segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Oráculo dos Deuses, Heróis e Titãs


Olá pessoal. A Editora Pensamento-Cultrix acabou de lançar o Oráculo dos Deuses, Heróis e Titãs, versão brasileira do Mythic Oracle. O baralho é formado por quarenta e cinco cartas ilustradas por Michelle-lee Phelan (que foi responsável pelo igualmente lindo Oracle of Dragonfae), divididas em quatro grupos: Heróis, Seres Mágicos, Olimpianos e Titãs.  


TITÃS

1. Cronos (Ciclos)
2. Réia (Proteção)
3. Prometeu (Sacrifício)
4. Mnemósina (Inspiração)
5. Atlas (Responsabilidade)
6. Têmis (Ordem natural)
7. Selene (Intuição)
8. Hélio (Iluminação)
9. Éos (Novos começos)

OLIMPIANOS

10. Zeus (O Pai)
11. Zeus (Expansão Divina)
12. Deméter (A Mãe)
13. Deméter (A Colheita)
14. Hera (Dever)
15. Hades (Morte)
16. Hades (O Mundo Inferior)
17. Poseidon (O Desconhecido)
18. Poseidon (O Agitador da Terra)
19. Ártemis (Pureza)
20. Apolo (Clareza)
21. Pã (Sexualidade)
22. Hefesto (Trabalho)
23. Marte* (Batalha)
24. Héstia (Lar)
25. Atena (Sabedoria)
26. Hermes (Mensagens)
27. Hermes (Viagem)
28. Afrodite (Amor)
29. Afrodite (Beleza)
30. Eros (Desejo)
31. Eros (União Sagrada)
32. Perséfone (Despertar)
33. Perséfone (Renascimento)
34. Dionísio (Liberdade)
35. Hebe (Brincadeira)
36. Íris (Harmonia)

SERES MÁGICOS

37. Quíron (Cura)
38. Pandora (Esperança)
39. As Moiras (Destino)
40. Hécate (Encruzilhada)

HERÓIS

41. Aquiles (Glória)
42. Orfeu (Fé)
43. Ulisses (A Jornada)
44. Hércules (Força)
45. Perseu (Coragem)

Poseidon, o Treme-Terra


Os mitos gregos são as histórias da humanidade. Eles são o reflexo da natureza e dos ciclos humanos e é através dessas histórias que podemos vir a entender melhor a nós mesmos.
O Oráculo dos Deuses, Heróis e Titãs traz estas histórias e símbolos atemporais para o mundo moderno, proporcionando-lhe uma ferramenta que pode ser usada no cotidiano para delicadamente guiá-lo através dos ciclos de vida em matéria de amor, carreira, criatividade, família, espiritualidade e consciência pessoal, permitindo que você possa ultrapassar os desafios da vida com maior clareza, consciência e vontade, obtendo assim uma vida clara, focada e gratificante.


Athena, a Sabedoria

O Oráculo dos Deuses, Heróis e Titãs vai lhe dar uma visão mais detalhada sobre o que está acontecendo em sua vida, o que é necessário e o que vem a seguir. O guia incluso apresenta uma descrição dos mitos, suas interpretações divinatórias e uma gama de jogadas que lhe permitirá ler com precisão para si mesmo e para os outros. Para quem já está no caminho há um tempo, esse baralho irá dialogar com as práticas desenvolvidas com o Tarô Mitológico e com outros baralhos de inspiração semelhante.


Zeus, o Grande Pai

A autora, Carisa Mellado, é uma talentosa escritora australiana que dedicou mais de uma década da sua vida estudando muitos aspectos do campo da Mente, do Corpo e do Espírito, e também trabalhou durante muitos anos como uma bem-sucedida taróloga profissional. Ela tem um grande interesse pela psicologia e pelas tradições espirituais do mundo todo, e é especialista em Mitologia. Carisa também é musicista e compositora. Além de ter seus próprios projetos musicais, foi convidada a participar da composição de muitas trilhas musicais e CDs de meditação. 

Artemis, a Pureza.

A galeria com todas as cartas pode ser vista aqui. E caso queira degustar o primeiro capítulo, é aqui.


