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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Sonhos. [parte 2 de 2: a interpretação, ou o que de fato aconteceu]


Semana passada postei um sonho que tive e que, curiosamente, mais que interpretar, vivenciei. Conforme o prometido, segue a descrição do que aconteceu, em função da interpretação.
Dividi o sonho em três partes: a conversa com os ciganos/mendigos na frente da casa da mãe preocupada; a entrada na mercearia; a conversa com a vizinha.

PARTE I

Essa foi a mais fácil. A mãe do sonho era a minha própria mãe, que, curiosa se eu iria viajar esse ano, ficou bem chateada de saber que isso não está nos meus planos. 
[os planos da mãe não correspondem ao destino do filho, escolhido por ele. Ele não vai passar / ele não vai viajar.]

PARTE II

Essa foi a mais bizarra. Durante o dia, senti um ímpeto de olhar postagens antigas no Facebook, coisas que havia escrito no ano anterior - reflexões pré-aniversário, por assim dizer. E vi um texto meu que escrevi num momento de muita raiva. E o texto era bom.
[A mercearia - pasme - era o Facebook, onde as pessoas partilham ideias deficientes e algumas pessoas compram por pena. Aquele texto, meu, foi feito num momento em que me sentia assim, e ainda assim, ficou bom.]

PARTE III

Se eu estava na mercearia e entrei mais para o fundo, foi fácil entender que, se a parte do Facebook que corresponderia ao meu mural era a mercearia, a parte correspondente ao fundo seria o meu inbox. Dito e feito.
[Conversando com uma amiga de fé diferente, questionei a funcionalidade dos ritos da religião dela, assim como ela questionou os da minha. Diante das diferenças de crenças, eu tive certeza só de uma coisa: que tem poder aquilo em que se acredita.]

Um sonho que aconteceu no mesmo dia. 
Experiência muito bacana.

Abraços a todos.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Sonhos. [parte 1 de 2: o sonho]


Um dos oráculos mais antigos que existe refere-se à interpretação das cenas obtidas em sonhos. Tomados como referenciais e fala dos Deuses, os sonhos eram guiados para o cotidiano através da interpretação de sacerdotes e, mais tarde (bem mais tarde), por psicólogos, encabeçados por Freud.
Mas o processo de decodificação dos sonhos não é sempre fácil e não existe fórmula pronta para ele. 
Recentemente, vivenciei uma situação fantástica de interpretação de sonhos. Foi gratificante decodificar a mensagem e verificar sua veracidade, aprendendo com o seu potencial simbólico.
Como exercício, descrevo o sonho nessa postagem. Sinta-se à vontade para interpretá-lo. Semana que vem, posto o que realmente significou - e o que aconteceu.

Estava conversando com três pessoas, entre ciganos e mendigos, na frente da casa de uma senhora. Ela saiu na varanda e pediu que fôssemos embora, pois seu filho estava estudando para passar em um concurso muito importante para ele e nossa conversa o estava incomodando.
"Ele não vai passar", pensei. Mas não disse nada. 
Saí dali e entrei em uma mercearia. Em suas vitrines, doces feitos por pessoas com deficiências físicas. Normalmente eram comprados por pessoas que sentiam pena daqueles que os faziam. Eles não eram bons. Mas o de um deles, em especial [cujo nome foi dito no sonho e eu esqueci], eram magníficos. Eu vi um pote, de uns 300g, com um doce de leite com ganache colocado cuidadosamente no copo com bico de pitanga grosso, coberto por granulado de chocolate. Lindo de ver. E o rapaz tinha uma deficiência séria no braço direito. Mas o que ele fazia não dizia respeito ao limite que ele tinha. 
Segui em frente, passei pelo balcão e entrei em um corredor com apartamentos em ambos os lados. Ao final do corredor, uma vizinha minha [do mundo de cá] estava revoltada porque um casal havia queimado dinheiro em um ritual de macumba [sic]. Eu disse a ela que queimar dinheiro em um ritual era o mesmo que pagar o dízimo na igreja que ela seguia.
E depois pensei "não, mas não é só isso. Desfazer-se de algo precioso gera poder para realizar o que é necessário."

E então eu acordei.

Esteja à vontade para opinar a respeito. Semana que vem, o resultado.

Abraços a todos.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O Serviçal nos Sibillas Italianos.


Olá pessoal. Eu fiquei pensando nessa carta por algum tempo, porque creio que os significados dela se aplicariam aos amigos também, por sua prestimosidade. Mas acho que encontrei alguns elementos preciosos de análise que valem a pena serem compartilhados. E que, a propósito, a diferenciam razoavelmente de questões relativas a amigos.
Quando pensamos em serviçais, não pensamos necessariamente em amigos. Conquanto a confiança aplicada no serviçal garanta-lhe mais que um tratamento cortês por um serviço ou um salário, a questão pára por ali.
Serviçais, porém amigos: temos Watson, Alfred, e outros nomes. Estão ali, perto, sabendo, aproveitando, vivenciando o conhecimento. Mas não participam diretamente das relações sociais de seus patrões. O que lhes dá certa mobilidade, inclusive: não estão presos às correntes da fidelidade cega.
O condicional ali tem uma razão de ser. Afinal de contas, a culpa sempre é do mordomo. Como toda condicional tem quem agregue e quem (se) arrede, e como toda generalização é burra (inclusive essa, a propósito), essa carta também alerta para não tomarmos por prerrogativa o que é apenas suposição. É importante antecipar problemas, nesse caso, não oferecendo um status indevido a uma situação profissional, para não ser necessário passar por saias-justas devidas a um excesso de intimidade indevida. Intimidade o tempo dá aos poucos e tira de uma vez - nesse caso, inclusive, junto do vínculo empregatício. Às vezes acontece. Quantas vezes não nos aproximamos por demais dos nossos superiores a um ponto em que isso se torna difícil de lidar - vida profissional e pessoal misturadas num nível complicado de resolver? Depois de vários "sim", como dizer "não" a uma happy hour desagradável? Da mesma forma, como é complicado lidar com uma pessoa que insiste em ir além da sua função, buscando uma intimidade de que não lhe pertence? Dando-se um direito a um acesso que não lhe é devido? Cada coisa em seu lugar, e o que compete às cinq as sept não corresponde ao que o dia pede. Ou a noite.
Mas, representando ou encontrando com eles em nossas jogadas, fica a dica... Não confie em quem o dinheiro paga, não desconfie de quem o dinheiro não compra nada senão o tempo dispendido no serviço. Encontramos muitos de uns e de outros por aí, e é importante perceber a quem é que estão servindo: ao dinheiro, ou à função.
E, se for você o serviçal, que você saiba prestar seu serviço sabendo que ele é um adendo de você, mas não lhe representa. Ele é parte do que você é capaz, mas você é mais, sempre mais do que é capaz de fazer.
E, claro: a culpa nem sempre é do mordomo, então... vagar na busca por culpados, vagar no apontar o dedo. Existem momentos e circunstâncias em que a única justificativa é a fatalidade. Ainda que seja reconfortante dizer que a culpa não lhe pertence, isso não significa que pertença ao outro, também.
Abraços a todos. Cada um em sua função.




