quinta-feira, 3 de março de 2016

Das alegorias e das ilustrações: quando encontramos referências à intenção do ilustrador.

Olá pessoal. Essa postagem está longe de ser definitiva, é apenas uma sinalização de algo que venho percebendo, um tema sobre o qual pretendo me debruçar nos próximos meses mais aprofundadamente. Entretanto, aqui e ali pincelo algumas noções, alguns meandros do que vejo. 
Desde o começo do blog, faço comparações entre a cultura e a cartomancia, sobretudo no que concerne às artes bidimensionais. A pintura e a gravura são, no limite, a mesma técnica usada na construção das imagens de um baralho. Entretanto, quais são as fontes para uma e outra categoria artística? Até onde podemos supor limites e possibilidades para uma e para outra?
Estou longe de me contentar com as respostas que obtive até o momento, e mais longe ainda de oferecer uma contribuição à altura dos meus questionamentos. Nesse ínterim, vou postando coisas que percebo associáveis e, à maneira do livro Conversas Cartomânticas: da escolha do baralho ao encerramento da consulta (breve teremos uma segunda edição, revista e ampliada - aguardem!), um dia terei material suficiente para oferecer em formato de livro.

Estava eu passeando numa galeria com os Emblemas de Alciato, e me deparei com a gravura XXIII, que posto abaixo. Imediatamente me lembrei do cinco de ouros desenvolvido por Arthur Edward Waite e Pamela Collman Smith para seu baralho.   


O texto para o cinco de ouros, traduzido por Cleyde Helena Monteiro Steigleder, diz:

Dois mendigos em uma tempestade de neve passam por um vitral iluminado.Significados divinatórios: a carta traz problemas materiais, sobretudo se na forma ilustrada - ou seja, destituição ou outra coisa. Para alguns cartomantes, é uma carta de amor e namorados - esposa, marido, amigo, amante; também concórdia, afinidades. Essas alternativas não conseguem ser harmonizadas. Invertida: desordem, caos, ruína, discórdia, dissipação.
Embora tenha vários pontos no texto que valem uma discussão sobre a proposta editorial de Waite e a função do texto na criação da imagem - algo que ele deixa claro na introdução do livro - o que pretendo mostrar com essa imagem é, na verdade, como os emblemas de Alciato podem nos auxiliar no entendimento da imagem em si (o que pode ou não concatenar com a proposta de Waite, nosso problema iconográfico por excelência: ao afirmarmos algo para além do texto que acompanha o baralho, estamos concordando ou discordando do autor?
Vejamos a imagem XXIII.


O texto para a imagem diz (tradução livre):
Um homem cego ajuda um homem coxo. O coxo lhe empresta seus olhos. Cada um provém o que o outro não tem.

Perceba que, embora Smith tenha proposto um casal na imagem - talvez uma tentativa de Waite de harmonizar os dois significados apreendidos em sua pesquisa para o livro - a ideia de auxílio mútuo está ali, colocada tal como no emblema.
Muitos questionamentos podem ser feitos, a partir daí.
  • Waite, ou Pamela, tinham conhecimento dos Emblemas de Alciato ou obra equivalente?
  • A ideia proposta era a mesma do Emblema?
  • A ilustração corresponde à ideia do idealizador?
  • Houve algum limite criativo, de caráter material ou simbólico?
  • Podemos adicionar o significado de "ajuda mútua" (o título do emblema) ao conteúdo simbólico do Cinco de Ouros?
  • Seria o Cinco de Ouros a carta mais adequada para associar-se esse significado?
Como eu disse no começo desse texto, não tenho pretensão de propor ou obter uma resposta a curto prazo. Só a possibilidade já me deleita.
Abraços a todos.

Fontes consultadas:

ALCIATO. Liber emblemata. 
WAITE, Arthur Edward. O tarô ilustrado de Waite. trad. Cleyde Helena Monteiro Steigleder. Porto Alegre: Kuarup, 1999.
WAITE, Arthur Edward. Tarô: a sorte pelas cartas. Trad. David Jardim Júnior. Ediouro, s/d. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Por que jogar para si mesmo? Um pequeno tutorial.

Olá pessoal. Uma das maiores dificuldades que tenho ouvido de alunos e amigos é a capacidade de jogar para si mesmo com o necessário distanciamento. Enquanto para os outros as palavras fluem velozes, quando jogam para si as cartas parecem expandir, de forma tal que não é possível saber se os Enamorados estão falando dos dilemas ou do processo de envolvimento. Aparentemente, os dois significados se aplicariam. A carta deixa de ser um conselho, uma direção, e volta a ser um conjunto de bibliografias previamente lidas. 



