domingo, 10 de abril de 2016

As Três Senhoras do Baralho.


George Owen Wynne Apperley (British, 1884-1960) The afternoon of the Corrida, Granada


MEA CULPA: esse texto já está escrito dentro de mim faz tempo. Perdão por só colocá-lo agora para fora.

É notável como o mercado cartomântico tem se ampliado e qualificado. Temos um acesso muito maior a baralhos importados (e quem começou na cartomancia há pouco mais de dez anos sabe o quão difícil era conseguir um baralho assim; contava-se com a sorte de chegar pelo correio ou pela sorte maior ainda de um amigo ir para fora do país). A criação nacional também tem sido profícua. Claro está que, na mesma medida em que o cenário se expande, a qualidade não acompanha sempre. Temos baralhos muito bons e baralhos nem tanto.
Mas temos baralhos e é isso que importa.

Paralelamente, os cartomantes tornaram-se mais exigentes. Vê-se um esforço em entender a cartomancia de forma extensiva, testando baralhos em função das necessidades de trabalho. O tempo de um baralho só para a vida toda, por falta de opção, acabou. Atualmente, você pode escolher ter um baralho só, vários, e o melhor: você pode escolher mudar de ideia e partir de um campo a outro.
Além disso, a própria experiência dos cartomantes, não só com nossa arte, mas com experiências artísticas, religiosas e alegóricas permitiu a criação de baralhos específicos, experimentos calcados na experiência de muito tempo com os baralhos tradicionais. Eu gostaria de citar, não sem certo orgulho, três senhoras que, em nome de três senhoras, desenvolveram três baralhos que, mais que adivinhatórios, são devocionais. 
A elas meu brinde, minha celebração e meu carinho.
A todas elas.

KATJA BASTOS E O TAROT CIGANO


Já falamos sobre o Tarot Cigano nessa postagem, mas não posso deixar de homenageá-la aqui. A Rainha Cigana, que trabalha com Katja Bastos há décadas, auxiliou-a na encomenda dessas 36 imagens ao artista espanhol Julio Spinoso. O baralho é inovador por incluir em suas imagens a proposta da correlação com os Orixás. Entretanto, ele não possui correlação com os naipes e alguns de seus significados são inversamente proporcionais àqueles tidos como tradicionais.
E lindo. Desnecessário dizer o quanto esse baralho é lindo.
É notável a diferença na interpretação que esse baralho proporciona. Recomendo seu uso para quem queira mergulhar de fato na forma como a Cartomancia com Petit Lenormand se desenvolveu no Brasil - todas as imagens são coesas com a proposta, o que facilita e muito o processo intelectual, psíquico e espiritual de conexão com a egrégora cigana e com a forma de leitura.
O baralho pode ser adquirido aqui.  

ELIANE ARTHMAN E O BARALHO DA MARIA PADILHA


Quando estive na Mystic Fair, no Rio de Janeiro, Prem Mangla me viu de longe e disse: "Cigano! Olha o que eu trouxe para você!" enquanto balançava em sua mão esse baralho. Confesso que num primeiro momento pensei de que maneira poderia usar adequadamente tal cartomancia; entretanto, assim que o embaralhei, senti o quanto esse baralho é poderoso, no sentido de ter sido feito dentro de um espírito de ritual e de plena confiança entre a autora e sua guia. Se a egrégora do baralho te dá a confiança que você precisa para ter a firmeza da mão, o que poderia dar errado?
O baralho está em sua terceira edição, atestando seu sucesso. Impresso em vermelho, branco e dourado sobre fundo preto, minimalista e direto em suas leituras. Não é um oráculo difícil de ser aprendido, mas, embora também possua 36 cartas, e as técnicas utilizadas para a leitura de um Petit Lenormand também possam ser utilizadas com ele, não deve ser confundido com um Lenormand. É uma proposta diferente, com resultados diferentes e não menos eficazes. 
O baralho pode ser adquirido aqui.

SONIA BOECHAT SALEMA E O BARALHO DE MARIA MULAMBO


O tempo passa e o mundo gira... e o relógio de Maria Mulambo não tem ponteiro!

Conheci Sonia pessoalmente em minha primeira visita à Tsara. Foi plena identificação; uma amizade de anos que tem ares de décadas. Desde então nos encontramos sempre que é possível, e quaisquer cinco minutos são como se valessem por horas. 
E valem.
Acompanhei de longe o desenvolvimento do Baralho de Maria Mulambo. Passo a passo, com calma e de acordo com as orientações que recebia, Sonia ia cumprindo o que Dona Maria queria, numa parceria amorosa, sem cobranças e sem indolências. Era o ritmo certo, no processo correto. E quando, enfim, o baralho veio à luz, não poderia ser diferente: 36 cartas coloridas e de simbolismo riquíssimo. Da mesma forma que o baralho de Dona Maria Padilha, este não é um Lenormand, mas todas as técnicas de leitura do Petit Lenormand podem ser utilizadas com ele.
O baralho pode ser adquirido aqui.

Eu saúdo as Três Senhoras que se mostram tão bem assessoradas pelas três senhoras que, para minha alegria e contentamento, tenho tão caras ao meu coração. 
Minha gratidão ao trabalho que as Senhoras vem fazendo onde os mundos se cruzam e as esquinas são mistérios. 
E você, que se interessar por quaisquer desses trabalhos, saiba: são baralhos produzidos com devoção e alinhados com o que há de mais puro do mundo devocional. Ou seja: embaralhar um desses baralhos, já é, por si só, uma oração.

Eu escrevi ouvindo isso aqui

sábado, 2 de abril de 2016

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Mentiras fáceis.