They walk in and sit down,
The fair mood of the day.
They read books over tea,
They give tips when they pay.
Butter and bread, diet coke and cake,
She takes notes, she makes no mistake.

Well daylight is fadin'
While traders are tradin'
While the jukebox is playin'
The lovers are datin',
The waitress is waitin'...

For a thing to explode,
For a light to go on,
For some sign to show
Her time has yet to come.
She's countin' the days
Until real life arrives.
She's countin': two three four five

And every minute feels
Just like the one before
No surprise, no twist
She wants so much more

Well daylight is fadin'
While traders are tradin'
While players are playin'
And lovers are datin',
The waitress is waitin'...

For a thing to explode,
For a light to go on,
For some sign to show
Her best has yet to come.
She's countin' the days
Until real life arrives.
She's countin': two three four five

When will that thing explode
When will that light go on
Just to assure her she's not long.
She's countin' the days
Until real life arrives.
She's countin', from nine to five
She's countin': two three four five...


domingo, 26 de agosto de 2012

Do poder das palavras.




Olá pessoal. Eu sempre me ative, aqui no Conversas Cartomânticas, às questões prementes à imagem. Cartomancia é imagem, é interpretação de imagens. É observação e educação do olhar ao que as imagens trazem.
Mas há que ser dito algo sobre a palavra. Porque, se bem refletirmos, de nada adianta uma imagem que não é entendida. Que não se faz inteligível. E, para entendermos e conversarmos sobre a imagem, demandamos... palavras. Aquelas mesmo que diz-se terem poder (para além do poder que de fato tem).
Senão, by the way, eu não teria um blog. Talvez um fotoblog. E ele falaria por si só. Mínimo esforço, máximo efeito.
Só que conversar, a proposta principal desse blog, demanda palavras. Várias. Vocabulário vasto ao gosto do freguês conversador. Só por isso já se justificaria falar sobre palavras. Mas aplicadas ao cotidiano do cartomante, ainda há o que dizer.
O conceito de uma carta se dá por alguns agrupamentos específicos que, combinados, e aplicados ao momento da consulta, geram efeitos, o que costumeiramente dá-se o nome de interpretação. Tão singulares que, ainda que sejam as mesmas imagens há séculos, de acordo com o oráculo utilizado, ainda se mantém contemporâneas – embora paradoxalmente vintage.
O primeiro agrupamento, e mais importante, é o das imagens. Delas haurimos o principal referencial interpretativo. Leonardo Da Vinci se vangloriava, com razão, de em uma tela colocar o que um poeta demandaria páginas e páginas para descrever. Observar uma tela do Bosch faz chegarmos à mesma conclusão. Uma imagem é captada com uma riqueza de detalhes simultâneos que chega a assustar... ou encantar. 
Há os números. Ordenam a série. São significáveis e interpretáveis. Mas, por alguma razão, suas ideias não são compartilhadas com unanimidade. Existem discrepâncias. E explicações que minimizam as discrepâncias. Mas elas ainda estão ali, e não tocaremos nelas por enquanto, e não esperamos consenso em momento algum quanto ao tema.
E existem os nomes. Ao contrário das imagens, que são universais – você pode até não entender o que significa uma imagem, mas esforçar-se-á para atribuir-lhe um significado – os nomes são oriundos de um idioma específico, que nem sempre é o que você possui (como as Runas, por exemplo, um alfabeto oráculo, ou o alfabeto hebraico, muito utilizado em algumas escolas de Tarologia). Mas ainda assim os idiomas são específicos em sua descrição. Uma cadeira não é uma carteira, a chair is not a hair. Rimam, mas não coadunam. São diferentes, são específicos. Ainda que sinônimos sejam de uma utilidade tremenda, quanto mais se conhece da linguagem, menos os usamos. Uma coisa é uma coisa, e não outra coisa que soaria como se fosse à primeira vista.
E, principalmente, os nomes são mnemônicos. A partir do nome, rememoramos a imagem. Se eu digo Monalisa, o quadro lhe virá à mente, instantaneamente. Você pode não ser capaz de descrevê-lo minuciosamente, mas saberá que não é, por exemplo, uma Madonna. A menos, claro que não o conheça; serei obrigado a descrevê-lo para continuarmos conversando. (By the way, já conversamos sobre a Monalisa aqui
Da mesma forma, se eu digo Mago, o Arcano I, com todos os atributos que você conhece, será lembrado com riqueza de detalhes. Se não os conhece, eu terei que fazer o trabalho dos livros de Tarô e dos professores da Arte – descrever suas minúcias e perspectivas interpretativas.
Para isso, as palavras são fundamentais. Evidente. E eu preciso, se quiser uma interpretação precisa, ser preciso. Três vezes “preciso” na mesma frase, três significados diferentes para uma mesma cacofonia. Sinônimos, por favor.
Por isso os livros de Tarô, e por isso não existe uma obra definitiva. Cada autor, a partir do mesmo conceito imagem + titulo + numeração irá fazer suas referências, tecer seus sinônimos, construir sua linha de raciocínio que busca uma coesão com o todo. Quando o Mago sair na jogada, ele será único. Não poderá ser confundido com o Diabo. Ainda que dialoguem (ambos de pé, ambos em suas respectivas tarefas). Nem com o Sol, ainda que 1; 19 = 1 + 9 = 10 = 1 + 0 = 1. 
Até mesmo nessa unicidade há o que dizer. Mesmo que saia duas, três, quatro vezes em uma mesma consulta, o Arcano acresce, não repete. Que palavras mais podem representar a mesma imagem em situação diversa, porém dialogante?
 Ler muito é fundamental nessa hora (e em todas as demais). Cada autor buscará descrever, a partir de sua vivência, experiência, estudos e vocabulário, aquilo que experimentou no trato com cada uma das cartas. E é do crescimento do nosso próprio vocabulário a partir dessa leitura é que seremos capazes de entender o que o Arcano quer dizer.
Espera-se, portanto, um mínimo domínio da linguagem para assim proceder. Ler Tarô é uma arte interpretativa. Não sei a que nível alçar escrever sobre Tarô. Um pouquinho mais alto, talvez. Porque para me levar a ver aquilo a que desejo Ver, o vocabulário tem que ser amplo, ainda que preciso. 
Parafraseando Gertrude Stein, uma rosa é uma rosa é uma rosa, mas não é Universo (Arcano XXI), nem Ramalhete (carta 09).
Deixemos de tautologia... E estudemos um pouco mais.
Palavras tem poder. Específico e intransferível.
Abraços a todos.