Se com uma carta o problema tá instaurado, com mais cartas então... Aquela Cruz Celta que não fecha, aquela Mandala Astrológica que parece estar toda errada, a Mesa Real que pede uma segunda opinião. Mas a mão do cartomante é sempre soberana; se se mostra necessária uma segunda opinião, e a proposta inicial não foi o estudo, mas sim a previsão, é mais decente buscar um profissional competente do que postar seu jogo em busca do maior número de comentários possíveis que, juntos, talvez deem uma luz sobre seu jogo. 
Eu passei, portanto, a questionar o motivo pelo qual jogar para mim mesmo seja tão confortável. Não entenda com isso que eu deixe de me consultar com outros profissionais, muito pelo contrário; além de ter uma visão distanciada do meu momento por olhos que pouco sabem sobre mim, é muito importante conhecer linguagens, métodos, estruturas de jogo. Um jogo, para mim, é previsão e é aula. Eu aprendo ali com quem está me atendendo.
Acredito ser esse o primeiro motivo. Eu não me importo de onde venha a informação, desde que ela se mostre confiável. Seja eu ou outro cartomante, é o baralho que vai ser interpretado. Eu preciso prestar atenção ao que está sendo mostrado ou lido. Só isso. E por isso, eu me consulto com poucas pessoas, e me mantenho em contato com elas há anos. E lhes dou feedbacks dos jogos que fazem para mim. 
O segundo motivo é: abro meu baralho para mim em clima de amistosa indiferença. Não importa se a questão é importante ou fútil (aos olhos dos outros; para mim, toda pergunta tem o seu valor, e o baralho responde de acordo com o acuro que ela for feita). Quando eu abro meu baralho, eu tenho uma pergunta e ela merece uma resposta. Se eu não for capaz de dar, vou procurar alguém que dê a resposta que preciso.
E por fim, abro meu baralho sempre. A linguagem do baralho é algo a ser aprendida. Dessa forma, quanto mais eu o uso, mais a aprendo. E mais fácil fica para mim aplicá-la tanto para mim quanto para os outros. Houve períodos em que abri meu baralho diariamente, em busca não de respostas, mas de encaminhamentos. Do entendimento da interface das cartas. E eu faço isso com cada baralho diferenciado que adquiro: pratico. Bastante. Com amistosa indiferença. Sem preocupação como a informação virá, desde que venha.
Ontem, eu estava sem vontade de sair de casa. Desanimado, mesmo. Mas eu tinha planejado ir ao treino. Como treinar com desânimo? Para resolver esse dilema, peguei meu Tarô dos Boêmios, de Papus (Ed Thot) e tirei três cartas.

Imperador. Tarô dos Boêmios (Editora Thot)


Dois de Espadas. Imperador. Mundo.

Dois de Espadas no livreto do baralho: oposição. A inimizade não dura. Ou seja, o motivo pelo qual eu estava desanimado não duraria tempo suficiente depois que eu saísse de casa. Eu estava inerte, Os dois Arcanos Maiores seguintes mostravam que eu teria experiências interessantes. Primeiro, porque de uma carta numerada eu ia em direção a um Arcano Maior, ou seja, eu não tinha como, em casa, ter noção de como o treino seria. Esse Arcano Maior dava lugar a outro Maior, o que garantiria uma experiência maior que a possível de ser lida. 
Eu poderia ficar tentando interpretar por mais tempo, mas a resposta fora suficiente: saia de casa. Será melhor.
Evidentemente, o treino foi maravilhoso. Para além do esperado.

Não deixe de jogar para você, mantendo o clima de amistosa indiferença. Não se preocupe em esgotar as informações das cartas - forme uma frase coesa, é o suficiente. E, no caso de questões mais sérias, procure um profissional de confiança.
Particularmente, eu não confio em grupos de estudo em redes sociais. É uma opção, mas não para mim.

Abraços a todos. 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

25º Encontro da Nova Consciência


Olá pessoal. Entre os dias 5 e 9 de fevereiro de 2016 estive em Campina Grande / PB para participar do Encontro da Nova Consciência. Esse evento, de caráter ecumênico, visa reunir os mais diferentes livres pensadores de religiões e práticas distintas para pensar o que nos une: o presente e o futuro do planeta.


Nesse evento, além de trabalhar como oraculista - levei o Sibilla Della Zingara para ser conhecido - tive a honra de partilhar uma mesa com Alexsander Lepletier, Tânia Durão, Frank Menezes e Giancarlo Schmid sobre Lenormand e os Relacionamentos. 
Confira:



Eventos desse porte sempre são trocas, momentos de encontros, reencontros e descobertas. Entretanto, só um evento como esse permitiria que eu me deparasse com crenças, práticas, métodos e técnicas tão diferentes das minhas - e tão efetivas quanto. 
Tive a grata oportunidade de conhecer Luis Pellegrini. Anos lendo seus artigos e, ao conhecê-lo, tive uma aula de escrita criativa. Quinze minutos com um mestre - valem uma vida.
Volto um homem melhor desse evento. As reflexões feitas, sobretudo nessa mesa, irão compor outros artigos aqui no blog durante o ano.
Agradeço especialmente a Giancarlo Schmid, Iris Medeiros, Diego, Rejane, Wanderleia, Bruna, à organização que permitiu que eu participasse. A Wagner Perico e Gorethi Moura, meu muito obrigado por nossas trocas. Muito do que voltei pensando devo a vocês.
E a todos os bons amigos que fiz, espero que nosso reencontro seja em breve. 
E Pedro Camargo - de onde você estiver, você fez falta. 
E como faz.

Até a próxima!



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Painel no Clube do Tarô: Astrologia, Numerologia e o logo do ano VII do Conversas Cartomânticas

Olá pessoal. À convite dos queridos Giancarlo e Constantino, escrevi sobre as motivações para a produção do logo que ora está aqui no Conversas. 
Para acompanhar minha reflexão, e a de feras como os acima citados, Ivana Mihanovich e Luna Solis, acompanhe o link aqui.
Abraços a todos.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Curso de Sibilla Hungara, por Rose Ragazzon


Olá pessoal. Essa semana, estive em São Paulo cumprindo a meta do Conversas Cartomânticas desse ano: pensar fora da caixinha. Estive com Rose Ragazzon aprendendo um pouco mais sobre os Sibillas. 
Nesse caso, a Sibilla Húngara, Zigeuner Waarzegkaarten, da Piatinik.
Esse baralho, de 36 cartas, tem muito em comum com o Petit Lenormand e com as Sibillas Italianas; à maneira de primos próximos, não são, entretanto, a mesma família. Muitas cartas lembram as homônimas dos dois baralhos; a prática, entretanto, mostra-se muito diferente.


