terça-feira, 11 de setembro de 2012

Um agradecimento a todos vocês.



Eu pertenço a old school. Tenho dificuldades com e-books. Estou tentando me adaptar aos novos tempos, mas ainda gosto do cheiro, da textura, do ato de folhear. Um livro ainda é um livro.
Acabou de chegar o meu livro em versão impressa. Por mais que eu tenha feito todo o processo de edição e envio para a editora, todo o processo foi virtual, à frente de um computador. Quando abri o pacote, e vi o livro em minhas mãos, senti uma emoção que jamais tinha sentido antes. Era parte de mim, à parte de mim, feito por mim. Era meu. 
Mas não fiz isso sozinho - são três anos, quase quatro, de conversas com os mais diversos públicos. Não teria acontecido se eu não tivesse com quem conversar. E isso me encheu de gratidão. Eu só tenho a agradecer.
Obrigado a todos aqueles que vem me ensinando há tempos sobre o ofício da cartomancia. Que, por concordar ou discordar, por acrescer ou questionar o que digo, não me permitem parar de estudar. Obrigado a todos os meus clientes, que me oferecem os feedbacks que me mantém no caminho. Obrigado aos colegas. Obrigado aos amigos. Obrigado, mesmo. 
Eu dediquei este livro a todos aqueles que decidiram dar um passo à frente, sem a menor noção do resultado. E que descobriram que o resultado foi bom.
Sem vocês, eu jamais saberia disso, ou mesmo teria dado um passo à frente. Obrigado.
E que, assim como senti, quando tiverem o meu livro em mãos, ou em e-book, que vocês também possam sentir que ele é, a partir desse momento, de vocês, também. 
Caso queira adquirir o livro, clique aqui.

A Paula, do Cozinha do Quintal, postou no blog dela sobre o livro. Acessem, não só por isso, mas porque é um blog admirável. É delicioso o reconhecimento das pessoas que amamos.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Para o entendimento do Arcano 18 do Petit Lenormand.

Em outubro de 2010, escrevi um artigo sobre o filme Hachiko, que se aplica muito bem ao estudo que estamos fazendo. Portanto, reformulei-o, retirando o material referente ao Tarô e concentrando-me no Petit Lenormand.



A carta 18 do Petit Lenormand é representada por um cão, corresponde ao Dez de Copas e seu poema (Carta Mundi em inglês, tradução livre): "Companheiro, o cão brincalhão / fiel e amigável todos os dias, / ao menos enquanto está perto de você / e distante das nuvens."
Uma excelente carta para se ter como companhia de jornada.



Enquanto escrevo isso, caem ainda lágrimas sobre o teclado (espero que isso não o danifique) - dois anos se passaram e eu ainda sinto o mesmo efeito. Assistir o filme Sempre ao seu lado é reconhecer a lealdade em uma história real. Meu pai já o havia assistido e, tendo se emocionado bastante, me recomendou assistir também. Só que filmes encontram seus momentos e este não havia encontrado sua hora. 
E agora vou assistir novamente.

Hachiko (忠犬ハチ公), foi um cão da raça Akita nascido em 10 de Novembro de 1923 na cidade de Ōdate, na Prefeitura de Akita. É lembrado por sua lealdade a seu dono, que perdurou mesmo após a morte deste.




Excerto do blog "Os uivos da Loba":

Era 1924 quando um cão da raça Akita foi enviado à casa de seu futuro proprietário, o Dr. Eisaburo Ueno, um professor do Departamento Agrícola da Universidade de Tóquio. A história dá conta de que o professor ansiava por ter um Akita há anos, e que tão logo recebeu seu almejado cãozinho, deu-lhe o nome de Hachi, ao que depois passou a chamá-lo carinhosamente pelo diminutivo, Hachiko. Foi uma espécie de 'amor à primeira vista', pois, desde então, se tornariam amigos inseparáveis!



O professor Ueno morava em Shibuya, subúrbio de Tóquio, perto da estação de trem que leva o mesmo nome. Como fazia do trem seu meio de transporte diário até o local de trabalho, já era parte integrante da rotina de Hachiko acompanhar seu dono todas as manhãs. Caminhavam juntos o inteiro percurso que ia de casa à estação de Shibuya. Mas, ainda mais incrível era o fato de que Hachiko parecia ter um relógio interno, e sempre às 15 horas retornava à estação para encontrar o professor, que desembarcava do trem da tarde, para acompanhá-lo no percurso de volta a casa.
No dia 21 de maio de 1925, Hachiko, que na época tinha pouco menos de dois anos de idade, estava na estação pacientemente como de costume, e de rabinho abanando, à espera de seu dono. Só que o professor Ueno não retornaria naquela tarde de 21 de maio: sofrera um derrame fatal na Universidade que o levou ao óbito. Destarte, ainda que alheio a realidade, naquele dia o leal e fiel Akita esperou por seu dono até à madrugada.




Após a morte do professor Eisaburo Ueno, parentes e amigos passaram a tomar conta de Hachiko. Mas, tão forte e inexpugnável era o vínculo de afeto para com seu amado dono — lealdade, fidelidade e incondicional amor levados ao extremo —, que no dia seguinte à morte do professor ele retornou à estação para esperá-lo. Retornou todos os dias, manhã e tarde à mesma hora, na incansável esperança de reencontrá-lo, vê-lo despontar da estação de Shibuya. Às vezes, não retornava à casa por dias!
Foi assim por dez anos seguido  repetindo a mesma rotina, quiçá já não tão feliz, razão pela qual já era uma presença familiar e pitoresca para o povo que afluía à estação. E ainda que com o transcorrer dos anos já estivesse visivelmente debilitado em conseqüência de artrite, Hachiko não se indispunha a ir diária e religiosamente à estação. Nada nem ninguém o desencorajava de fazer sua peregrinação!
Em 8 de março de 1935, aos 11 anos e 4 meses, Hachiko é encontrado morto no mesmo lugar na estação onde por anos a fio esperou pacientemente por seu dono, onde durante dez anos se tinha mantido em vigília.




