quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Make good art.

Eu não faço segredo de que sou fã do Gaiman. Porque, simplesmente, fazer segredo disso é negar parte do meu momento que está sendo de um prazer inenarrável. Nunca me esquecerei da primeira revista que li, ainda online, e de ligar para minha namorada em seguida e ela dizer: "você está diferente".
Sim. Eu estava.



Sandman é uma história que, mais que marca, tatua. Você não é mais o mesmo, você é um dos Sete D, ou um pouco de cada um deles com um tom puxado para um deles. Eles lhe antecederam, eles lhe sucederão, até que a Morte feche a porta depois que Destino passar. 
A maior parte dos que conheço se apaixona perdidamente pela Morte, o que é previsível. Ela é apaixonante. Outros há que se apaixonam por Destruição. O que também é previsível, ele é apaixonante. Conheci um apaixonado que via Delírio em seu reflexo. Quando se trata dele, é previsível, porque ele é apaixonado. 



Mas eu me apaixonei por Desejo (talvez, o mais correto é desejá-lo, mas eu não sou muito bom em partir do óbvio). Foi no seu espelho que vi o meu reflexo, mesmo sabendo que ele, juntamente com Desespero e Destino, não era um dos mais, com o perdão do trocadilho, desejados.  E o curioso é ver que este personagem é uma das maiores lacunas de Gaiman na série. Segundo o autor, se escrita pela ótica de Desejo, as coisas seriam muito diferentes. E sim, elas seriam, mesmo.
Tudo é dual em Gaiman, e não é possível ter uma referência só.

Especulou-se durante a série que, além de poder enxergar sua própria esfera de influência, os Perpétuos também poderiam definir os opostos dos conceitos que representam. No caso da Morte, que não só finaliza vidas como também as começa. É sinalizado este dualismo pelo grande interesse (que não necessariamente coincide com talento) que Destruição apresenta por várias atividades criativas, como arte, poesia e culinária - mas não se poder descartar a hipótese de que esta seria a forma que Destruição encontrou para se rebelar contra sua própria natureza, ao invés de assumir seu papel e função. Outro exemplo notavel é de Morpheus em "O Sonho de Mil Gatos", no qual ele foi capaz de criar uma realidade alternativa por certos grupos de indivíduos meramente sonharem por esta realidade. E assim mostrando que, mesmo de uma maneira indireta, Sonho tem o poder de moldar a realidade.
Se esta hipótese se estende aos outros Sem Fim, então também Delírio pode definir sanidade; Desespero, esperança; Desejo, satisfação (ou talvez contentamento, ou apatia, ou ódio); Destino, liberdade; e Sonho, por sua vez, realidade. (Foi notado que Desejo e Desespero são opostos, já que desejar algo significa reconhecer que seu desejo não pode ser alcançado, e daí nasce o desespero). Esta hipótese se baseia numa noção que Gaiman tem, de que contrastes e limitações são necessários para determinar o valor de qualquer coisa: sem a morte, a beleza da vida seria ignorada; sem desespero, a felicidade (ou a esperança) não teria significado; sem a loucura, não se poderia falar em sanidade.





Mas a primeira impressão foi impactante, as demais não deixaram de ser. Estou aqui, tento à minha frente quatro livros dele por ler e dois por chegar. E sei que não durarão uma semana. Metas de ano novo? Não... Metas instantâneas.
Mas hoje, por um daqueles acasos que me deixam pensativo e questionando os meandros do labirinto do Destino, encontrei esse texto aqui no blog Vou Soltar a Minha Voz. Visitem. Leiam. E se impactem. 
Impactar-se é necessário. Façam boa arte disso. 

E, quando eu falo de Arte, falo de arte, e da nossa Arte. Porque são uma só, embora duais.



Eu nunca realmente esperei me encontrar dando conselhos para pessoas se graduando em um estabelecimento de ensino superior. Eu nunca me graduei em um desses estabelecimentos. E nunca nem comecei um. Eu escapei da escola assim que pude, quando a perspectiva de mais quatro anos de aprendizados forçados antes que eu pudesse me tornar o escritor que desejava ser era sufocante.

Eu saí para o mundo, eu escrevi, eu me tornei um escritor melhor na medida em que escrevia mais, e eu escrevi um pouco mais, e ninguém nunca parecia se importar que eu estava inventando na medida em que eu prosseguia, eles simplesmente liam o que eu escrevia e pagavam por isso, ou não, e frequentemente eles me encomendavam alguma outra coisa pra eles.

O que me deixou com um saudável respeito e admiração pela educação superior do quais meus amigos e familiares, que frequentaram universidades, se curaram há muito tempo atrás.

