sábado, 25 de fevereiro de 2012

Conversas Cartomânticas: Prem Mangla e o Valete de Espadas



E eu não gosto do Valete de Espadas. #prontofalei. Pelo menos, não gostava.

Laurence Fishbourne como Othelo e Kenneth Branagh como Iago, 

Essa é uma carta tradicionalmente relacionada à intriga, à fofoca, à maledicência e ao ciúme. O melhor personagem para representá-la é o shakesperiano Iago, da tragédia Othelo, o Mouro de Veneza. Faz de amiguinho, por inveja, e destroi sua vida e caminhos. Nem todos nós somos inocentes para sermos convencidos por alguém assim; mas, se o formos, é tragédia na certa.

Valete de Nuvens
Mente
Osho Zen

E, por essas e outras, foi uma das cartas mais difíceis até então de eu encontrar alguém para escrever - evidentemente, eu não quereria experienciar a ideia de falsidade e inveja dessa carta (alguém se voluntaria?)
Ter, porém, lido o texto da Prem Mangla me abriu os olhos para outras possibilidades. Ela tem seu lado belo, para além da sombra que eu via (engraçado notar que essa sombra tinha muito de Sombra, conforme veremos em breve). Sejamos, portanto, guiados nessa carta com a doçura própria da autora.
Mas não nos enganemos: essa carta é furiosa, e danosa a quem a encontra com inocência: ninguém quer ser um Valete de Espadas, ninguém quer se encontrar com um Valete de Espadas. E bem sabemos o que a Fada Madrinha Má fez por se achar preterida...
Contato com a autora em seu blog.

Pagem de Espadas
Witches (007)

Quando se vê a imagem de um jovem embainhando uma  espada, a primeira impressão é de alguém pronto para a luta não é mesmo? Porem a pergunta é: Quanto tempo ele levou para chegar até ali? Será que esta pronto mesmo? Que tática usará? Vindo de um jovem, podemos esperar muitas coisas, pois obedecer a um impulso ou saciar uma curiosidade não significa estar pronto, e o resultado nem sempre é positivo.

Valete de Espadas
Waite-Smith

Quando se é jovem a primeira tendência é obedecer aos nossos impulsos que não são necessariamente os mais corretos, porque estão sob influencia emocional  e as emoções de um adolescente são uma incógnita para o mais estudioso dos terapeutas. O que os leva a salvar o mundo e torná-lo bem melhor?  O que os leva a andar com os amigos e falar o mesmo idioma e se compreenderem? Não importa em que condições familiares eles crescem, adolescer é um processo grupal onde existem diferenças de idéias entre eles e seus pais ou responsáveis. 

Valete de Espadas
Universal-Angelis

Assim é o Valete de Espadas, jovem, antenado no seu mundo e nos seus interesses, por vezes se tornando um Dom Quixote querendo salvar sua Dulcineia, por outras um  Samurai, um guerreiro disputando sua honra e seu território e em outras, um lutador de Esgrima que esta absolutamente centrado em seus objetivos. Tudo para se tornar um Rei Artur diante de seu fieis cavaleiros (amigos). Atos heroicos exigem estratégias e pensamentos aguçados que tornam os feitos na base da tentativa e erro em resultados nem sempre  positivos, a experiência e o tempo transformam o mais passional dos guerreiros.

Valete de Espadas
Lenormand Tarot

Ao longo da história e do tempo podemos ver muitos Valetes de Espadas, e em nossas vidas pessoais também, muitos momentos de nossa jornada pessoal nos tornamos o Valete de Espadas. O mais famoso é o vestibulando, já observou um vestibulando em véspera de prova da faculdade escolhida? Durante o ano inteiro ele respira estudo, recebe as maiores pressões internas e externas, cobradíssimo por um resultado perfeito, já não bastava que no ano anterior lhe pedissem uma decisão da escolha de sua carreira profissional para o resto de sua vida, nossa que peso!  ; Isso é uma batalha não e mesmo? Existem os que param as festas e mergulham nos estudos e existem os que levam a vida da melhor maneira possível, apenas quando sair a lista dos aprovados, saberemos  qual a melhor estratégia. 

Valete de Espadas
Marseille Dusserre-Marteau

De um modo geral o nosso Valete em questão esta inserido na nossa rotina de vida, não importa a faixa etária, representa nossas intenções diante de uma situação, por isso atenção ao lado da lamina da sua espada, de um lado usa a inteligência e batalha por seus objetivos usando táticas super honestas , dando um passo de cada vez, para atingir suas metas.  Porém sua astúcia pode ser usada também para enganar e ludibriar, manipulando quem quer que seja até que seus objetivos sejam atingidos. É a famosa faca de dois gumes. Um lado apara as arestas da vida e encontra ajuda, o outro lado fere e muito a si e aos que o cercam, deixando rastros por onde passa. 

Valete de Espadas
Dame Fortune's Wheel

E então de que lado você usa sua espada?


Nota do editor: Em alguns baralhos, como o Lo Scarabeo, os Pajens são substituídos pelas Princesas. Existem diversas possibilidades de análise dessa perspectiva; porém, em última instância, aplica-se tanto às Princesas quanto aos Pajens os mesmos significados propostos.

Em tempo: existem dois romances, um policial e uma prosa, e uma HQ (!) que evocam essa carta. E atenção, beberrões: tem uma bebida, também. :)
Valete de Espadas, um mundo para além da fofoca. Rumor as it.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Nova postagem no Clube do Tarô: das cimitarras bastardas.