Fomos conduzidos - à propósito, muito bem conduzidos - pela história do baralho e pela significação de cada uma das cartas. A Rose, que já havia apresentado brevemente o baralho no Tarolog, mostrou toda a mestria que a soma pesquisa + prática é capaz de oferecer. 



É curioso e necessário ressaltar, que embora as imagens remetam à ideias já conhecidas de outros oráculos, não são ipsis litteris a mesma coisa quando lidamos com uma estrutura diferente. É fundamental nesse caso a pesquisa, o uso, ou, com sorte, termos alguém que nos guie por ter ido antes. 

Simone e eu correlacionávamos as cartas
com as Runas.

A cada carta apresentada, uma explosão de ideias. Astrologia, cartomancia, conceituação prévia e alegorias pululavam na minha frente. Anotei tudo - assunto para conversarmos outra hora, com maior propriedade; esse baralho permite uma série de correlações interessantíssimas e divertidas de se proceder. 

Eu, Rose, Samantha

Ao mesmo tempo, é um baralho simples. Suas respostas são diretas, efetivas e rápidas, o que pude inclusive perceber no próprio evento. Questões imediatas, respostas imediatas.
Agradeço enormemente a oportunidade de participar oferecida pela Laya e pela Rose, à Samantha por me acompanhar não só ao evento mas nas leituras que efetuei e aos participantes pela partilha, pela conversa, pelos jogos. Foi muito divertido.
Saí um cartomante melhor do que cheguei. Saí mais consciente de possibilidades de leitura e interpretação, de empatia e de respeito. 
Mais um baralho para pensar fora da caixinha nesse ano.
Mais um baralho para Conversas Cartomânticas.
E você? Qual oráculo atraiu sua atenção até o momento?
Abraços a todos.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Desafio 2016: Tarot Tzigane, de Tchalaï.


Olá pessoal. Esse é o primeiro desafio do ano de 2016, que na verdade eu tenho estudado desde o ano passado. 
Dona Yedda Paranhos, taróloga e espiritualista do Rio de Janeiro, autora de vários livros ligados ao autoconhecimento, presenteou-me com um fac-símile do seu baralho de uso pessoal - o que, por si só, já é uma dádiva - e desafiou-me a continuar seus estudos sobre esse baralho. Impossível não atender a esse pedido. 
Em 1985, em uma de suas viagens pela Europa, Dona Yedda encontrou esse que seria um dos seus baralhos do coração. Era um baralho recente - fora publicado no ano anterior. 
Haviam duas cópias. Ela trouxe uma.
E o baralho saiu de edição.

Nesse ínterim, Dona Yedda vem trabalhando com o baralho, que carinhosamente ela chama de Tchalaï, em homenagem ao autor. Em 2015, em uma de minhas visitas a ela, fui presenteado com um fac-símile. E ele é um dos meus desafios desse ano.

Embora seja chamado Tarô (mesmo na caixinha estando escrito ser esse um baralho etnológico e adivinhatório), O Tzigane não corresponde à organização tradicional contemporânea; numa releitura da estrutura em função da experiência do autor com o povo cigano, temos novos títulos e novos significados para uma estrutura semelhante ao que conhecemos por Arcanos Maiores, aqui chamados Portas dos Mistérios.




01. Ashok Chakra
02. O Khukan
03. E Phuri Dai
04. E Drabarni
05. O Vatashi Romengoro
06. Fralipé Romani
07. Thagar Lumeaki
08. O Grast
09. E Puskaria
10. Maripé Taraim
11. Aggartti
12. Samballa
13. O Niglo
14. O Bero
15. O Sap
16. O Kher
17. O Vurdon
18. Lotcholikos
19. O Kham
20. O Shon
21. O Geape Vimanaki
22. Tataghi

A graciosidade desse baralho, entretanto, é encontrada nos dezesseis Arcanos Menores. Cada naipe - aqui chamados Kumpanias -  representa uma etnia dentro do povo Cigano, associável a um dos naipes do baralho convencional:

Os Kalderach, rom da Europa Central, são associados a facas, espadas e punhais e ao elemento Ar, e suas cartas são vermelhas.
Os Mamush do norte da Itália são associados às moedas e ao elemento Terra, e suas cartas são amarelas.
Os Gypsies irlandeses são associados a panelas, tampas, portes, cestas, caixas e ao elemento Água, e sua cor é verde. 
Os Gitanos andaluzes são associados aos bastões de madeira e instrumentos musicais, assim como ao elemento Fogo e à cor azul.



Cada uma das Kumpanias é composto por quatro cartas. À guisa de Ás, temos a  Ferramenta, representação dos seus símbolos e a mantenedora da tradição; o Pai, aquele que, por manter a tradição, traz o passado consigo; a Mãe, que transmite e educa no presente; e a criança, que é o futuro de toda a Kumpania. Essas cartas, mais que significados específicos ou personalidades, trazem consigo a possibilidade de temporalizarmos as previsões - e encontrarmo-nos em diferentes idades, em função do que precisamos saber.


Tá difícil achar esse livro...


Essas 38 cartas, muito evocativas, são meu desafio para 2016. Entendê-lo e encontrá-lo dentro de mim, para que essa linguagem sirva ao seu propósito: servir ao próximo no encontro de respostas.

E você? Já encontrou o seu desafio para 2016?

Abraços a todos.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Jon Gomm e o desafio 2016.

Olá pessoal.
Hoje, Jon Gomm - músico conhecido pela música Passionflower - propôs um desafio em sua página que achei literalmente fantástico:



New Year's Resolution suggestion for musicians: Learn one new scale and write a tune with it.

A scale is a precise sound, like a very distinct colour you can use to create a specific mood. Maybe songs come first, but maybe sometimes scales come first. Did Van Gogh decide to paint some sunflowers, then find that yellow? Or did he make that incredible yellow, *then* find a use for it?