Olhando para trás, eu trilhei uma caminhada memorável. Não tenho certeza de que posso chamá-la de uma carreira, porque uma carreira implica que eu tivesse algum tipo de plano de carreira, e eu nunca tive. A coisa mais próxima que tive foi uma lista que fiz quando tinha 15 anos com tudo que eu queria fazer: escrever um romance para adultos, um livro infantil, uma revista em quadrinhos, um filme, gravar um audiobook, escrever um episódio de Dr. Who… e assim por diante. Eu não tive uma carreira. Eu simplesmente fui fazendo a próxima coisa da lista.
Então pensei em contar para vocês tudo que eu gostaria de saber de saída, e algumas coisas que, olhando para trás pra isso, suponho que eu sabia. E também em dar o melhor conselho que já recebi, o qual falhei completamente em seguir.
O primeiro de todos: quando você começa em uma carreira nas artes você não tem ideia do que está fazendo.
Isso é ótimo. As pessoas que sabem o que estão fazendo conhecem as regras, e sabem o que é possível e o que é impossível. Vocês não. E vocês não devem. As regras sobre o que é possível e impossível nas artes foram feitas por pessoas que não tinham testado os limites do possível indo além deles. E vocês podem.
Se vocês não sabem que é impossível é mais fácil fazer. E porque ninguém fez antes, não inventaram regras para evitar que alguém faça de novo, ainda.
Em segundo, se você tem uma ideia do que você quer fazer, sobre o que você foi colocado aqui para fazer, então simplesmente vá e faça aquilo.
E isso é muito mais difícil do que parece e, algumas vezes, no fim, muito mais fácil do que você poderia imaginar.
Porque normalmente, há coisas que você precisa fazer antes de que você possa chegar aonde quer estar. Eu queria escrever quadrinhos e romances e histórias e filmes, então me tornei um jornalista, porque jornalistas têm permissão para fazer perguntas, e para simplesmente ir adiante e descobrir como o mundo funciona, e, além disso, para fazer essas coisas eu precisaria escrever e escrever bem, e eu estava sendo pago para aprender como escrever economicamente, claramente, às vezes em condições adversas, e em tempo.
Algumas vezes o caminho para fazer o que você espera fazer estará claramente delineado; e às vezes será quase impossível decidir se você estará ou não fazendo a coisa certa, porque você terá de balancear suas metas e esperanças, e alimentar-se, pagar as contas, encontrar trabalho, e se adequar ao que pode encontrar.
Uma coisa que funcionou para mim foi imaginar que onde eu gostaria de estar – um autor, principalmente de ficção, fazendo bons livros, fazendo bons quadrinhos e me mantendo através de minhas palavras – era uma montanha. Uma montanha distante. Minha meta.
E eu sabia que enquanto eu me mantivesse andando em direção à montanha eu estaria bem. E quando eu verdadeiramente não estava certo acerca do que fazer, eu podia parar, e pensar se aquilo estava me levando em direção à montanha ou me afastando dela. Eu disse não para trabalhos editoriais em revistas, trabalhos adequados que teriam pago um dinheiro respeitável porque eu sabia que, por mais atrativos que fossem, para mim eles estariam me deixando mais distante da montanha. E se essas ofertas tivessem aparecido mais cedo talvez as tivesse aceito, porque elas ainda me deixariam mais perto da montanha do que eu estava à época.
Eu aprendi a escrever escrevendo. Eu tendia a fazer qualquer coisa conquanto que parecesse uma aventura, e a parar de fazê-la quando parecia trabalho, o que significou que a vida não se parecia com trabalho.
Em terceiro lugar, quando você começa, você precisa lidar com os problemas do fracasso. Vocês precisam ser osso duro de roer, precisam aprender que nem todo projeto sobreviverá. Uma vida como freelancer, uma vida nas artes, é muitas vezes como colocar mensagens em garrafas, em uma ilha deserta, e esperar que alguém encontre uma de suas garrafas, e a abra, leia, e coloque algo em outra garrafa que fará seu caminho de volta até você: apreço, ou uma encomenda, dinheiro, ou amor. E vocês têm de aceitar que vocês poderão lançar uma centena de coisas para cada garrafa que aparecerá retornando.
Os problemas do fracasso são problemas de desencorajamento, de desespero, de ansiedade. Você deseja que tudo aconteça e você quer que as coisas aconteçam agora, e as coisas dão errado. Meu primeiro livro – uma peça de jornalismo que tinha feito pelo dinheiro, e que já tinha me comprado uma máquina de escrever eletrônica do adiantamento – deveria ter sido um bestseller. Deveria ter me pagado muito dinheiro. Se a editora não tivesse involuntariamente ido à bancarrota entre a primeira impressão se esgotar e a segunda sair, e antes que quaisquer direitos pudessem ser pagos, ele teria me dado muito dinheiro.
E eu dei de ombros, e eu ainda minha máquina de escrever eletrônica e dinheiro o bastante para pagar o aluguel por um par de meses, e decidi que eu faria o meu melhor para no futuro não escrever livros apenas pelo dinheiro. Se você não ganha o dinheiro, então você não tem nada. Se eu fizesse um trabalho do qual me orgulhasse, e não ganhasse a grana, ao menos eu teria o trabalho.
De vez em quando, eu esqueço essa regra, e sempre que o faço, o universo me bate com força e me relembra dela.
Eu não sei se isso é um problema para mais alguém além de mim, mas é verdade que nada que eu fiz na qual a única razão para fazê-lo fosse o dinheiro jamais valeu a pena, exceto como amarga experiência. Normalmente nunca dei o trabalho por encerrado ao receber o dinheiro, por outro lado. As coisas que fiz porque estava empolgado, e queria vê-las existirem na realidade, nunca me decepcionaram, e eu nunca me arrependi do tempo gasto com nenhuma delas.
Os problemas do fracasso são difíceis.
Os problemas do sucesso podem ser ainda mais difíceis, porque ninguém lhes avisa sobre eles.
O primeiro problema de qualquer tipo de sucesso limitado é a convicção inabalável de que você está fugindo com algo, e de que a qualquer momento irão descobri-lo. É a Síndrome do Impostor, algo que minha esposa Amanda batizou de Polícia da Fraude.
Em meu caso, eu estava convencido de que haveria uma batida na porta, e um homem com uma prancheta (não sei por que ele carregava uma prancheta, em minha cabeça, mas ele carregava) estaria lá, para me dizer que estava tudo acabado, e eles me pegariam e agora eu teria de ir e conseguir um trabalho de verdade, algum que não consistisse de inventar coisas e escrevê-las, e ler livros que eu quisesse ler. E então eu partiria silenciosamente e pegaria o tipo de trabalho no qual você não tem de inventar mais coisas.
Os problemas do sucesso. Eles são reais, e com sorte vocês irão experienciá-los. O ponto em que você para de dizer sim pra tudo, porque agora as garrafas que você lança ao oceano estão todas voltando, e você precisa aprender a dizer não.
Eu observei meus pares, e meus amigos, e aqueles que eram mais velhos que eu e observei quão infelizes alguns deles se sentiam: eu os ouvi contar pra mim que eles não podiam encarar um mundo no qual eles não podiam mais fazer o que sempre quiseram fazer, porque agora eles tinham de ganhar uma certa quantidade de grana todo mês apenas para se manter onde estavam. Eles não podiam ir e fazer as coisas que importavam, e que realmente queriam fazer; e isso me pareceu uma tragédia tão grande quanto qualquer problema de fracasso.
E depois disso, o maior problema do sucesso é que o mundo conspira para que você pare de fazer o que você faz, porque você é famoso. Houve um dia em que olhei e me dei conta de que eu tinha me tornado alguém que profissionalmente respondia a e-mails, e escrevia como um hobby. Eu comecei a responder menos e-mails, e fiquei aliviado por perceber que estava escrevendo muito mais.
Em quarto, eu espero que vocês cometam erros. Se vocês estão cometendo erros, significa que vocês estão por aí fazendo algo. E os erros em si podem ser úteis. Uma vez escrevi Caroline errado, em uma carta, trocando o A e o O, e eu pensei, “Coraline parece um nome real…”