Não se esqueça: Estarei, entre os dias 6 e 7 de outubro, no Rio de Janeiro oferecendo um curso presencial de Petit Lenormand para o cotidiano. Vale a pena. E, caso goste do que lê por aqui, adquira o livro Conversas Cartomânticas: Da escolha do baralho ao encerramento da consulta

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Ameaça nas trilhas do Tarô

Será possível prever o futuro pela leitura das cartas do Tarô?
Carolina resolveu experimentar e…
Muitas ameaças se anunciaram para ela e seus amigos, Fátima, que não conseguia amar de verdade, e Fabrício, que não decidia com quem iria morar após a separação dos pais.
Carolina será capaz de compreender a mensagem dos misteriosos arcanos para poder evitar o perigo, ajudando seus companheiros e a si mesma?
Para saber, só mesmo mergulhando nos segredos desse universo místico, juntamente com um grupo de jovens estudantes que descobriu um baralho muito antigo e mágico.




Olá pessoal. Duvido que algum de nós que gosta de ler tenha passado incólume pela Série Vagalume. E, revendo a lista de livros para ver qual eu ainda não tinha lido, reencontrei esse título que, além de me transportar anos atrás, me motivou a ler um livro com um novo olhar. Quando eu o li, era só um moleque interessado em esoterismo que lia revistinhas de banca achando que poderia interpretar os mistérios do mundo. Hoje, sabendo que já tá bom demais eu conseguir interpretar um baralho de Tarô e olhar pro meu futuro com olhos bem mais condescendentes (porque mistérios do mundo é coisa demais para uma vida só), quis reler a obra Ameaça nas trilhas do Tarô, de Sérsi Bardari.



Na época em que eu li, eu não tinha o acesso fácil à tecnologia que tenho hoje. Hoje, quando nos interessamos por uma obra, lançamos seu nome num site de pesquisa e vemos o que temos de resumos, resenhas, opiniões. Nesse caso, específico, eu preferi o caminho antigo. Comprei o livro (tá ok, foi pela internet, nem foi o caminho antigo ipsis litteris) e o reli. Com olhos de primeira vez, mas atento aos detalhes que não seria capaz de captar outrora - eu amadureci e outros horizontes se delinearam. Talvez por isso eu goste tanto de reler livros - eles revelam até onde eu consegui ir desde que os manipulei pela primeira vez.
A história fala de Carolina, uma menina tímida, por volta dos seus quinze anos - está na oitava série - que adquire um baralho de Tarô (um Tarô de Marselha - não tínhamos na época a variabilidade de baralhos acessíveis no mercado brasileiro atual) e começa sua jornada (uma história bem familiar a muitos de nós, não?)


Carolina abre as cartas para sua amiga Fátima.
Ilustração de Bilau & Salatiel para o livro. 
Ameaça nas Trilhas do Tarô, p.32


Esse livro, como todos os demais pertencentes a essa série, é facílimo de ser encontrado em qualquer biblioteca pública ou biblioteca escolar. E valem muito a pena, por sua leitura fácil e agradável, fluida e descompromissada, escondendo grandes lições cotidianas. Para se ter por perto a qualquer momento, passagem de metrô, viagem de ônibus, espera por um táxi... intermeio de caminhos até o veículo certo poder levar você ao seu destino.
E você? Quais livros da Série Vagalume você leu? Que tal relembrar aqui?
Tive a gratíssima surpresa de encontrar o autor, Sérsi Bardari (site), para um bate-papo online. O resultado de nossa conversa você lê em seguida.



1. Você joga Tarô? Se joga, há quanto tempo?


Eu aprendi a jogar o Tarô Egípcio com uma moça que chama Nelise, que, hoje em dia, se eu não me engano, está em Brasilia. Isso foi na década de 1980. Naquela época, comecei lendo as cartas para conhecidos e depois acabei lendo por um curto período de tempo profissionalmente. Mas logo percebi que não queria continuar, pois tinha de ser algo doado, e só para pessoas que soubessem compreender o modo simbólico e voltado para o autoconhecimento.


2. Como surgiu a ideia do livro Ameaça nas trilhas do Tarô?


Eu sempre entendi as cartas como um grande auxílio de acesso a conteúdos inconscientes, para um processo analítico. Como estudioso da obra de Carl Gustav Jung, percebi no Tarô um modo de driblar a mente mente racional, como forma de acessar o lado emocional e, assim, tentar um equilíbrio em ambos (racional e emocional) de modo a atingir o self.
Daí, por conta das minhas leituras de Jung, do Tarô e das minhas concepções sobre esse jogo milenar, pensei em repartir esse conhecimento com os jovens.


3. As imagens do livro remetem diretamente ao Tarô de Marselha editado pela Editora Pensamento (falo isso por causa da imagem do verso das lâminas na página 99), mas os significados que você aplica não estão no livro do Carlos Godo, que muito pouco disserta sobre as cartas numeradas, as cartas que mais aparecem nas leituras de Carolina. Quais foram suas fontes de pesquisa sobre Tarô para compor os significados que aparecem no livro?