95% of pop music uses one scale (the Major scale, or its twin the Relative Minor scale). So if you’re wondering why lots of music sounds kinda similar, that’s part of the reason.

Some people think music theory is not worth the effort to learn. So here's some perspective.

Right now I’m writing a song using the Phrygian Dominant scale, which evolved in the Middle East, and came to define the the sounds of both flamenco music and some Arabic and Persian styles. The notes of this scale are placed so they pull and push really tensely against each other, creating epic emotional drama. The Dorian mode, on the other hand, originated thousands of years ago in ancient Greece: Dorian is the warm, placid melancholia of The Beatles’ Eleanor Rigby, or Miles Davis’ So What. I wrote Passionflower using Lydian - popular in Indian classical music - which has an ethereal quality.

And if you want to use one of these amazing sounds which took entire cultures generations to develop, you can google and learn the scale in FIVE MINUTES. Five freakin' minutes.

Do it.


Então, proponho o mesmo desafio dentro da nossa área de atuação. Vamos pensar fora da caixinha do nosso baralho favorito. 
Em 2016, vamos aprender a ler, manipular e divinar com um baralho novo.
Desenvolver novas sinapses. Ver o devir com um novo olhar. 
Aprimorar a técnica com um vocabulário diferenciado.


E ouvir mais Jon Gomm porque... Porque é maravilhoso. 

Topa o desafio?

Abraços a todos.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A terceira posição.


Olá pessoal. Escrever sobre ética e Cartomancia faz-se necessário. Não me vejo na melhor posição para escrever teoricamente sobre o assunto, pois ainda preciso ler bastante a respeito. Ética é de uma fluidez e plasticidade que tornam extremamente complexos seus usos - e mais que isso, seus possíveis entendimentos.
Adoraria que mais pessoas se dispusessem, com maior acuro que o meu, a escrever sobre isso. 
Entretanto, aceito o desafio e o incentivo propostos pela Kelma Mazziero e disponho abaixo algumas observações. Como a riqueza da escrita está na especificidade do seu uso, eu preciso, prioritariamente, deixar claro que isso não é um desabafo, tampouco um julgamento; essa reflexão é fruto da minha observação do andamento dos diálogos em redes sociais, sobretudo por pessoas do meu círculo - que, à propósito, também são cartomantes ou entusiastas do Mistério.


Recentemente, li um texto muito bacana sobre Virginia Woolf. Trata-se do ensaio "a meia marrom", de Erich Auerbach. Nesse texto, entre outros pontos, o autor frisa a questão de não ser possível, na obra analisada, definirmos a posição do autor como soberana sobre o enredo. A autora mostra-se desconhecedora dos mistérios que permeiam a psique dos seus personagens, lidando com fatos cotidianos que, devidamente sobrepostos pelo leitor, dão a ele subsídios para entender as motivações dos mesmos. Entretanto, é impossível mergulhar profundamente em cada um deles - sabe-se o que eles permitem que seja sabido, pouco ou nada além disso. Algo revolucionário para o período em que a obra foi escrita, algo cotidiano para quem lida com a vida e intimidade dos seus consulentes.
E, no processo de reflexão que sucedeu a essa leitura, percebi que a minha dinâmica em redes sociais estava me deixando muito mau humorado. Como os humores antecedem o entendimento, precisei de um distanciamento para entender o que de fato estava acontecendo e como deveria me posicionar frente a isso. 
Nesse ínterim, uma série de fatalidades tomou conta da minha timeline. De ocupação das escolas em São Paulo, às tragédias de Mariana e Paris, culminando numa história que eu não vou repetir, por respeito aos seus participantes, que já foram suficientemente expostos em diversas redes sociais.
Eu acompanhei, por vezes comentando, por vezes discutindo, ao fim me calando sem concordar, com uma série de argumentações que me soavam vazias e cruéis. E confesso, não estava entendendo o motivo pelo qual aquilo me incomodava tanto. Eram apenas opiniões, em discussões inócuas. Mas havia algo por trás daquilo que eu precisava entender.


Eu escrevo hoje enquanto outra tragédia acontece - nesse instante, o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo arde em chamas. Num ano em que cada tragédia soa como se fosse a última, eu sinto que ainda temos um bom espaço até que possamos respirar aliviados (ou não), pelo finado 2015.
Mas é necessário que se escreva, que se fale, que se expresse. Sobretudo a partir da consciência de que o que observei, refleti e agora exponho não passa de uma ótica sobre as coisas. Sobre a qual eu devo ser responsável e transparente. 

Pois bem. Nota-se que os textos das redes sociais, sobremaneira, permitem-nos uma análise em três tempos. O primeiro, acerca do objeto da notícia, comentário ou imagem: seja ele vítima, algoz, situação, catástrofe, evento. O segundo, acerca de quem escreve, compartilha, comenta. Tanto pela qualidade quanto pela quantidade de comentários, temos um campo rico de possibilidades. Mas o que ora me interessa é o terceiro: aquele que está produzindo a inter-relação entre o primeiro e o segundo campos. 