E lembrem-se que não importa a área em que estejam, se você é um músico ou um fotógrafo, um artista fino ou um cartunista, um escritor, um dançarino, um designer, o que quer que você faça, vocês têm algo que é único. Vocês têm a habilidade de fazer arte.
E para mim, e para muitas das pessoas que conheci, isso tem sido um salva-vidas. O salva-vidas definitivo. Ele lhe leva através dos bons momentos e pelos outros.
A vida as vezes é dura. As coisas dão errado, na vida e no amor e nos negócios e nas amizades e na saúde e em todos os outros modos que a vida pode dar errado. E quando as coisas ficam difíceis, isso é o que vocês devem fazer.
Façam boa arte.
Eu estou falando sério. O marido fugiu com uma política(o)? Faça boa arte. Perna esmagada e depois devorada por uma jibóia mutante? Faça boa arte. IR te rastreando? Faça boa arte. Gato explodiu? Faça boa arte. Alguém na internet pensa que o que você faz é estúpido ou mau ou já foi feito antes? Faça boa arte. Provavelmente as coisas se resolverão de algum modo, e eventualmente o tempo levará a dor mais aguda, mas isso não importa. Faça apenas o que você faz de melhor. Faça boa arte.
Faça-a nos dias bons também.
E, em quinto: enquanto estiverem nisso, façam a sua arte. Façam as coisas que só vocês podem fazer.
O impulso, começando, é copiar. E isso não é uma coisa ruim. A maioria de nós só descobre nossas próprias vozes depois de termos soado como um monte de outras pessoas. Mas uma coisa que você tem que ninguém mais tem é você. Sua voz, sua mente, sua estória, sua visão. Então escreva e desenhe e construa e toque e dance e viva como só você pode viver.
No momento em que você sentir que, possibilidade, você está andando na rua nu, expondo muito de seu coração e de sua mente e do que existe em seu interior, mostrando demais de si mesmo. Esse é o momento em que você pode estar começando a acertar.
As coisas que fiz que mais funcionaram foram as coisas das quais menos estava certo, as estórias as quais eu tinha certeza de que ou funcionariam, ou, mais provavelmente, seriam o tipo de fracasso embaraçoso que as pessoas se juntam para falar a respeito até o fim dos tempos. Elas sempre tiveram isso em comum: olhando para em retrospectiva para elas, as pessoas explicam porque foram sucessos inevitáveis. Enquanto as estava fazendo, eu não tinha ideia.
E ainda não tenho. E onde estaria a graça de fazer alguma coisa que você soubesse que iria funcionar?
E às vezes as coisas que fiz realmente não funcionaram. Há estórias minhas que nunca foram reimpressas. Algumas delas nunca sequer saíram da casa. Mas eu aprendi com elas tanto quando aprendi com as coisas que funcionaram.
Sexto. Eu passarei algum conhecimento secreto de freelancer. Conhecimento secreto é sempre bom. E é útil para qualquer um que alguma vez já planejou criar arte para outras pessoas, em entrar em um mundo de freelance de qualquer tipo. Eu aprendi isso com os quadrinhos, mas se aplica a outros campos também. E é isto:
As pessoas são contratadas porque, de algum modo, elas são contratadas. Em meu caso eu fiz algo que atualmente seria fácil de checar, e me colocaria em problemas, e quando eu comecei, naqueles dias pré-internet, parecia uma estratégia de carreira sensata: quando editores me perguntavam para quem eu já tinha trabalhado, eu mentia. Eu listei uma série de revistas que soavam razoáveis, e soei confiante, e consegui os empregos. Então transformei em uma questão de honra conseguir escrever algo para cada uma das revistas que eu listei para conseguir aquele primeiro emprego, de modo que eu não menti de fato, só fui cronologicamente desafiado… Você começa a trabalhar por qualquer maneira que comece a trabalhar.
As pessoas se matêm trabalhando, em um mundo de freelances, e mais e mais do mundo de hoje é freelance, porque seu trabalho é bom, e porque são fáceis de conviver, e porque elas entregam o trabalho em tempo. E você nem precisa de todos os três. Dois em três está bem. As pessoas irão tolerar quão desagradável você é se seu trabalho for bom e você o entregar no prazo. Elas perdoarão o atraso do trabalho se ele for bom, e elas gostarem de você. E você não precisa ser tão bom quanto os outros se você é pontual e é sempre um prazer ouvi-lo(a).
Quando concordei em fazer este discurso, eu comecei tentando pensar em qual tinha sido o melhor conselho que já tinha recebido ao longo dos anos.
E ele veio do Stephen King, há vinte anos atrás, no auge do sucesso de Sandman. Eu estava escrevendo um quadrinho que as pessoas amavam e estavam levando a sério. King gostara de Sandman e de meu romance com Terry Pratchett, Belas Maldições (Good Omens), e ele viu a loucura, as longas filas de autógrafos, tudo aquilo, e seu conselho foi esse:
“Isso é realmente ótimo. Você deveria apreciar isso.”
E eu não aproveitei. O melhor conselho que já recebi que ignorei. Ao invés disso, eu me preocupei com aquilo. Eu me preocupei com o próximo prazo, a próxima ideia, a próxima estória. Não houve um momento nos próximos quatorze ou quinze anos em que não estivesse escrevendo algo em minha cabeça, ou imaginando a respeito. E eu não parei e olhei em redor e pensei, isso é realmente divertido. Eu queria ter aproveitado mais. Tem sido uma caminhada incrível. Mas houve partes da trilha que eu perdi, porque estava muito preocupado em as coisas darem errado, sobre o que viria depois, para apreciar a parte em que estava.
Essa foi a lição mais difícil pra mim, eu acho: relaxar e curtir a caminhada, porque a jornada o leva a alguns lugares memoráveis e inesperados.
E aqui, nesta plataforma, hoje, é um destes lugares. (E eu estou curtindo isso imensamente.)
Para todos os graduandos de hoje: eu desejo a vocês sorte. Sorte é útil. Frequentemente vocês descobrirão que quanto mais duro vocês trabalharem, e mais sabiamente, mais sortudos vocês serão. Mas existe sorte, e ela ajuda.
Nós estamos em um mundo em transição neste momento, se vocês estão em qualquer campo artístico, porque a natureza da distribuição está mudando, os modelos pelos quais os criadores entregavam seu trabalho ao mundo, e conseguiam manter um teto sobre suas cabeças e comprar alguns sanduíches enquanto faziam isso, estão todos mudando. Eu falei com pessoas do topo da cadeia alimentar em publicações, vendas de livros, em todas essas áreas, e ninguém sabe com o que a paisagem se parecerá daqui a dois anos, que dirá daqui a uma decada. Os canais de distribuição que as pessoas construíram ao longo do último século ou mais estão contínua mudança, para os impressos, para artistas visuais, para músicos, para pessoas criativas de todos os tipos.
O que é, por um lado, intimidante e, por outro, imensamente libertador. As regras, as suposições, os agora nós devemos fazer de como você consegue expor seu trabalho, e o que você faz a seguir, estão ruindo. Os porteiros estão deixando seus portões. Vocês podem ser tão criativos quanto precisarem para conseguir visibilidade para seus trabalhos. YouTube e a web (e o que quer que venha depois do YouTube e da web) podem dar a vocês mais pessoas de audiência do que a televisão jamais deu. As velhas regras estão desmoronando e ninguém sabe quais são as novas regras.
Então inventem suas próprias regras.
Alguém recentemente me perguntou como fazer alguma coisa que ela achava que seria difícil, em seu caso, gravar um audiobook, e eu sugeri que ela fingisse que ela era alguém que poderia fazê-lo. Não fingir fazê-lo, mas fingir que era alguém que podia fazer. Ela colocou uma nota para este efeito na parede do estúdio, e disse que isso ajudou.
Então sejam sábios, porque o mundo necessita de mais sabedoria, e se vocês não puderem ser sábios, finjam ser alguém que é sábio, e então apenas se comportem como eles se comportariam.
E agora vão, e cometam erros interessantes, cometam erros maravilhosos, façam erros gloriosos e fantásticos. Quebrem regras. Façam do mundo um lugar mais interessante por vocês estarem aqui. Façam boa arte."