Roberto FERRI. LIBERACI DAL MALE. 2013.
"Costumavam chamar o Diabo de pai das mentiras.Mas, para alguém cujo pecado significa orgulho, mentir deixaria algo como um sabor amargo.Fácil demais. Baixo demais. Coisa para covardes.Então, a minha teoria é a de que, quando o Diabo quer algo de você, ele não mente, de forma alguma.Ele te diz a verdade exata e literal.E ele deixa você encontrar, sozinho, o caminho para o inferno."

- "Crianças e Monstros", arco de Lucifer, #10, DC Comics, selo Vertigo. 
Algo muito apropriado para ser lido no dia de hoje.

domingo, 27 de março de 2016

XVIII. A lenda da vitória-régia.


Um dia, quando o mundo ainda engatinhava e o sol bocejava, a Lua foi homem. 
Depois ela foi mulher.
Depois ela aprendeu a ser o que bem entendesse.

Nós, que aqui estamos, com um mundo fazendo dieta e um sol fazendo crossfit (tudo pela aparência perfeita), não lembramos do luminar conforme sua história; passamos a criar histórias que preenchessem nosso vazio da presença dele. Como qualquer celebridade, ele não é muito afeito a esses assédios de paparazzi.


Então chegamos a ele de esguelha, fingindo pouco interesse, para que ele não nos perceba. Os que vieram antes, com seus olhos compassivos, lembram e contam histórias do tempo em que o mundo e o sol só queriam brincar. Naquela época, o luminar que hoje conhecemos como lua... Era homem. E gostava de moças bonitas.


Enquanto caminhava pelo seu campo negro, o luminar olhava o mundo e via o brilho dos olhos das moças, e sua beleza se refletia nelas. Não havia quem pudesse negar o seu abraço, e ao amanhecer, ele se recolhia com elas. 
Não todas; só as mais bonitas.


Havia uma moça muito bonita. Naiá era seu nome. Mas aquele que é a lua que hoje é  o que bem entender mas já foi mulher e um dia foi homem, parecia não se importar com ela. 
Naiá sonhava durante o dia e seguia insone, todas as noites, esperando que seus olhos trouxessem seu amado para seus braços. Mas ele parecia não ver seus olhos suplicantes.

Os mais velhos, que ninaram o sol quando este era um bebê e cercavam o mundo dos perigos para que ele crescesse forte, avisaram Naiá: aquelas que o luar levava, não voltavam mais. Tomadas pelo brilho do luminar, tornavam-se com ele unas no céu, na forma de estrelas. Algumas tropeçavam e caíam, e nessa hora se fazia um pedido: a cadente era salva e o pedido, atendido.

Naiá não se importava. Não comia, não bebia, mal dormia; e se ele, no seu descuido, estivesse olhando justo naquele instante e ela, distraída, não o visse?


Uma noite, Naiá caminhava, mudando o ponto para ver se o luar a via. O problema devia ser a aldeia: todas as moças eram bonitas e nenhuma havia sido levada até então. Naiá pôs-se a caminhar... Seus pensamentos divagaram... Dizem os mais velhos, que deram de mamar os sonhos que tornaram o sol forte e derramaram libações para que a terra se nutrisse, que quando a mente divaga os pés descaminham. Descaminhando, não se sabe aonde se chega, só se sabe que se chegará aonde se precisa chegar. Assim, os pés de Naiá a descaminharam até um lago, onde... Lá estava ele, se banhando! 
Sua pele prateada tirou seu fôlego. Seus contornos másculos a inebriaram e ela suspirou de prazer. Finalmente conseguiria se unir de corpo e alma, amante e amado, dois em um. 


E então, ela se jogou no lago. 
O impacto do corpo despedaçou o sonho em diversos fragmentos de luz; ele não estava lá! Onde ele estivera - ou não estivera, a água em seus ouvidos dificultava seus pensamentos - ondas se formavam e empurravam seu corpo para frente e para trás, e ela já não via mais a borda. 
E depois, ela já não via mais a superfície.
E depois, ela já não via mais nada.

O luar, que naquele instante mirava sua beleza em seu espelho d'água, ficou consternado por não ter visto aquela moça, tão bonita, tão apaixonada. O mundo estava crescendo a olhos vistos e ele já não corria seus dedos luminosos com a mesma facilidade pelo seu dorso macio. Quis trazer Naiá consigo, mas já era tarde: o lago já requerera seu quinhão. A beleza de Naiá lhe pertencia, pois ela de livre vontade abraçara-se a ele, ainda que não fosse seu o abraço desejado.

O luar, entretanto, era mais velho, pois ele ainda era homem e nós, que aqui estamos, não lembramos de quando ele foi homem, depois mulher, depois o que quisesse. E, eu não sei dizer o porque e nem quando foi decidido que assim seria, só sei que é assim: os mais velhos dizem o que os mais novos devem fazer, e os mais novos aprendem com a experiência dos mais velhos para viverem melhor. E o luar exigiu sua parte: o corpo era do lago, mas a alma de Naiá era sua. 


E assim, entre os mundos do lago e da lua, do laço entre imagem e espelho, surgiu uma planta, cuja forma está firmemente ancorada no lago, mas cuja força está na delicadeza de suas pétalas buscando o abraço do luar.  E se você for cuidadoso, e olhar de esguelha quando o luar estiver se mirando no lago, poderá ver os olhos de Naiá faiscando. E com ela aprendemos que, ao querer a Lua, é melhor evitar o lago.