Hachiko, como não poderia deixar de ser, tornou-se um marco, um referencial de amizade talvez jamais igualável em qualquer era anterior ou futura na história. Sua descomunal lealdade e fidelidade receberam o reconhecimento de todo o Japão. Em 21 de abril de 1934, praticamente um ano antes de sua morte, uma pequena estátua de Hachiko, feita de bronze pelo famoso artista japonês Ando Teru, foi desvelada em sua honra numa cerimônia perto à entrada da estação de Shibuya, local onde morreu. Era a memória de Hachiko sendo imortalizada.




Durante a 2ª Guerra Mundial, para aplicar no desenvolvimento de material bélico, todas as estátuas foram confiscadas e derretidas, e, infelizmente, entre elas estava a de Hachiko.
Após a guerra Hachiko foi duramente esquecido. Todavia, como toda história que se preze precisa ter um final feliz, em 1948 a The Society For Recreating The Hachiko Statue, entidade organizada em prol da recriação da estátua de Hachiko, convidou Ando Tekeshi, o filho de Ando Teru para esculpir uma nova estátua. Até os dias de hoje a réplica encontra-se colocada no mesmo lugar da estátua original, em símbolo de um tributo à lealdade, confiança e inteligência da raça Akita.



Uma belíssima história, que me tocou profundamente, facilmente relacionável à carta 18 do Petit Lenormand; em um nível mais físico, representa os aliados e amigos, sendo passível inclusive de representar o Anjo da Guarda do consulente, ou um espírito amigo (como em todos os casos que transcendam a interpretação corrente, é importante respeitar e adequar a linguagem às crenças do consulente, para que ele possa assimilar a informação sem se assustar).




De qualquer forma, o cão é um observador - ele vela o sono enquanto o dono dorme, ele enxerga aquilo a que o dono não deu a devida atenção. Serve como alerta para o que ele estiver observando; apesar de não causar dano direto, o dano indireto pode ser evitado pela antecipação oriunda da visão clara.
clique para ampliar

O Fábio Coala postou uma tirinha que é exatamente a ideia que o Cão oferece. Ele não se afeta pelo dano direto, nem mesmo vindo pelo dono. Uma das questões que percebo em minhas leituras é que o potencial positivo do Cão é tão poderoso que cancela ou atenua o efeito negativo das cartas que a ladeiam. Essa é de fato uma carta afortunada - quem tem um amigo, tem (mais que) um tesouro. A fidelidade do Cão é sobretudo, ao que acredita, ao que é; em seguida, ao que atende.
Contudo, a lealdade, a fidelidade não devem ser esperadas. Devem ser vividas. Semelhante atrai semelhante. Quanto mais leais formos, mais fiéis formos, mais facilmente atrairemos esses valores para nós, com pessoas de mesma ressonância. Nunca soube de um cão que oferecesse seu amor condicionalmente.
Abraços a todos.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Para o entendimento da carta 03 do Petit Lenormand.


Olá pessoal. A carta 03 do Petit Lenormand representa um Navio, está relacionado ao Dez de Espadas, e seu poema diz (Cartamundi, versão em inglês, tradução livre): "O navio é sempre um bom sinal / Ele anuncia, verdadeiramente, / uma jornada feliz e lucros, / e talvez uma herança para você."
Uma carta tão bonita, tão ampla, que merece uma reflexão e tanto. Espero que possamos trilhar juntos essa viagem.


Neste baralho, acima do Navio temos o avião.
Um acréscimo atributivo que auxilia na interpretação 
contemporânea dos conceitos da carta.

Para nós, homens e mulheres do século XXI, a ideia do Navio está longe de ser clara. Primeiro, porque Navios não são mais o meio de transporte intercontinental por excelência: temos os aviões, agora. Segundo, porque tudo é muito mais rápido do que costumava ser na época em que esse baralho foi feito.
Para nós, Navios correspondem a cruzeiros românticos de férias... Não mais questões prementes e imediatas a resolver. E esse é um ponto a se pensar. Você faz ideia do quão primordial foi a presença dos Navios na história do mundo? Sem Navios, talvez ainda engatinhássemos em nossas próprias culturas, confinadas em nossas próprias geografias. E um mundo desconhecido, povoado por monstros ou pelo fim do mundo, estaria . Duas letrinhas que contém tantas possibilidades..!



O Navio transporta, mas, ao contrário do Cavaleiro, o transporte aqui é por longa distância. É possível carregar mais peso, mais variedade. E mais: um Navio é uma Casa em alto-mar, o estável na instabilidade, podendo ser chamada de Lar por muitos. O Navio é o meio do caminho entre a carta 01 e a 04. Só que é um "meio do caminho" que vai além.


Recebi da Silvia Saccheto (uma querida!) o vídeo acima. Fora o fato de ter chorado de soluçar (meio difícil não acontecer), elementos interpretativos do Navio estão evidentes no vídeo. Acho bacana assistir antes de continuar a ler.