Sim, eu usei o Tarô me Marselha, por ser o mais conhecido. Mas, para descrever os significados dos arcanos menores, eu fiz uma interpretação a partir da carta equivalente no Tarô Egípcio. Esse Tarô é enumerado de 1 a 78 e não se utiliza dos naipes. As descrições dos arcanos menores nos manuais do Tarô Egípcio são bem mais completas. Além disso, as imagens são simbólicas e estão associadas ao alfabeto hebraico que à astrologia. Por isso, permite uma interpretação mais aprofundada.




4. O método empregado por Carolina no livro é um Arcano Maior + três Arcanos Menores. Caso você realmente jogue Tarô, é esse o método que você emprega?


Conheço alguns métodos. Um de 9 Arcanos Maiores e 16 Arcanos Menores; um de cinco arcanos Maiores; um de Três Maiores e Sete Menores. Esse de Um mais Três é um método rápido, quando se está em busca de alguma resposta mais pontual.


5. Você conseguiu criar uma personagem que, ao mesmo tempo que reflete interiormente sobre a função do oráculo em sua vida, leva os demais a refletirem sobre suas próprias crenças, usando o Tarô numa escrita suficientemente leve, dada a própria natureza de literatura infanto-juvenil. Em sua opinião, qual o papel do romance na propagação e divulgação do Tarô?


Sinceramente, eu imaginei que o livro fosse ter uma repercussão maior do que teve, especialmente por conta, além do Tarô, do suspense inserido na narrativa. Ocorre que o livro é indicado por professores nas escolas e, creio, que tenha causado algum tipo de receio por parte dos educadores. Imagino que os professores tenham indicado pouco por terem dificuldade (por conta de desconhecimento) de abordar esse assunto com os jovens. No entanto, já recebi muitas cartas e e-mails de jovens que leram o livro por conta própria e passaram a se interessar por esse importante instrumento de autoconhecimento.


Bem pessoal, é isso. Gratíssimo à contribuição do Sérsi Bardari ao Conversas Cartomânticas e, como não poderia deixar de ser, recomendo a leitura desse livro delicioso.
Abraços a todos.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O Tarot e a Monalisa: uma perspectiva da história da arte sobre o Tarot

Tenho percebido uma certa dificuldade em delimitar a abrangência do Tarot em suas diversas acepções e possibilidades. Isso se aplica, principalmente, quando as questões de gosto são suplantadas por interpretações esotérico-herméticas das imagens. E, como no fim das contas, o Tarot funciona a despeito da forma como é abordado - desde que com respeito e sinceridade - a dúvida persiste. Devemos - ou não - utilizar a Cabala no Tarot? E a Mitologia? E a Astrologia? E a Numerologia? E a Culinária? E a Astrofísica? E as Artes Cênicas? E a Alta Costura?

Como qualquer obra de arte, o Tarot é passível de qualquer interpretação que seu observador deseje. Se eu quiser ver a Papisa como mãe/maternidade, eu a verei, e o rearranjo simbólico particular não afetará a mensagem dada pelo todo - certamente, quando eu precisar abordar o tema mãe/maternidade, a Papisa estará lá. Há quem veja a Papisa como a Sacerdotisa, e essa troca semântica lhe dá o epíteto de "esposa perfeita"; sendo assim, quando esse for o tema, lá estará ela, confiante com seu livro, seu véu e suas vestes pesando sobre uma provável nudez (difícil falar sobre o trás-do-véu, que dirá o por-baixo-da-saia!).
Eu, particularmente, a associo com a fase da mulher que transcende a necessidade do sangue mensal. Por isso, para mim ela é a avó - mãe/maternidade vejo com o auxílio da Imperatriz. Por conseguinte, ela não aparecerá na mesma conjuntura em que uma pessoa, das duas primeiras acepções, veria. 
Contudo, possivel e provavelmente, nós três daríamos ao consulente um mesmo prognóstico geral, esmiuçando, de acordo com nossa capacidade, peculiaridades que considerássemos importantes.
Até aí, esse tema é indiscutível. Não dá para discutir sobre o arcabouço simbólico de uma pessoa sem causar-lhe a confusão da centopéia. E isso é totalmente desnecessário. Se uma pessoa de boa índole, sem a intenção de explorar um cliente, diz que um/uma Cigano/Cigana lhe acompanha em um jogo de Tarot, auxiliando-lhe a Visão, não possuo elementos que possam desmenti-la. Em nenhum momento o acompanhamento mediúnico é necessário para o bom funcionamento do Tarot. Mas todos havemos de concordar que pelos frutos conhecemos a árvore. Se o resultado é pontual, e positivo, não deveríamos nos preocupar.
Preocupante é quando temos proselitismo nessa área. "É necessário conhecer Cabala." "Não! Não é necessário conhecer Cabala!" "Mitologia é fundamental!" "Não, mitologia é absolutamente dispensável!"
Aonde essa discussão nos leva? Lugar nenhum. Ambas as possibilidades geram efeitos positivos. 
O que me incomoda é quando aparece uma suposta "obrigação" de conhecermos determinados autores ou temas para entendermos o Tarot como um todo. Recentemente, fui questionado quanto à minha capacidade nesse oráculo porque não possuía em minha coleção um Rider Waite, ainda que houvessem diversos baralhos diretamente inspirados nessa obra (e, apesar de não ter o referido baralho na época, escrevi esse texto aqui. Obrigado Taroteca que me deixou contemplar esse deck). Claro, como colecionador que sou, era muito frustrante; mas como sempre joguei o Marselha e, mais recentemente, o Thoth, não via por que ser questionado em minhas interpretações. Meu oráculo funciona, meus alunos aprendem, tudo lindo como bem gosta o Caetano.
Claro que, quando finalmente adquiri meu Rider-Waite, percebi que ainda havia muito o que aprender, perceber e vivenciar, a despeito do que eu reconhecia deste baralho pela internet e pelos baralhos nele inspirados. A empiria, no Tarot, é a forma mais divertida de aprender.
O que considero importante, não, fundamental, ao estudioso de Tarot, é a aquisição de obras e a crítica textual das mesmas, seja em estudos pessoais, seja em cursos. Temos excelentes profissionais executando estudos comparativos que, por sua própria natureza, nos levam a questionar sistemas rígidos de interpretação. O sistema proposto por Crowley, que foi tão fundamental no início dos meus estudos, hoje se mostra incompleto, não porque deixou de ser bom - quem teria a falácia de dizer isso? - mas porque, frente às experiências cartomânticas que vivenciei, novos significados se anexaram aos anteriores, colorindo meu baralho com minha própria paleta.
E, ao colorir meu baralho com significados intrínsecos à minha experiência, acabo selecionando também o conjunto simbólico de cartas que desejo. O vocabulário adquirido se torna mais claro, mais nítido, menos passível a confusões interpretativas (no meu caso, quando a coisa fica feia, eu gaguejo. Já imaginou a cena?)
E porque eu chamei a história da Arte para a conversa?