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A Aventura do Herói em sua Autodescoberta: O Eremita.


Olá pessoal. Vamos agora dar mais um passo na caminhada do Herói. 
Só que esse passo é para trás.

Eremita
Ancient Italian

Um eremita é um indivíduo que, usualmente por penitência, religiosidade, misantropia ou simples amor à natureza, vive em lugar deserto, isolado. O Eremita do Tarô tem dessas coisas. Ele é péssimo para ensinar, exceto pelo exemplo, e péssimo para aprender, exceto pela experiência. E não, ele não procura companhia.


O Eremita precisa experimentar. Nesse passo, o Herói está normalmente sozinho. Ou busca a solidão. Ou foge. Não importa como; ele irá se deparar com a necessidade de pensar com sua própria cabeça. Caminhar com seus próprios pés. No Arcano anterior, dispusemo-nos a julgar a nós mesmos. Aqui, assumimos a nossa culpa.
A culpa é uma das facetas da responsabilidade. Mas, enquanto podemos oferecer responsabilidades para os outros e seguirmos nossas vidas sem maiores problemas, só podemos assumir culpas. Outorgar culpas é sinônimo de problemas. Durante um certo tempo, soa convincente dizer que você não está no melhor dos seus dias devido a alguém. Mas, depois de um tempo... Não, você não está bem porque você não quer.
E a experiência do Eremita virá, de um jeito ou de outro. Ou porque você se isola, ou porque é isolado. Ninguém gosta de reclamações o tempo todo. Ninguém tem tempo para consolar os outros o tempo todo. Ninguém tem disposição para isso... A menos que esconda algo pior para si.
Porém, ao reconhecer a própria culpa, a própria parcela de responsabilidade sem desculpas, o Herói mergulha no silêncio. Não há ninguém a culpar. Não há ninguém a recorrer. E, nesse momento, e por um momento, se é completamente livre, para além da vida e da morte.
Reparemos nos elementos do Eremita: o manto, o cajado, a lanterna (ou a ampulheta, conforme alguns baralhos históricos): todos são elementos externos, que pouco ou nada tem a ver com o interior do Eremita, senão como auxiliares. São suas pernas que caminham, com o auxílio do bastão; são seus olhos que veem, com o auxílio da lanterna; é seu desejo passar incólume, com o auxílio do manto.
A lanterna, o manto, o bastão, estão fora como a Verdade - que só é descoberta e entendida com o distanciamento.
Se você tirou essa carta na posição da Separação, se sentir diferente não te faz diferente. Veja ao seu redor o que tem ocorrido para que você sinta o afastamento. Não é agradável, mas trago amargo também cura. Se você tirou na posição da Iniciação, veja como você chegou ao estado em que está. E assuma sua culpa. Foram seus passos que te trouxeram até aqui. Se você tirou essa carta na posição do Retorno, saiba que você já aprendeu - e muito! - com a experimentação. Que tal oferecer ao mundo seus dons?

Os exercícios propostos e a bibliografia utilizada estão em um arquivo PDF. Para baixar, clique aqui. Caso queira conhecer outras versões dessa carta, clique aqui.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Reflexões sobre a Morte. Ou: I will be blessed.

Tarô do Sonho Encantado

A Morte, Il Tredici. Medonho, fúnebre, indesejado. A Inominável.
Nem sempre.
Morra antes que você morra, diria Osho. E, antes de morrer antes de morrer, eu diria para você ouvir Ben Howard. 
Uma boa morte para você, com direito ao Céu. Sem justificativas. Sem condições.
Abraços a todos.



Oh, my ghost came by here
Said, "who do you love most?
Who you gonna call before you die?"
Oh, my ghost came by here
Said, "who do you love most?
Who you gonna sing to before you go?"

Oh hey, heaven is a place we know
Heaven is the arms that hold us, long before we go
Oh hey, heaven is a place we know
Heaven is the arms that hold us, long before we go

Oh, my ghost came by here
Said, "who do you love most?
Who you gonna call before you die?"
Oh, my ghost came by here
Said, "who do you love most?
Who you gonna sing to before you go?"

Oh hey, heaven is a place we know
Heaven is the arms that hold us, long before we go
Oh hey, heaven is a place we know
Heaven is the arms that hold us, long before we go

Oh, if you're there when the world comes together
Oh, if you're there i will be blessed
Oh, if you're there when the world comes together
Oh, if you're there i will be blessed
Oh, if you're there when the world comes together
Me here, you're there
I will be blessed, i will be blessed
Oh, if you're there when the world comes together
Oh, if you're there i will be blessed
I will be blessed...

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Doze meses com os Enamorados: Claudia Mello.



Conosco hoje Cacau Gonçalves, minha querida Cláudia Mello, falando sobre o nosso regente do ano. Uma carta curiosa, que merece reflexões sinceras para superarmos as idiossincrasias interpretativas que vieram, ao longo do tempo, tomar conta da literatura cartomântica. E a Cláudia faz isso com maestria.
Contatos com a autora: Via Tarot

Enamorados
Old English

Ser ou não ter? Este é o Arcano 6...
As duas interpretações mais comuns da carta dos Enamorados são: as questões emocionais ligadas, normalmente, aos relacionamentos amorosos, e as decisões que precisam ser tomadas. No entanto, com algumas variações sobre esses temas, podemos refletir juntos sobre as sutilezas do Arcano 6.
Primeiramente, gostaria de recorrer ao meu amado Hajo Banzhaf, em seu livro “Manual do Tarô” e transcrever algumas das suas observações:
“O número de Deus no mundo – dois triângulos que resultam num quadrado.”
“Mensagem Marselha: Não há problemas, apenas indecisão. Suas decisões são corretas na medida em que você as mantém.”
“Mensagem Waite: Não se pode obrigar ninguém a nos amar. Você é digno de ser amado na medida em que aceitar a si mesmo.” (Segundo Banzhaf, Waite renunciou conscientemente ao tema da decisão)
“Experiência cotidiana: Decisões de todo tipo, isto é, decidir-se a favor ou contra alguma coisa. Apaixonar-se, encontrar o grande amor; nos relacionamentos/casamentos, experimentar uma nova fase de amor intenso. Conhecer alguém novo e importante. No entanto, também dedicar-se com amor a algum trabalho.”
Bem, com isso já temos ingredientes para começar a nossa reflexão.
O número 6 é, por excelência, um número de união. Entre céu e terra, entre masculino e feminino, entre extremos opostos em busca do equilíbrio. Um detalhe que talvez poucos reparem é que desta energia de união e, portanto, soma, venha a dificuldade da subtração existente na escolha. Pois é preciso abrir mão de uma coisa para se conquistar outra.
Com os Enamorados vamos ter reuniões de grupos, associações, pessoas que possuem objetivos em comum ou as mesmas metas a serem alcançadas. Também, claro, vamos ver os romances acontecerem, se manifestarem. Vamos ver a emoção sendo o foco dos fatos muito mais do que a razão.
Em termos práticos, também veremos a necessidade de trabalhar o amor próprio, a autoestima, o autocuidado. Mas eu chamo a atenção para um processo que costuma ser a maior razão de conflito nas fases de Enamorados: o amadurecimento.
Só é possível saber escolher, decidir com sabedoria, tendo maturidade. A imagem clássica dos Enamorados, ao contrário do que muitos pensam, não mostra um homem dividido entre duas mulheres... Mostra um homem dividido entre a sua mãe e a sua mulher. Este é o processo de passagem de ciclo, em que o homem deixa de ser filho e passa a ser pai, deixa de ser cuidado e passa a cuidar, deixa de ser dependente de uma mulher para ser companheiro, parceiro de uma mulher.
O grande aprendizado do Arcano 6 não é saber escolher uma coisa, é ter a sabedoria do desapego para abandonar outra. O mais comum é vermos pessoas que querem algo, mas não conseguem deixar de olhar pra trás, ficam presas naquilo que não foi escolhido e perdem a leveza do fluir, do seguir em frente. Viram estátuas de sal!
Os Enamorados vêm para mostrar a importância do desapego e o saber administrar este jogo de ganha-e-perde que a vida sempre nos apresenta em algum momento. A dúvida, normalmente, é resultante de um sentimento infantil de querer tudo, de escolher o novo sem soltar o velho. Quando a maturidade vem e compreendemos os ciclos de transformação da vida, fica mais fácil saber o que se quer e saber abrir mão do que for necessário para realizar essa conquista.
Que o Arcano 6 possa nos ensinar o SER – íntegros, plenos e completos – para que as escolhas sejam sábias e as passagens suaves...

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

The Game of Thrones Lenormand: 08. Os Outros.


... A maior parte das histórias concordam que os Outros vem quando está frio. Ou então fica frio quando eles vêm. Por vezes aparecem durante tempestades de neve e somem quando os céus se limpam. Escondem-se da luz do sol e emergem à noite... ou então a noite cai quando emergem. Algumas histórias falam deles montados em cadáveres de animais mortos. Ursos, lobos gigantes, mamutes, cavalos, não importa, desde que esteja morto.  (...) Alguns relatos falam também de aranhas gigantes de gelo. Não sei o que elas são. Homens que caem em batalha contra os Outros precisam ser queimados, caso contrário os mortos voltarão a se erguer como seus servos.

