Conheci esse baralho ano passado, nas postagens do Alex Tarólogo. Primeira referência que conheci a respeito desse oráculo, mas não pensava um dia conhecer o baralho em minhas próprias mãos. E confesso que, tendo o conhecido em outubro, não achei que fosse tão bom. Não foi um baralho que acelerou meu coração imediatamente, mas, talvez justamente por isso, tenho o carinho por ele que o mantém entre meus favoritos. Existem paixões que demandam tempo e vivência. O estranhamento inicial não foi um obstáculo; antes, foi um caminho.
O meu, eu ganhei de presente da Priscilla Lhacer. Um mimo, um carinho que, makhtub! tinha uma razão de ser. Quando um oráculo chega às nossas mãos por vias misteriosas como um presente ou surpresa, é bom que estejamos atentos aos seus efeitos. E, nesse caso, os efeitos foram preciosos ao ponto de eu indicá-lo, veementemente, para quem se interessa por Cartomancia, sobretudo a italiana, no qual ele se baseia.
O baralho é formado por 52 cartas - o mesmo número de cartas de um baralho comum - o que o predispõe a ser a ilustração de significados anteriores propostos para cada uma das cartas do baralho comum. Se hoje não possuímos acesso às referências que nortearam a elaboração das imagens, pelo menos podemos pressupor que a metologia do jogo será semelhante àquela que norteia sessões de Cartomancia. Muitas cartas, frases curtas, porém precisas.
Uma possibilidade de desenvolvimento desse oráculo é ser uma contração do Vera Sibilla Italiana, hipótese altamente plausível, proposta pela Socorro, da De Keizerin Boutique (recomendo). Eu tenho encontrado alguns outros baralhos que também corresponderiam a esses desenvolvimento imagético de conceitos cartomânticos de matriz comum. Mas é cedo ainda para que eu possa afirmar qualquer coisa.
Minha experiência com esse oráculo tem apontado que ele é precioso para revelar intenções e fazer previsões de curta duração. Nada muito extenso, nada muito amplo: aquilo que é passível de se resolver com uma frase, mais elaborada que um simples sim/não, mas menos elaboradas que um panorama.
Como exemplo, posto uma das minhas cartas favoritas, o Mercador. Eu pensei nela justamente por ela dialogar com as minhas leituras no momento - Malba Tahan, Rumi (indicação preciosa do Claudiney Prieto), Omar Kayyam e As Mil e Uma Noites (livro e baralho). E daí, temos um primeiro passo para analisar as demais 51 cartas.
O Mercador
Oráculo da Cigana
Lo Scarabeo
Seguindo a orientação do livreto que acompanha as cartas, vamos trabalhar com a formação do conceito da lâmina a partir do cruzamento entre o título e a imagem.
Mercador é o título dado àqueles que mercadeiam. Que comerciam. Que levam e trazem. Em todos os sentidos.
Conforme o Dicionário Aurélio:
s.m. Indivíduo que compra por atacado para vender a varejo. / Negociante de panos. // Fazer ouvido de mercador, v. OUVIDO.Estar em contato com várias culturas, com vários povos, fazem do mercador um personagem ambivalente. Por um lado, nunca saberão exatamente o que ele pensa, já que ele conheceu um mundo diferente demais para se prender unicamente aos limites do seu povo ou região; por outro lado, as questões a que se apega tem para ele um valor maior do que para aqueles que se mantém devido ao costume, ao hábito, num mesmo comportamento. Ele escolhe manter um comportamento, porque sua natureza o leva a voltar sempre ao local de origem, com o desejo de partir novamente.
Por outro lado, ele sempre saberá mais dos outros que os outros pensam que ele sabe. O contato com pessoas tão diferentes o deixa atento aos hábitos, tiques, vícios. Só assim ele sabe diferenciar pesos e medidas - pelo que não se diz, mas se deixa dizer... pelo que não foi dito.
Dentro dessa perspectiva, e poderíamos estendê-la muito mais, verificando filologicamente as demais possibilidades oferecidas - Mercante, Marchand, Mercader, Kaufmann - o Mercador é um personagem cujo olhar anseia pelo horizonte, a quem ninguém é ilimitado o bastante para uma análise comportamental. Os termos parecem ser a mesma coisa, mas não são. Significados se depreendem de termos aparentemente sinônimos e, pouco a pouco, percebemos que o poder do termo está em ser único, mas passível de ser substituído por algo que, mesmo parecido, não é igual. Como exemplo, pensemos no termo francês Marchand. Além de Mercador, esse termo define aqueles que entendem de Arte o suficiente para indicar a compra de algo; seria o representante de um artista. O intermediário. Apesar dos significados se tocarem, há que se notar expansões. Os termos se cruzam, se reproduzem, e significados se apresentam ante nossos olhos.
Atente, nessa imagem, para os olhos do Mercador. Através de seus olhos,
ele não só expõe sua mercadoria, como todas as possibilidades que encontrou
de belo em seus tecidos. Comprar-se-ia tecidos dele por seus olhos.
Diante disso, da ideia de intermediação, tão concernente ao termo, vamos para a imagem.
Apesar de estar ligado à ideia de viagem, de busca de mercadorias em locais distantes, nessa carta vemos essa ideia como secundária. Temos uma carta ativa nesse sentido - a Viagem, cuja iconografia do personagem remete à do Mercador. Aqui, vemos o navio ao fundo partindo, não sabemos se o navio deixou o mercador ou se irá buscar mercadorias para ele. Só sabemos que ele já não participa do processo - o que chega, ou o que parte, apesar de passar pelo Mercador, não lhe compete mais. O navio também aparece nas cartas Suspiros, Esposa e Consolação, mostrando aquilo que vem de longe... ou remete para longe.
À esquerda: Suspiros. À direita: Consolação.