Partir. Chegar. Interlúdio entre ambos.
E nada mais é o mesmo, nem para quem vai, nem para quem fica, porque o Tempo não tira férias. Navega-se pelo Mar da Vida uma vez só. Não é algo que dê para voltar. Isso a relaciona também a questões de saúde: o corpo é o navio com o qual navegamos esse Mar de oxigênio, gente, carros e pessoas.



Falando em Mar, aqui no Brasil essa carta foi reinterpretada a partir desse parâmetro. A essa carta foi sincretizada Iemanjá, a Rainha do Mar, Mãe de todos os Orixás. A atribuição de Orixás às cartas é devera recente, frente à origem do oráculo (conta com pouco mais de duas décadas). Porém funciona. É o tipo de jogada que recomendo apenas para quem se identifica com as religiões afrobrasileiras. Mais sobre a forma cigana de jogar, aqui
Quando o Navio sai no jogo, é importante atentar-se para onde ele está indo. O caminho é seguro, mas lento; correto, mas inexorável. Sabe-se aonde se quer chegar e, a menos que hajam acidentes de percurso, não se mudará de ideia.


Aproveitando a postagem, gostaria de divulgar o projeto Under the Roses Lenormand. Um baralho suave, intenso, belíssimo. Está em andamento, você pode acompanhar a publicação das cartas aqui.




Vale a pena.
Abraços a todos.
Fonte das imagens: Rozamira Oracles

Para quem gostou do texto e mora no Rio de Janeiro, estarei dando um curso presencial entre os dias 6 e 7 de outubro de Petit Lenormand para o cotidiano. E, para quem gosta do que lê por aqui, o Conversas Cartomânticas virou livro, podendo ser adquirido aqui.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Para o entendimento da carta 15 do Petit Lenormand.


A carta 15, do Petit Lenormand, representa um Urso, relacionado ao dez de Paus, e seu poema (Lenormand Cartamundi, tradução livre) fala "Bem-estar e alegria é a mensagem com o urso está à vista; mas, diz ele, atente cuidadosamente para a inveja , malevolência e despeito." É tida por Katja Bastos e J. Dellamonica como a "pior carta do Tarô Cigano". Existe um dégradée interpretativo entre as ideias de alegria e bem estar até a inveja e olho gordo conforme interpretado aqui no Brasil. E é esse dégradée que buscarei abordar nesse texto. 


Do site Yahoo!:
Um campista foi dilacerado até a morte por um urso no Parque Nacional do Alasca, nos Estados Unidos, após tirar fotografias do animal, disse neste domingo o Serviço de Parques Nacionais desse estado.
A vítima, de San Diego, Califórnia, estava fotografando o animal a menos de 45 metros de distância - contrariando as diretrizes do Parque Nacional Denali - na sexta-feira, quando foi atacado.
"Três visitantes descobriram uma mochila abandonada (...) e depois viram evidências de uma luta violenta, com roupas rasgadas e sangue", disse Servilo de Parques sobre o ataque, o primeiro registrado na reserva do Alasca.
"As evidências iniciais indicam que o ataque aconteceu nas proximidades do rio Toklat e que depois o urso levou a vítima para um local mais afastado", disse o comunicado.
O animal foi capturado e morto no sábado, segundo o Alaska Dispatch, que cita como fonte o superintendente do Parque Nacional Denali, Paul Anderson.

Nós, brasileiros, conhecemos ursos a partir de circos e zoológicos, quando temos sorte, ou em filmes, ou, na pior das hipóteses (pelo menos no viés interpretativo do Petit Lenormand) apenas como seres fofos e peludos que pulam pelas campinas saídos de uma Nuvem Rosa oferecendo amor e carinho #UrsinhosCarinhosos. Nós não nos relacionamos com o animal. Ele não faz parte de nosso cotidiano. Não faz parte de nossa história, de nosso habitat. Parece pouco, mas isso causa efeitos em nossa interpretação. No texto anterior, falei sobre a ideia de conceito no Tarô ser o resultado da soma imagem + nome + número. No Petit Lenormand não é muito diferente. Aqui, a ideia é formada pela soma da figura + título (quando se aplica) + naipe


Ao invés de Urso, certos baralhos brasileiros de inspiração cigana chamam essa carta de Falsidades. O olho atrás dele não traz as ideias de observação e visão clara, próprias da sua simbologia. Aqui temos o olho gordo, a inveja, o despeito, o desejo de ver você na lama escondido atrás de um sorriso amarelo. E bem sabemos que o olho gordo pode até adoecer uma pessoa. Energias, energias. Mas, apesar de o olho nos ser familiar e garantir o acesso a parte do significado da carta, perceba que só por esse significado limita-se (e muito!) as perspectivas que ele pode oferecer.

Gatsu, protagonista do mangá Berserk

O espírito do Urso (e aqui tomo o termo no sentido de inspiração, de motivação, de exemplo muito mais que em energia transcendental identitária) motivou inclusive uma classe de guerreiros, os Berserk (tradução possível: "capa de urso", dado vestirem-se com peles do animal). Guerreiros que enlouqueciam religiosamente no calor do combate, a ponto de não ligarem para a dor e cometer atrocidades sem consciência e reflexão sobre o ato. Atualmente o termo indica fúria incontrolável, loucura assassina.

Só isso já me faz ver a carta com certa reserva. Mas tem mais.

O Urso pardo (Ursus arctos) "é um animal solitário, contudo sabe conviver pacificamente quando existe abundância de alimento." Ou seja, é um animal selvagem no melhor sentido do termo, o mais selvagem dos animais presentes no Petit Lenormand. Mas não é o mais perigoso.
Ele não vai procurar deliberadamente contato com os humanos. O contato será fortuito, a menos que ele esteja com fome e/ou o humano seja inconsequente demais para procurar por sua morte. Porque o resultado é esse ou uma fuga... Torço pela segunda opção.