Olá pessoal. Eu tenho refletido - e muito! - sobre o naipe de Espadas e, dessas reflexões, saiu o seguinte texto, que disserta sobre a iconografia das dez cartas numeradas desse naipe. Espero que apreciem.
Abraços a todos.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Conversas Cartomânticas: Adriana Kastrup e o Cavaleiro de Espadas



Olá pessoal. Continuando nossa Blogagem Coletiva, temos aqui Adriana Kastrup falando-nos do Cavaleiro de Espadas. Conheci a Adriana no Fórum Nacional de Tarô e, encantado com sua palestra e tendo levado o livro dela para ser autografado, percebi que não só possuía um grande conhecimento dos Arcanos, como era de uma simpatia ímpar. Foi um grande prazer conversar com ela. E agora, partilhamos desse mesmo prazer ao ler seu texto. 
Adriana Kastrup estudou na Italia onde se especializou em Tarô Clássico e divinatório. Há 27 anos atua como taróloga, atende e dá aulas no Rio de Janeiro. Consultora na Rede Globo em cenas de Tarô. Possui matérias publicadas em jornais como O Globo.
Contatos com Adriana Kastrup: adrianakastrup@uol.com.br
Vamos com ela, ao encontro do Cavaleiro de Espadas, em um trecho do seu livro A Vida pelo Tarô (recomendadíssimo!)

Cavaleiro de Espadas
Marseille Grimauld

Nosso menino se transforma num Cavaleiro ainda mais bem articulado, e quer, a qualquer custo, concretizar suas brilhantes idéias. Seguindo seus instintos e se utilizando de sua capacidade estratégica, lá vai ele, sem medo algum.

Impetuosamente, cheio de coragem e força de vontade, nosso rapaz sai atrás do novo, promovendo um vendaval de súbitas mudanças em nossas vidas. Normalmente inesperadas, novas notícias ou acontecimentos se aproximam com a chegada desse Cavaleiro.
Ele não passa por nós impunemente e não deixa de forma alguma que a acomodação tome conta do pedaço. Assim como não consegue ficar quieto, produz um furacão que nos leva junto. A sua chegada é sentida nessa movimentação e na clareza mental e rapidez de raciocínio que nos domina subitamente.

Cavaleiro de Espadas
Visconti-Sforza (US Games)

Porém, com toda essa pressa, corremos o risco de alavancada desmedida e do erro pela precipitação. Se nosso amigo, no entanto, não tiver condições próprias para canalizar toda essa energia, pode sair por aí roubando as idéias dos outros ou contando elaboradas mentiras, sem nunca perder a pose. Além disso, sua disposição agressiva rapidamente pode gerar conflitos e graves discussões. Torna-se facilmente um ser pretensioso, crente de que é mais iluminado que o restante da humanidade.

Cavaleiro de Espadas
Ancient Italian

Figurinha fácil em profissões que lidam com mundanidades e agitação.
Aqui, na família de Espadas, o Cavaleiro é a figura mais importante.

Príncipe de Espadas
Thoth Crowley-Harris

Nota do editor: Em alguns baralhos, como o Thoth, os Cavaleiros são substituídos pelos Príncipes. Existem diversas possibilidades de análise dessa perspectiva; porém, em última instância, aplica-se tanto aos Príncipes quanto aos Cavaleiros os mesmos significados propostos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Os Tarôs de Marselha da Editora Pensamento

Tal como um verdadeiro Mutus Liber, o Tarô não veio acompanhado de normas ou dogmas, para ser utilizado obrigatoriamente deste ou daquele modo; todas as regras que hoje conhecemos foram inventadas posteriormente. Portanto, as normas e regras de utilização que lemos e ouvimos, as afirmações do que é certo ou errado, devem ser compreendidas de modo muito relativo e flexível. Os verdadeiros autores do Tarô, aqueles que sabiam do que se tratava, permaneceram anônimos e sem palavras. Ninguém, hoje em dia, pode se arvorar como autoridade para falar em nomes dos mestres originais. 

O Tarot permance um desafio em aberto. O que podemos fazer é nos associarmos para tentar decifrar os ensinamentos que se ocultam sob o conjunto das 78 cartas. E para fugir aos erros da subjetividade, nada melhor que trabalhar em grupo, partilhar, colocar à prova nossas reflexões. É esse o propósito do Clube do Tarô.

Olá pessoal. O Tarô de Marselha foi, entre as décadas de 1980 e 1990, o baralho mais acessível aqui no Brasil e formador da maior parte dos cartomantes, justamente por seu preço e disponibilidade frente às iniciativas importadas. Além disso, o baralho foi alvo de estudos que o "hermetizaram" e "esoterizaram" a um nível que agradava tanto os pesquisadores do Oculto quanto os interessados na Cartomancia de viés prático, voltada para as questões do cotidiano. Eram as mesmas imagens, com potencial interpretativo que beirava um horizonte.
Hoje, quase trinta anos depois e com um acesso muito maior a baralhos de outras estirpes, vejo o Marselha sendo, pouco a pouco, suplantado em comentários pelo Rider-Waite e pelos transculturais. Creio que esse súbito desinteresse se deu pela dificuldade em interpretar as cartas numeradas do Marseille com a facilidade proposta pelos baralhos inspirados em Waite, com palavras-chave e ilustrações que guiavam o olhar na interpretação. Mas, é certo, com o tempo as imagens que funcionariam como first steps passam a ser limitadoras das possibilidades interpretativas. Eu tenho apreço pelo padrão clássico por isso.  
Mas a origem do nosso interesse pelo Tarô provém, em grande parte, pela existência de estudos sobre esse baralho ter sido tão grande, como a de Carlos Godo, que referenciamos aqui.