Pensemos nas tragédias. Cada foto, cada áudio, cada gravação é parte do todo; entretanto, mostra-se como todo e é comentado como tal. Lembremo-nos de quando um senador, outrora jogador de futebol, foi acusado de ter contas fora do país. Até que ele, de forma íntegra, provasse sua inocência, inúmeros comentários contra sua integridade foram tecidos. Além de ser acusado de forma leviana por uma revista de ampla circulação, foi julgado sem direito a advogado pelo público que outrora o elegeu. Com sua alegada e provada inocência, o jogo virou: simples. 
Simples?
Não, não é simples. Estamos lidando com a vida, com a imagem, com o nome e com a honra de uma pessoa. Vive-se e morre-se por isso. 
Houve também uma hashtag muito comentada por mulheres, na qual elas denunciavam veladamente os homens que as haviam causado algum tipo de dano. Nesse momento, eu comecei a me incomodar. Dado meu incômodo, fui tachado de machista, por querer preservar meus privilégios (?) frente uma denúncia legítima (???). Faltavam argumentos, não para esclarecer, mas para ver por uma perspectiva mais ampla o cenário. Entretanto, quando se tocam dores, é melhor ter remédio à mão. E na posição que eu estava, eu queria mais era meter o dedo na ferida.
Outros casos se mostraram à minha frente. E eu fui percebendo que hora ou outra eu teria que enfrentar esse tema, porque ele tocava não só na minha forma de ver a vida, mas na forma como levo a minha profissão de cartomante. 

 Lembremo-nos dos três pontos que citei anteriormente:
1. O tema.
2. A relação com o tema.
3. A posição do produtor da informação.

Podemos, sem perda do sentido, associarmos com o trabalho do cartomante, da seguinte forma:

1. O consulente e o que o motiva à consulta.
2. O oráculo e as informações que ele produz.
3. As relações propostas pelo cartomante entre uma coisa e outra.


Essa relação tripartida é fundamental para o bom funcionamento de qualquer oráculo, vejo eu. É necessário que o consulente venha à mesa sabendo o que quer (mesmo que seja só para matar sua curiosidade); é necessário que o savoir faire do oráculo seja de pleno domínio do cartomante (mesmo que ele seja jovem no processo; aceitar seus limites nessa hora é trabalhar com lisura); é necessário, principalmente, que haja uma interação entre cartomante e consulente para que as histórias trazidas e vistas sejam devidamente entretecidas e o consulente saia sem dúvidas (mesmo que isso seja feito a posteriori). 
Como cartomante, meus olhos são de cartomante, minha escrita é de cartomante e, mesmo em outros locais que não o ritual, minha forma de encarar a informação é de cartomante. E é aqui que entra a ética, conforme gostaria de observar.
Quando você procura um cartomante, você se mostra frágil. Mesmo que unica e exclusivamente por curiosidade, você está se colocando nas mãos de uma pessoa que falará coisas sobre a sua vida, sua intimidade, sua forma de ver o mundo e lidar com seus problemas. Esse é um ponto de fragilidade axial. Mesmo que você considere besteira tudo o que ouviu na consulta, você está se posicionando frente a informação que obteve. Você não terá como enfrentar seus problemas com o mesmo olhar - há algo a mais que você ouviu, uma opinião que não bate com a sua. 
Sorte sua, e parabéns ao profissional, que conseguir chegar a um ponto de confluência entre o que está na mesa e o que está em seus planos.
O oráculo é, na maior parte das vezes, algo desconhecido para você. As imagens ali dispostas em formações geométricas singulares nada dizem sem o intérprete. Ou (quando lidamos com o Diabo, a Morte, o Caixão...) soam tenebrosas - por serem entendidas individualmente - quando não o são devidamente contextualizadas. É necessário que haja quem interprete e leia para você o que ali está dito.
E o cartomante, o oraculista, esse deve ser de sua confiança ou sob indicação de alguém de sua confiança. Não se dá tiro no escuro quando o assunto é intimidade. Uma pessoa que usa exemplos pessoais todo o tempo ou pior, exemplos de outros consulentes, tende a ater-se menos à mesa à sua frente. O que é necessário está ali, e o dito profissional procurando na memória uma história parecida? Dois passos para trás.  
(nota em 03 de janeiro: é importante frisar que exemplos são instrumentos de entendimento e podem sim, ser usados pelo cartomante, de forma a tornar a leitura mais fluida, mais conversa. O que digo aqui é que, se a consulta deixa de ater-se ao baralho disposto entre consultante e consulente e passa a ser uma reminiscência, alguma coisa está bem errada.)
Se tais cuidados são eticamente necessários no trato profissional, caro cartomante, tal metodologia não deveria fugir quando se postam coisas na rede social. 
Não é honesto pautar-se unica e exclusivamente em discursos acalorados, por mais referenciais que sejam, para analisar uma situação. Não é digno olhar seu interlocutor como ignorante ou qualquer outra característica pejorativa só porque ele não concorda com você. Não é próspero ser agressivo quando a questão se mostra inócua - e chamo de inócua toda informação que não lhe afeta diretamente. Para quê discutir na rede ou compartilhar informações se é mais prático e efetivo auxiliar no possível?


Diante de cada adversário ideológico, lembre-se que ali está um potencial cliente. Se você tem o cuidado de não julgar previamente quem senta à sua frente para uma consulta, tenha a delicadeza de fazer o mesmo a quem se posiciona na contramão do seu pensamento. 
Cartomante: você é produtor de informações que mudam rumos, que mudam vidas. Não seja leviano e parcial. 
Com a mesma riqueza que você vai a fundo nas suas cartas, vá a fundo nas questões que chegam a você.

Ou as ignore. Ninguém é obrigado a atender cliente chato.
Mas não há por quê maltratar um coração ferido.
Abraços a todos.

Lâminas famosas e o naipe de Espadas.


Olá pessoal. Estou literalmente encantado pelo trabalho de Federico Mauro. Em suas coletâneas, aprendemos ou lembramos de personagens marcantes do cinema através de seus instrumentos. A coletânea que reproduzo aqui é a de armas brancas, mas temos ainda a de guitarras e a de armas de fogo
Foi bem divertido fazer isso. Mas... Você sugeriria uma combinação diferente? Veja no link se existe alguma que você trocaria e comente aqui embaixo! Vale comentar as armas que faltaram, também. 
Senti falta da Masamune. 