Portanto, quando ver o Urso em uma jogada, lembre-se que seus influxos podem ser evitados. Não entre em seu território. Não invada seu espaço. Não altere sua rotina. Viva e deixe viver. Talvez esse seja o maior desafio diante dessa carta - é muito difícil respeitar limites quando estes são colocados no meio da jornada.
Como representante de uma personalidade (adjetivando as cartas 13, 28 e 29), o Urso indica um humor indócil, taciturno, casmurro, protetor e solitário. Conseguir o amor de uma pessoa assim é difícil, mas não impossível - e é um amor difícil de perder... 


...Mesmo que se queira. Ciúme, possessividade, por vezes levados às últimas consequências. Não é só em filmes que ouvimos a famigerada frase "se não for meu/minha, não será de mais ninguém", infelizmente. O Urso é um egoísta, no amplo sentido do termo. Tudo é dele, para ele, senão não interessa, senão não é bom e não vale a pena.


Existe também a possibilidade de correlacionar o Urso a subgrupo homônimo da cultura LGBT. Conforme a Wikipedia,
Urso em comunidades GLBT é uma referência metafórica ao animal do mesmo nome com notáveis características semelhantes. Essas características incluem seus pêlos, suas proporções, e seu perceptível poder masculino. O urso é gordo e poderoso, e da conciliação destas duas qualidades é o cerne do conceito de urso. É também não é coincidência que ursos são normalmente muito semelhantes à aparência do ideal do norte-americano de lenhador. Lenhadores frequentemente encontram ursos e os dois sempre foram associados entre si. 

Ainda que possível, é bom utilizar tal perspectiva hype com cuidado. É visível a correlação com a primeira parte do poema Cartamundi, por relacionar-se a um ideal de beleza - que traz bem-estar e alegria (fiquei MUITO TENTADO a colocar referência a um super-herói que tem essas características e inclusive foi lenhador no Canadá, só que não. Eu tenho amor à vida. Prefiro citar um texto e fiquem à vontade para pensar sobre isso.). Mas nada garante que  opressão faça parte do pacote. Aparência física não garante um humor belicoso... Ou garante?
Que possamos ver a carta 15 em seu devido lugar: longe, sem problemas; seu egoísmo e sua aversão à dependência (sua, não dos outros) lhe mantém seguro frente aos seus influxos. Perto... pode ser perto demais.
Abraços a todos.

domingo, 26 de agosto de 2012

Do poder das palavras.




Olá pessoal. Eu sempre me ative, aqui no Conversas Cartomânticas, às questões prementes à imagem. Cartomancia é imagem, é interpretação de imagens. É observação e educação do olhar ao que as imagens trazem.
Mas há que ser dito algo sobre a palavra. Porque, se bem refletirmos, de nada adianta uma imagem que não é entendida. Que não se faz inteligível. E, para entendermos e conversarmos sobre a imagem, demandamos... palavras. Aquelas mesmo que diz-se terem poder (para além do poder que de fato tem).
Senão, by the way, eu não teria um blog. Talvez um fotoblog. E ele falaria por si só. Mínimo esforço, máximo efeito.
Só que conversar, a proposta principal desse blog, demanda palavras. Várias. Vocabulário vasto ao gosto do freguês conversador. Só por isso já se justificaria falar sobre palavras. Mas aplicadas ao cotidiano do cartomante, ainda há o que dizer.
O conceito de uma carta se dá por alguns agrupamentos específicos que, combinados, e aplicados ao momento da consulta, geram efeitos, o que costumeiramente dá-se o nome de interpretação. Tão singulares que, ainda que sejam as mesmas imagens há séculos, de acordo com o oráculo utilizado, ainda se mantém contemporâneas – embora paradoxalmente vintage.
O primeiro agrupamento, e mais importante, é o das imagens. Delas haurimos o principal referencial interpretativo. Leonardo Da Vinci se vangloriava, com razão, de em uma tela colocar o que um poeta demandaria páginas e páginas para descrever. Observar uma tela do Bosch faz chegarmos à mesma conclusão. Uma imagem é captada com uma riqueza de detalhes simultâneos que chega a assustar... ou encantar. 
Há os números. Ordenam a série. São significáveis e interpretáveis. Mas, por alguma razão, suas ideias não são compartilhadas com unanimidade. Existem discrepâncias. E explicações que minimizam as discrepâncias. Mas elas ainda estão ali, e não tocaremos nelas por enquanto, e não esperamos consenso em momento algum quanto ao tema.
E existem os nomes. Ao contrário das imagens, que são universais – você pode até não entender o que significa uma imagem, mas esforçar-se-á para atribuir-lhe um significado – os nomes são oriundos de um idioma específico, que nem sempre é o que você possui (como as Runas, por exemplo, um alfabeto oráculo, ou o alfabeto hebraico, muito utilizado em algumas escolas de Tarologia). Mas ainda assim os idiomas são específicos em sua descrição. Uma cadeira não é uma carteira, a chair is not a hair. Rimam, mas não coadunam. São diferentes, são específicos. Ainda que sinônimos sejam de uma utilidade tremenda, quanto mais se conhece da linguagem, menos os usamos. Uma coisa é uma coisa, e não outra coisa que soaria como se fosse à primeira vista.
E, principalmente, os nomes são mnemônicos. A partir do nome, rememoramos a imagem. Se eu digo Monalisa, o quadro lhe virá à mente, instantaneamente. Você pode não ser capaz de descrevê-lo minuciosamente, mas saberá que não é, por exemplo, uma Madonna. A menos, claro que não o conheça; serei obrigado a descrevê-lo para continuarmos conversando. (By the way, já conversamos sobre a Monalisa aqui
Da mesma forma, se eu digo Mago, o Arcano I, com todos os atributos que você conhece, será lembrado com riqueza de detalhes. Se não os conhece, eu terei que fazer o trabalho dos livros de Tarô e dos professores da Arte – descrever suas minúcias e perspectivas interpretativas.
Para isso, as palavras são fundamentais. Evidente. E eu preciso, se quiser uma interpretação precisa, ser preciso. Três vezes “preciso” na mesma frase, três significados diferentes para uma mesma cacofonia. Sinônimos, por favor.
Por isso os livros de Tarô, e por isso não existe uma obra definitiva. Cada autor, a partir do mesmo conceito imagem + titulo + numeração irá fazer suas referências, tecer seus sinônimos, construir sua linha de raciocínio que busca uma coesão com o todo. Quando o Mago sair na jogada, ele será único. Não poderá ser confundido com o Diabo. Ainda que dialoguem (ambos de pé, ambos em suas respectivas tarefas). Nem com o Sol, ainda que 1; 19 = 1 + 9 = 10 = 1 + 0 = 1. 
Até mesmo nessa unicidade há o que dizer. Mesmo que saia duas, três, quatro vezes em uma mesma consulta, o Arcano acresce, não repete. Que palavras mais podem representar a mesma imagem em situação diversa, porém dialogante?
 Ler muito é fundamental nessa hora (e em todas as demais). Cada autor buscará descrever, a partir de sua vivência, experiência, estudos e vocabulário, aquilo que experimentou no trato com cada uma das cartas. E é do crescimento do nosso próprio vocabulário a partir dessa leitura é que seremos capazes de entender o que o Arcano quer dizer.
Espera-se, portanto, um mínimo domínio da linguagem para assim proceder. Ler Tarô é uma arte interpretativa. Não sei a que nível alçar escrever sobre Tarô. Um pouquinho mais alto, talvez. Porque para me levar a ver aquilo a que desejo Ver, o vocabulário tem que ser amplo, ainda que preciso. 
Parafraseando Gertrude Stein, uma rosa é uma rosa é uma rosa, mas não é Universo (Arcano XXI), nem Ramalhete (carta 09).
Deixemos de tautologia... E estudemos um pouco mais.
Palavras tem poder. Específico e intransferível.
Abraços a todos.


