quarta-feira, 13 de abril de 2016

Dos encontros: uma sincronia de textos.


Tendemos a encontrar amigos e companheiros de jornada entre aqueles que tem algo em comum conosco. Questão de conforto, inclusive: podemos trocar ideias, muito mais que oferecer ideias. E, estar no meio dos nossos dispensa comentários, as experiências se mesclam, os sucessos de um podem ser usados para superar as dificuldades dos outros, os problemas de um podem servir como exemplo do que fazer, ou não fazer, diante das mesmas circunstâncias.
Tendemos a admirar aqueles que possuem uma caminhada mais longa e ampla que a nossa em algo que conhecemos. E a admiração, aqui, não tem sentido positivo, unicamente; até mesmo a inveja é um tipo de admiração, de observação criteriosa, de espanto, de estranhamento. Eu posso não saber como nem por quê a grama do vizinho é mais verde; entretanto, eu sei que é verde e eu queria que a minha fosse assim - eu preciso descobrir o que ele faz para chegar nesse verde tão lindo!
Em contrapartida, olhamos com certa desconfiança aquilo que está à margem de nossa habilidade. Quem nunca falou mal de mecânico, de advogado, de médico - "confiar nesses profissionais? Não... Vou procurar uma segunda opinião" - que atire a primeira pedra. Tendemos a desconfiar do que não conhecemos, sobretudo quando vem de aparentes connoisseurs
Da mesma forma, há uma certa sensação de abuso quando alguém de outra área pede-nos um conselho. "O que significa a carta tal?" e você já pensa "quer apostar quanto que isso foi leitura de site ou de .gif de Facebook?"
E, consciente dessas possibilidades, eu tendo a evitá-las, tanto quando posso. Eu busco o diálogo com outras áreas para melhorar como cartomante, e tento tanto quanto possível responder as questões que me chegam. 
Mesmo que a resposta seja "agende sua consulta".


Hoje um estudante de direito, meu conhecido, veio me perguntar o que significava o Arcano XIX - O Sol. A primeira resposta que veio à minha cabeça, que foi inclusive a primeira resposta que dei, foi "depende". Essa resposta, que não tem nada de efetiva, nem mesmo a ver com o Arcano em si, mas com a minha prática em geral, me levou a escrever esse texto. O que me levou a responder... sem responder?
Em primeiro lugar, o critério e a responsabilidade com a informação. Como todos os Arcanos Maiores, ainda que a primeira impressão de uma carta possa levar-nos a considerá-la positiva ou negativa per se, com o tempo e prática vemos que uma carta tida como positiva, como o Sol, pode gerar circunstâncias extremamente desagradáveis de acordo com a configuração geral do jogo. O Sol pode clarear coisas cuja natureza pede o ocultamento. Sua luz não respeita os contornos próprios das exceções: se há espaço para a luz, se não há nada que a bloqueie, ela irá tomar o lugar (e a situação) com toda a sua intensidade.
Em segundo lugar, a falta de conhecimento da pergunta. O oráculo responde imagética e conceitualmente a uma pergunta. Sem o entendimento da pergunta, a resposta é, no mínimo, capenga. Nem sempre uma resposta positiva é bem vinda. Imagine se a pergunta for "serei demitido?" ou "o nosso relacionamento chegou ao fim?" e você responde, despretensiosamente, sim?  
Em terceiro lugar, a mão do cartomante é sempre soberana. Sem saber quem manipulou as cartas (ou se foi através do logaritmo de um site), uma resposta é sempre uma opinião, pois não é parte do processual da consulta em si, do momentum. Se eu leio, não há cartomante que me desabone da minha responsabilidade na leitura. Se outro cartomante lê, a responsabilidade pelo dito (ou não dito) é dele. 
Embora ele tenha sido claro em relação a ter jogado Tarô, poderia adicionar mais um limite: o baralho utilizado. O Sol do Tarô, do Petit Lenormand ou do Gypsy Witch, por exemplo, dialogam sobre um mesmo conceito de formas muito diferentes. Interpretações advindas de intertextos são para um nível mais avançado de leitura - normalmente desnecessário num caso como esse. 

E aí... "Depende".

Pedi a ele que esclarecesse os pontos da leitura. Um amigo havia jogado para ele, pergunta específica, e tirou três cartas: Torre, Mago, Sol. (Sol super bem vindo nesse contexto, não?) Interpretei superficialmente - não tinha autoridade nesse contexto para oferecer mais que uma opinião. E pelo feedback que obtive, eu estava correto em minhas impressões.
E isso me deixou pensando sobre como é o profissionalismo na cartomancia. Só podemos ser responsáveis por aquilo que é visto, dito e trabalhado no momento da consulta, no momentum de autorização do consulente e de autoridade do cartomante. Todo o restante é opinião, visão, possibilidade. Um cartomante interpretar o jogo de outrem a posteriori é como comparar, em Astrologia, a leitura de um mapa à feitura de horóscopo de jornal. Um mapa pede critério, leitura não só do céu mas dos contextos que envolvem o cliente, planejamento, estratégia - tudo o que é necessário para uma boa previsão. A feitura do horóscopo pede o entendimento dos padrões repetitivos do trânsito dos planetas, com os agravantes e atenuantes próprios de sua intensidade na alegoria dos eventos humanos. É o registro de possibilidades, não um mapa de jornada. 
Da mesma forma, o atendimento cartomântico é o espaço de criação de estratégias para o bom andamento das circunstâncias visando o bem estar do consulente. Uma leitura carta a carta, fora desse contexto, pode tanto ser um estudo como um levantamento de possibilidades, mas não tem o peso da leitura. 
Saber diferenciar um e outro, claro, pede tempo e prática - e respeito ao processo de acertos e erros que compõe a posse de um baralho. Nosso cliente é nosso juiz, mas nosso advogado é o próprio baralho. 

Bons professores, bons amigos, bons livros, boas vivências reduzem essa curva de aprendizagem e ampliam nossa capacidade de enxergar o mundo que nos cerca metaforizado nas cartas do baralho. Eu sinto muito orgulho das pessoas que aprenderam Petit Lenormand comigo - todas trazem uma bagagem para compartilhar, e todas levam de mim o que de mais bonito construí até agora.
E, em relação ao Tarô, não posso deixar de indicar dois trabalhos fantásticos que integram uma parceria e tanto: Kelma Mazziero, do Cartas na Mesa, acaba de postar sobre o Tarologar; e Ivana Mihanovich, do (El) Tarot Luminar, mantém a série Back To Basics, que já está em seu número V.
 
Dois textos que saíram hoje e que, sincronicamente, estão na mesma pegada do que conversamos aqui, por duas pessoas que possuem meu respeito e admiração.
Sigamos, trabalhemos e entendamos que a cartomancia se faz de vida, a mesma matéria da poesia. 

Abraços a todos.

2 comentários:

  1. Muito bom seu artigo Emanuel! Suas experiências sempre acrescentando pontos positivos às minhas leituras! Valeu!

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    1. Fico super feliz com isso! Muito obrigado!

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Quando um monólogo se torna diálogo...