Um Ás para Excalibur, senhora das que vieram depois.


Um dois para uma Vendetta, colocadas em V.


Três para lightsaber, construído com a Vontade.


Quatro para Norman Bates e seu aparente equilíbrio.


Cinco para Joker e seu total desequilíbrio.


Seis para MacGyver e sua genialidade.


Sete para D'Artagnan e seus ideais. 


Oito para Gelo, derretida pelo fogo, Lamento de Viúva e Cumpridora de Promessas.


Nove para Jason, um pesadelo feito carne.


Dez para guilhotina, encerrando com misericórdia.


Jack Sparrow de andar oscilante, um Valete entre elas.


William Wallace para Cavaleiro, sem armadura e com coração.


Beatrix Kiddo para Rainha, dos estilhaços, pedaços e cortes dessa Corte.


Uma espada para o Rei Conan entre aqueles que se escondem nas sombras.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Estudando baralhos como estudam-se obras de arte.


Uma coisa que eu gosto de reforçar é que, no estudo da cartomancia, devemos tomar as cartas na mesma acepção de uma obra de arte.
Mas como - e por onde - começar?
Reuni aqui algumas dicas para isso, baseadas nos artigos de Carolina Pignatari para o Canal do Ensino.


- Talvez, num primeiro momento, seja mais fácil fazer esse exercício com baralhos conhecidos, como o Marselha e o Waite. Baralhos mais complexos, como o Thoth, e temáticos, como o Vertigo, podem ser usados quando você tiver desenvolvido boa prática.
- Por um momento, esqueça o título. Observe a imagem com olhos de primeira vez. Busque detalhes que saltem aos olhos e detalhes não tão óbvios assim.
- Permita que a carta lhe impressione. Aceite essa primeira referência. Gostou? Não gostou? Esse primeiro sentimento é importante.
- Essa carta lhe lembra alguma coisa? Um filme, uma música, uma outra imagem ou obra de arte?
- Observe as bordas. As cartas se encaixam ou são independentes entre si? Você é capaz de construir um cenário a partir da combinação das cartas? (Experimente parear a Sacerdotisa com o 2 de Espadas do Waite Tarot. É um bom começo.)
- Observe as cores, tons, a técnica utilizada. Essas escolhas nos permitem entender aonde o artista queria chegar, e quais eram os seus limites. 
-Tente isolar os elementos da carta, para analisá-los particularmente. Da Sacerdotisa, por exemplo, o véu e o livro são fáceis de perceber. O que mais é possível isolar nessa carta?
- Observe a luz, sombra, volumes e rachuras. A imagem é "chapada" ou tem maior refinamento em sua composição? Como isso lhe afeta?
- Qual é a época em que o baralho foi produzido inicialmente? Como era a produção artística do momento? Uma boa dica é ver documentários sobre o período. Para se familiarizar, vale a pena fazer um curso de História da Arte.
- Use todas as informações até o momento para referenciar sua leitura da carta.
- Agora compare com algum livro de referência em cartomancia. Entretanto, perceba: antes de ir ao texto, você, por si só, já construiu o seu texto.
- Se possível, escreva o seu texto em seu diário de jogos ou mesmo em um blog. É sempre bom conversar com pessoas sobre os temas que lhe agradam, e essas conversas podem alterar drasticamente o rumo da sua visão das coisas.


Para ver os artigos originais, clique aqui e aqui.




quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Sobre a leitura. Ou: sobre como a leitura influencia todas as outras leituras.


Olá pessoal. Esses tempos, um respeitado estudioso de Xamanismo disse, em sua página no Facebook, que Coraline não era um livro para crianças. Ponto. (sim, ele escreveu "ponto".) Como a netiqueta - uma série de valores que vejo se perderem dia a dia nas redes sociais - me impede de discutir além do necessário na página dos outros, eu me calei (e meu silêncio nunca é consentimento) mas fiquei com aquilo na cabeça. Existem livros que não devem ser lidos? Quem pode me dizer o que eu posso, ou não ler? Quem pode impedir alguém de ler algo?
Bem, eu trabalho com imagens como textos. O tempo todo. Isso faz com que eu queira traduzir o mundo em palavras, ou o inverso: que eu tente traduzir palavras para imagens. Na verdade, se você lê algum oráculo, você também faz isso, e espero que, como eu, faça o tempo todo. 
É no cotidiano que aprendemos a interpretar o que lemos. Seja em livros, ou em cartas de baralho.
E então, tive a oportunidade de ler no ConversaCult um texto de um dos meus autores favoritos: Neil Gaiman. Que, inclusive, desde Coisas Frágeis, me deixou com vontade de ler o Tarô que ele prometeu (mas promessas de Neil Gaiman são como borboletas; você sabe que elas aparecerão em algum momento, mas até lá, é melhor cultivar mais flores). E Neil Gaiman defende a leitura. De qualquer coisa. A qualquer tempo.
Até leituras ruins nos levam a um bom lugar - o lugar do que gostamos tem por calçada tudo aquilo que deixamos para lá.
Então, como cartomante que sou, sou obrigado a concordar com Gaiman. Tudo o que eu li me preparou para ser o cartomante que sou hoje. Porque nos livros encontrei palavras que traduziam as imagens que eu captava ao meu redor, e ressignificando essas palavras e imagens, meu baralho se tornou mais preciso e próximo daquilo que é ideal: a capacidade de, com empatia e comedimento, tocar as dores e feridas do outro para, se não curá-las, ao menos dizer que elas estão lá.
Tem muita gente que passa pela vida sem perceber o quanto dói carregar escaras que ninguém mais vê.
Dá uma passada no ConversaCult (o texto a que me refiro está nesse link aqui). Leia e me diga se concorda com Gaiman como eu. Depois me conte.
Abraços a todos. 
Sobretudo, aqueles sem preconceitos literários.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Trinta e seis bênçãos do Petit Lenormand.