Não sei se vocês conhecem esse quadro, afinal de contas, retratos falam mais aos envolvidos que aos estranhos. A menos que os ditos estranhos estejam dispostos a buscar ir além do propriamente revelado na tela por seu autor.
Ok. Ironia, não é? Quem não conhece esse quadro?
Agora... Alguém poderia, por gentileza, me garantir as motivações do pintor responsável ao elaborar essa obra? Alguém poderia, por gentileza, entrevistar a modelo e me contar o que ela pensa dessa representação?




A obra em nada perde pelas lacunas nas fontes. Ao contrário: sua aura se acentua. Por outro lado, a Pop Art se apropriou de sua imagem gerando inúmeras representações, variações sobre o mesmo tema (Podemos conhecer algumas aqui, mas a minha favorita é a do Botero, mesmo). O que você acha da releitura proposta por Botero, aqui apresentada? Falta de respeito, genialidade? Cópia barata para aparecer?


Da Vinci Tarot, A Sacerdotisa


E... se misturarmos o Tarot com isso? Lembra do arcano II, que ilustra o início dessa postagem? Aqui está ele, relido através de uma obra de Arte. E nesse momento, o Arcano perdeu seu conteúdo ao ser relido? A obra de arte perdeu seu sentido ao ser relida? Ambas perderam o sentido ao serem relidas? Ou, como penso, temos uma cambiância de significados que permite novos voos interpretativos?
O constantino, do Clube do Tarô, tem uma perspectiva assaz interessante sobre isso (Fonte, grifo nosso).

Os ensinamentos esotéricos, que nos vêm de mestres do passado, são quase sempre difíceis de serem compreendidos a fundo e requerem muito estudo e dedicação. E tal dificuldade vale igualmente para o Tarô. Quais são os antigos desenhos que melhor representam as idéias fundamentais? Qual é o verdadeiro significado de cada carta? 
Estudiosos modernos dão suas interpretações, nem sempre coerentes entre si, pois seguem diferentes teorias e pontos de vista. Aumentam, assim, o desafio do iniciante para descobrir as fontes autênticas. Para complicar mais ainda o panorama, há milhares de reinvenções artísticas e subjetivas que, apesar de muitas delas serem bem bonitas, deformam a simbologia original e afastam o iniciante da fonte.


Bem, eu sou a favor de todo tipo de deck que respeite a ideia do Arcano, mesmo que não, necessariamente, a iconografia clássica. É o exemplo da Morte do Tarô das Bruxas e Magos: ela não se assemelha em nada à Morte de outros baralhos, e, contudo, ali estão os principais significados do Arcano: transformação, metamorfose, fim de uma fase e início de outra - ideias  propostas pela borboleta.
Contudo, para a aprendizagem do oráculo, sempre recomendo um baralho clássico - e tomo por clássicos os baralhos cuja bibliografia a respeito é ampla e passível de reflexão: Marselha (especialmente para nós residentes em países latinos), Rider, Thoth.
Depois desse primeiro contato, qualquer voo é possível. Antes, porém, pode tornar confusa a absorção de novas interpretação e a errônea visão de que Tarot é tudo igual.
Tarot é uma obra de arte e, como tal, deve ser fruído com consciência de sua produção, causas e efeitos de sua iconografia e, claro, interpretações críticas de suas imagens a partir de fontes fidedignas.
Abraços a todos.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O diário de jogos

Olá pessoal. Depois de um "jejum" de algumas semanas, incluindo a semana do Natal e do Ano Novo - estava produzindo os textos para uma programação da Rádio Tropical de Três Corações - estamos de volta. Com o início do ano da Imperatriz, as frutificações começam e temos que nos adaptarmos a elas. 


Ontem, enquanto buscava uma informação acerca dos Elfos para uma próxima postagem, encontrei um registro de jogo de 2004, do dia 4 de setembro, para ser preciso. Foi um jogo que eu e minha avó fizemos juntos, quando eu passei no vestibular, poucos dias antes de eu sair de casa. Jogamos o baralho comum, que ela me ensinou, mas eu fiz a Cruz Celta, um jogo que ela ainda não conhecia. Juntos interpretamos as lâminas e, acredite, até hoje esse jogo me inspira, tanto a seguir em frente quanto recordações agradáveis.

Lembro-me também, não com certo aperto no coração, de um jogo que fiz para o primeiro semestre de 2006. Um três e um Cinco de Espadas, para os meses de maio e junho, figuraram como uma das maiores lições que tomei na vida. Hoje eu a vejo como necessária, mas naquela época... Ate eu entender a razão, demorou.



Tenho tantos registros de jogos que por vezes me perco entre eles, mas todos são importantes. Não acho essencial registrar todos os jogos feitos, mas há certos jogos que precisam ser lidos e relidos, mais de uma vez, para que seu conteúdo hermético seja revelado. Além disso, outros aspectos das cartas se revelam quando nos permitimos vivenciá-las por um determinado período de tempo.
Alguns Bruxos registram seu jogos em seu Book of Shadows; Magos em seus Grimoires (ou Grimórios); Cartomantes, em seus Caderno de Jogos (caso não tenham um Livro das Sombras ou um Grimório, claro). Eu tenho um diário onde escrevo tudo, para facilitar o acesso. Queria que ele fosse *cute*, como a maior parte das fotografias de livros que vemos,(dá uma olhada nesse aí em cima!), mas decidi que ele seria apenas funcional. Foi uma ótima decisão, que permitiu que eu o usasse tanto tempo. Afinal de contas, esferográfica azul tem em qualquer lugar... Dia desses eu faço um compilado bonitinho.
Sugiro que você, leitor do blog, faça uma experiência. Experimente fazer um jogo longo, para uns seis meses, elaborando previsões. Não se limite nesse ponto. Tente visualizar datas (conheço alguns sitemas: temos o oferecido por Celina Fioravanti em seu Tarô Místico,  o desenvolvido por Monica Buonfiglio em seu Tarô dos Anjos, e o presente nas cartas do Tarô Adivinhatório, da Editora Pensamento. Contudo, por vezes o melhor é se ater a sua intuição do que ao que está na tabela - as sensações do jogo sempre são soberanas a qualquer livro). 