Não se esqueça: Estarei, entre os dias 6 e 7 de outubro, no Rio de Janeiro oferecendo um curso presencial de Petit Lenormand para o cotidiano. Vale a pena. E, caso goste do que lê por aqui, adquira o livro Conversas Cartomânticas: Da escolha do baralho ao encerramento da consulta

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Curso presencial no Rio de Janeiro: Petit Lenormand para o cotidiano


Para quem tiver a oportunidade no Rio de Janeiro, estarei no espaço Tribbo Consciência nos dias 6 e 7 de outubro oferecendo o curso Petit Lenormand para o cotidiano.

Ementa: O Petit Lenormand é um oráculo formado por trinta e seis cartas numeradas, com correspondência no baralho comum (Ás, seis a dez, Valete, Dama, Rei dos quatro naipes), dotado de uma imagem simbólica e, por vezes, de um poema. A partir dele, no Brasil, desenvolveu-se uma escola de interpretação e até mesmo imagens próprias que deram origem ao assim chamado Baralho Cigano.
Neste workshop o participante aprenderá a utilizar as cartas do Petit Lenormand com fins divinatórios. Serão traçados os caminhos históricos de desenvolvimento do baralho, as interpretações de cada uma das cartas, abordando a imagem, o naipe, sua numeração e seu poema, conforme a interpretação na Europa e no Brasil; também a Mesa Real, jogada ampla e precisa que utiliza todas as cartas do baralho; jogos menores de pergunta e resposta.
O curso tem a duração de 20 h/a divididas em dois módulos. O primeiro, teórico, aonde são apresentados em detalhes os significados concernentes a cada lâmina; o segundo, prático, onde se aplicarão os conceitos oriundos da primeira parte.
Emanuel J Santos é cartomante hereditário, historiador e técnico em conservação e restauro de bens culturais. Escritor independente, responsável pelo blog Conversas Cartomânticas. Trabalha com Petit Lenormand desde 2002, e pesquisa o caminho que essas cartas percorreram simbolicamente entre Europa e Brasil, sempre dentro do contexto da Cartomancia.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Livro Conversas Cartomânticas: da escolha do baralho ao encerramento da consulta


Olá pessoal. O que era só uma perspectiva três anos atrás, tornou-se uma realidade: o Conversas Cartomânticas virou livro!
Com o melhor publicado nesse tempo, organizado de forma a termos todo o processo de aquisição do baralho até o encerramento da consulta. As experiências, comentários, diálogos, a teoria e a prática da Cartomancia, conforme conversamos por aqui.
O livro pode ser adquirido em e-book ou em edição impressa.  Para adquiri-lo, clique no link abaixo:


Compre aqui o livro 'Conversas Cartomânticas'

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Carlos Ruas e Lenormand


Seguindo com nossa linha de interpretar textos e imagens à luz das cartas, vi essa tirinha do Carlos Ruas (903 - Sinceridades) e não tive como não postar.
Interpretação literal ou sugestiva? 
Abraços a todos.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Napoleão, cartomancia e estudos cartomânticos