O Louco
Marseille Grimauld

Como toda história tem dois lados, alguns problemas decorreram dos estudos serem muito mais iconográficos que históricos. O padrão Grimauld se instalou, levando os pesquisadores a estudarem com afinco as cores e formas de cada imagem, gerando padrões interpretativos complexos para além dos conceitos próprios de cada uma das cartas. Isso dava a cada detalhe da imagem característica de Universo. Uma pintura de Pollock em cada microanálise. Contudo, outros baralhos, também marselheses, eram tidos como "errados", como se o padrão Grimauld fosse o único certo.
Então, com as devidas ressalvas - não existem Marseilles errados, só diferentes - o padrão Grimauld é um dos mais agradáveis em minha opinião, justamente pelas imagens bem desenhadas e rachuradas, em relação às demais versões. 

O Louco
Marseille Conver

Comparemos com o Antigo Tarô de Marselha, de Nicholas Conver, de 1760. Aqui, as imagens eram coloridas à mão, o que acrescia cores às já utilizadas azul, vermelho, verde, preto, amarelo e carnação. O baralho foi inicialmente publicado pela Lo Scarabeo e atualmente é editado no país pela Pensamento. O traço é basicamente o mesmo, as cores não. Mas isso não impede que os mesmos voos interpretativos dados com o padrão Grimauld sejam dados com o padrão Conver.

Louco
Jean Payen

Queria apontar aqui também uma versão que teve grande peso na minha formação, já que foi meu primeiro baralho de Tarô: a versão de Jean Payen. O colorido dessas cartas é mais escuro, com preponderância do preto e, por isso, ao me deparar com os estudos sobre o Tarô de Marselha, me assustei um bocado com a perspectiva de estar usando um baralho errado quando, na verdade, eu tinha em mãos um baralho histórico. Os 22 Arcanos Maiores desse baralho estão disponíveis pela COPAG do Brasil.


E, para começarmos bem o ano, começamos com promoção! A Editora Pensamento disponibilizou para os leitores do Conversas Cartomânticas um exemplar do Tarô de Marselha de Carlos Godo, acompanhado do baralho de 78 cartas. Para participar, é muito simples: 
- Seja seguidor do Conversas Cartomânticas
- Deixe um comentário nessa postagem, com seu nome completo e e-mail para contato.
O sorteio será feito pelo site Random.org, no dia 20 de março. Alguém entrará o Ano Novo Astrológico de baralho novo! :)
Abraços a todos.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

I look to you, Whitney. And I will always love your songs.


Não nego, estou arrasado com a notícia. A perda de mais uma cantora que me marcou indelevelmente, que me faz pensar na efemeridade de uma vida. Whitney Houston (9 de agosto de 1963 - 11 de fevereiro de 2012) foi encontrada morta por um integrante de sua equipe na banheira de uma suíte no quarto andar do Beverly Hilton, hotel de Los Angeles. E com ela, foi também um pedacinho de mim.


Eu já havia falado sobre ela antes, aqui. Ter visto o reerguimento dessa pessoa foi para mim motivo de profunda gratidão à Divindade. Hoje, embora muito triste, ainda agradeço, por ter tido a oportunidade de ter sido tocado positivamente por essa mulher.


Que possamos conhecer mais pessoas como ela, nesta vida. A ti ergo minha Taça, pelo prazer que sua voz me trouxe tantas vezes. Siga em paz. Vou sentir saudades. A gente se vê, por aí.

Rainha de Copas
Hanson-Roberts

Abraços a todos.


Ouça as músicas dela aqui. E deleite-se, seja por saudade, seja por reconhecimento. 
Acho que, para mim, será um pouco dos dois.
O pessoal do seriado Glee também sofreu. Assista, aqui.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Conversas Cartomânticas: Kelma Mazziero e a Rainha de Espadas - Atire a primeira pedra quem não a reconhece



Olá pessoal. Eu acompanho o trabalho da Kelma Mazziero há uns bons anos. Acompanhei toda a escrita do livro Cartas na Mesa. E a conheci pessoalmente na Confraria Brasileira de Tarot. É de uma simpatia ímpar. Touro ascendente Touro, no mesmo grau de simpatia, tem praticidade. É, para mim, a melhor abordagem das cartas: buscar a raiz da questão, não o poema. Me divirto muito lendo os textos dela, que recomendo a quem, como eu, tenta ver Arcanos no cotidiano, não no transcendente, que, por ser transcendente, já é Arcano - não precisa de mais mistérios além daqueles que já tem!
Contatos com a autora: blog Cartas na Mesa, site Tarô Virtual.



Rainha de Espadas
Art Nouveau

Rainha de Espadas é a carta da corte perfeita para se fazer um espelho – ou reflexo – da persona polêmica e instintiva que ali se manifesta. Forte, de pulso firme, com mente sagaz, observadora compulsiva e veloz, age e reage com precisão. Ela é a mais temida e detestada quando se reflete em outra pessoa - qualquer um - que não seja a gente mesmo. Contudo, quando brota em nós, é a mais prazerosa das criaturas. Ela desperta o que é radical, extremo, provoca julgamentos e condenações. Mas como é possível tanto paradoxo numa só imagem?