Esse texto veio meio por acaso. Estamos tão acostumados a associar certas cartas com gêneros que esquecemos que os gêneros nos pertencem, não ao baralho. Um Imperador pode representar uma mulher, pois ele não é o personagem que aparenta: ele é o adjetivo que a localiza naquele instante. 
Afirmarmos que o gênero é reforçado pelas imagens de um baralho é um equívoco que acontece às vezes... Então, como exercício, eu mesclei imagens do Tarô a imagens da lenda da Vitória Régia,para vermos como uma imagem é associativa e não reforçadora. O reforço está na nossa fortuna (ou pobreza) crítica.
Se aprendermos direitinho com Naiá, saberemos que devemos olhar o Luar, não o Lago - e essa é a lição do arcano XVIII. Ela é mais velha que nós e nós aprendemos com ela, para evitarmos os tropeços do caminho.
Porque aquele que está no céu e que chamamos de lua é o que bem entender, mas um dia já foi mulher... E antes, foi homem.
E gostava de moças bonitas. 

domingo, 13 de março de 2016

Do Mago.



NÃO SE ILUDA COM o aparente descaso do Mago; embora blasé, ele está te olhando. De soslaio, oblíquo, com seu sorriso diáfano. Ele está atento à plateia - é assim que ele domina: Dando atenção indistinta a todos, sem prestar reverência a ninguém.

Traz consigo uma bolsa amarela tecida e recheada com todos os sonhos roubados de centenas de pessoas. Voilà! E mais um sonho, à guisa de enfeite, parte do antigo dono para o novo possuidor. O homem do saco, ameaça corrente, lenda urbana, em outra roupagem. 

Te afana do essencial, deixando o supérfluo. Senão, você sentiria falta.

Mestre das mágicas de cálices e varinhas, confira, sorrindo, a prataria quando ele sair. Hábil em somar para si, não raro subtrai dos outros. O show tem que continuar.

Nem jovem, nem velho, jovial; sempre um pouco mais experiente, não raro o mais imaturo experimentador. É ele quem vai na frente - e volta, para contar o que viu. À pé, é imbatível no seu foco. Ganha de qualquer homem, mas o castigo vem a cavalo.

Sua língua é prata líquida que escorre em nomes antigos e vislumbres de futuro. Todo Mago fala demais, mas quando quer dizer, a mensagem chega translúcida e sem ruído algum. Foco, eu disse.

Suas vestes são ricas, gypsies ou steampunk demais - naturalmente, o Mago é um vitoriano. Algo do gracejo da Belle Époque ecoa ali, mas ele insiste em manter uma aparência que vá na frente dizendo quem pode ou não se aproximar um pouco. Novamente, oblíquo. Todos lhe tem acesso, poucos sobrevivem ao Labirinto, menos ainda querem contar a história. 

Amar o inalcançável tem lá suas mazelas.

sábado, 12 de março de 2016

Um excerto. E uma reflexão.

Retirado do blog Diário de Biologia:


Alguns filósofos em suas proposições estabelecem uma ligação entre as palavras “humor” e “humilde”. Exemplos vivos dessa conexão podemos encontrar num passado remoto e até num mais recente. Numa forma primitiva de humor, os palhaços e bobos precisavam experimentar uma boa dose de humildade para arrancarem risos do público, já que esvaziavam-se completamente de qualquer senso de preservação de autoimagem. Em suma, para encarnarem devidamente seus personagens, precisavam não se levar tão a sério para levar seu público a fazer o mesmo, tornando a vida mais leve.


Hoje, vemos uma distorção desses valores quando alguns “humoristas modernos” invertem a ordem natural das coisas, procurando despertar risos alheios redirecionando essa humilhação para outros alvos, o que torna esta variante uma maneira fácil na prática humorística. Ora, para que eu preciso me humilhar e fazer o público rir de mim mesmo, quando eu posso simplesmente expor ao ridículo aqueles que parecem já ter vindo ao mundo como “piadas prontas”?

domingo, 6 de março de 2016

Curso Profissionalizante de Petit Lenormand: Módulo I. "As 36 Cartas"



Dia 19 de março, em São Paulo no Espaço Merkaba:
Módulo I do Curso de Petit Lenormand!
Nesse módulo, abordaremos as trinta e seis cartas do Petit Lenormand, diferenciando os significados conforme a abordagem tradicional europeia e a abordagem tradicional brasileira;
Encontraremos referências na arte para melhor compreensão de cada uma das cartas;
Trabalharemos jogos simples que nos permitem responder questões objetivamente.
Esse curso é montado anualmente, e todo o conteúdo foi revisto desde as edições anteriores, tanto no que concerne à bibliografia quanto à metodologia, permitindo que aqueles que nunca tiveram contato com o Petit Lenormand tenham gatilhos mnemônicos para total independência interpretativa dos livretos que acompanham os baralhos; para os experientes e praticantes, é oferecida uma abordagem coesa e vivencial para uma reflexão sobre a teoria e a prática desenvolvidas até então, seja ela conforme a leitura europeia ou brasileira; para aqueles que já fizeram o curso e desejam a reciclagem, pretende-se uma experiência singular frente o curso anterior, revisando todo o conteúdo oferecido através de outros olhares.
Será ímpar.
Aguardo você!


DATAS DAS PRÓXIMAS AULAS:


30/04/2016 - Módulo II - MESA REAL
Neste módulo será apresentado um método de leitura completo: a Mesa Real, que aborda todas as áreas da vida do consulente. Cada aluno terá acompanhamento do professor para a leitura de sua própria mesa real (pessoal).
Com o uso da Mesa Real, é possível realizar uma consulta completa, sem a necessidade de utilizar outros métodos, já que este é bem amplo e completo.

21/05/2016 - Módulo III - COMBINAÇÕES E NAIPES
Neste último módulo, o aluno terá acesso ao universo da leitura combinada de imagens (simbologia) e naipes, utilizando a Mesa Real e outros métodos simples de leitura.


