Queridos, essa é uma das cartas mais controversas na interpretação do Petit Lenormand, justamente pelo paradoxo que a própria Serpente é. Algumas interpretações são mais positivas que a carta merece, outras mais negativas que a sombra que carrega, mas, ao fim e ao cabo, ambas refletem apenas as mãos que manipulam o baralho e falam mais sobre o cartomante que sobre a carta em si. Sabendo disso, convido-os ao deleite de ler o texto da Ma Vechi, uma surpresa agradabilíssima e uma amiga querida feita no grupo. Obrigado por aceitar o convite e ser essa pessoa tão querida.
PETIT LENORMAND
CARTA 7
A COBRA
QUEM TEM FAMA...
A Cobra. Quando ela aparece, o estremecimento antecipa a sensação do ataque iminente, o perigo, o veneno, a morte. O medo se instaura e de modo terrível vem o pressentimento da traição, do bote, da fatalidade, do estrangulamento. Ela paralisa e chama todas as atenções. Impiedosa no ataque às vítimas incautas, essa criatura merece ser tratada com atenção e respeito.
Esperta e utilizadora sábia do seu instinto de preservação e sobrevivência, ela aprendeu a mudar de cor, camuflar, se esconder e até a emular sua própria espécie. Nem toda cobra é venenosa, observem a Coral e a Falsa Coral, uma quer ter o mesmo poder letal e a mesma aparência da outra. Faz parte da sua natureza.
Entretanto, há de se aprofundar o olhar sobre este símbolo por vezes visto de forma tão maniqueísta, acabando de vez com a sensação de terror pura e simples, pois que esta lendária figura carrega em si o seu lado bom também. Antes de acharem tão louca quanto estarrecedora a hipótese, vamos a algumas considerações que lhe servirão de antídoto para esse horror a um dos mais famosos vilões do mundo animal, e por extensão...o humano.
ATO I – A GÊNESE – A COEXISTÊNCIA ETERNA ENTRE O BEM E O MAL E A NECESSIDADE DOS OPOSTOS
Gênesis, 1, 1: No princípio, Deus criou o céu e a terra. 2 A terra estava sem forma e vazia, as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. 3 Deus disse: “Faça-se a luz!”. E a luz foi feita. 4 Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas. 5 Deus chamou à luz dia, e às trevas noite. (...) 25 Deus fez os animais selvagens segundo a sua espécie, os animais domésticos igualmente, e da mesma forma todos os animais que se arrastam sobre a terra. E Deus viu que isso era bom.26 Então Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra”.
Citamos a Bíblia como exemplo clássico da natureza dual de todas as coisas. Assim como existem as trevas e a luz; os pássaros, os peixes e os animais domésticos; também existem os monstros marinhos, os animais selvagens, os répteis. Afinal, como reconhecer o dócil sem o selvagem? A beleza sem a repugnância? A passagem bíblica diz claramente que na natureza tudo é dual, e isso é bom, mas o mais importante, é que o ser humano tem o poder de reinar sobre todos os outros seres. Desde que ele reconheça a dualidade em si mesmo, sendo também integrante de tudo o que existe.
RAÍZES DAS CARACTERÍSTICAS DA INVEJA, CIÚME, TRAIÇÃO, SEDUÇÃO E MANIPULAÇÃO – A SERPENTE COMO SÍMBOLO DO PERIGO QUE ESTÁ DENTRO DE SI MESMO
A jornada da Serpente começa nos idos tempos da criação:
Gênesis, 3, 1: A serpente era o mais astuto de todos os animais do campo que o Senhor Deus tinha formado. Ela disse à mulher: “É verdade que Deus vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?” (...) A mulher respondeu: Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: “Vós não comereis dele, nem o tocareis, para que não morrais”. 4 Oh, não! – tornou a serpente – vós não morrereis! 5 Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.