Rainha de Espadas
Pallas
Dame Fortuna

Simples. Viver a Rainha de Espadas é conseguir dar a volta por cima depois de sofrer, de se decepcionar, de amargar alguma coisa realmente importante. Pode ser aquele relacionamento que surgiu de maneira incrível e terminou numa traição vil, pode ser a amizade que se mostrou falsa e gerou humilhação, pode ser um emprego sonhado que se torno maldição. Qualquer situação significativa que tenhamos vivido, que acreditávamos com todas as nossas forças... e acabou se mostrando um engodo. Depois do susto, do sofrimento, ela surge! A Rainha faz respirar fundo, limpar as lágrimas, tirar a sujeira da roupa e decide que nada daquilo irá defini-la. “O que mata, me fortalece”. E ela renasce muito mais atenta, desconfiada, sarcástica, capaz. Poderosa. Sim, porque o poder está diretamente ligado à posse e à perda. Aqui não vale (nem cabe) definir o que está certo ou errado, não tem a menor graça apostar no politicamente correto, não adianta tentar discurso moral. Só ela sabe o que viveu, só ela sabe como superou, portanto, só ela sabe como irá seguir daquele ponto em diante. Portanto, a Rainha de Espadas se manifesta, sim, para todo mundo em pelo menos um momento da vida. E é ela que permite sentirmos o sabor da reviravolta e da capacidade de se aprender apanhando. Quando sentimos na pele uma lição cruel não nos damos conta de que fomos inflexíveis, cegos, atirados numa meta sem pensar nas conseqüências. Só sentimos que não podemos ter tudo o que queremos e isso é uma lição muitas vezes regada a retaliação, orgulho, persistência.


Rainha de Espadas
Visconti-Sforza (Lo Scarabeo)

Curioso é o revés dessa moeda. Quando somos impiedosos tudo parece justo (desde que superemos aquilo que nos fez sofrer). Mas, quando encontramos em nossas vidas alguém que esteja em seu momento Rainha de Espadas, o cenário muda. Drasticamente. Isso porque a Rainha não dá brecha pra gente. Ela é cruel, dura, ácida, racional. Notamos que suas emoções são amargas, que ela é precisa, não facilita absolutamente nada pra ninguém. Pode ser alguém que gostava da gente e passou a detestar, pode ser um colega de trabalho ou patrão que não aceita falhas e não confia em ninguém se tornando competitivo e difícil de conviver, pode ser um familiar que não permita que se viva fora de seu controle ou domínio. O mais interessante é que, ao assumirmos essa carta, não notamos o quanto estamos dificultando as coisas para os demais. Mas, quando nos deparamos com ela fora de nós, sentimos a mais pura aflição por sermos seu alvo.

Rainha de Espadas
Marseille Grimauld
Repare na sua espada vermelha, como que
banhada em sangue. A única espada vermelha
do Tarô de Marselha.

Assim como (quase) tudo na vida, é muito mais fácil justificar nossos próprios erros do que fazermos isso com os outros. E a chave que dissolve toda essa força da Rainha de Espadas é justamente o perdão. Porque, enquanto não há perdão, não é possível deixar o que houve no passado e partir pra algo novo (não vale viver o novo com a dor do passado, senão é só repaginar “mais do mesmo”). A inflexibilidade que nos leva a desconfiar do mundo e dar a volta por cima é a mesma que faz com que não consigamos encontrar uma forma de nos relacionarmos com quem é inflexível. O perdão é, portanto, a única forma de se dar um basta no ciclo “olho por olho, dente por dente”. Como diz o ditado: “Perdoar não é esquecer, é aprender a lembrar sem dor”, porque existem coisas que não esquecemos, mas são passíveis (e possíveis) de se compreender e conviver sem carregar junto a dor que nos fizeram passar.
Rainha de Espadas é osso duro de roer para quem precisa lidar com ela. Mas não há como dizer que é postura desprezível, nem há como afirmar que pode se viver sem experimentá-la... muito menos ignorá-la. Ela é a mais pura reação, que por pior que possa parecer, consegue fazer qualquer um dar a volta por cima e continuar a vida ainda mais forte e indestrutível num momento em que nos sentimos presos por um fio. Basta entender, dosar... e perdoar. Assim ela existe, mas não persiste para todos (todos!) nós.


Abraço e obrigada

Kelma Mazziero





Nota do Editor: Assim como o baralho Dame Fortuna, acima apresentado, os baralhos de Piquet franceses relacionam a Rainha de Espadas com Pallas, a Deusa Athena. Ela é a única Deusa relacionada nessa atribuição. No Sola-Busca, temos Olímpia, a mãe de Alexandre, o Grande. Meditações, meditações... Ah: e teve essa imagem aqui, do Barbara Walker, que eu não tive coragem de postar, mas fica o link para os corajosos (ou curiosos, vá saber.)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Da consulta.

