sábado, 6 de agosto de 2016

O Eremita e o distanciamento.



Olá pessoal. Como tratamos no começo desse ano, eu tenho atentado para como os dois Arcanos Maiores propostos para o ano - Torre e Eremita - tem se mostrado presentes em meu cotidiano. a subjetividade inerente à experiência é o maior obstáculo para a leitura, afinal de contas eu não estou lendo minhas experiências nos Arcanos, mas sim tentando encaixar minhas experiências nos Arcanos. O desafiador, no caso, é justamente desidentificar-se. Em outro contexto, com outra pessoa, eu veria a experiência como escopo de qual Arcano?
E, embora eu tenha reconhecido a Torre como tônica do ano até o momento - de fato, muitas estruturas que considerava sólidas ruíram com uma facilidade tremenda - eu tenho tentado também ler os eventos à luz do Eremita. Do macro ao micro, do solo ao grupal, o que eu vejo é uma constante busca por identidades perdidas ou mal lidas. Saber quem sou eu não basta; preciso saber quem sou eu no contexto em que estou.
Esse fragmentar-se em possibilidades de reação - afinal de contas, somos Legião - apresenta-se, sobremaneira, nas redes sociais. Eu tenho acompanhado algumas postagens, com meu Engov do lado, para ver até onde vai a intensidade do ódio destilado. Protegidos em suas casas, escudados por seus monitores e telas de celular, percebo o quão corajosos se tornam os indivíduos. Os justiceiros de internet não poupam imprecações contra quem quer que seja, sob a capa de é minha opinião! 

"Tomara que morra!"
"Essa pessoa faria o favor de se jogar na frente de um carro."
"Errou em ter nascido"
"Bem feito"

Eu não estou, nesse caso, questionando o que os odiáveis fizeram para merecer tais praguejares, estou questionando a disponibilidade que existe em odiá-los, sem consequências (imediatas, ao menos). É possível postar um "que o Diabo o carregue!" e continuar conversando com a mãe sobre a novela de ontem. É possível desejar que "um caminhão de lixo atropele" e ir ao banheiro, escovar os dentes. 



Isso não é possível fora do meio virtual. Da discussão ao combate, o reino de Marte não permite que você mude facilmente de ideia e siga a sua vida. A responsabilidade pelo (mal)dito é cobrada no fio da espada, cheirando a saliva e sangue. Que responsabilidade existe sobre o dito na internet, mesmo?
Ah, sim, o registro.
O que é escrito não se apaga, se esconde. Fica na timeline do Facebook, ou no meio de mil e um tweets passados. Mas não em branco - mais cedo ou mais tarde, eles virão à tona. Cuidado com seu ódio, semelhante atrai semelhante. 
Isso poderia ser uma maldição, mas é só uma dica. 
Cuidado com o que escreve, com o que ama e com o que odeia. Um dia ou outro, as coisas mudam e você tem ali o registro de sua imediatez, de seu instante, de seu momentum.
Se há um desejo sincero de minha parte, é de que você não se envergonhe. 

Serpente, eu te reconheço.

E, diante desse quadro tão digno do Arcano XVI, marcial por excelência, o Arcano IX mostra-se em sua beleza inegável: a lentidão dos passos, o distanciamento adequado, a reflexão e o silêncio para o correto agir, falar e portar-se. Se o afastamento pode ser uma forma de causar no outro a sensação da ausência, a não relação, a criação de confusão e desarmonia, por afastarmo-nos de tudo o que não gostamos - ouvi isso ontem - o Eremita ensina uma lição diferente. Só podemos ver panoramas distanciados daquilo que chama nossa atenção. De perto, detalhe, parte, foco. De longe, panorama, amplidão, possibilidades. Quem de nós nunca jogou para si mesmo e teve dificuldades, ouvindo na voz de outro cartomante tudo aquilo que o baralho havia dito e não foi capaz de ler, que atire o primeiro Louco ao precipício. De longe fica mais fácil reconhecer o real. O risco, como a internet bem nos mostra, é tornarmo-nos covardes diante do bom combate. É bom manter a clareza de quando estamos corretos e quando estamos acorrentados a uma ou outra perspectiva.



Então eu levo isso para a vida. O distanciamento tem o seu valor, para evitar a grosseria que tornou-se lugar comum no cotidiano. Não me vejo na obrigação de participar desse curso de ódio que estamos tendo em redes sociais. Não me vejo na obrigação de manter relacionamentos doentios e tóxicos. Não me vejo na obrigação de corresponder a expectativas menores que minhas possibilidades. 

Na dúvida, o importante é sorrir, deixar ir, e observar. 
Relacionamentos ilusórios se desfazem com o tempo. O que permanece, depois de Torres e Eremitas, é o que se leva. 
Leve.



Em direção à Estrela. 

Abraços a todos. 




7 comentários:

  1. Reflexões sempre maravilhosas... Gratidão e parabéns por sempre escrever tão bem! 😊

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    1. Muito obrigado! Seu feedback é que me faz seguir em frente!

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    2. Que bom! Fico feliz! Sou uma seguidora meio silenciosa, mas sempre que puder, comentarei tuas postagens. 😊🙏

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    3. Será um prazer contar com seus comentários. Beijos!

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