Samwell | Festim dos Corvos, 75-76

Olá pessoal. Hoje falaremos dos maiores antagonistas d'As Crônicas de Gelo e Fogo: os Caminhantes Brancos, ou como são chamados costumeiramente, Os Outros. De todas as criações de George R.R Martin para As Cronicas de Gelo e Fogo, os Outros (The Others, White Walkers) são a maior delas [1].
A aparência da criatura depende completamente da condição do corpo quando foi levantado. Alguns são vivazes, enquanto outros estão realmente apodrecidos (apesar do processo de apodrecimento ficar interrompido). Todos são facilmente identificados por seus olhos ficarem azuis brilhantes e suas mãos e pés pretos e inchados com sangue congelado. Criaturas são supostamente atraídas por sangue quente e atacam com força surpreendente. Parece que as criaturas ainda retém pelo menos um pouco da memória passada.
Estando mortas, criaturas não sentem dor e irão continuar lutando independente de ferimentos. Apesar de poderem ser parados com desmembramento, as partes continuarão a se mexer se forem separadas do corpo. Quando uma criatura é destruída, o azul desaparece dos olhos. Eles são altamente inflamáveis e irão ser consumidos rapidamente pelas chamas ao serem incendiados. É desconhecido até o momento se criaturas podem cruzar a Muralha sozinhos, apesar de que corpos trazidos através da muralha aparentemente são reanimados como criaturas.
Os Outros, como são normalmente conhecidos nos livros e também no script do piloto da série de TV, foram depois renomeados como 'Caminhantes Brancos'. Apesar de os produtores não comentarem diretamente o motivo da mudança de nome, os fãs especulam que tenha sido para evitar as similaridades com os Outros da série de TV 'Lost'. Além disso, nas séries os Outros/Caminhantes Brancos tem uma aparência muito diferente da mostrada no livro, aparecendo como sombras escuras com feições faciais brutais. [2]


Os Outros aparecem no primeiro episódio da primeira temporada e no último episódio da segunda temporada. 


Aguardemos a terceira.


Se a carta dos Outros sair em uma jogada, prepare-se para dar de frente com algo que você não tinha interesse, que foi empurrado para baixo do tapete. Aquilo que apodrece, fede - e o que fede, chama a atenção. Ainda que os Outros não tenham cheiro, eles voltam com aquilo que a Morte lhes tirou - a ação. E é preciso reagir. O medo corta mais profundamente que as espadas, e o gelo é um dos mais afiados objetos cortantes.
Essa carta desperta o medo, o frio, traz à tona aquilo que você quis ou quer esconder. As cartas ao derredor dirão se você vencerá o desafio de se confrontar com aquilo que julgava morto e enterrado.
Saiba dar atenção aos pequenos detalhes. E saiba deixar ir aquilo que precisa ir. Da maneira correta.
Essa carta perde o poder perto da carta 31. O calor dissipa os Outros.

Até a próxima, pessoal.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A Jornada do Louco em sua Autodescoberta: A Justiça.


O Herói passou pelo primeiro portal. Ele firmou as pernas e é agora um homem. Ou, pelo menos, pensa que é  - e é bom que pense, mesmo. E agora ele defronta com os aspectos mais elevados daquilo que costumeiramente foi chamado de “certo” e sua contraparte, o “errado”.

Se pararmos para pensar um pouco, é como se ele retornasse, numa espiral ascendente, à experiência do sexto Arcano. Lá, ele pôde escolher. Aqui, forçosamente ele tem que escolher o correto. Lá, ele teve o apoio do anjo flecheiro. Aqui, ele só tem o peso do próprio coração, a terra de ninguém onde deuses e homens se calam num deserto sem fim. A casca do coração é sentimento, mas seu interior é oco – só assim é capaz de conter sangue e amor. Nos Enamorados, o Herói conheceu a casca; na Justiça, ele conhece o Vazio. Esse Vazio vai ser visto novamente, mais à frente, mas é confortável que a priori ele seja razoavelmente humano.

Justiça
Ancient Italian

Esse silêncio da sala da Justiça – sim, ela está em uma sala – é aterrador. Ele já conheceu as paredes seguras do templo da Sacerdotisa, onde a escuridão lunar era confortável como útero de mãe. Aqui, ao contrário, ele se vê diante do frio, do impessoal e do irredutível apelo da sua própria consciência (sugiro a leitura de William Wilson, para maior aproveitamento desse momento da jornada).
A Justiça é a única carta que consegue sustentar sem esforço a Espada. Existe um motivo para isso: ela não é humana, no sentido estrito da palavra. Ela é causa e resultado de ações humanas, mas está para além de todas elas. E, por isso, o medo e o frio da sala da Justiça apontam para uma virtude a ser desenvolvida. A elaboração de projetos e metas. A resiliência. Antever os obstáculos e perseverar em busca dos resultados. A Justiça é atemporal, mas o que ela pesa está em uma relação de tempo e espaço. Só porque ela está fora não indica que ela não participe (ativamente, inclusive).
A Justiça é a primeira virtude Cardeal de quatro que encontrar-se-ão na Jornada. Ela é a primeira porque ela é a visão de todas as outras. Sem enxergar com os olhos certos, é impossível encontrar as demais. Sua aparente intangibilidade se deve ao fato de que, embora seja uma experiência própria da espécie humana, é individual e intransferível a sua aplicação. Ainda que, num jogo de aproximação e afastamento, seus resultados escapem aos dedos de quem julgava lhe controlar.
A Justiça porta uma espada e uma balança. A espada “destina-se a eliminar a ignorância, a autocomiseração e todas as outras ilusões a respeito da vida. Isso propicia uma visão mais clara de nós mesmos.” A balança “representa a nossa capacidade de avaliar as experiências quando deparamos com elas, compreendendo claramente seu lugar na ordem das coisas.” (DICKERMAN: 1994, 167)
Lembremo-nos que só se pode julgar uma pessoa emancipada. Uma criança, uma pessoa fora do seu juízo normal, não pode ser julgada. Ou seja: aqui o Louco despe sua última capa. Ele não é mais criança e não é mais irracional. Ele está pronto para ser julgado. 
As férias acabaram faz tempo, mas é aqui que percebemos isso.
Se você tirou a Justiça como carta de Separação, acho melhor você ouvir a música "Não vou me adaptar" e perceber como ela tem escrito a sua história. Não está na hora de uma nova trilha sonora? Se você tirou essa carta como Iniciação, está na hora de se tocar de suas responsabilidades. Ser adulto tem lá as suas vantagens. Ser honesto também. Ser verdadeiro, mais ainda. E nenhum desses estados de ser é fácil, mas o que seria de nós sem desafios? Se você tirou essa carta de Retorno, é momento de você colher os frutos que plantou. Causa e efeito, por vezes nos esquecemos que é uma lei, não uma opção. 
Os exercícios propostos e a bibliografia utilizada estão em um arquivo PDF. Para baixar, clique aqui. Caso queira conhecer outras versões dessa carta, clique aqui.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Blogagem Coletiva: Meus cheiros preferidos.


Eu me perfumo para intensificar o que sou. Por isso não posso usar perfumes que me contrariem. Perfumar-se é uma sabedoria instintiva. É bom perfumar-se em segredo.