INVESTIMENTO:
Cada módulo é independente, portanto o aluno, não tem obrigatoriedade de realizar os três módulos, exceto se desejar a formação profissionalizante.
- Valor de cada módulo: R$ 305,00 em 2x sem juros
- Valor do pacote profissionalizante (3 módulos): R$ 750,00 em 3x sem juros
- Valor especial para alunos que já realizaram este curso e desejam reciclar seus conhecimentos: R$ 250,00 cada módulo.

**CURSO COM CERTIFICADO E MATERIAL**
**GRATIS: BARALHO PARA VER A SORTE, DA COPAG**


INFORMAÇÕES E MATRICULAS:
(11) 3567.7538 | 9.7205.5181 (WhatsApp)
cursos@espacomerkaba.com.br

quinta-feira, 3 de março de 2016

Das alegorias e das ilustrações: quando encontramos referências à intenção do ilustrador.

Olá pessoal. Essa postagem está longe de ser definitiva, é apenas uma sinalização de algo que venho percebendo, um tema sobre o qual pretendo me debruçar nos próximos meses mais aprofundadamente. Entretanto, aqui e ali pincelo algumas noções, alguns meandros do que vejo. 
Desde o começo do blog, faço comparações entre a cultura e a cartomancia, sobretudo no que concerne às artes bidimensionais. A pintura e a gravura são, no limite, a mesma técnica usada na construção das imagens de um baralho. Entretanto, quais são as fontes para uma e outra categoria artística? Até onde podemos supor limites e possibilidades para uma e para outra?
Estou longe de me contentar com as respostas que obtive até o momento, e mais longe ainda de oferecer uma contribuição à altura dos meus questionamentos. Nesse ínterim, vou postando coisas que percebo associáveis e, à maneira do livro Conversas Cartomânticas: da escolha do baralho ao encerramento da consulta (breve teremos uma segunda edição, revista e ampliada - aguardem!), um dia terei material suficiente para oferecer em formato de livro.

Estava eu passeando numa galeria com os Emblemas de Alciato, e me deparei com a gravura XXIII, que posto abaixo. Imediatamente me lembrei do cinco de ouros desenvolvido por Arthur Edward Waite e Pamela Collman Smith para seu baralho.   


O texto para o cinco de ouros, traduzido por Cleyde Helena Monteiro Steigleder, diz:

Dois mendigos em uma tempestade de neve passam por um vitral iluminado.Significados divinatórios: a carta traz problemas materiais, sobretudo se na forma ilustrada - ou seja, destituição ou outra coisa. Para alguns cartomantes, é uma carta de amor e namorados - esposa, marido, amigo, amante; também concórdia, afinidades. Essas alternativas não conseguem ser harmonizadas. Invertida: desordem, caos, ruína, discórdia, dissipação.
Embora tenha vários pontos no texto que valem uma discussão sobre a proposta editorial de Waite e a função do texto na criação da imagem - algo que ele deixa claro na introdução do livro - o que pretendo mostrar com essa imagem é, na verdade, como os emblemas de Alciato podem nos auxiliar no entendimento da imagem em si (o que pode ou não concatenar com a proposta de Waite, nosso problema iconográfico por excelência: ao afirmarmos algo para além do texto que acompanha o baralho, estamos concordando ou discordando do autor?
Vejamos a imagem XXIII.


O texto para a imagem diz (tradução livre):
Um homem cego ajuda um homem coxo. O coxo lhe empresta seus olhos. Cada um provém o que o outro não tem.

Perceba que, embora Smith tenha proposto um casal na imagem - talvez uma tentativa de Waite de harmonizar os dois significados apreendidos em sua pesquisa para o livro - a ideia de auxílio mútuo está ali, colocada tal como no emblema.
Muitos questionamentos podem ser feitos, a partir daí.
  • Waite, ou Pamela, tinham conhecimento dos Emblemas de Alciato ou obra equivalente?
  • A ideia proposta era a mesma do Emblema?
  • A ilustração corresponde à ideia do idealizador?
  • Houve algum limite criativo, de caráter material ou simbólico?
  • Podemos adicionar o significado de "ajuda mútua" (o título do emblema) ao conteúdo simbólico do Cinco de Ouros?
  • Seria o Cinco de Ouros a carta mais adequada para associar-se esse significado?
Como eu disse no começo desse texto, não tenho pretensão de propor ou obter uma resposta a curto prazo. Só a possibilidade já me deleita.
Abraços a todos.

Fontes consultadas:

ALCIATO. Liber emblemata. 
WAITE, Arthur Edward. O tarô ilustrado de Waite. trad. Cleyde Helena Monteiro Steigleder. Porto Alegre: Kuarup, 1999.
WAITE, Arthur Edward. Tarô: a sorte pelas cartas. Trad. David Jardim Júnior. Ediouro, s/d. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Por que jogar para si mesmo? Um pequeno tutorial.

Olá pessoal. Uma das maiores dificuldades que tenho ouvido de alunos e amigos é a capacidade de jogar para si mesmo com o necessário distanciamento. Enquanto para os outros as palavras fluem velozes, quando jogam para si as cartas parecem expandir, de forma tal que não é possível saber se os Enamorados estão falando dos dilemas ou do processo de envolvimento. Aparentemente, os dois significados se aplicariam. A carta deixa de ser um conselho, uma direção, e volta a ser um conjunto de bibliografias previamente lidas. 