Pessoal, vi essa tirinha no blog Mulher de 30, da Cibele Santos (recomendadíssimo, não só para mulheres de 30, como também aqueles homens que querem entender suas mulheres de 30...), e não resisti a refletir a respeito. Vamos comigo e com a Cibele:


Para os cartomantes de plantão: quantas vezes nos deparamos com uma cena dessas, em que a mesa (ou método, ou tiragem...) aponta para um sentido diferente daquele procurado pelo consulente, sem, no entanto, apontar para uma negativa?
Tenho visto isso com uma certa frequência e, devido às reflexões propostas pela Giane Portal sobre jogos truncados, fiquei pensando nas motivações para uma consulta.
Eu não gosto de saber o motivo pelo qual o consulente vem à minha mesa. Parece-me limitador ir nesse ponto, diretamente; jogos como a Mesa Real e a Cruz Celta podem ir além de responder questões, e a Mandala Astrológica pode oferecer panoramas mais restritos, dependendo do jogo. Cartomancia é o contato com o maravilhoso mundo do inconsciente e do possível, e nem sempre é possível ir além do visível.
Mas o mergulhar nas cartas, para mim, tem que ser livre de amarras. E isso nem sempre satisfaz o consulente num primeiro momento. Repare na tirinha: por mais que os prognósticos sejam aqueles aspirados por quase todo mundo - representam a aparência de uma vida feliz e próspera - não correspondem àquilo que a consulente foi buscar, e, pelo jeito, ela não está dando a menor atenção ao que a vidente diz.
Existem cartomantes, no entanto, que preferem trabalhar com questionamentos prévios. Esses questionamentos limitam o universo de possibilidades das cartas. Tão funcional quanto não saber nada, justamente porque deixa o operador à vontade para fazer seu trabalho. Mas, nesse caso, a tirinha não existiria: ver-se-ia o possível marido, e dispensar-se-iam as demais questões. Tudo para conforto da consulente.
Para os consulentes de plantão: é ultra importante que você vá à consulta com algumas prerrogativas, a menos que você queira perder dinheiro (e não estou falando da competência do cartomante que lhe atenderá, que é outra história, conforme veremos à frente): saiba que o oráculo tem a precisão na resposta equivalente à sua certeza da questão. Então, formule sua questão com propriedade. Nomes, locais, datas de início e duração auxiliam muito nessa hora. Se não se sentir à vontade para isso, sem problemas: concentre-se em obter um panorama do seu momento. Avise isso ao seu Cartomante, ele saberá desenvolver o melhor jogo para você. Anote. Grave, se quiser. Aproveite a consulta ao máximo, preste atenção, faça perguntas. Converse com o seu Cartomante sobre o que ele está vendo, não sobre o motivo que te levou até ele. E vá dando feedbacks, se for necessário, para que ele possa guiar-se até o ponto em que você deseja. A consulta é sua, a visão é dele. O resultado, o aconselhamento, o encaminhamento, é construído pelos dois, para usufruto seu.
E aí vem a parte do Cartomante. Escolha, conscientemente, o profissional que te atenderá. É importante que você sinta empatia por ele. Alguns serão mais doces nas palavras, outros se aterão aos fatos vistos nas cartas, haverão aqueles que mesclarão abordagens terapêuticas, astrológicas, numerológicas, holísticas. Enfim, o que importará, nesse caso, é o quão à vontade você estará para ouvir, apreender e aplicar a consulta em sua vida. Sentiu que o Cartomante não está sendo preciso? Não hesite em avisá-lo. Ele terá respaldo para dizer o porquê de estar conduzindo a consulta por aquele viés. E, se não tiver, você sempre poderá procurar a opinião de outro profissional.
Cartomancia é magia, ninguém se iluda quanto a isso. Mas não é um grilhão, é uma escolha... que pode ser refeita.
Aos Cartomantes, clientes conscientes ou dispostos a conscientizar-se. Aos clientes, consulentes, curiosos, um Cartomante competente... ou mais de um.
E aí teremos consultas ricas e belas, sempre, crescendo juntos.
Abraços a todos. 


Dos Enamorados. Hassan e Amir




Há algum tempo, eu assisti no cinema O Caçador de Pipas. E li o livro em seguida. E comprei o DVD. E chorei todas as vezes. Descobri recentemente que até mesmo uma HQ foi feita. Quero ler também. 




Enquanto isso, vou vendo o filme, again and again.







A história fala de fidelidade. De comprometimento. Mas também de perdão a si mesmo e perdão ao passado. De agir direito depois da experiência de ter agido errado. Tudo isso permeado por política, geografia, aproximação e estranhamento do universo muçulmano.


"Sempre dói mais ter algo e perdê-lo do que não ter aquilo desde o começo"


 Khaled Hosseini foi primoroso na elaboração de sua obra – aquele que consegue as lágrimas e os sorrisos de seus leitores, conseguiu alcançar o intento oculto de todo escritor – o encontro das mãos daquele que escreve com as mãos daquele que lê, tendo como intermediário as páginas do livro (ou as telas de computador).
E, como estou mergulhado dois palmos acima da cabeça no universo da cultura árabe, devido ao estudo d’As Mil e Uma Noites, resolvi assistir de novo ao filme. 
Tendo refletido sobre os Enamorados na mais recente postagem, foi inevitável relacionar o filme, que decidi assistir novamente, ao Arcano, que decidi visitar mais uma vez, hoje.



Os Sultões de Cabul são complementares, por isso mesmo diametralmente opostos em caráter e comportamento. Hassan demonstra um caráter inquebrantável. Sua pureza de coração, embora louvável, não é a maior de suas virtudes: sua coragem é admirável. Seu senso de honra é belíssimo e sua fidelidade a Amir é algo que beira o legendário. Falta-me adjetivos para orná-lo nessa apresentação. Valete de Copas.