Clarice Lispector



Aceitando a proposta do blog Café Entre Amigos, vou falar hoje dos meus dez cheiros preferidos. Mas, além disso, ou talvez por isso, falemos também de cartomancia. Afinal de contas, conforme a proposta do blog, “o sentido do olfato é o mais sensível e especializado de todos os sistemas sensoriais, é que parte do nosso cérebro é responsável pelo sentido do olfato (chamado sistema límbico) que controla as emoções e memórias, por isso, às vezes, ao sentirmos o cheiro de algo, imediatamente uma lembrança, seja da infância ou de alguma época, imediatamente vem à tona.” E, quem conhece seus sentidos, encontra nas cartas outras respostas. Mais completas, talvez; mais complexas, certamente.
Dez cheiros, certo. Relacionados à Cartomancia. Vamos lá. 

1. Cheiro de baralho novo. Imbatível. Aquele momento em que você rasga o fitilho e o papel passa a ser ferramenta e atitude. Um momento único para cada baralho.
2. Cheiro de baralho velho. É, outro cheiro imbatível, talvez melhor que o cheiro de baralho novo. O baralho surrado, suado, vivenciado e utilizado por anos tem um cheiro específico que, ainda que seja uma mistura de suores, não é nem de longe ruim como as palavras levam a crer. É um cheiro rico, de mãos que se entrelaçaram em destinos ilustrados por aquelas cartas. O mais curioso é que, entre os baralhos que tenho e baralhos de conhecidos, não necessariamente cartomantes, o cheiro é o mesmo – um baralho de bar, de truco, cheira idêntico a um baralho de Tarô surrado pelo uso.


3. A série Tarot, da D & G. Eu tive a oportunidade de experimentar o Le Bateleur, que é o meu perfume escolhido entre todos (na verdade, não quis nem experimentar os outros, inspirei Le Bateleur e não quis saber de ter opções). Confira as fragrâncias aqui.


4. Cheiro de livro novo. Abrir um livro é sempre uma experiência rica. Quando o livro é novo, a assinatura da tipografia ainda está ali, aromatizada. É algo único.


5. O Perfume, de Patrick Süskind. Quem não leu esse livro, precisa ler. Ok, o filme é maravilhoso e faz jus ao livro, ipsis litteris no que concerne ao enredo. Mas a experiência de “cheirar” algo através de uma descrição literária é algo fantástico. A descrição que o autor faz do cheiro humano faz todo o sentido. Dá para “sentir” o cheiro enquanto lê.
"... as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração - ele penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas."
O Perfume | Patrick Süskind. 

Para quem gosta de ler em inglês, temos um link aqui, ou então, vale a pena dar uma garimpada na Estante Virtual.
6. O Vaporizador de ambientes Protect, do Atelier Nivia Peggion. As fragrâncias masculina e feminina são impactantes. Recomendo veementemente.
7. Incenso. Ok, não é algo fundamental numa leitura cartomântica, mas quando o aroma se eleva, a relação fumaça/aroma nos enleva. Cria, evidentemente, uma atmosfera que permite um melhor desenrolar da consulta. E, reconhecendo a função e a atribuição dos aromas, acabamos por gerar um efeito benéfico no consulente para além daquele proposto pela consulta.
8. Café. Para mim, o aroma suplanta o sabor. É sério. Eu cresci em uma casa a um quarteirão de uma torrefação de café. Toda manhã, o aroma do café torrado tomava conta do bairro, e eu era envolvido em todo aquele aroma, tomando o sol da manhã. Indescritível.


9. Ramalhete de Flores. Não é mais tão convencional quanto deveria ser, e eu ainda prefiro cultivar a cortar flores. Mas o aroma de um ramalhete é algo singular. Assim como a felicidade que a carta 09 do Petit Lenormand traz.
10. Velas de cera de abelha. Ah, se não fossem tão caras... Mas são maravilhosas. Deveríamos acender uma vela de cera de abelha pelo menos uma vez na vida.

E você? Quais são os seus cheiros favoritos?
Abraços a todos. E um cheiro.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

The Game of Thrones Lenormand: 07. A Serpente Melisandre.



Melisandre de Ashai, feiticeira, umbromante e sacerdotisa de R'hllor, o Senhor da Luz, o Coração de Fogo, o Deus da Chama e da Sombra. Melisandre, cuja loucura não se podia deixar espalhar para lá de Pedra do Dragão.
A Fúria dos Reis, p.19.


Melisandre é a sacerdotisa de R'hllor. Vem da cidade oriental de Asshai, ela juntou-se à comitiva de Stannis Baratheon (Carta 11 do Game of Thrones Lenormand), acreditando que este é Azor Ahai renascido, um herói destinado a derrotar o Grande Outro, a antítese do seu deus e, assim, tornou-se uma conselheira próximo dele e de sua família.
Melisandre tem uma grande beleza, com longos cabelos cor de cobre polido e pele pálida e sem mácula. Ela é magra e elegante, e mais alta do que a maioria dos cavaleiros. Ela tem seios fartos, cintura estreita, e um rosto em forma de coração. Sua voz é sonora, com um sotaque exótico. Como é o costume dos sacerdotes vermelhos de sua fé, ela usa roupa vermelha, geralmente longos vestidos de seda. Ela nunca está sem a sua gargantilha de ouro vermelho que se encaixa confortavelmente em volta do pescoço. Quando ela faz magia, o rubi brilha com grande poder. É possível que o nascimento dos dragões de Daenerys (carta 17 do Game of Thrones Lenormand) tenham aumentado os seus poderes. Melisandre é uma mulher misteriosa, confia completamente no poder de seu deus e nas visões que ele lhe concede nas chamas (carta 31 do Game of Thrones Lenormand). Ela calmamente rebate todos aqueles que duvidam dela e ridiculariza os seguidores de outros deuses. Ao contrário de muitos outros com habilidades divinatórias, ela tem total confiança na sua capacidade de interpretar corretamente as visões. Melisandre diz que tem praticado a sua arte por "anos além da contagem" e pode ser muito velha.



Como a Serpente, carta 07 do Game of Thrones Lenormand, Melisandre não é má  (quem poderá dizer que algum personagem de George R. R. Martin é puramente mau?), mas suas atitudes não tem limites. Ela não vê obstáculos nos caminhos dela em direção à obtenção dos desígnios do seu deus. E, justamente por isso, não temos como saber quem são seus peões. Todos são. Todos podem ser.
O veneno de Melisandre é forte e temperado com fogo. Quando essa carta surge no jogo, é importante perceber a quem é que você está servindo. Assim como, evidentemente, saber a quem é que você está causando mal por pensar unicamente em seus interesses.
Evidentemente, essa carta pode representar um inimigo. Mas, cuidado com ele: não é alguém que possa se enfrentar em combate direto. Não é alguém que se possa enfrentar de peito aberto. Não se brinca com veneno.




Melisandre é interpretada pela atriz holandesa Carice van Houten. Ah, e para quem não conhece o trabalho da atriz, ela também é cantora! Abaixo, a música Particle of Light, deliciosa! Vale a pena ouvir. 

Abraços a todos, até o próximo post.
Ah, em tempo: já está disponível o novo teaser da terceira temporada! Assista aqui.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Baralho Cigano da Fábrica do Baralho.


Olá pessoal. Esse baralho foi para mim uma das maiores surpresas agradáveis de 2012. Quem costuma adquirir baralhos aqui no Brasil sabe que os padrões se repetem ou, quando o baralho é de arte singular, o papel não dura. Para quem os utiliza profissionalmente durarão um ano, talvez, com maior cuidado no uso, e menos tempo se o baralho for utilizado como ferramenta diária. As bordas esgarçam, a cor esmaece, o baralho empena, entre outros problemas oriundos única e exclusivamente da natureza do papel utilizado na impressão.