Se com uma carta o problema tá instaurado, com mais cartas então... Aquela Cruz Celta que não fecha, aquela Mandala Astrológica que parece estar toda errada, a Mesa Real que pede uma segunda opinião. Mas a mão do cartomante é sempre soberana; se se mostra necessária uma segunda opinião, e a proposta inicial não foi o estudo, mas sim a previsão, é mais decente buscar um profissional competente do que postar seu jogo em busca do maior número de comentários possíveis que, juntos, talvez deem uma luz sobre seu jogo. 
Eu passei, portanto, a questionar o motivo pelo qual jogar para mim mesmo seja tão confortável. Não entenda com isso que eu deixe de me consultar com outros profissionais, muito pelo contrário; além de ter uma visão distanciada do meu momento por olhos que pouco sabem sobre mim, é muito importante conhecer linguagens, métodos, estruturas de jogo. Um jogo, para mim, é previsão e é aula. Eu aprendo ali com quem está me atendendo.
Acredito ser esse o primeiro motivo. Eu não me importo de onde venha a informação, desde que ela se mostre confiável. Seja eu ou outro cartomante, é o baralho que vai ser interpretado. Eu preciso prestar atenção ao que está sendo mostrado ou lido. Só isso. E por isso, eu me consulto com poucas pessoas, e me mantenho em contato com elas há anos. E lhes dou feedbacks dos jogos que fazem para mim. 
O segundo motivo é: abro meu baralho para mim em clima de amistosa indiferença. Não importa se a questão é importante ou fútil (aos olhos dos outros; para mim, toda pergunta tem o seu valor, e o baralho responde de acordo com o acuro que ela for feita). Quando eu abro meu baralho, eu tenho uma pergunta e ela merece uma resposta. Se eu não for capaz de dar, vou procurar alguém que dê a resposta que preciso.
E por fim, abro meu baralho sempre. A linguagem do baralho é algo a ser aprendida. Dessa forma, quanto mais eu o uso, mais a aprendo. E mais fácil fica para mim aplicá-la tanto para mim quanto para os outros. Houve períodos em que abri meu baralho diariamente, em busca não de respostas, mas de encaminhamentos. Do entendimento da interface das cartas. E eu faço isso com cada baralho diferenciado que adquiro: pratico. Bastante. Com amistosa indiferença. Sem preocupação como a informação virá, desde que venha.
Ontem, eu estava sem vontade de sair de casa. Desanimado, mesmo. Mas eu tinha planejado ir ao treino. Como treinar com desânimo? Para resolver esse dilema, peguei meu Tarô dos Boêmios, de Papus (Ed Thot) e tirei três cartas.

Imperador. Tarô dos Boêmios (Editora Thot)


Dois de Espadas. Imperador. Mundo.

Dois de Espadas no livreto do baralho: oposição. A inimizade não dura. Ou seja, o motivo pelo qual eu estava desanimado não duraria tempo suficiente depois que eu saísse de casa. Eu estava inerte, Os dois Arcanos Maiores seguintes mostravam que eu teria experiências interessantes. Primeiro, porque de uma carta numerada eu ia em direção a um Arcano Maior, ou seja, eu não tinha como, em casa, ter noção de como o treino seria. Esse Arcano Maior dava lugar a outro Maior, o que garantiria uma experiência maior que a possível de ser lida. 
Eu poderia ficar tentando interpretar por mais tempo, mas a resposta fora suficiente: saia de casa. Será melhor.
Evidentemente, o treino foi maravilhoso. Para além do esperado.

Não deixe de jogar para você, mantendo o clima de amistosa indiferença. Não se preocupe em esgotar as informações das cartas - forme uma frase coesa, é o suficiente. E, no caso de questões mais sérias, procure um profissional de confiança.
Particularmente, eu não confio em grupos de estudo em redes sociais. É uma opção, mas não para mim.

Abraços a todos. 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

25º Encontro da Nova Consciência


Olá pessoal. Entre os dias 5 e 9 de fevereiro de 2016 estive em Campina Grande / PB para participar do Encontro da Nova Consciência. Esse evento, de caráter ecumênico, visa reunir os mais diferentes livres pensadores de religiões e práticas distintas para pensar o que nos une: o presente e o futuro do planeta.


Nesse evento, além de trabalhar como oraculista - levei o Sibilla Della Zingara para ser conhecido - tive a honra de partilhar uma mesa com Alexsander Lepletier, Tânia Durão, Frank Menezes e Giancarlo Schmid sobre Lenormand e os Relacionamentos. 
Confira:



Eventos desse porte sempre são trocas, momentos de encontros, reencontros e descobertas. Entretanto, só um evento como esse permitiria que eu me deparasse com crenças, práticas, métodos e técnicas tão diferentes das minhas - e tão efetivas quanto. 
Tive a grata oportunidade de conhecer Luis Pellegrini. Anos lendo seus artigos e, ao conhecê-lo, tive uma aula de escrita criativa. Quinze minutos com um mestre - valem uma vida.
Volto um homem melhor desse evento. As reflexões feitas, sobretudo nessa mesa, irão compor outros artigos aqui no blog durante o ano.
Agradeço especialmente a Giancarlo Schmid, Iris Medeiros, Diego, Rejane, Wanderleia, Bruna, à organização que permitiu que eu participasse. A Wagner Perico e Gorethi Moura, meu muito obrigado por nossas trocas. Muito do que voltei pensando devo a vocês.
E a todos os bons amigos que fiz, espero que nosso reencontro seja em breve. 
E Pedro Camargo - de onde você estiver, você fez falta. 
E como faz.

Até a próxima!



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Painel no Clube do Tarô: Astrologia, Numerologia e o logo do ano VII do Conversas Cartomânticas

Olá pessoal. À convite dos queridos Giancarlo e Constantino, escrevi sobre as motivações para a produção do logo que ora está aqui no Conversas. 
Para acompanhar minha reflexão, e a de feras como os acima citados, Ivana Mihanovich e Luna Solis, acompanhe o link aqui.
Abraços a todos.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Curso de Sibilla Hungara, por Rose Ragazzon


Olá pessoal. Essa semana, estive em São Paulo cumprindo a meta do Conversas Cartomânticas desse ano: pensar fora da caixinha. Estive com Rose Ragazzon aprendendo um pouco mais sobre os Sibillas. 
Nesse caso, a Sibilla Húngara, Zigeuner Waarzegkaarten, da Piatinik.
Esse baralho, de 36 cartas, tem muito em comum com o Petit Lenormand e com as Sibillas Italianas; à maneira de primos próximos, não são, entretanto, a mesma família. Muitas cartas lembram as homônimas dos dois baralhos; a prática, entretanto, mostra-se muito diferente.