Em contraposição, Amir é covarde. Seu pacifismo oculta sua insegurança e dubialidade. Falta-lhe comprometimento, consigo mesmo e com os outros. Falta-lhe compaixão, no sentido mais amplo da palavra.  Valete de Espadas.


Valete de Copas (espelhado), Valete de Espadas
Waite Smith


Mas, antes de julgá-lo, ou, talvez por isso mesmo, por julgá-lo, pensemos em suas motivações. Ele queria impressionar o pai, ser algo para o pai, mas culpava-se por ter sido o responsável pela morte da mãe, que faleceu ao dar-lhe a luz. E sua sensibilidade para a escrita não atraía do pai a menor atenção, que não via nisso a menor utilidade.



A etnia de Hassan, hazari, colocava-o em situação inferior à de Amir. E Asef, leitor ávido das ideias de Hitler, atormentava-o por isso. Destruía-o. Se, por volta de 1980, quando isso ocorre, houvesse o conceito de bullying (que hoje justifica o mimo e a timidez de crianças cujos pais omissos impedem seu crescimento como pessoas e interpretam suas atitudes como decorrência da omissão da escola, enfraquecendo seu caráter, ao invés de protegê-las adequadamente, estando presentes em suas vidas), eu diria que Amir sofria o bullying de Asef e seus asseclas. Mas não; nem o conceito existia, nem Amir sofria – Hassan o protegia, com seu estilingue.
Mas isso não era suficiente. Se a proteção do corpo lhe era garantida, sua alma fatigada sofria com a sua própria inapetência. Com o ataque de Asef a Hassan, Amir não pode tolerar a presença dele consigo, pois sua fidelidade expressava sua própria covardia. E, nesse espelho reverso e convexo de intencionalidades, Amir consegue afastar definitivamente Hassan de sua vida.
Ao atentar-me aos aspectos emocionais do Arcano VI, não dei o devido ênfase à questão da escolha. Escolher algo nem sempre significa preterir algo. É quase possível delinear uma iconografia que privilegie os aspectos aqui elencados: Amir, Valete de Espadas; Hassan, de Copas... ladeando um Rei de Paus, que, por ser Rei, é Fogo e, por ter ideias intensas, é Fogo também. E um pouco de cada se reflete em cada um dos seus filhos, de maneira diversa e complementar.

A luz do Fogo reflete-se na lâmina da Espada e na Água da Taça.
Marseille Grimauld

As crianças crescem... E as histórias mudam – de tema, ou de rumo. E Amir descobre que sua história é outra, mas o tema é o mesmo: fidelidade.



E o Anjo, que na infância de Amir apontava a seta, porta uma trombeta... E o chama ao Julgamento. Quem é você, Amir, depois de todos esses anos?
Encontrar Sorab não é só encontrar uma criança. É reencontrar a si mesmo refletido em outros olhos, já que os primeiros lhe foram impossíveis de mirar. É redescobrir o sentido da frase: por você, faço mil vezes.
Enamorados. Opções não; escolhas. Escolhas. Escolha de que lado você está. Da consciência, ou não. Catorze Arcanos depois, virá a conscientização... E espero que ela o encontre ciente do seu dever e dormindo tranquilo.
Pois o Anjo não deixou de lhe velar uma única noite.



Abraços a todos. 

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Conversas Cartomânticas: Aline Gois e o Rei de Espadas


Olá pessoal. Vamos agora para o naipe mais controverso e passível de discussão de todo o baralho. Favorito de uns, temido por outros, execrado pela maioria, Espadas mete medo. Mas tudo o que mete medo, é porque não é devidamente conhecido... Vamos juntos, respirar o Ar desse naipe, aproximando-nos de sua essência, para além da esperança e do medo. Quem nos guia hoje é Aline Gois, pela figura do Rei de Espadas.
Aline Gois por ela mesma:

Estudo Tarô, Runas e tenho uma curiosidade enorme por Astrologia e a tudo que se refere a Simbologia e a Psiquê Humana. A prática com o oráculo se estende por 20 anos, comecei a oferecer consultas aos 15. Moro em Brasília, trabalho como Consultora Comercial e paralelo a tudo que faço, dou consultas tanto de Tarô como de Runas, compartilhando o conhecimento adquirido como Professora de Tarô e Runas também.
Então... Vamos com ela.

Análise sobre o Rei de Espadas

Rei de Espadas
Waite-Smith

Quando recebi o convite para dialogar sobre o Rei de Espadas, pensei que seria uma tarefa fácil. Ledo engano. Como descrever com veemência um personagem tão vasto de contornos e nuances? Antes de qualquer coisa é preciso que se diga que há parâmetros muito amplos para analisá-lo com respeito e fidelidade as características mais marcantes nessa carta. Tive a oportunidade de observá-lo em vários ângulos. Tanto numa vivência pessoal contextualizada, como a análise cuidadosa de pessoas que exercem na prática as características presentes no Rei de Espadas. É sobre essas experiências, vividas e absorvidas através da prática do Tarô que busquei embasar minha leitura sobre o Rei de Espadas. Como ele surge do movimento trazido pelo ar, o percebo rarefeito, com contornos bem particulares e que se alteram com o movimento leve ou ate mesmo brusco que esse elemento pode atribuir.