Evidentemente, o custo desses baralhos é baixo, e são encontrados em quase todas as casas de artigos esotéricos ou de umbanda. Se não pelo amor às imagens, não há motivo para grandes apegos – são baralhos para serem de fato usados e descartados, ritualmente ou não.
O Baralho Cigano da Fábrica de Baralhos é uma exceção à regra. O primeiro impacto que tive com esse baralho foi em relação ao papel. Aveludado. Embaralha delicadamente. Fosco – nada pior que uma carta que revela mais a luz da vela que a ilumina que a mensagem a que se propõe. O acuro é indiscutível, o acabamento é impecável. 

Suas imagens são originais, diretas e ricas, cada atributo está no seu lugar. A carta das Nuvens (carta 06) possui uma montanha, algo que pode confundir no início, mas não é nada que atrapalhe a leitura. Os Trevos (carta 02) acompanham o modelo do Lenormand Piatnik, que auxilia na familiarização tanto os praticantes da Escola Brasileira quanto da Escola Europeia. Mantém os naipes, algo que para mim é fundamental. Suas cores são ricas, lembrando o Lenormand ASS. Seguindo uma tendência europeia, é o primeiro baralho brasileiro a não possuir bordas, o que gera uma experiência singular no momento em que dispomos a Mesa Real.
O folheto que o acompanha foge à "regra" de manter o mesmo texto, já obsoleto, que temos nos livretos que acompanham os baralhos brasileiros.
O custo-benefício é evidente. Bom, muito bonito e acessível, durável. As experiências de colegas de ofício com tais cartas corrobora seu bom uso. Tenho o utilizado desde a Mystic Fair São Paulo, e ele mantém suas características, atestando sua durabilidade. Um baralho para a vida toda, ou para grande parte dela.
Aos professores de Cartomancia que assim desejarem, é possível personalizar o logo de sua escola no verso das cartas.
Para adquiri-lo, visite a Fábrica do Baralho.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A Jornada do Louco em sua Autodescoberta: A Carruagem.



Se quiser ter uma experiência mais intensa da leitura desse texto, coloque essa música aqui para carregar. Depois comece a ler.

Carruagem
Ancient Italian

Olá pessoal. Esse é um ponto crítico e fundamental da Aventura do Herói. A Carruagem é uma Iniciação, a primeira de três. E, como toda Iniciação, ela tem os seus perigos e melindres próprios. Tolo aquele que se sente pronto para ser iniciado: a iniciação é como uma estreia no teatro, ou a primeira vez que se entoa uma canção, ou quando se entra em combate em um campeonato, ou quando se presta um vestibular. Você pode ter treinado, estudado, se dedicado integralmente ao pré-processo, mas é o evento que faz seus esforços valerem a pena... ou não. Ninguém quer nadar, nadar e morrer na praia, mas querer, poder e ocorrer são verbos diferentes que dialogam em um evento só.
O Herói aprendeu a lição dos Quatro Sábios. Descobriu que isso não era o suficiente. Se, com a devida humildade, está na hora do primeiro passo consciente. Se, imbuído de orgulho, está na hora do primeiro passo à derrocada. E o curioso, e perigoso, aqui, é que ambos os passos são possíveis e não há ninguém que possa demovê-lo do seu movimento. O Herói vai a caminho do seu destino, seja ele qual for. 
Se tomarmos geometricamente os Arcanos V, VI e VII (lembra que disse que o Arcano V preparava a vivência dos outros dois?), temos três triângulos ascendentes. O primeiro, formado pela cabeça dos noviços, tendo por vértice superior o próprio Hierofante – a sabedoria da Tradição. O segundo, formado pela linha das cabeças das personagens humanas, tendo como vértice superior o Anjo – o Chamado. E agora, na Carruagem, a base é formada pelas cabeças dos cavalos tendo por vértice superior a cabeça do próprio Herói – é a tomada das rédeas do próprio destino (ou pelo menos, a tentativa de algo próximo a isso, como descobriremos adiante).
É hora de dar o “primeiro” passo. Sem esquecer todos os passos anteriores, que permitiram o “primeiro passo”. O Herói engatinhou até agora. Suas pernas estão firmes. É hora de caminhar.
Você tem coragem? Vai precisar.
Se você tirou essa carta na posição de Separação, entenda que as dificuldades de compreensão que você vem sofrendo decorrem do fato de você ainda buscar a aprovação dos outros, como medida de segurança. Até funciona no começo, mas vale a pena sentir-se tão incomodado por isso? Creio que não. Reveja seus conceitos. Se você tirou essa carta para a Iniciação, é momento de você colocar em andamento seus planos. Está tudo no lugar certo. Para quê medo? Você não perderá nada. Na pior das hipóteses, adquirirá experiência. Na pior. Imagine o que há de melhor por vir? Tudo é lucro nesse caso. Se você tirou essa carta na posição do Retorno, bem, veja que você não está ainda satisfeito. Até mesmo o retorno pode ser uma nova aventura – depende para que posição você se direciona. 
Os exercícios propostos e a bibliografia utilizada estão em um arquivo PDF. Para baixar, clique aqui. Caso queira conhecer outras versões dessa carta, clique aqui.
Direcione-se bem.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Da magia cartomântica: Seed Paper.


Olá pessoal. Nesses tempos, tenho pesquisado (e muito!) sobre a magia cartomântica. Lembrando que magia é, conforme Aleister Crowley, a perspectiva de mudar situações pelo uso da Vontade, e cartomântico relaciona-se a qualquer baralho, voltado ou não para o uso místico, me questionei profundamente sobre como aplicar um uso mágico às cartas.
Sou reticente em afirmar que esse potencial lhes é intrínseco. As imagens dialogam com quem as observa. Mas o suporte, não necessariamente. Podemos ter as mesmas imagens em papel, ou ilustrando uma camiseta, ou pintadas em um quadro, ou tridimensionalizadas em esculturas. O potencial simbólico está ali.
O ato de embaralhar e dispor é bidimensional. O ato de virar as imagens também pode ser considerado bidimensional. E a divinação utiliza, justamente, do potencial de ocultamento que a bidimensionalidade proporciona. Um lado eu vejo, o outro não. Um lado é singular – cada um possui sua imagem própria – o outro é plural – todas possuem a mesma imagem.
Mas, tratando-se de magia, a escolha, a meu ver, deve ser consciente. Eu atraio pela imagem aquilo que desejo, e do meu desejo atraio aquilo que a imagem representa, num ir e vir consciente do objetivo final do ato. E, nesse ponto, é necessário escolher tudo. A consciência deve ser global.
Por isso, não utilizo normalmente baralhos completos em intervenções diretas (queimar cartas, por exemplo). Imprimo cartas. As doto de cores. Acresço formas, se necessário. Mas ainda tinha algo que me incomodava, e que fazia diversas experiências: o suporte. O papel.


Essa questão se resolveu quando me deparei com o Seed Paper. O papel que vira flor. Um papel que, após o uso, pode ser plantado e germinar lindas flores (cravo túnico sortido (ou cravo francês), boca de leão, camomila, manjericão, pimenta, rúcula). O papel é maravilhoso. Cuidadosamente confeccionado. E, sinceramente, percebi, ao tocá-lo, que ele é feito de fato com amor. Há acuro, há empenho. Há pesquisa, também, mas vê-se no papel a marca da experiência de quem o produz. 
Sua principal característica é ser um papel reciclado artesanal, produzido por jovens de baixa renda, com alto índice de vulnerabilidade social, na cidade de Atibaia, interior de São Paulo.
O processo de fabricação, apesar de totalmente artesanal, segue normas de proteção ambiental, com reaproveitamento de água sempre que possível e sem corantes químicos.
Pode ser impresso em impressoras jato de tinta, a cores com qualidade fotográfica, frente e verso, com tinta à base d'água para não contaminar as sementes ou por serigrafia.
Tudo que vai ser lido e depois descartado pode (e deve) ser impresso em papel semente.