Fomos conduzidos - à propósito, muito bem conduzidos - pela história do baralho e pela significação de cada uma das cartas. A Rose, que já havia apresentado brevemente o baralho no Tarolog, mostrou toda a mestria que a soma pesquisa + prática é capaz de oferecer. 



É curioso e necessário ressaltar, que embora as imagens remetam à ideias já conhecidas de outros oráculos, não são ipsis litteris a mesma coisa quando lidamos com uma estrutura diferente. É fundamental nesse caso a pesquisa, o uso, ou, com sorte, termos alguém que nos guie por ter ido antes. 

Simone e eu correlacionávamos as cartas
com as Runas.

A cada carta apresentada, uma explosão de ideias. Astrologia, cartomancia, conceituação prévia e alegorias pululavam na minha frente. Anotei tudo - assunto para conversarmos outra hora, com maior propriedade; esse baralho permite uma série de correlações interessantíssimas e divertidas de se proceder. 

Eu, Rose, Samantha

Ao mesmo tempo, é um baralho simples. Suas respostas são diretas, efetivas e rápidas, o que pude inclusive perceber no próprio evento. Questões imediatas, respostas imediatas.
Agradeço enormemente a oportunidade de participar oferecida pela Laya e pela Rose, à Samantha por me acompanhar não só ao evento mas nas leituras que efetuei e aos participantes pela partilha, pela conversa, pelos jogos. Foi muito divertido.
Saí um cartomante melhor do que cheguei. Saí mais consciente de possibilidades de leitura e interpretação, de empatia e de respeito. 
Mais um baralho para pensar fora da caixinha nesse ano.
Mais um baralho para Conversas Cartomânticas.
E você? Qual oráculo atraiu sua atenção até o momento?
Abraços a todos.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Desafio 2016: Tarot Tzigane, de Tchalaï.


Olá pessoal. Esse é o primeiro desafio do ano de 2016, que na verdade eu tenho estudado desde o ano passado. 
Dona Yedda Paranhos, taróloga e espiritualista do Rio de Janeiro, autora de vários livros ligados ao autoconhecimento, presenteou-me com um fac-símile do seu baralho de uso pessoal - o que, por si só, já é uma dádiva - e desafiou-me a continuar seus estudos sobre esse baralho. Impossível não atender a esse pedido. 
Em 1985, em uma de suas viagens pela Europa, Dona Yedda encontrou esse que seria um dos seus baralhos do coração. Era um baralho recente - fora publicado no ano anterior. 
Haviam duas cópias. Ela trouxe uma.
E o baralho saiu de edição.

Nesse ínterim, Dona Yedda vem trabalhando com o baralho, que carinhosamente ela chama de Tchalaï, em homenagem ao autor. Em 2015, em uma de minhas visitas a ela, fui presenteado com um fac-símile. E ele é um dos meus desafios desse ano.

Embora seja chamado Tarô (mesmo na caixinha estando escrito ser esse um baralho etnológico e adivinhatório), O Tzigane não corresponde à organização tradicional contemporânea; numa releitura da estrutura em função da experiência do autor com o povo cigano, temos novos títulos e novos significados para uma estrutura semelhante ao que conhecemos por Arcanos Maiores, aqui chamados Portas dos Mistérios.




01. Ashok Chakra
02. O Khukan
03. E Phuri Dai
04. E Drabarni
05. O Vatashi Romengoro
06. Fralipé Romani
07. Thagar Lumeaki
08. O Grast
09. E Puskaria
10. Maripé Taraim
11. Aggartti
12. Samballa
13. O Niglo
14. O Bero
15. O Sap
16. O Kher
17. O Vurdon
18. Lotcholikos
19. O Kham
20. O Shon
21. O Geape Vimanaki
22. Tataghi

A graciosidade desse baralho, entretanto, é encontrada nos dezesseis Arcanos Menores. Cada naipe - aqui chamados Kumpanias -  representa uma etnia dentro do povo Cigano, associável a um dos naipes do baralho convencional:

Os Kalderach, rom da Europa Central, são associados a facas, espadas e punhais e ao elemento Ar, e suas cartas são vermelhas.
Os Mamush do norte da Itália são associados às moedas e ao elemento Terra, e suas cartas são amarelas.
Os Gypsies irlandeses são associados a panelas, tampas, portes, cestas, caixas e ao elemento Água, e sua cor é verde. 
Os Gitanos andaluzes são associados aos bastões de madeira e instrumentos musicais, assim como ao elemento Fogo e à cor azul.



Cada uma das Kumpanias é composto por quatro cartas. À guisa de Ás, temos a  Ferramenta, representação dos seus símbolos e a mantenedora da tradição; o Pai, aquele que, por manter a tradição, traz o passado consigo; a Mãe, que transmite e educa no presente; e a criança, que é o futuro de toda a Kumpania. Essas cartas, mais que significados específicos ou personalidades, trazem consigo a possibilidade de temporalizarmos as previsões - e encontrarmo-nos em diferentes idades, em função do que precisamos saber.


Tá difícil achar esse livro...


Essas 38 cartas, muito evocativas, são meu desafio para 2016. Entendê-lo e encontrá-lo dentro de mim, para que essa linguagem sirva ao seu propósito: servir ao próximo no encontro de respostas.

