Olá pessoal. Conversando um pouco nos comentários de uma postagem, recebi a sugestão de escrever sobre este baralho, e de tabela sobre a prática representativa das lâminas. Agradeço ao Carlos Deiró a sugestão do assunto. Thanks!
O Tarô dos Orixás: Senhores dos Destinos é uma edição bilíngüe (português/espanhol), editado pela Pallas Editora. É composto por 78 cartas, sendo que os Arcanos Maiores são policromados e os Arcanos Menores monocromáticos, cada naipe de uma cor: Paus, vermelho; Copas, verde; Espadas, azul; e Ouros, laranja. Os Arcanos Maiores representam os Orixás, assim como a Corte. As cartas numeradas foram representadas com itens que lembram as práticas das religiões afro-brasileiras, correlacionados com os emblemas dos naipes. A Corte é representada por rostos, ao invés de corpos inteiros. É um baralho muito bonito. Há um interativo, promovido pelo Planeta na Web, que dá pra ser jogado, aqui.

Para mim, as cartas do Tarot são alegorias. Alegoria, grosso modo, são imagens que literalmente remetem a uma idéia, mas prefiguram outra idéia, também literal. Deixa eu explicar: Por exemplo, vemos um anjinho vendado, com carinha de safado, com um arco teso para flechar algo. Essa primeira idéia, literal, nos remete a uma segunda idéia, o Amor, conforme a mitologia sobre Cupido. Filho de Afrodite, divertia-se flechando Deuses e mortais, enlaçando-os em situações embaraçosas. Essa segunda idéia nos remete à terceira, prefigurada pela mitologia: o amor como uma força instintiva e poderosa, para além da compreensão intelectual humana, mas ainda assim, inexorável a sua existência.
Quando jogamos Tarot, interiorizamos a primeira idéia literal, ao reconhecermos as lâminas. Interiorizamos a segunda idéia, que prefigura a terceira. Mas a terceira, só nos é dada em relação à consulta que procedemos – pois é do contexto geral onde a imagem emerge que podemos entender seu real significado.
Para que isso ocorra satisfatoriamente, precisamos conhecer, (nos) identificarmos (com) as imagens. E por prefigurarem uma idéia maior, soma da imagem com o nome e por vezes o número (embora seja esse o item mais controverso – coloque lado a lado o Rider Waite, o Thoth Crowley e o Mitológico, que embora não seja numerado, segue uma ordenação), podemos representar a idéia de formas diferentes. Normalmente, remetendo-nos a mitologias. Como as versões mais antigas que conhecemos remetem à Itália sua formação, podemos já perceber, em algumas lâminas, a presença de referenciais clássicos. Certas lâminas correspondem, salvo engano, aos Deuses Olímpicos – cito como exemplo a Justiça, em relação a Themis ou Athena.
Atualmente, com o fácil acesso à informação, diferentes tradições e culturas nos são apresentadas a todo momento. Nos últimos 59 anos vemos a ascensão da Wicca e da cultura celta, assim como do xamanismo, da cultura maia, hindu, japonesa, e por aí vai. Paralelo a esse processo, temos a valorização do negro enquanto etnia (é importante frisar, e eu FRISO MESMO, que o conceito de raça, para a espécie humana, NÃO EXISTE), e valorização das apropriações e interpretações do mundo feitas pelos nossos primos do outro lado do oceano. Certamente essas apropriações não foram feitas em um século, apenas, dado que desde o século XIV, pelo menos, a Europa já possuía contato com a África.
Todas essas transformações culturais afetaram, sobremaneira, a forma da humanidade ver a si mesma, da qual a arte é produto. O Tarot, como obra de arte que é, sofreu tais influências diretamente. Mantém-se a idéia do Arcano, preservando os atributos das cartas tradicionais, mas altera-se a personagem representada, de forma a, num jogo de aproximação e afastamento, trazer novas idéias ao jogo, preservando a tradição e sem perder em significado.
Claro que nem sempre isso funciona. E temos baralhos horrorosos que corroboram o que digo.
No caso deste Tarot dos Orixás (temos um outro, entre vários, por exemplo, aqui, no Clube do Tarô), buscou-se manter a forma original dos Arcanos Maiores do Tarot de Marselha, representando os Orixás como personagens dessa trama. O baralho ganha em didatismo, aproximando dos significados e representações tradicionais personagens já conhecidos dos fiéis das religiões afro-brasileiras, propondo, pari passu, um afastamento, de maneira subjetiva, da visão européia, clássica, do mesmo objeto que temos na literatura sobre o assunto. É o que foi feito, por exemplo, no Tarot Mitológico, no Osho Zen Tarot, no Barbie Tarot (simmmm, existe um Tarot da Barbie simmmmm), no Gay Tarot, no Goddess Tarot, no Feng Shui Tarot, e em tantos baralhos que nem tenho como numerar. Visões de mundo oriundas de seus criadores que visam um didatismo maior às cartas, aproximando-as de pessoas com experiências semelhantes. Eneida Duarte Gaspar foi primorosa na elaboração desse projeto voltado à realidade das pessoas de religião afro-brasileira. É importante destacarmos o trabalho sério da autora, pois é muito normal pessoas de má-fé, pouco conhecimento, pouca formação, ou um pouco de tudo isso junto, misturarem a prática cartomântica às práticas religiosas afro-brasileiras, como se tudo fizesse parte de um mesmo todo coeso (até faz, mas num nível tão mais sutil que nem vale a pena considerar para o nível dessa análise). Búzios, Tarot e Runas só tem em comum o fato de serem oráculos, linguagens de visão do momento presente por uma perspectiva ampla. O Tarot, para além dos outros dois citados, ainda por cima não possui nenhuma ligação com nenhum aspecto religioso. Qualquer atribuição religiosa ao baralho não passa de interpretação pessoal, não sendo digna de crédito enquanto dogma.
Nesse sentido, recomendo, e muito, o baralho de Eneida Duarte Gaspar para o iniciante na cartomancia que seja simpatizante das práticas afro-brasileiras, ou para o estudante do assunto, por ser didático, profundo em suas representações e válido, porque reinterpreta as lâminas, sem perder o foco da tradição, e sem conceder-lhes um status dentro das religiões afro-brasileiras que, efetivamente, ele não possui.
As cartas são:
O Louco Zé Pelintra
O Mago Ossain
A Sacerdotisa Nanã
A Imperatriz Iemanjá
O Imperador Xangô
O Hierofante Oxalá
Os Enamorados Oxóssi
A Carruagem Ogum
A Justiça Obá
O Eremita Omolu
A Roda da Fortuna Ifá
A Força Iansã
O Enforcado Logun'Edé
A Morte Baba Egun
A Temperança Oxumaré
O Diabo Exu
A Torre Tempo
A Estrela Oxum
A Lua Ewá
O Sol Erês
O Julgamento Pretos Velhos
O Mundo Caboclos
Nota em 07 de fevereiro de 2011: Conheci esse baralho, desenvolvido pela Artha Editora. Posto em breve acerca dele. Aguardem.