dito - aprendi inglês com eles depois. 
Só achava bom e isso era suficiente.


Sol (detalhe)
Visconti-Sforza

Cresci com eles. Aprendi inglês com eles. Aprendi a dançar com eles (cansei de gravar clipes em fitas VHS passados inúmeras vezes na extinta TV Manchete). Romantizei meus dramas com eles - acho que os homens estão ficando cada vez menos responsáveis pelos seus próprios dramas, talvez pela hiper valorização dos mesmos hoje em dia, talvez por não terem vivido devidamente entre os treze e os dezessete anos... Dezoito já é maioridade e não adianta reclamar. Os dramas continuam, a vida continua, mas a abordagem é diferente, não adianta ser Peter Pan.
Esses dias, não mais que dez dias atrás, numa das minhas divagações pelo YouTube - algo impensável para mim a dez anos atrás - eu conheci uma banda, The Wanted.

Nathan, Jay, Siva, Tom, Max. 
Carteado.

Entrei em choque, evidentemente. Eu conhecia aquele estilo, eu conhecia aquela abordagem, havia um quê de releitura na banda. Era algo novo, mas velho. Old but Gold.
Eu percebi que estava envelhecendo.
Uma hora isso iria acontecer. Uma hora eu iria cair na real - a gente envelhece um dia por vez e só percebe quando os dias viram anos e se acumulam em décadas. 
Foi interessante, entretanto, perceber isso através da ciclicidade. Eu estava consciente, naquele momento, de que envelhecera porque eu via com olhos de novidade algo que reconhecia como memória, como recordação. 
 Mas, ironicamente, isso soou bem divertido. É da experiência absorvida que as boas vidas são vividas, dos sonhos realizados que os bons tempos são tecidos. Eu vivi bem minha infância, vivi bem minha adolescência, com toda a dor, sofrimento e crueldade que todos nós encaramos e encararíamos novamente várias vezes.
E se, a partir de agora, encarássemos com mais vontade o dia de amanhã?
Não por acaso, esse texto sai com o fim do dia. Sincronicamente, o dia acaba, como as lembranças se esvaem. Fica a proposta de seguir em frente, olhando aquela criança com ternura e vivendo o homem que me tornei com honra. 
Te convido e te desafio a fazer o mesmo. Faça desse dia o último dia do seu passado e o primeiro dia do resto da sua vida. 
Feliz dia das crianças. 





Say my name like it's the last time,
Live today like its your last night,
We want to cry but we know its alright,
Cause I'm with you and you're with me.

Butterflies, butterflies... we were meant to fly,
You and I, you and I... colors in the sky,
We could rule the world someday, somehow
But we'll never be as bright as we are now.

We're standing in a light that won't fade,
Tomorrow's coming but this won't change,
Cause some days stay gold forever.
The memory of being here with you
Is one I'm gonna take my life through,
Cause some days stay gold forever.

Promise me you'll stay the way you are,
Keep the fire alive and stay young at heart,
When the storm feels like it could blow you out
Remember, you got me and I got you.

Cause we are butterflies, butterflies... we were meant to fly,
You and I, you and I... colors in the sky,
When the innocence is dead and gone,
These will be the times we look back on.

We're standing in a light that won't fade,
Tomorrow's coming but this won't change,
Cause some days stay gold forever.
The memory of being here with you
Is one I'm gonna take my life through,
Cause some days stay gold forever.

I won't, I won't let your memory go
Cause your colors they burn so bright,
Who knows, who knows what tomorrow will hold
But I know that we'll be alright

Butterflies, butterflies... we were meant to fly,
You and I, you and I... colors in the sky,
We could rule the world someday, somehow
But we'll never be as bright as we are now.