O processo do plantio é muito fácil: Molhe o papel. Plante-o em terra fértil. Regue diariamente, ele germinará por volta de 20 dias após o plantio. Continue cuidando normalmente.
Particularmente, tenho tido experiências maravilhosas. E, nesse Ano dos Enamorados, experimentarei plantar a carta. Concentrar-me nos seus significados mais elevados. E cultivar um ano perfeito. 
Ah, e eu também acresci ao meu Livro das Sombras algumas páginas de Seed Paper. Para serem plantadas no Sabá. Para rememorarem o ciclo de transformação que deve acompanhar a escrita desse livro. Para lembrar que somos únicos, mas não os mesmos. Estamos sempre em transformação.
O papel semente pode ser adquirido por e-mail, através do contato@seedpaper.com.br.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Conversas Cartomânticas: Luciana Lebel e o Tarô Memes


Tarô Meme by Luciana Lebel

Olá pessoal. Pouco tempo depois de eu entrar para o Facebook, dei de cara com o Tarô Meme. Foi identificação imediata. Quando vi o Arcano VII, meu arcano regente, por sinal, me identifiquei de tal feita que se tornou meu avatar. E estava há tempos querendo bater um papo com a idealizadora, Luciana Lebel. Havia a conhecido pessoalmente na Mystic Fair Rio, mas não tivemos tempo de conversar muito. Uma lacuna que pretendo sanar em breve, mas para tal intenção, esse bate papo é um primeiro passo.
O Tarô Meme é para pensar. Para pensar em transculturalidade, em contemporaneidade, em conexão psíquica e acepção dos significados. Open your mind. Have a brave new world.


1.Fale-me um pouco sobre você. Qual é a sua formação? Como surgiu o Tarô na sua vida? Qual é a linha de raciocínio que você segue em suas interpretações?
Sou Luciana, tenho 33 anos, carioca, formada em publicidade e psicologia. O tarô está na minha vida faz uns 15 anos, mas ele surgiu ainda antes quando meu pai não me permitia tocar no baralho dele, porque não era coisa de criança. Porém, claro que isso me deixou mais curiosa e depois acabei entrando em contato com o tarô através de revistas, feiras esotéricas, pessoas do meio, o que me levou a querer estudá-lo e investir em livros e cursos. 
A minha linha de raciocínio na interpretação do tarô geralmente segue um modo mais terapêutico, conceitos da psicologia se mesclam, como também tem o lado da previsão.

2. Como surgiu a ideia do Tarô Meme?
As redes sociais, especialmente o Facebook, fazem parte do cotidiano da grande parte das pessoas. Apesar da origem dos memes que conhecemos vir do 4chan, isso se espalhou por toda a rede, nas mídias sociais, em sites de entretenimento. Foi uma expansão viral, o que parece demonstrar que tais expressões ilustrativas transmitem de modo rápido nossos pensamentos e sentimentos. Além disso, são uma piada! Quando você entende e ri de uma piada, é porque de algum modo quase telepático aquilo fez sentido, está incorporado. Os memes apesar de parecer apenas um desenho tosco, dizem tudo de um modo muito objetivo e divertido. Eles são como um palavrão, demonstram de uma vez, sem eufemismo. 
Além disso, as expressões faciais do ser humano já surgem desde que somos bebês, existe algo de arcaico nisso, por isso talvez os memes atinjam rápido o alvo e humanizem um meio onde a comunicação pode ser dura como a internet. Muitos deles são derivados de rostos de celebridades e situações comuns, o que deixa tudo muito mais engraçado, afinal, mazelas e alegrias nos unem.
E então, na convivência com este mundo virtual e jogando cartas, lembrava dos memes, ficava imaginando os personagens dos arcanos - cuja expressão é em grande parte Pokerface - se eles pudessem expressar uma cara, qual seria?E qual cara teria mais relação com o conceito desta carta? Então, fui testar!

3. A proposta é contemporânea e, como tal, facilmente inteligível para quem conhece os significados propostos para os memes. Você acredita que o inverso é verdadeiro, ou seja, a partir dos memes é possível entender o processo cartomântico e simbólico?
Se a pessoa conhece os memes, acredito que ela entenderá parte do afeto envolvido no arcano. Acho que oferece uma ponte, mas os arcanos podem ser mais profundos e o meme mostrar apenas uma faceta, uma característica da carta, deixando ainda um monte de sentidos para se descobrir. Por exemplo, coloquei Forever Alone para o eremita, mostrando o aspecto “sozinho”, daquele sujeito que se sente isolado e que sempre confunde se estão chamando ele, ou outra pessoa atrás dele. Mas tem uma série de outros significados além de solidão para o arcano do eremita como bem sabemos. Ainda sim, acredito ser possível que os memes ofereçam algumas sacações para o leigo. Alguma coisa ele vai captar!

4. Esse tarô é passível de utilização em uma consulta? Ou seria apenas para coleção?
Acredito que pode ser útil para consulta para quem já domina o tarô. No mínimo, gera uma consciência forte do tipo de postura que se está tomando e um momento de “rir de si mesmo”. É a função da comédia, nos dar um espelho do nosso ridículo e trágico. Então, se você tira uma carta gozando da sua situação, talvez você possa rir dela e contorná-la com o espírito de iniciante do bobo. Porém, reafirmando, o meme que escolhi para cada arcano reforça apenas uma faceta da carta. Em algumas delas, enxerguei mais de uma opção de meme. Um arcano pode ter outras caras.

5. A intervenção foi feita em cima de um Marseille. Seria possível manter os mesmos memes para outros baralhos ou o projeto é exclusivo para esse baralho?
Eu sou apaixonada pelo Marselhão. Amor antigo, foi meu primeiro, a gente nunca esquece. rs Ele tem ilustrações ao mesmo tempo toscas e ao mesmo tempo cheio de significados, e por isso achei que ele era perfeito para inserir os memes, visto que segue a idéia do traço simples e da imagem chapada com poucas cores. Mas claro, que é possível colocar memes em outros baralhos. Vai depender da estética de quem o fizer!rs

6. Existe plano de publicá-lo? (Eu compraria, rs!)
Não, na mais sincera realidade, eu fiz apenas por diversão. Você acha uma boa idéia publicar?rs Eu sempre estou associando tarô a imagens do contemporâneo. Na comunidade que administrava no Orkut, fiz um projeto coletivo de associar acontecimentos e pessoas com as cartas, tudo foi por votação e sugestão, onde surgiu então um outro baralho chamado Tarô Person@Como eu trabalho com artes gráficas, imagens, acabo realizando as pirações. Eu sempre estou vendo tarô em tudo.

7. Você pretende estender o projeto para os Arcanos Menores?
Acho que os arcanos menores do Marselha não dão muita margem, mas seria possível sim, apenas teria que criar uma padronização para isso. Mas no momento, não é algo que pretendo estender. Mas espero que todos possam se divertir com os arcanos maiores do Tarô Meme!

Gratidão, Luciana, pelo carinho e disponibilidade. E, claro: por esse baralho divertidíssimo!