Tente visualizar lugares. Pessoas. Situações. Acontecimentos.

Anote tudo. Tudo o que ver, intuir, sentir, ou mesmo recordar do livro. Tudo é importante nessa hora.
E vivencie o período do jogo. Não costumo reler o jogo com menos de um mês, para não ficar sugestionado. Contudo, essa escolha é sua. Após o período (que eu, particularmente, sugiro que não seja maior que seis meses), faça um exercício de reflexão com o texto escrito por você mesmo. Você consegue identificar os padrões vivenciados com aqueles outrora vistos? O jogo auxiliou sua caminhada de alguma forma? Quão preciso você foi em relação a datas, locais e acontecimentos? O jogo lhe permitiu evitar situações conflituosas ou trabalhar algum aspecto da sua personalidade?
Eu faço esse processo semestralmente desde 2004, e tenho tido ótimos resultados. Não só em relação à reflexão sobre mim mesmo, como também na interpretação de encontros e parcerias entre as cartas.
Até o próximo post.










sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Níveis de leitura das cartas


Olá pessoal. Muita gente acha que para ser cartomante é necessário ter um "Dom", ou coisa que o valha. Não concordo muito com isso. Acho que o dito "Dom", na verdade, corresponde a níveis de sensibilidade às imagens que compõem o oráculo. Por analogia, peguemos o xadrez: qualquer um pode aprender os movimentos, a disposição das peças, mas só alguém com vocação para enxadrista vai ter boa vontade e paciência para ficar horas bolando estratégias e revendo movimentos. Ou andar de bicicleta, quem sabe?, qualquer um aprende, mas quantos têm vocação para serem ciclistas? São muitos exemplos que mostram que o "Dom", na verdade, é disposição de seguir em frente com o aprendizado, depois de já ter entendido o processo. Qualquer pessoa pode aprender a ler os 22 Maiores, ou escrever os significados nas cartas do baralho comum, ou ler os poemas do Petit Lenormand. Acho super válido, inclusive - sempre incentivei meus alunos a escreverem em suas cartas do baralho comum. Mas, assim como é didático, é limitante, per se. Pense nos Arcanos Menores do Rider Waite: ao mesmo tempo em que nos inspiram informações sobre a essência da lâmina, nos limitam por sua própria representação. E o que dizer da nomenclatura dada por Crowley para os Arcanos Menores? Sete de Ouros é sempre... Fracasso? E só isso? Seis de Paus é sempre Vitória... e só isso?
Nesse sentido, é que acredito na vocação. É o desejo de ir além do oferecido (graciosa e belamente) pelos ocultistas e autores anteriores a nós. É o desejo de vivenciar a experiência do Arcano. Para o conhecimento do Arcano, os processos intelectuais bastam. Para a sabedoria do Arcano, dependemos da vivência.
Nesse sentido, apresento a visão de Silvia Theberge e Carlos Godo, sobre os níveis de leitura das cartas. Sincronicamente, encontrei esse texto em um backup que fiz entre 2006 e 2007. Engraçado, não?

Nível Físico

Ao nível físico corresponde uma interpretação literal das cartas, ou seja, pelo seu conteúdo gráfico, sem grandes preocupações intuitivas, pouco dependendo do grau de conhecimento ou de sensibilidade do intérprete. Trata-se de uma forma de leitura mais superficial, mais epidérmica, por isso mesmo mais conforme aos problemas do nosso dia-a-dia (…). Enfim, está em relação direta com nosso lado material, biológico, racional. Constitui a forma de leitura mais corriqueira, aquela comumente empregada pelos cartomantes e curiosos em geral.

Nível Mental
No nível mental em que começamos a nos aprofundar em nossas fronteiras abstratas, a interpretação já se faz vislumbrando a ação das forças e leis que regem a natureza, o cosmo. Aqui, a intuição começa a se mostrar, e o consulente começa a perceber suas relações com o mundo ao redor (e não mais apenas com o intérprete), as grandes tendências de seu futuro, porém já em termos de auto-avaliação. As experiências estético-sensoriais vão ocupando espaços antes preenchidos por sensações unicamente orgânicas. Em suma, o nível mental é o elo de ligação entre os dois extremos – o material e o espiritual.

Nível Espiritual
O terceiro e mais profundo nível, o espiritual, só faz sentido para aqueles que já se voltaram para o caráter eterno do ser, aqueles para quem o mundo material, com todas as suas atrações, já não exerce influência, ou, pelo menos, não mais ocupa lugar de destaque na escala de valores. Essas pessoas, tendo já transcendido suas limitações materiais, preocupam-se com sua parte imortal, passando a ter (e ser) um canal aberto aos planos superiores. Em tal situação, o estudioso do Tarô tem sua intuição extremamente aguçada, estando em condições de estabelecer suas próprias normas de conduta e de decidir sobre quais aspectos de sua vida deve interferir para obter maior crescimento espiritual e energético. Rompeu o ego, libertou o eu…


E você? Em que nível está?

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Significados do Petit Lenormand / Baralho Cigano.