Quinze de agosto de 1769. Nascia nessa data o Imperador Napoleão Bonaparte (Napoleone di Buonaparte, como córsego que era, filho de pais de ascendência nobre italiana). Lider político e militar do final da Revolução Francesa, sendo responsável por estabelecer a hegemonia francesa em diversos países europeus e sendo influente inclusive na história do Brasil - sua invasão a Portugal gerou a vinda da Família Real para o Rio de Janeiro em 1808, que mudou radicalmente os rumos da história do país. Não sei se teríamos os eventos posteriores relativos à independência e à proclamação da República com eficácia sem a presença da nobreza por aqui.
O curioso é que Napoleão, conforme consta, gostava de ter seu futuro lido, assim como sua primeira esposa, Josephine.
E sua leitora era nada mais, nada menos que Mlle. Lenormand.


São creditadas a Mlle Lenormand duas obras relativas a Napoleão: Um estudo quiromântico sobre a mão direita do imperador e o mais conhecido, o baralho com o qual consta que a sibila o atendia: Petit Lenormand. 

A obra quirofisiognômica é póstuma, dificultando corroborar sua autenticidade; no caso da segunda, sabemos ser impossível, já que o baralho foi desenvolvido muito tempo depois de Mlle Lenormand ter construído sua fama. É muito mais adequado ao período que Mlle Lenormand utilizasse um Petit Etteilla, ou mesmo a Cartomancia tradicional francesa, na qual Etteilla se baseou para construir seu método de leitura.


Mas hoje, tomaremos o Imperador como personagem da Cartomancia. Uma forma lúdica de apreendermos conceitos aplicáveis à prática.
...E se Napoleão fosse uma carta? E se o tomássemos por uma imagem arquetípica?


No Tarô, evidentemente, seria o Imperador. Podemos, inclusive, comparar uma obra de David a uma obra de Pamela Smith, pela similitude dos atributos utilizados na elaboração das respectivas imagens. E não poderia deixar de fora o Imperador do Lenormand Tarot.


No Petit Lenormand, seria o Cavaleiro. Rápido, sagaz, realizador, veloz, com pouca experiência na espera. Quem o venceu, de fato, não foram homens; foi o inverno russo... que ele não soube esperar passar.

Clique para ampliar

No Sibilla della Zingara, algumas cartas poderiam ser encadeadas em uma biografia imagética. Concentramo-nos no fim de sua vida, nesse caso.


Fica aqui a experiência de um exercício muito divertido, do qual experiências muito ricas emergem: tente contar uma história com as cartas. Busque não só significados, mas encadeamentos. Como poderiam ser lidos nas cartas os fatos já consumados? Como poderiam ter sido evitados? Na verdade, poderiam ter sido evitados? Se houveram atrasos e erros de percurso, como poderíamos adiantar os eventos? Qual teria sido o melhor caminho?
Conversaremos mais sobre isso adiante. 
Abraços a todos.

sábado, 4 de agosto de 2012

Biografia ou: da relação inversamente proporcional entre glamour e competência.

Olá pessoal. Vi, esses dias, no oceano de postagens do Facebook, uma pequena troça com alguns cartomantes com biografia semelhante à minha: Jogo Tarot desde os 13... e não tive professor de Tarot. Aprendi por aí com o mundo (Tum Dum Tss). O tom jocoso de uma frase como essa merece uma reflexão maior sobre o status do ensino-aprendizagem do Tarô no Brasil. Ainda temos alguns preconceitos e até mesmo um certo glamour no autodidatismo ou na hereditariedade que não são, no limite, interessantes para o crescimento e desenvolvimento da profissão.

Roda da Fortuna
Tarô das Bruxas (Ellen Cannon Reed)

A hereditariedade é, ainda hoje, um status desejado. Todos nós desejamos deixar nossa marca no mundo - alguns, destruindo, outros, construindo. Essa marca normalmente é deixada pela tarefa que desempenhamos, na maior parte das vezes profissionalmente. Em outras épocas, o ofício era tão importante que virava sobrenome: Taylor, Schumacher... Ainda que Elisabeth fosse uma atriz e Michael um piloto de Fórmula 1. Tradições se mantém ainda que não tenham mais o sentido original. 
E é aí que está. Nem sempre o que queremos passar encontra eco na alma daqueles que vem depois de nós, e não adianta dizer que filho de peixe, peixinho é porque nem sempre o mote funciona. A sociedade contemporânea ocidental carece de valores sólidos, por um lado, porque lutou pela sua liberdade de escolha e expressão, por outro. Toda ação gera uma reação.
E o oposto também é verdadeiro. Nem sempre o que queremos manter honra os nossos antepassados, ainda que tenha sido vivido por eles. Ninguém quer que seus sucessores tenham uma vida tão ou mais difícil que a que viveu. Buscam-se outras escolhas para os que vierem depois. 
E aí correlacionamos tudo isso com Cartomancia. Entre aqueles que pertencem e simpatizam com o meio, ser Cartomante hereditário soa como algo pomposo, glamouroso. Acreditem no que digo: não é. Você aprender com um parente é maravilhoso, sinceramente. Mas não acrescenta nem diminui nada na carga de estudos que temos que manter, ou no desenvolvimento das faculdades de leitura, notadamente a intuição. Essas coisas não vem por herança pura e simplesmente - habilidades tem que ser desenvolvidas, senão atrofiam. E isso é um esforço diário do estudante, não do mestre.
Eu aprendi Cartomancia com a minha avó. Mas engana-se quem acha que ela era uma Feiticeira-reencarnada-depois-de-anos-sendo-queimada-vida-após-vida-pela-Inquisição. Minha avó era uma mulher comum, com casa para arrumar, animais para cuidar, rosas (suas flores favoritas) e outras plantas para regar, ou seja, tinha bem mais o que fazer do que ficar explicando por horas a fio as possíveis combinações entre as cartas. Ela me ensinou o básico e disse: TREINE. 
Estou treinando até hoje. 