Temos aí alguns dos mais marcantes aspectos simbólicos da Cobra: sedução, manipulação, mentira, traição, intriga. A Cobra é aquele perigo que está sempre rondando, está sempre perto, insinuante, sedutora, induzindo-nos a cometer o pecado...muitas vezes o impulso, o instinto que cobrimos com o verniz social e culpamos o externo. A serpente não teve nenhuma dificuldade em convencer Eva a cometer a transgressão original. Tudo que ela precisou foi de um pequeno incentivo da nossa eficiente amiga.
Sabemos que na história Eva também fez o papel de sedutora de Adão. Entretanto, se os representantes humanos se deixaram manipular mesmo sabendo do tamanho da infração que cometiam, por quê o fizeram? A Cobra traz para estes personagens a sabedoria, o domínio do conhecimento do bem e do mal. Sereis como deuses, ela disse. Como não se render a este argumento, desde que não haja a semente do orgulho e do poder dentro de si?
É claro que Deus ficou irado com a desobediência castigando a todos. Em suas fracas defesas, quando Deus pergunta a Adão quem havia revelado o conhecimento de que estava nu, este prontamente culpa a Eva: “A mulher que pusestes ao meu lado apresentou-me deste fruto, e eu comi.” Eva, por sua vez, respondeu: “A serpente enganou-me – e eu comi.”
E então Deus disse à serpente: “Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais domésticos e feras do campo; andarás de rastos sobre o teu ventre e comerás o pó todos os dias de tua vida.” O mau uso da sabedoria da serpente acabou lhe rendendo frutos amargos, e enquanto este espécime rastejante observa o voo dos pássaros, o cavalgar dos animais de quatro patas, a inteligência e domínio dos humanos e sua liberdade, começa sua saga de vingança, cobiça, destruição e ódio, destilando seu veneno em quem quer que chegue perto.
PROJEÇÃO DO DESEJO: A COBRA COMO SÍMBOLO DA SEXUALIDADE E DOS INSTINTOS PRIMITIVOS QUE PROMOVEM A PROCRIAÇÃO
A descoberta da nudez e o “pecado original” foram levados ao conhecimento dos personagens humanos através da revelação da serpente. Com frequência, a Cobra nos remete a fazer associações com o falo e o ato sexual. Os instintos considerados animalescos e menos civilizados são necessários para a continuidade da espécie, bem como a força do prazer que nos movimenta à ação e procura de sustento. A Kundalini, energia criadora que reside em nosso chakra de base, responsável por nosso impulso de sobrevivência, é derivada de uma palavra em sânscrito que significa “enrolada como uma cobra”, ou “aquela que tem a forma de uma serpente”.
Falando de relações interpessoais e necessidade de comportamento, muitas vezes a Cobra nos pede malícia, sedução e sabedoria para se conquistar o que deseja; ou aponta aspectos da libido, até mesmo de como funciona a base de uma relação: se é de pura sexualidade que se sustenta ou se é da falta dela que determina o desequilíbrio desta área.
PAPEL FUNDAMENTAL DO ORÁCULO E SEUS SÍMBOLOS PARA ACESSAR NOSSO INCONSCIENTE – PARTE I
Falando de conhecimento, quem nunca ouviu falar da pitonisa, serpente sacedotisa de Delfos, do templo de Apolo? Desde a criação do mundo, até Deus reconheceu este maravilhoso atributo do sábio animal. Os gregos dão extrema relevância aos Oráculos, e histórias trágicas há que nos apontam o fato, tal como o final de Édipo e Jocasta, quando ele resolve ignorar as profecias. A Cobra é um dos mais famosos simbolismos de sabedoria das antigas civilizações, e por intermédio do Oráculo, temos acesso a informações privilegiadas – pasme – de nós mesmos.