Eu gosto muito de postar cartas. Acho uma gentileza, um carinho e uma atenção que estão sendo perdidas em função da velocidade da contemporaneidade. Entretanto, cartas são vias de mão dupla; muitas vezes, perdemos o contato, perdemos o endereço, perdemos a vontade de mantermos uma comunicação manuscrita, quando podemos enviar um e-mail ou comunicarmo-nos pelas redes sociais.
Esse mês, resolvi fazer uma pequena brincadeira com os meus amigos. Prometi uma carta para aqueles que me enviassem os seus respectivos endereços. A verdade é que não seria uma carta qualquer; abri um Baralho Para Ver a Sorte e, a cada endereço enviado, eu embaralhava as cartas e a carta que aparecia era a carta que eu enviava, como um desejo de feliz ano novo. Mas confesso que foi desafiador, mais do que parecia à primeira vista. Como enviar uma serpente? Como enviar um Caixão?


Entretanto, a cada carta se mostrava, como não poderia deixar de ser, adequada ao seu destinatário. Cabia a mim, nesse processo, encontrar a bênção adequada. Conforme minhas conversas com a Tânia Durão - e foram várias - podemos extrair sim coisas boas de cartas ruins, o que se mostra inevitável; tragos amargos também trazem cura. E eu aceitei o desafio de enviar bênçãos a partir dessas cartas também. 


A cada carta que chegava, eu via o quanto essas bênçãos eram de mão dupla. Eu percebia a felicidade do recebedor e ela passava a ser minha também. E eu percebi o quão importante é percebermos os bens que podemos ter a partir de todas as cartas.
Foram trinta e seis bênçãos do Petit Lenormand. 
Trinta e seis vezes que fui abençoado também. 
Abraços a todos.

domingo, 22 de novembro de 2015

Um passo à frente.

Olá pessoal. Eu não sei vocês, mas eu me cobro muito. Muito mesmo. Não tomem isso como vantagem, porque não é. Cobrar-se em demasia é ficar polindo a laranja eternamente. 
Laranjas, até onde sei, não viram diamantes.
Mas ultimamente tenho sido levado a refletir sobre os fatores ambientais desse meu péssimo hábito. E chegado a conclusões interessantes, não só como pessoa, como também como cartomante. E é esse segundo ponto que nos interessa ser desdobrado.
Somos a média das cinco pessoas com quem mais convivemos. Esse texto foi de um impacto em mim que vocês nem imaginam, a menos que tenham tido o mesmo impacto em vocês. Até que ponto somos guiados ao nosso melhor, e até que ponto, ao contrário, somos levados para baixo, sem percebermos?


Nessa tirinha do Fabio Coala, vemos claramente que poderíamos seguir sozinhos se não fôssemos gregários. 
Um pouco mais de Mago. E um pouco mais de Louco. 
Conforme o ditado... Deles, cada um de nós tem um pouco. 

Abraços a todos.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Entendimento, ou: para todo mal, há cura.

Olá pessoal. Esse texto é o resultado de uma conversa muito feliz com o Endimião, do Sono de Endimião
A conversa foi feliz.
O tema, não.


Como cartomante, eu tenho sempre em mente a questão do devir. Aquilo que eu vejo vai acontecer, pode acontecer ou, pelo simples fato de eu ter visto, nada será como poderia ter sido? O que dizer diante das coisas que eu não fui capaz de Ver? 
Até então, aceitei a resposta mais simples, nem por isso menos sincera: eu não sou capaz de tudo. Eu vou o mais longe que minhas habilidades permitem, sem saber exatamente qual é o limite disso. Mas ele existe. 
Hoje, entretanto, eu vou um pouquinho além nessa questão. Sugiro que você leia o texto supracitado primeiro. Como essa reflexão parte da nossa conversa, é interessante que você conheça o começo dela. 


Já leu? Agora coloca isso aqui para tocar. A ideia é termos juntos uma experiência sinestésica.

Eu ganhei um jogo de Tarô de aniversário. Uma Mandala Astrológica. Na casa 12, um Arcano curioso: Temperança. 
"Você vai ter que aprender a esperar". Engoli em seco. Mas o conselho do baralho não deve ser ignorado; ele nunca é inocente.
Ative minhas questões a outras casas da mandala, e esqueci aquela ali. Embora ela represente os maiores perigos, ela estava razoavelmente bem aspectada. 
Ah, que engano...


Fui para o treino de judô, em paz, depois de três semanas sem treinar. Eu tinha que retomar o tempo perdido, afinal de contas três semanas sem treino é muito tempo. Treinei como se não tivesse parado. A ideia era retomar a forma o mais rápido possível, forma que havia perdido nas férias de quinze dias que tirei. 
Daí, ocorreu um acidente. Caí errado, luxei meu ombro. Na hora, nem me toquei direito. Um pouco de Reiki e um antiespasmódico e tô pronto para outra. Duas da manhã, acordo urrando de dor. Corro para a emergência. Tomo remédio na veia. Tiro Raio X na manhã seguinte, e o médico diagnostica: luxação. Quinze dias em casa. 
"Dependendo da sua recuperação, conversamos se você volta para os treinos em um mês ou mais."
Aquilo doeu como um soco no estômago. Eu estava com todo o gás para retomar as minhas atividades, sobretudo os meus treinos. 
Não estava?
Por que eu mereceria esse castigo?