Rei de Espadas
Anna K.

Identificar situações geradas por esse Arcano é um passeio prático e analítico sobre os fatos. O reino mental pertence a ele, e este o domina por completo. Partisse do principio da razão, um verdadeiro estrategista. Jogar contra a um Rei de Espadas, é cair no abismo. Pois ele percebe todas as possibilidades, prevendo sabiamente onde isso o levará. Se aliar a ele, é causa ganha! Em alguns momentos se torna realmente necessário uma aplicação prática desse arcano. Pois como ele tem o dom de antever por meio da razão e objetividade, é possível traçar todo um perfil de planejamento e organização. Bem como medir seus riscos. Profissionalmente, coloca tudo em ordem, e não adianta fazer muita manha, é preciso ser firme e aceitar os desafios que a vida impõe para que as tarefas sejam concluídas com êxito. Não basta fazer, tem que ser feito do jeito certo. Para um Rei de Espadas a medida de certo e errado é muito firme. Não existe mais ou menos certo, e ele torna a vida um verdadeiro inferno se isso não é tomado ao pé da letra.

Rei de Espadas
Secret

Por outro lado, observando os tipos psicológicos que “sofrem” a influência do Rei de Espadas é possível observar essas considerações feitas e ir além delas. Se envolver emocionalmente com um tipo como esse, requer no mínimo, ter o espírito forte. São relacionamentos baseados em um contexto mental, é pela mente que ele se seduz e conquista tudo e a todos a sua volta. Observando bem de perto, são manipuladores e envolventes. Há um quê de ardiloso nisso. Embora essa seja uma característica mais comum em tipos de personalidades mal integradas e que se encontram, por alguma razão, contidas em seus sentimentos. Esses dilemas emocionais são muito comuns para um Rei de Espadas, pois é um reino que ele não tem acesso. O sentimento para ele é algo analisado e medido, quase como uma fórmula. E como isso não costuma funcionar muito bem pra ninguém nessa vida, ele se fragiliza. E procura envolvimentos emocionais onde  tenha total controle e domínio. Quando isso foge da regra, surgem os tipos arrogantes, ciumentos e manipuladores. Tornando suas relações passionais e de extremo risco, especialmente para a parceira.

Rei de Espadas
Visconti-Sforza
US Games

Um Rei de Espadas escolhe seus amantes por outros atributos. É preciso que haja algo realmente compensador para que ele se mantenha fiel ou ate mesmo firme num relacionamento. Ele pensa primeiro nele, depois nele e por último nele também. E todo resto deve obedecer essa regra. Como isso também não costuma funcionar muito bem, ele termina ficando sozinho e se concentrando no trabalho, em questões práticas, em flertes. Em  relações onde possa ter mais controle dos sentimentos e da quantidade mínima que terá que doar para ter o que precisa, deixando-o satisfeito.

"O homem que dá a sentença empunha a Espada."
Ned Stark, um Rei de Espadas.
Game of Thrones, primeira temporada, episódio 1.

Bom, com tantos atributos complicados, da vontade de mudar de rua para não ter que cruzar com um tipo como esse. Outro grande engano. O Rei de Espadas é uma figura iluminada, impossível não percebê-lo num local, dar mesmo vontade de se aproximar, são muito magnéticos. Especialmente, se você for alvo do interesse dele. São intelectualmente incríveis, excelentes professores, educadores incansáveis para tornar tudo mais perfeito e completo. Uma noitada ao lado de um Rei de Espadas nunca será uma perda de tempo, muito menos monótono. Ele transforma todas as conversas em algo rico e preciso de detalhes, repleto de informações técnicas, acadêmicas, culturais, sobre tudo, tudo mesmo que se possa imaginar. 
São pessoas de alma firme, realistas e muito práticos, e que encantam por possuir um charme elegante, humor refinado e cuidados essências com a aparência. Como disse anteriormente, são excelentes estrategistas e costumam conseguir sempre tudo que desejam, e com a habilidade única de extrair das pessoas aquilo que elas tem de melhor.

Rei de Espadas
Ancient Italian

Essa energia contida na carta do Rei de Espadas o confere todo o poder de transformação inconsciente para um estado de consciência plena. Transferindo para a realidade o que somos capazes de realizar, e nos revelando o tamanho da nossa inteligência em trabalharmos em prol de algo melhor e mais concreto. Observar o Arcano em suas potencialidades, e desenvolvê-lo em qualidades é tarefa complexa e praticamente se leva uma vida inteira nessa missão. Mas vale a pena! Porque nos permite explorar melhor nossos recursos e talentos, tornando a vida algo que requer muito mais discernimento do que somente boa vontade. 

Cavaleiro de Espadas
Hermetic

Nota do editor: Em alguns baralhos, como o Hermetic, os Reis são substituídos pelos Cavaleiros. Existem diversas possibilidades de análise dessa perspectiva; porém, em última instância, aplica-se tanto aos Reis quanto aos Cavaleiros os mesmos significados propostos.
Atenção: essa interpretação só é possível quando houver a carta do Príncipe substituindo o Cavaleiro original.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

RPG e Tarot... Confluências num 4 de Paus

Esses dias atrás, estava eu refletindo sobre cartas que me agradam (porque sobre as encardidas eu já disse aqui). Evidentemente, o Três de Copas é uma delas. Quem não gosta da celebração, da felicidade, do contentamento que provêm da abundância da subida de Perséfone dos Infernos onde reina, para encontrar-se com Dheamater?