We're standing in a light that won't fade,
Tomorrow's coming but this won't change,
Cause some days stay gold forever.
The memory of being here with you
Is one i'm gonna take my life through,
Cause some days stay gold forever.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Variações sobre o mesmo tema: sobre o sentir

Hoje, vendo "Mais Você" (tenho que aproveitar os dias em que posso acordar um pouquinho mais tarde...) me deparei com uma história belíssima registrada em livro: Sabor de Maboque, de Dulce Braga. A história gira em torno da guerra civil que ocorreu em Angola, em 1975-6, que forçou sua família a procurar refúgio em outro país, tem por título uma fruta angolana que a autora não encontrou no Brasil e da qual não pôde se esquecer.


Particularmente, eu sinto saudades de uma fruta muito mais comum, muito mais fácil de achar: o cupuaçu, que me remete diretamente à minha (curta) estadia em São Luís/MA. O calor das oites de maio, tão contrastante com o clima aqui do sudeste, as comidas típicas que fatalmente não encontraria por aqui, o tambor de crioula, que só quem viu sabe o que significa; tantas coisas, que ficaram registradas e acessáveis na memória de um sabor e textura tão singulares, que só provando para saber.
Esse foi um dos sabores que eu não pude, ainda, partilhar com minha avó. Desde pequeno, não importava para que festa de aniversário eu fosse, eu sempre pedia ao anfitrião um pedaço para levar para minha avó, ou mesmo alguns docinhos. Fatalmente, se eu não conseguisse um segundo pedaço, eu levava o meu mesmo, para comer com ela. Era como se, ao partilhar do pedaço, partilhasse também da felicidade que experienciara horas antes.
Atualmente, a distância e as circunstâncias me impedem de partilhar esses pedaços de felicidade com a minha avó com a frequência que gostaria. Mas o costume permanece enraizado em minha memória. Cada nova textura e sabor novos, desde que adocicados, me remetem imediatamente à companhia da minha avó.
Ontem eu estive em um aniversário. Raphael, um grande amigo e companheiro de república, celebrou as bodas de prata do seu corpo e sua alma. Bodas que eu completarei em outubro.
Mas eu não comi o bolo não... (viu vó?)
E, pesando um pouco essa ligação, paradoxalmente, eu descobri que é possível sentir saudade de algo que eu ainda não conheci. Embora as palavras não traduzam com precisão a sensação experieciada por mim, não é vontade, não é desejo, é saudade mesmo, sem risco de anacronismo.
Um exemplo: todos aqueles que lêem esse blog há algum tempo sabem que eu sou apaixonado pela Norah Jones (se não sabia, clique aqui...). Paixão que dispensa a pressa em obter todo o material produzido por ela - cada CD, cada foto, é uma nova descoberta, um fortalecimento do primeiro amor. Recentemente, descobri (através da Raila; ela me olhou com olhos esbugalhados - O.O -, enquanto dizia, sí-la-b-a-a-sí-la-ba: "você não sabia...") que a Norah Jones havia atuado em um filme. (Confesso que me senti, com essa cena, um verdadeiro herege musical... auf).
My Blueberry Nights. Um beijo roubado, aqui no Brasil.


Blueberry, mirtilo, aqui no Brasil (Vaccinium myrtillus), é uma fruta azulada (sim, eu juro que é, o nome não é à toa), de sabor adocicado ao ácido. Não, eu não comi ainda; li isso na Wikipédia. E não, também não vi o filme. (Olha a sensação de culpa batendo à porta de novo; mas eu não vou atender - eu já vi o trailer...).


Embora essa experiência esteja, de certa forma, num devir, quando eu provar a fruta e assistir o filme, a intimidade que sinto com a musicalidade da Norah e as lembranças doces de sabores que me remetem a 400 km de distância daqui, selarão um momentum único, que sei que vivenciarei, porque já o vivencio na expectativa.
Hora dessas conto como foi.
Nesse patchwork de lembranças e devires, despertados com a história da Dulce Braga, percebi o quanto as sensações e os sentimentos estão conectados para além do verbo sentir. É espiritual, como um três de Paus. 


Mas é síntese de cozinha, saudade, sabor, encontro do Outro há muito aspirado, Arte.

Abraços a todos. Até o próximo post.