E você? Já encontrou o seu desafio para 2016?

Abraços a todos.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Jon Gomm e o desafio 2016.

Olá pessoal.
Hoje, Jon Gomm - músico conhecido pela música Passionflower - propôs um desafio em sua página que achei literalmente fantástico:



New Year's Resolution suggestion for musicians: Learn one new scale and write a tune with it.

A scale is a precise sound, like a very distinct colour you can use to create a specific mood. Maybe songs come first, but maybe sometimes scales come first. Did Van Gogh decide to paint some sunflowers, then find that yellow? Or did he make that incredible yellow, *then* find a use for it?

95% of pop music uses one scale (the Major scale, or its twin the Relative Minor scale). So if you’re wondering why lots of music sounds kinda similar, that’s part of the reason.

Some people think music theory is not worth the effort to learn. So here's some perspective.

Right now I’m writing a song using the Phrygian Dominant scale, which evolved in the Middle East, and came to define the the sounds of both flamenco music and some Arabic and Persian styles. The notes of this scale are placed so they pull and push really tensely against each other, creating epic emotional drama. The Dorian mode, on the other hand, originated thousands of years ago in ancient Greece: Dorian is the warm, placid melancholia of The Beatles’ Eleanor Rigby, or Miles Davis’ So What. I wrote Passionflower using Lydian - popular in Indian classical music - which has an ethereal quality.

And if you want to use one of these amazing sounds which took entire cultures generations to develop, you can google and learn the scale in FIVE MINUTES. Five freakin' minutes.

Do it.


Então, proponho o mesmo desafio dentro da nossa área de atuação. Vamos pensar fora da caixinha do nosso baralho favorito. 
Em 2016, vamos aprender a ler, manipular e divinar com um baralho novo.
Desenvolver novas sinapses. Ver o devir com um novo olhar. 
Aprimorar a técnica com um vocabulário diferenciado.


E ouvir mais Jon Gomm porque... Porque é maravilhoso. 

Topa o desafio?

Abraços a todos.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A terceira posição.


Olá pessoal. Escrever sobre ética e Cartomancia faz-se necessário. Não me vejo na melhor posição para escrever teoricamente sobre o assunto, pois ainda preciso ler bastante a respeito. Ética é de uma fluidez e plasticidade que tornam extremamente complexos seus usos - e mais que isso, seus possíveis entendimentos.
Adoraria que mais pessoas se dispusessem, com maior acuro que o meu, a escrever sobre isso. 
Entretanto, aceito o desafio e o incentivo propostos pela Kelma Mazziero e disponho abaixo algumas observações. Como a riqueza da escrita está na especificidade do seu uso, eu preciso, prioritariamente, deixar claro que isso não é um desabafo, tampouco um julgamento; essa reflexão é fruto da minha observação do andamento dos diálogos em redes sociais, sobretudo por pessoas do meu círculo - que, à propósito, também são cartomantes ou entusiastas do Mistério.


Recentemente, li um texto muito bacana sobre Virginia Woolf. Trata-se do ensaio "a meia marrom", de Erich Auerbach. Nesse texto, entre outros pontos, o autor frisa a questão de não ser possível, na obra analisada, definirmos a posição do autor como soberana sobre o enredo. A autora mostra-se desconhecedora dos mistérios que permeiam a psique dos seus personagens, lidando com fatos cotidianos que, devidamente sobrepostos pelo leitor, dão a ele subsídios para entender as motivações dos mesmos. Entretanto, é impossível mergulhar profundamente em cada um deles - sabe-se o que eles permitem que seja sabido, pouco ou nada além disso. Algo revolucionário para o período em que a obra foi escrita, algo cotidiano para quem lida com a vida e intimidade dos seus consulentes.
E, no processo de reflexão que sucedeu a essa leitura, percebi que a minha dinâmica em redes sociais estava me deixando muito mau humorado. Como os humores antecedem o entendimento, precisei de um distanciamento para entender o que de fato estava acontecendo e como deveria me posicionar frente a isso. 
Nesse ínterim, uma série de fatalidades tomou conta da minha timeline. De ocupação das escolas em São Paulo, às tragédias de Mariana e Paris, culminando numa história que eu não vou repetir, por respeito aos seus participantes, que já foram suficientemente expostos em diversas redes sociais.
Eu acompanhei, por vezes comentando, por vezes discutindo, ao fim me calando sem concordar, com uma série de argumentações que me soavam vazias e cruéis. E confesso, não estava entendendo o motivo pelo qual aquilo me incomodava tanto. Eram apenas opiniões, em discussões inócuas. Mas havia algo por trás daquilo que eu precisava entender.


Eu escrevo hoje enquanto outra tragédia acontece - nesse instante, o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo arde em chamas. Num ano em que cada tragédia soa como se fosse a última, eu sinto que ainda temos um bom espaço até que possamos respirar aliviados (ou não), pelo finado 2015.
Mas é necessário que se escreva, que se fale, que se expresse. Sobretudo a partir da consciência de que o que observei, refleti e agora exponho não passa de uma ótica sobre as coisas. Sobre a qual eu devo ser responsável e transparente. 

Pois bem. Nota-se que os textos das redes sociais, sobremaneira, permitem-nos uma análise em três tempos. O primeiro, acerca do objeto da notícia, comentário ou imagem: seja ele vítima, algoz, situação, catástrofe, evento. O segundo, acerca de quem escreve, compartilha, comenta. Tanto pela qualidade quanto pela quantidade de comentários, temos um campo rico de possibilidades. Mas o que ora me interessa é o terceiro: aquele que está produzindo a inter-relação entre o primeiro e o segundo campos. 