PARTE II: O CONSULENTE: VÍTIMA OU ALGOZ? O QUE HÁ POR TRÁS DOS BOTES
Como vimos, todo símbolo carrega a dualidade em si. Quando a Cobra aparece em posição de destaque perto daquele que consulta, cabe ao oraculista ver onde mora o perigo. Se a Cobra está parada bem na sua frente...você sabe o que fazer. É do veneno que se faz o antídoto. Porém, se o consulente apresenta um padrão repetitivo de ataques de Cobra, existem coisas que devemos analisar:
1) O consulente se vê como herói: talvez o próprio tenha superestimado sua força e chamado a Cobra para o desafio, provocando sua própria queda. A Cobra não aceita desaforo e vai para cima do oponente, porque é seu papel e seu instinto;
2) As vantagens de obter o tratamento de vítima: o consulente “abre a guarda” para inveja, puxadas de tapete e intrigas, cometendo os mesmos erros “inocentes” de expor suas fotos da última viagem à Europa em frente à mesa do colega de trabalho endividado e prestes a perder o emprego por falta de capacitação ( e de escrúpulos), contando que é o próximo da lista na promoção, faz confidências sobre a infidelidade ou sobre a sexualidade desenfreada do chefe...para logo em seguida perguntar “o que foi que eu fiz para merecer isto?” A Síndrome do Bonzinho nada mais é do que pisar no covil de cobras...e gostar de receber atenção por isso.
3) O medo extremo, o grande impacto emocional que a imagem de símbolos como a Cobra causam, com seu consequente enfrentamento, podem significar um desejo de volta ao paraíso, retorno à inocência, ingenuidade de acreditar num mundo idealizado onde tudo é perfeito e não existe o mal, indivíduo fantasioso e infantil que não gosta de ter responsabilidade pelo que acontece em sua própria vida, que tem a ilusão de que o mundo tem que protegê-lo e isso é uma condição natural de merecimento.
4) Baixa autoestima: tem sempre alguém que vai aparecer para tirar sua promoção, sua oportunidade de progresso, seu emprego, fazer intrigas e difamá-lo com seus melhores amigos, que vai enganar, trapacear, que existe sempre um parceiro mais sedutor e com mais atributos que vai atrair o seu par, sempre alguém com superpoderes que vai atacá-lo e que será incapaz de defender seu território, não acredita em si, não acha que é bom o suficiente, inconsciente de seu próprio poder pessoal.
É com uma desagradável frequência que aparecem consulentes perguntando sobre traição no relacionamento. Sobre esta delicada questão, devemos ter muita cautela, primeiro porque o traído em primeiro lugar traiu a si mesmo; segundo, “o coração alheio é terra por onde ninguém passeia”. Nunca poderemos prever as consequências de dizer que alguém está sendo traído. Um indivíduo mental e energeticamente desequilibrado pode cometer atos impensados como um suicídio ou um crime passional. Sabemos da fama da Cobra como indicativo da terceira ponta de um triângulo amoroso, entretanto...é preciso usar de muita cautela neste momento.
Satanizando a Cobra, estreitando e simplificando a percepção do seu lado sombrio, deixando de compreendê-la e enfrentá-la, perdemos uma excelente oportunidade de autoconhecimento. Deixo ao célebre psicanalista Carl J. Jung (1875-1961) uma reflexão da riqueza psicológica que desperdiçamos ao fazê-lo:
“A batalha entre o herói e o dragão é a forma mais atuante deste mito e mostra claramente o tema arquetípico do triunfo do ego sobre as tendências regressivas. Para a maioria das pessoas o lado escuro ou negativo de sua personalidade permanece inconsciente. O herói, ao contrário, precisa convencer-se de que a sombra existe e que dela pode retirar sua força. Deve entrar em acordo com o seu poder destrutivo se quiser estar suficientemente preparado para vencer o dragão – isto é, para que o ego triunfe precisa antes subjugar e assimilar a sombra.”
(Retirado do livro “O Homem e seus Símbolos”, 22ª edição, p. 120)