E, aproveitando o link, tem outro título por demais glamouroso, para além do que merece. Autodidata. Acho fantástico quem aprende um instrumento musical sozinho. Violão, quer coisa mais linda? Aprender sozinho é excelente em alguns aspectos. Você dá sentido a cada passo a partir da sua própria experiência. Por outro lado, o risco de desistir é muito grande, no meio do caminho, por não saber qual é o próximo passo. Existe também o risco de se contentar com pouco. Com aquilo que conseguiu sozinho, ainda que frente à necessidade sua conquista seja algo incipiente.
Eu sou tarólogo autodidata. Aprendi a lidar com os setenta e oito arcanos sozinho. Sozinho não; com os feedbacks de diversos clientes nesses onze anos de prática. Olha a palavrinha aí de novo: prática. Acrescente a ela muito estudo. Mas muito mesmo.
Não sou autodidata por opção. Não tem nada de glamouroso nisso. Eu sou autodidata porque não tinha dinheiro para comprar um baralho, que dirá para pagar um professor! Eu tinha quinze anos e não trabalhava, como aprender? Se eu não me virasse, jamais aprenderia qualquer coisa.
Comprei um baralho de segunda mão. Era um Jean Payen com os Arcanos Menores de outra edição marselhesa. Vinha com uma revista, que é boa, por incrível que pareça. Os textos são de fato muito bons. E dá-lhe estudar. E jogar. Na Biblioteca Pública encontrei mais alguns livros, mas eram sobre o Waite-Smith. Perae, mas o Sol não tem dois menininhos? Daonde apareceu esse cavalo? Cadê o outro menininho? Será que isso muda o significado? Será que esse livro serve para eu estudar? Será que funciona?
E assim eu estudei Tarot por uns bons três anos, entre atendimentos e literatura escassa. Hoje temos a Priscilla Lhacer para trazer com grande facilidade baralhos importados e raros para nós. Mas antes, devíamos nos contentar com as poucas edições que encontrávamos por aqui. Notadamente, do Tarô de Marselha e outros ligados à Escola Francesa.
E, claro, o Tarô Mitológico. Um baralho que fez escola no Brasil. Muitos de nós que começamos na década de noventa do século passado devemos a esta obra o estudo dos Arcanos Menores. Ainda bem.
Eu agradeço, enormemente, àqueles que confiaram em mim e inclusive me presentearam com baralhos e livros que eu não poderia ter obtido nessa época. Sem esse carinho, seria impossível que eu estudasse. Não por falta de vontade; era falta de obras, mesmo. 
Por outro lado, isso levou esse que vos fala a praticar muito. Olhar o Marseille Grimaud com olhos de primeira vez, sempre. Cada cor, cada forma, eram dissecadas ponto a ponto para que aquilo que o livro dizia fizesse sentido. Organizações das cartas estudadas à exaustão. Não haviam hierofanias ou desciam anjos para me contar segredos das cartas. Era só um olhar, e olhar era tudo.
Hoje, dado o esforço, dado o empenho, eu conheço minhas cartas o suficiente para saber que uma vida é pouco para conhecê-las. Eu não me ative ao posto de autodidata como um título, mas sim como um desafio. Creio que é assim que esse título deveria ser visto; não como um fim, mas como um meio, um caminho. Mais complicado de se trilhar, claro, mas ainda assim muito proveitoso.



Abençoado seja o momento em que vivemos. Em que temos um catálogo de obras muito legal e acessível a todos - se não a obra nova, temos a Estante Virtual para adquirir livros que já estão fora de catálogo. Temos acesso a uma miríade de baralhos, nacionais e importados. Se hoje eu tenho um Ancient Italian, meu baralho do coração, é porque a Nath trouxe para mim. Agora, é possível pedir para a Priscilla com pronta-entrega e competência. Hoje temos eventos que unem as pessoas em torno do ensino-aprendizagem: acabei de vir da Confraria Brasileira de Tarot e a Pietra e o Edu já organizaram outro seminário, desta vez de Tarô para Tarólogos. Quem estiver em São Paulo não pode perder.
As possibilidades se ampliam. Cursos se multiplicam, tanto presenciais quanto virtuais, com professores renomados. Que, inclusive, possivelmente passaram pelas mesmas dificuldades/desafios que aponto aqui.
Aproveitem as oportunidades que se delineiam na profissão. E esqueçam pequenos arroubos egoicos que permeiam a arte. Já são por demais démodé para merecerem atenção.
Abraços a todos.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Dia dos avós. Cartomancia. E saudade.



Vinte e seis de julho, dia dos avós. Homenagem a Sant'Ana, mãe da Virgem. Aquela que foi capaz de acreditar até o fim na maternidade.
É curioso pensar no que é ser avô/avó na idade em que estou. Um quarto de século, mais um - vinte e seis. Mas, frente às gravidezes cada vez mais prematuras, não é difícil imaginar um avô de trinta anos. Mas a imagem permanece sendo de alguém que já enfrentou um bocadinho de aventuras nessa vida... e sobreviveu para contar.
É difícil para mim, esse ano, comemorar essa data. Minha avó materna achou que o corpo dela estava démodé demais e resolveu trocar de roupagem. Não dá para dizer que não dói. É um buraco na vida da gente que a gente não é preparado para cavar. Ainda que seja a única certeza da vida, a gente sempre espera que não seja tão certo, assim.