Pensemos nas tragédias. Cada foto, cada áudio, cada gravação é parte do todo; entretanto, mostra-se como todo e é comentado como tal. Lembremo-nos de quando um senador, outrora jogador de futebol, foi acusado de ter contas fora do país. Até que ele, de forma íntegra, provasse sua inocência, inúmeros comentários contra sua integridade foram tecidos. Além de ser acusado de forma leviana por uma revista de ampla circulação, foi julgado sem direito a advogado pelo público que outrora o elegeu. Com sua alegada e provada inocência, o jogo virou: simples. 
Simples?
Não, não é simples. Estamos lidando com a vida, com a imagem, com o nome e com a honra de uma pessoa. Vive-se e morre-se por isso. 
Houve também uma hashtag muito comentada por mulheres, na qual elas denunciavam veladamente os homens que as haviam causado algum tipo de dano. Nesse momento, eu comecei a me incomodar. Dado meu incômodo, fui tachado de machista, por querer preservar meus privilégios (?) frente uma denúncia legítima (???). Faltavam argumentos, não para esclarecer, mas para ver por uma perspectiva mais ampla o cenário. Entretanto, quando se tocam dores, é melhor ter remédio à mão. E na posição que eu estava, eu queria mais era meter o dedo na ferida.
Outros casos se mostraram à minha frente. E eu fui percebendo que hora ou outra eu teria que enfrentar esse tema, porque ele tocava não só na minha forma de ver a vida, mas na forma como levo a minha profissão de cartomante. 

 Lembremo-nos dos três pontos que citei anteriormente:
1. O tema.
2. A relação com o tema.
3. A posição do produtor da informação.

Podemos, sem perda do sentido, associarmos com o trabalho do cartomante, da seguinte forma:

1. O consulente e o que o motiva à consulta.
2. O oráculo e as informações que ele produz.
3. As relações propostas pelo cartomante entre uma coisa e outra.


Essa relação tripartida é fundamental para o bom funcionamento de qualquer oráculo, vejo eu. É necessário que o consulente venha à mesa sabendo o que quer (mesmo que seja só para matar sua curiosidade); é necessário que o savoir faire do oráculo seja de pleno domínio do cartomante (mesmo que ele seja jovem no processo; aceitar seus limites nessa hora é trabalhar com lisura); é necessário, principalmente, que haja uma interação entre cartomante e consulente para que as histórias trazidas e vistas sejam devidamente entretecidas e o consulente saia sem dúvidas (mesmo que isso seja feito a posteriori). 
Como cartomante, meus olhos são de cartomante, minha escrita é de cartomante e, mesmo em outros locais que não o ritual, minha forma de encarar a informação é de cartomante. E é aqui que entra a ética, conforme gostaria de observar.
Quando você procura um cartomante, você se mostra frágil. Mesmo que unica e exclusivamente por curiosidade, você está se colocando nas mãos de uma pessoa que falará coisas sobre a sua vida, sua intimidade, sua forma de ver o mundo e lidar com seus problemas. Esse é um ponto de fragilidade axial. Mesmo que você considere besteira tudo o que ouviu na consulta, você está se posicionando frente a informação que obteve. Você não terá como enfrentar seus problemas com o mesmo olhar - há algo a mais que você ouviu, uma opinião que não bate com a sua. 
Sorte sua, e parabéns ao profissional, que conseguir chegar a um ponto de confluência entre o que está na mesa e o que está em seus planos.
O oráculo é, na maior parte das vezes, algo desconhecido para você. As imagens ali dispostas em formações geométricas singulares nada dizem sem o intérprete. Ou (quando lidamos com o Diabo, a Morte, o Caixão...) soam tenebrosas - por serem entendidas individualmente - quando não o são devidamente contextualizadas. É necessário que haja quem interprete e leia para você o que ali está dito.
E o cartomante, o oraculista, esse deve ser de sua confiança ou sob indicação de alguém de sua confiança. Não se dá tiro no escuro quando o assunto é intimidade. Uma pessoa que usa exemplos pessoais todo o tempo ou pior, exemplos de outros consulentes, tende a ater-se menos à mesa à sua frente. O que é necessário está ali, e o dito profissional procurando na memória uma história parecida? Dois passos para trás.  
(nota em 03 de janeiro: é importante frisar que exemplos são instrumentos de entendimento e podem sim, ser usados pelo cartomante, de forma a tornar a leitura mais fluida, mais conversa. O que digo aqui é que, se a consulta deixa de ater-se ao baralho disposto entre consultante e consulente e passa a ser uma reminiscência, alguma coisa está bem errada.)
Se tais cuidados são eticamente necessários no trato profissional, caro cartomante, tal metodologia não deveria fugir quando se postam coisas na rede social. 
Não é honesto pautar-se unica e exclusivamente em discursos acalorados, por mais referenciais que sejam, para analisar uma situação. Não é digno olhar seu interlocutor como ignorante ou qualquer outra característica pejorativa só porque ele não concorda com você. Não é próspero ser agressivo quando a questão se mostra inócua - e chamo de inócua toda informação que não lhe afeta diretamente. Para quê discutir na rede ou compartilhar informações se é mais prático e efetivo auxiliar no possível?


Diante de cada adversário ideológico, lembre-se que ali está um potencial cliente. Se você tem o cuidado de não julgar previamente quem senta à sua frente para uma consulta, tenha a delicadeza de fazer o mesmo a quem se posiciona na contramão do seu pensamento. 
Cartomante: você é produtor de informações que mudam rumos, que mudam vidas. Não seja leviano e parcial. 
Com a mesma riqueza que você vai a fundo nas suas cartas, vá a fundo nas questões que chegam a você.

Ou as ignore. Ninguém é obrigado a atender cliente chato.
Mas não há por quê maltratar um coração ferido.
Abraços a todos.