Observe o navio, dialogando com o personagem principal.
Oráculo da Cigana
Lo Scarabeo
Se falamos do navio, falemos do mar. Como diria a Ana Carolina: "por que me mostra o mar, se eu quero ver o navio?"
À esquerda: A Esposa. À direita: Desgosto.
Em uma o navio.
Na outra, a imensidão do mar.
Oráculo da Cigana
Lo Scarabeo
Diante da imensidão, os detalhes se diluem. Para o melhor ou para o pior. Além disso, o mar une o aqui ao lá. Com um horizonte de possibilidades no meio. O mar transcende o espaço visível, mostrando que o que se busca ainda não está ao alcance. Mas já é possível desejar. Além das já citadas Consolação e Suspiros, o mar aparece em Desgosto. Mas aqui o navio já não se vê. E a frase de Ana Carolina faz todo o sentido. Coloca os Suspiros ladeando Desgosto e dá uma olhada.
Dos diálogos entre as iconografias, partimos para o personagem principal. Um árabe, irmão dos árabes. Suas vestes apontam para isso. Moro, mouro. E aí precisaríamos entender como um italiano veria um mouro para sabermos como essa carta seria vista pelo italiano que a delineou. Novos sentidos se depreenderão disso. Se você der uma olhadinha nesse link aqui, ficará sabendo que os italianos já dominaram a Líbia, durante o declínio do Império Otomano, na chamada Guerra Ítalo-Turca, em 1911. Apesar de italianos terem ocupado o território, eles não foram capazes de colonizar o espaço, perdendo terreno durante a I Guerra Mundial. As culturas coexistiram como água sob azeite. O conflito mistura, o tempo assenta cada coisa em seu lugar - conforme seus atores veem a questão de "lugar".
Alguns barris, caixas, e um acolchoado no qual esse mouro se apoia, correspondem às suas mercadorias. Ele está a postos, pois se dali se afastar, perde o que tem - é sua presença que atesta que o que o rodeia é dele. Mas sua posição é relaxada - logo, carregadores irão levar o material para o local correto.
Espera
Oráculo da Cigana
Lo Scarabeo
Seu olhar se perde à frente, como em Suspiro e Espera. Se o olhar se perde, é porque os pensamentos importam mais. E não são pensamentos coesos, direcionados; são sonhos, devaneios, alimentados pela espera, que permite uma certa esperança.
Sinbad conta sua história ao carregador.
Seis de Ouros
Tarô das Mil e Uma Noites
Lo Scarabeo
Se nos remetermos à literatura, sobretudo Às Mil e Uma Noites, veremos que a figura do jovem afoito por aventuras, que vende tudo o que tem em busca de negócios no estrangeiro é recorrente. O personagem mais emblemático dessa perspectiva é Sinbad, que, por sete vezes, vende o que tem e sai em busca de aventuras. E da história de Sinbad apreendemos outros detalhes: quando vivemos algo maravilhoso, precisamos compartilhar com alguém.
A história de Sinbad ocorre nos tempos do Califa Harun Al-Rashid, personagem que também se carrega de significados. Conforme consta, ele se disfarçava de mercador para visitar seu reino, de forma a assegurar-se pessoalmente de que tudo corria bem. Diversas histórias d'As Mil e Uma Noites o referenciam, seja como marco temporal ("No tempo do Califa Harun Al-Rashid..."), seja como personagem. Como personagem, talvez, seja o mais interessante. Ele é curioso, imiscuindo-se em qualquer assunto que considere interessante; contudo, não revela sua identidade até o momento oportuno, saindo-se muito bem como mercador para alguém que foi treinado para ser Califa. Conforme vimos antes, ao Mercador pertencem todos os pensamentos que o rodeiam, enquanto seus pensamentos não pertencem a ninguém. Ele precisa contar sua história, ele deseja contar sua história. Mas você jamais conseguirá ler seus pensamentos.
Daí, poderíamos sintetizar os significados observados em algumas palavras-chave, para além das óbvias comércio e troca: Intermediação consciente e proveitosa. Saber ouvir. Captar intenções com facilidade. Estar longe do que é familiar, ou ansiar por esse distanciamento. Notícias que vêm de longe. Um presente aguardado. Espera ansiosa, resultado breve. Uma história. Lucro, dividendos. Contato com culturas diferentes. Afirmação da identidade. Disfarce temporário. Teus pensamentos são terra de ninguém. Conhecimento de causa. Ansiedade pelo novo. Aguardo de novidades. Estar em território estranho. Diplomacia. O que se vê é mais precioso do que o que se ouve.
É muito divertido fazer isso, observar um oráculo novo com olhos de primeira vez, caçando respostas às indagações que surgem. Desses mergulhos, obtemos respostas preciosas às possibilidades de interpretação do oráculo. Eu não fazia a menor ideia de que chegaríamos aonde chegamos com esse texto - eu só escolhi a minha carta favorita, e saio mais rico na minha leitura dela. Dá um pouquinho de trabalho, mas vale a pena - quem falou que Cartomancia é fácil?
Abraços a todos.
Post Scriptum: Há um livro sobre esse baralho, com visualização acessível aqui. O irmão Euclydes Cardoso Jr., do TarotCabala, publicou o seu primeiro olhar sobre as cartas, aqui. Vale a leitura, vale o mergulhar nas imagens. O Ricardo Pereira, autor do Substractum Tarot, postou sua vivência com esse baralho aqui, vivência essa que dispensa comentários e atesta a rapidez das previsões. E, caso queira adquirir o seu, clique aqui.
Atualização em 07 de novembro de 2012: Alguns links interessantes para o entendimento da profundidade dessa lâmina: aqui, aqui e aqui.




