Olá pessoal. Esse post foi retirado do meu blog antigo, Cartomancia - Por Emmanuel. Como esse post foi feito há alguns anos, eu perdi alguns dos links que me serviram de fonte, eximindo-os deste post, e modifiquei algumas informações que, com o tempo, verifiquei serem anacrônicas. Essa versão portanto é atualizada e ampliada em relação à anterior.
Conforme sabemos, não existe um baralho cigano, mas sim um baralho dito cigano e uma dita forma cigana de jogar (incluo uma aqui, só que com o Tarot). O baralho dito Cigano foi creditado, ainda no século XIX a uma francesa, Marie Anne Adelaide Lenormand, nascida em 27 de maio de 1772 em Alençon, França. Era uma cartomante muito popular e entre seus clientes podemos citar Napoleão, Josephine de Beauharnais, Robespierre, Louis XVIII entre outros. Uma resenha excelente sobre sua vida e seu baralho encontra-se no Clube do Tarô, de autoria de Constantino K. Riemma.
Além de cartomante, Mademoiselle Lenormand era astróloga, quiromante, numeróloga e tinha muitos outros conhecimentos como geomancia, dominomancia, cafeomancia. Ela revolucionou o conhecimento da Cartomancia, na época, utilizando flores, ervas e talismãs junto com seu jogo de cartas, como podemos observar no Grand Jeu de Mlle. Lenormand, de 54 cartas. - as 52 do baralho comum mais duas, representando o homem e a mulher mais importantes para a consulta. Segundo o Alexander, do blog Lenormando, esse baralho bebe diretamente na fonte aberta por Etteilla, a hipótese mais plausível e mais aceita até então pelos que buscam uma origem para essas cartas.
Sendo esse baralho de 54 cartas complexo e de difícil compreensão, Mlle. Lenormand criou uma segunda versão, o Petit Lenormand, de 36 cartas. E é esse último que foi adotado pelos Ciganos. Sabendo que Etteilla trabalhou com o Baralho de Piquet, de 32 cartas, somando mais uma, o consultante, e vendo nos baralhos de Lenormand tal referência, fica atestada sua referência em Etteilla.
Com seu desencarne, em 25 de junho de 1843, muita desta sabedoria desapareceu com ela. incluindo suas fontes e métodos que utilizou para desenvolver o seu próprio Somente cinqüenta anos depois, alguns manuscritos de Lenormand foram recuperados e mais tarde divulgados - ou melhor dizendo, relidos.
Nesse vídeo temos algumas atribuições às cartas Lenormand, em inglês, que correspondem ao livretinho que acompanha qualquer desses baralhos mais simples, aqui no Brasil. Esses significados, muitas vezes estão impressos nos baralhos; são oriundos de pequenos poemas que são vistos, por exemplo nas Cartas Mundi - por exemplo, na carta 24 (thanks, Alex, por essa informação). Os poemas, é importante dizer, diferem de edição para edição do baralho.
Todavia, sendo nômades e de natureza mágica, os Ciganos se apropriaram do oráculo e dele usufruiram, assim como da Quiromancia e do Tarot, desempenhando, muito bem devo dizer, tais mancias. Por isso, podemos dizer também que o fato desse oráculo não ter sido perdido foi devido ao esforço desse povo mágico e sofrido para sobreviver, tendo nas mancias um meio de troca que lhes permitia conseguir algum dinheiro.
Minha experiência particular com esse baralho me permite dizer que embora simples, de forma alguma esse oráculo é superficial. Ao contrário, suas respostas são diretas e francas, como as de um bom amigo. Mais que isso: com a devida compreensão, estudo e - claro - com o auxílio de egrégoras podemos ver além da compreensão literal das lâminas.
É importante, porém, frisarmos que esse baralho sofreu modificações com o tempo, desde sua utilização na França até sua chegada no Brasil. Devemos, inclusive, a Katja Bastos e César Bastos, com sua edição do Tarot Cigano, algumas da interpretações que perpetraram no nosso imaginário e nas publicações seguintes à essa publicação, que acresceram a esse baralho um quê de Brasil, aproximando-o de nossa realidade, mas afastando-se da tradição - vale a pena comparar a edição, de 1993, dos referidos autores, com as edições posteriores de diversas editoras, sobretudo no que concerne à atribuição de determinados Orixás à certas cartas.
A melhor edição deste baralho que encontrei, aida que com imagens simples, foi o Baralho de Ver a Sorte, Série Pingüim, da COPAG. Contudo, essa edição está esgotada e, pelo que percebi quando entrei em contato com a empresa, não há interesse em reeditá-lo. Uma pena, pois além de bonito, o baralho possui a durabilidade das cartas COPAG, garantindo uma vida útil bem bacana e possuindo um deslize entre as mãos muito bom; seu tamanho também facilita a manipulação. Minha versão favorita desse baralho, sem dúvida.

Mas voltando...
Mesmo sem uma história coesa, devidamente organizada, estamos diante de um oráculo fascinante, sem dúvida.
Segue minha interpretação das lâminas. Creio que, obviamente, não é a melhor, dado ser baseada em palavras-chave, mas foi a que abriu as portas do oráculo para mim. Baseado na apostila Tarô Cigano: Breves considerações... de Silvia Theberge. Como esse post foi retirado de um blog anterior, resolvi ampliá-lo, baseado em meus estudos da cartomancia.