Três de Copas
Celebração
Osho Zen Tarot
Na minha opinião, uma das melhores releituras
do Três de Copas do Waite-Smith.

Mas, apesar disso, e da beleza disso, eu tenho uma carta que enche meu coração de maior alegria. O quatro de Paus. Que, tratando-se do Waite-Smith, é quase, "apenas", uma diferença de perspectiva em relação ao três de Copas. Aonde o três de Copas é festa, o quatro de Paus é estruturação da celebração. Porque, convenhamos, para haver celebração, mesmo que seja uma festa surpresa, alguém tem que ter se predisposto a organizar algo, antes.


Quatro de Paus
Radiant Rider Waite

Parece estranho não evocar um nove ou dez de Ouros, ou um seis de Espadas, ou um nove de Copas. Mas não, eu realmente gosto do quatro de Paus. Suas atribuições são muito interessantes, e por vezes até contraditórias, se pensarmos que o naipe de Paus, por ser Fogo, não aceita acompanhantes que não tolerem seu calor, sendo, portanto, atraente à distância, apenas. Da mesma forma, um quatro, por ser estruturação, não carece de companhia e acompanhamento, sendo, em todos os naipes, um ponto de reflexão pessoal, não de encontro. 
Mas dessa combinação sui generis de dois valores individualistas, temos justamente a carta de Paus mais agregadora. O quatro de Paus é o fogo da lareira em meio a um incêndio de possibilidades. Vênus em Áries, diria Crowley. 


Louis Jean Francois Lagrenee - Marte e Venus, alegoria da paz.


Vênus e Ares. Um encontro fortuito, que atrai outro, e outro, e um ao outro, dos quais Harmonia é o resultado.


Quatro de Paus
Thoth Crowley-Harris

Completude. Conclusão. Como se, antes do meio, antevíssemos um fim. Vai dar tudo certo, ouço sussurrar ao meu ouvido. Mas não, não vai, não tão facilmente – olha o cinco ali, sucedendo, como dragão que espreita, como serpente pronta para dar o bote. De prontidão, mas não predisposta.
Vai de como se encara o quatro. 
Uma das versões mais belas do quatro de Paus que conheço é a do Tarô Mitológico. Engraçado como vejo, recentemente, críticas à esse baralho sendo que, no Brasil, foi o oráculo mais precioso para o conhecimento dos Arcanos Menores, tão desvalorizados em locais onde o padrão Marseille fez escola. Ok, eu não gostei da reedição, com retoques nos desenhos originais da Tricia Nevell, mas essa é uma opinião pessoal.


Quatro de Paus
Tarô Mitológico

Pois bem. No quatro de Paus do Tarô Mitológico, Jasão está ao meio, tendo ao seu redor Teseu (representando o naipe de Paus e representado no Rei desse mesmo naipe), Castor e Pólux (representando o naipe de Espadas e representados no Cavaleiro desse mesmo naipe), Héracles (representando o poder de realização e representado no Arcano Maior A Força) e Orfeu (representando o naipe de Copas e representado no Rei deste mesmo naipe). Cadê Ouros? Não, não é esse o ponto por aqui. Procura-se a realização, não a concretização. Espera-se obter o Velocino, mas não se sabe o que fazer com ele após obtê-lo – como veremos lá no dez.
Vendo esses quatro personagens (inter)ligados por um objetivo comum, é praticamente impossível para mim não recordar dos jogos de RPG (Role Playing Game – jogo de representação de papéis), em especial o Dungeons & Dragons.







Para quem não conhece RPG, tenho certeza que entenderão o que quero dizer se lembrarem-se do desenho Caverna do Dragão – que, à propósito, chama-se Dungeons & Dragons no original.


Ladino, Guerreiro, Clérigo, Maga... E monstros.


Bem, num jogo de RPG tradicional, ao estilo do Dungeons & Dragons, temos mais ou menos quatro personagens (de acordo com o número de jogadores) - um guerreiro, um mago, um clérigo e um ladrão - dotados de habilidades diferentes entre si, e totalmente complementares. Assim como Vênus e Ar(i)es, a complementaridade de todas as habilidades permitem a sobrevivência do grupo, aventura após aventura. O guerreiro possui a força, mas não é capaz de lidar bem com mágicas; o mago possui a mágica, mas é fraco e não consegue curar; o clérigo cura e tem o potencial para ataques diretos do guerreiro, ainda que em menor potência; e o ladino é capaz de abrir fechaduras e atacar pelos flancos com maior eficácia. Sozinhos, sobretudo no 1º Nível, não são capazes de sobreviver às aventuras propostas pelo Mestre; mas, em conjunto... Pelo menos existe a possibilidade de subirem de nível.


Quatro de Paus
Participação
Osho Zen Tarot
Vejam como os quatro membros se fortalecem no laço desenvolvido
com os demais presentes. Há bênção quando há união.


E é assim que eu gosto do quatro de Paus... De ver o quão interligados estamos. Quando ele surge em um jogo, teremos todo o auxílio necessário para a obtenção do nosso desejo, por merecimento, não sorte; Deus, não Fortuna (como diria o nickname de Dion Fortune). Mas, evidentemente, esse não é o fim da tarefa proposta pelo naipe, que tem que ser levada a cabo por cada indivíduo como mestre de sua vida.
Abraços a todos.