E é aqui que eu e o Endimião entramos em um comum acordo. A vida não é um Big Brother divino de merecimentos. Não houve ali um merecimento. Um castigo. Houve um acaso - e eu tenho que lidar com ele adequadamente.
Mas é aí que entra a Temperança, essa carta tão complexa para uma casa 12. Aprender a esperar é confiar na Noite Escura.
A Noite Escura é um dos poucos conceitos religiosos que me soam lógicos. Sim, mais de uma vez eu vi no meu baralho meus clientes sem saber como agir, e o não agir era a melhor escolha. O cuidado que lhes deveria oferecer estava ligado ao bem estar nesse hiato entre uma fase e outra da vida. E tudo dava certo, como não poderia deixar de ser.
Normalmente, a Noite Escura está associada ao Enforcado, mas hoje a gente vai encontrar esse conceito lá na Temperança, que me visita na casa 12.
O Anjo da Temperança, a Solitude hermafrodita do encontro adequado dos opostos em comum acordo dentro do ser. Quantas vezes nós buscamos no outro, em uma situação, em um contexto, respostas que soariam mais como desculpas que como resultados dignos da pergunta que os motivou?
Por que? Por que... Comigo?
Por que justo agora?
A Ivana, muito sábia, retrucou: "você acha mesmo que algo tão importante iria passar batido na Mandala? A Mandala mandou você descansar. E é exatamente o que você está fazendo, mesmo sem querer, mesmo de uma forma que doeu. Mas você está descansando. Aproveite o momento e aprenda a lição."


O Anjo da Temperança dosa, doa de um jarro a outro, sem pressa, com precisão. No escuro de uma recuperação, só podemos fazer o melhor por nós mesmos. 
E não confiarmos no Anjo. Embora ele vá fazer sua parte.
Até lá, eu sigo cuidando de mim. Não há culpados, inocentes ou vítimas. 
Há o entendimento. E para todo mal, há cura.
Sem pressa.

Enquanto isso
Não nos custa insistir
Na questão do desejo
Não deixar se extinguir
Desafiando de vez a noção
Na qual se crê
Que o inferno é aqui

Abraços a todos.


Atualização em 19 de novembro de 2015.
A conversa continuou no Facebook, e o Yub Miranda, que já esteve por aqui falando dos Enamorados, deu uma aula de leitura sobre a Temperança na Casa 12. 
Eu não posso fazer nada além de endossar, assinar embaixo, me reconhecer em cada linha. E transcrever aqui, para que você possa usufruir também.

Querido, acabei de ler o post no seu blog. SHOW de questionamentos e reflexões. Só discordo de um detalhe que vc escreveu: "Não houve ali um merecimento. Um castigo. Houve um acaso - e eu tenho que lidar com ele adequadamente."Não considero que houve um acaso. Considero que houve uma CONSEQUÊNCIA da sua decisão imprudente de acelerar (recuperar a forma e o tempo de treinos que perdeu com as férias) o ritmo das coisas. Esse é o pecado maior dA Temperança. Se ela pede paciência, é porque estamos impacientes rsrs E como está na Casa 12, que - dentre os vários significados desta Casa do Mandala - pode representar um padrão inconsciente que vive se repetindo e precisa de tomar consciência, a fim de não deixar que esse padrão comportamental nos aprisione (outro atributo da 12), vc se deixou levar pelo padrão da ansiedade e da pressa que precisava ser moderado (Temperança). E a Temperança mostra que algo em nós que tá com raiva do que se perdeu (Morte = Arcano Anterior) e ambiciona exagerar (Diabo = Arcano Sucessor) para recuperar essa perda. Só que é justamente aí que ela entra. Se você tivesse ido com calma, fluindo com o ritmo de reconquista de sua forma e treino, vc não teria se machucado. Porque o efeito, a consequência do treino, não seria esse: se machucar por conta de uma afobação em apressar o ritmo que a Temperança não gosta de acelerar...Por tudo isso, não considero que foi um acaso... Se tivesse sido uma RODA DA FORTUNA = aí sim, teria sido um acaso. E este teria sido provocado por terceiro (Roda da Fortuna) = o seu colega que lhe machucou. ;)


Reparemos: existem detalhes que se escondem na escrita. E nem eu percebi que eu AINDA estava apegado a ideia de me consolar com o evento, para que ele doa menos. 
Não. Ele está doendo na medida necessária para tatuar a aprendizagem.
Temperança... Não canso de aprender com você. 
Mas me deixa voltar a treinar #brinks

E como não poderia deixar de ser, deixo aqui os links para os trabalhos das pessoas citadas nesse artigo, por dois bons motivos: 
1. Aqui só tem gente preciosa.
2. Confio. E vale a pena nesse fim de ano procurar alguém que se confie.

Endimião. Nós somos resultados não só do que estudamos, mas da forma como vemos o mundo. Leio tudo o que esse rapaz escreve desde a época do Diannus do Nemi. É acuro na escrita, precisão e preciosidade no conceito, tudo isso temperado com vida, com experiência, com reconhecimento. O que Endimião vê como leitura da Bruxaria, você pode ver aqui. Para uma leitura de Tarô com um olhar pagão, clique aqui.

Ivana Mihanovich. Além de ser uma taróloga porreta e dona de uma leitura singular. a Ivana possui um livro MUITO bacana, que vale muito a pena ser lido. Adquira aqui.

Yub Miranda. O Yub possui dois canais no Youtube: Sacadas de Astrologia e Sacadas de Tarô. Vale muito a pena ver cada um dos vídeos, são aulas de interpretação por quem sabe o que está fazendo.  Assista aqui a uma aula sobre o Ascendente. E aqui, o link para o livro no qual ele disserta sobre cada Arcano Maior em cada casa da Mandala Astrológica.