01 - O Cavaleiro - 09 de Copas
Concretização, sexualidade, velocidade (acelera o tempo da previsão). Carta sob influência de Exu.
02 - O Trevo ou os Obstáculos - 06 de Ouros
Dificuldades momentâneas, atrasos. Se bem que já ouvi falar que significa sorte passageira. - para aqueles que seguem a tradição francesa, inclusive esse significado está no vídeo que postei. Mas não funcionou para mim com esse significado não.
03 - O Mar ou o Navio - 10 de Espadas
Viagem, saúde (alguns cartomantes vêem saúde na carta 05), mudança inexorável. Indica velocidade também, mas ao invés de ser uma aceleração, como o Cavaleiro, está mais próximo do sentido de "tempo certo". Carta sob influência de Yemanjá.
04 - O Equilíbrio ou a Casa - Rei de Copas
A casa, a família, o lar, em alguns casos o corpo físico. Indica homem gentil, psicólogo (se junto a 20) ou médico (junto a 30)
05 - As Árvores - 07 de Copas
Comunicação, troca, compartilhar, prosperidade. Alguns cartomantes vêem nessa carta questões de saúde. Carta sob influência de Oxóssi e dos Caboclos.
06 - As Nuvens - Rei de Paus
Confusões, instabilidade, stress, brigas. Carta sob influência de Iansã.
07 - A Serpente do Arco Íris - Rainha de Paus
Fofoca, intriga, inimizade próxima, traição, esperteza. Representa geralmente a(o) amante. Carta sob influência de Oxumaré.
08 - O Caixão ou a Vela ou a Caveira - 09 de Ouros
Morte, perda, prejuízo. Atrasos. Pode representar também uma vida passada. essa carta também representa os espíritos que ainda não conseguiram Luz para recuperar a consciência (Eguns).
09 - A Chuva ou o Ramalhete - Rainha de Espadas
Sabedoria, felicidade, sonhos realizados, lentidão (torna lenta a realização da previsão). Representa pessoas mais velhas, geralmente a avó. Carta regida por Nanã Buruquê.
10 - A Foice - Valete de Ouros
Transformações, cortes. Carta sob influência de Obaluaiê.
11 - O Chicote - Valete de Paus
Magia, poder, força de vontade. Competição. Ambição.
12 - Os Pássaros - 07 de Ouros
Alegrias, affairs, "namoricos", pequenas coisas que muito significam. Emoções leves. Neutraliza a influência da carta 07.
13 - A Criança - Valete de Espadas
Pureza, inocência, imaturidade, os filhos, o jovem mais importante da vida do consulente - os demais serão representados pelos outros três valetes (10, 11, 24). Influência dos Erês.
14 - A Raposa - 09 de Paus
Armadilhas, covardias, problemas inesperados, contudo, relaciona-se com situações, não necessariamente com pessoas - uma situação tensa, não necessariamente causada de maneira intencional por uma pessoa.
15 - O Urso - 10 de Paus
Amizades falsas, o "amigo urso", influências negativas de outros planos ("encostos"). Aqui temos a intenção de alguém em prejudicar ou oprimir o consulente.
16 - A Estrela - 06 de Copas
Sorte, karma - no sentido de sorte ou destino - , confiança, alegria, felicidade. Recompensa.
17 - A Cegonha - Rainha de Copas
Novidades, gravidez, mulher amiga, confidente, auxiliar.
18 - O Cão - 10 de Copas
Amigo fiel, Anjo da Guarda, neutraliza 15.
19 - A Torre - 06 de Espadas
Isolamento, espiritualidade, "ver de cima". Solidão ou solitude - depende da postura do consulente.
20 - O Jardim ou as Ervas - 08 de Espadas
Cura, medicina (pode indicar intervenção médica ou cirúrgica), coisas/situações a caminho devido ao esforço e postura do consulente. Resultados. Influência de Ossain.
21 - A Montanha - 08 de Paus
Justiça, o Poder Maior, Direito. Carta kármica: o que você merece lhe será dado, independentemente do que você acha que merece. Influência de Xangô. Essa carta também é interpretada como dificuldades e obstáculos que se mostram intransponíveis, ou que necessitam de um grande esforço para serem transpostos.
22 - Os Caminhos - Rainha de Ouros
Possibilidades, caminhos a serem trilhados ou desvios dos problemas. Carta sob influência de Ogum.
23 - O(s) Rato(s) - 07 de Paus
Desgastes, pequenos roubos, obssessão espiritual. Atente para essa carta pois ela pode indicar tanto indolência quanto depressão - o que pode ser exatamente a raiz do problema do consulente.
24 - O Coração - Valete de Copas
Todos os sentimentos são representados por essa carta, desde os mais puros aos mais sombrios, de acordo com as cartas que a acompanham. De qualquer forma, sempre representa emoções intensas. Emoções suaves são em 12.
25 - O Anel ou as Alianças - Ás de Paus
Alianças, sociedades, casamento. A natureza dessas alianças é dada pelas cartas que lhe cercam.
26 - O Livro - 10 de Ouros
Trabalho, estudo, negócios. Materialismo. Mistério, segredo.
27 - A Carta - 07 de Espadas
Convites, cartas, recados, sonhos, avisos. Atente para as cartas ao redor de 27; elas indicam os primeiros passos que o consulente pode dar em direção à solução do que o motivou a se consultar.
28 - O Homem - Ás de Copas
A figura masculina mais importante da vida da consulente, o próprio consulente. As demais figuras masculinas estarão representadas nos Reis (06, 04, 30, 34)
29 - A Mulher - Ás de Espadas
A figura feminina mais importante da vida do consulente, a própria consulente. Representa a energia Cigana do baralho. As demais mulheres estarão representadas pelas Rainhas (07, 09, 17, 22)
30 - Os Lírios ou os Rios - Rei de Espadas
Paz, tranquilidade, ser guiado ao caminho certo e desviado dos obstáculos suavemente. Recebe influência de Oxum. Pode indicar um homem da lei, militar, médico (junto com 04) ou advogado (junto com 21)
31 - O Sol - Ás de Ouros
Iluminação, cura, purificação, sabedoria, sucesso, prosperidade. Recebe influência de Oxalá: Oxalufan, se rodeado de cartas Yin, Oxanguian, se rodeado de cartas Yang.
32 - A Lua
Honrarias, merecimentos, intuição, inimigos ocultos, segredos e mistérios, mediunidade ou herança (material ou espiritual - atente-se para o derredor dessa carta).
33 - A Chave - 08 de Ouros
Soluções para os problemas apresentados. Fechamento ou abertura de alguma questão.
34 - Os Peixes - Rei de Ouros
Matéria, dinheiro, riqueza. Carta neutra; são as cartas que a ladeiam que lhe dão o devido significado. Pode representar o chefe ou superior imediato. O provedor de recursos.
35 - A Âncora
Fé, firmeza, resoluções, segurança. Indica muito mais uma postura do consulente do que uma situação externa.
36 - A Cruz - 06 de Paus
Vitória. Finalização proveitosa. Influência dos Pretos-Velhos.

Como efetuo o jogo

Abro o jogo com uma oração pessoal, pedindo que a Visão se abra para que eu diga apenas a Verdade que o consulente precisa ouvir, mesmo que ele tenha vindo buscar outra;em seguida, corto e retiro uma carta para saber se posso abrir o jogo e quais energias influenciarão a consulta, assim como quais são as áreas da vida do consulente que serão mais focadas. Em seguida, disponho as cartas pelo sistema da Mesa Real (vide post abaixo), que se utiliza de todas as 36 cartas. Após a leitura, caso o consulente ainda tenha dúvidas, respondo cada uma de suas perguntas com cinco cartas e, após sanar suas dúvidas, retiro uma mensagem final contatando a energia cigana.
Encerro com uma oração pessoal, dizendo "fecho este jogo mas não fecho seus caminhos. que você possa caminhar sempre para a Luz, e eu possa ver cada vez mais e melhor, para o bem de todos os envolvidos."

Até o próximo post.