Sacerdotisa
Marseille-Grimaud

No Tarot, a carta que mais se aproxima, entre os Arcanos Maiores, da experiência de ser avó é a Sacerdotisa. Curioso que ela é a Virgem; mas é uma virgindade que se obtém, também, depois da menopausa - um novo ciclo hormonal na vida da mulher que pede os mesmos cuidados que pós-menarca. E a sabedoria que ela possui é obtida também da observação - um de seus conceitos - e, para observar, há que se ter tido tempo para isso.

Rainha de Ouros
Marseille Grimaud

A Rainha de Ouros também tem muito de avó - ela já experimentou no corpo o que é o ditame do espírito, e sobreviveu para contar a história. Sentimentalismos não mais a comovem. Mesmo porque, ser avó é ser mãe já conhecendo o script. Não há mais surpresa nem susto, há um reconhecimento de que aquela semente é fruto da semente que ela teve a habilidade de criar.
Velha Senhora
Sibilla della Zingara

Já conhecendo o script, por que se estressar? Por que se preocupar tanto? Avó é conhecer os netos pela parte que lhes cabe, que é carinho e afeto. É ensinar coisas que vão ser tão anuviantes nos momentos de saudade, como barquinhos de papel com capota e jogos de paciência vários. É deixar os cinco sentidos atiçados com aquele cheiro de bolinho de chuva saindo do fogo, com direito a tapa na mão dos mais afoitos. 
É uma ternura sem tamanho, mesmo nos xingos. A gente sempre sobrevive ao xingo de mãe, mas dói o xingo de vó. Claro que existem as avós que não são lá flor que se cheire; cravo de defunto também não é para cheirar, mas ainda assim ornamente o jardim. Mesmo lá de longe, é vó.

Feliz dia das avós, àquelas que tiveram a sorte de ser. E feliz dia para aqueles que ainda podem curtir seus avós. Eu tô aqui tentando encher esse buraco, mas ele tá tão forrado de ternura pelo que eu vivi com a minha, por ela ter me tornado o homem que me tornei, por ela ter colocado um baralho na minha mão tão na hora certa, mesmo parecendo que não... Que acho que esse buraco só vai durar pelo resto da minha vida.
Obrigado, vó. Vivo com você para sempre, aninhada aqui no meu peito como eu costumava me aninhar no seu.
Abraços a todos. E aproveitem seus avós, porque a Morte não costuma aceitar reclamações e nem oferecer justificativas para os seus atos.



quarta-feira, 25 de julho de 2012

Do desespero de sair, das saudades de desafios.

Oito de Espadas
Waite-Smith
Repare que, embora amarrada e vendada,
a mulher ainda pode caminhar.

Eu sou fã de videogames, não faço segredo disso. Mas existem alguns jogos que são para matar de raiva. Esse jogo, "saia do quarto", é um deles. Como é em primeira pessoa, chega um momento em que nos sentimos, de fato, tolhidos em nosso ir e vir. Para um Carruagem, não ver o horizonte é tortura e tormento. Quando, contudo, vemos a bendita porta se abrir, todo o esforço e desespero anteriores somem, dando lugar à perspectiva de um novo desafio. E aí a gente pensa "poxa, até que foi divertido..."



Supere esse desafio. 
Abraços a todos.


sábado, 21 de julho de 2012

Dark Lady, The Queen of Fortune Tellers







The fortune queen of New Orleans
Was brushing her cat in her black limousine
On the back seat were scratches
From the marks of men her fortune she had won
Couldn't see through the tinted glass
She said, "Home James" and he hit the gas
I followed her to some darkened room
She took my money, she said, "I'll be with you soon"

Dark lady laughed and danced
And lit the candles one by one
Danced to her gypsy music
Till her brew was done
Dark lady played black magic
Till the clock struck on the twelve
She told me more about me
Than I knew myself

She dealt two cards, a queen and a three
And mumbled some words
That were so strange to me
Then she turned up a two-eyed jack
My eyes saw red but the card
Still stayed black
She said the man you love is secretly true
To someone else who is very close to you
My advice is that you leave this place
Never come back and forget you ever saw my face

Dark lady laughed and danced
And lit the candles one by one
Danced to her gypsy music
Till her brew was done
Dark lady played black magic
Till the clock struck on the twelve
She told me more about me
Than I knew myself

So I ran home and crawled in my bed
I couldn't sleep because of all the things she said
Then I remembered her strange perfume
And how I smelled it once in my own room
So I sneaked back and caught her with my man
Laughing and kissing till they saw the gun in my hand
The next thing I knew they were dead on the floor
Dark lady would never turn a card up anymore

Dark lady laughed and danced
And lit the candles one by one
Danced to her gypsy music
Till her brew was done
Dark lady played black magic
Till the clock struck on the twelve
She told me more about me
Than I knew myself

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Dia do Amigo, ou: tenha Conversas Cartomânticas com quem você gosta.

Sol (detalhe)
Tarô Lombardo

Essa postagem é um agradecimento. Obrigado a você, leitor, que acompanha o blog, comenta, questiona, concorda, não concorda, e em todos os âmbitos me ajuda a crescer.
Obrigado. Esse blog só tem razão de ser por ter você para conversar.
Abraços.