*Transcrito ipsis litteris da degustação. A carta corresponde a Ares, o Deus da Guerra grego. Marte é seu equivalente romano.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Para o entendimento da carta 26 do Petit Lenormand.


A carta 26 do Petit Lenormand é representada por um livro (ou grupo deles), corresponde ao Dez de Ouros e seu poema diz (CartaMundi em inglês, tradução livre): Um segredo está / escrito nesse livro. / Vamos tentar descobri-lo / olhando as [demais] cartas atentamente.
Para isso, nada melhor que acompanharmos As Memórias do Livro, de Geraldine Brooks.




Da Espanha de 1480 até a enfraquecida Sarajevo de 1996, um livro sagrado de valor incalculável é caçado por fanáticos políticos e religiosos. Seu destino está nas mãos de uma talentosa conservadora de livros a charmosa protagonista Hanna, e sua recuperação resulta em um mistério histórico arrebatador.
Quando Hanna é chamada a Sarajevo para examinar o Hagadá, um código judaico do século XV que havia desaparecido durante a guerra da Bósnia, ela não pode acreditar que um documento tão maravilhoso estava preservado depois de tantas guerras e tanto preconceito. A partir de pistas encontradas no próprio manuscrito uma asa de inseto, manchas de vinho e um pêlo branco Hanna desvenda uma série de enigmas fascinantes e reconstrói as memórias do livro. E o resultado é um verdadeiro épico, uma corrida contra o tempo para revelar o passado e dar espaço à crônica da história do livro, enquanto Hanna procura a cura para uma criança vítima da intolerância da guerra, um amor impossível, sua própria identidade e proteção: do Hagadá e de sua própria vida. (Fonte: Skoob)


Conheci esse livro quando cursava o curso de conservação e restauro de bens culturais (FAOP). Dialogava diretamente com o ofício de restauro de papel, e na época eu trabalhava com um missal. Mas não imaginava que o livro fosse me tocar tanto, nem que fosse dialogar com a Cartomancia. Contudo... Encontramos os melhores diálogos no cotidiano, quando menos esperamos. E ler cartas pede leitura constante, não só delas. Leia aqui uma resenha d'As Memórias do Livro no Lendo.org. A Livraria Cultura disponibilizou o acesso a alguns capítulos, à guisa de degustação. Experimente aqui.




Eu sempre me questionei os motivos que levaram aos autores do Petit Lenormand a correlacionar o Livro com segredos.
O livro é um registro. E estamos falando de um período em que ser letrado era sinônimo de ter poder, ou de pertencer, ao menos, a uma classe de poder. Mas o livro também é comunicação – há livros para os outros lerem, há os livros para o autor apenas ler, refletindo sobre o seu passado. Mas todo livro pressupõe um leitor.



É estranho, para nós, homens e mulheres do século XXI, tendo acesso a tantas mídias, pensarmos no livro como um segredo. Hoje contamos com tantos instrumentos para produzir e guardar informação, que por vezes nos esquecemos que essas mídias são deveras recentes. Não mais que quinze anos atrás, utilizávamos ainda disquetes, fitas cassetes, máquinas fotográficas tradicionais, com filme, eram a opção mais viável, VHS convivia pacificamente com os DVDs nas locadoras, 32 bits eram um sonho de interface nos videogames... Contudo, pensemos nos diários do século XIX, o espaço de intimidade e sonhos das mulheres, em busca de uma identidade ainda em construção. 



Da mesma forma, pensemos que, para um analfabeto, o código ali escrito não lhe esclarece nada, ainda que esteja claro para um leitor alfabetizado. Ou mesmo que não analfabeto, um livro em outra língua traria o mesmo problema. Então, aqui o segredo corresponde a não compreensão de um código específico, ou mesmo uma informação pertinente que encaixa as pedras no tabuleiro ainda não chegou ao consulente. Os “conhecimentos que desvendam segredos”.



As grandes religiões monoteístas do Ocidente são religiões do livro. O Judaísmo possui a Torá; o Cristianismo, a Bíblia; o Islamismo, o Corão. Os livros garantem que o texto original não seja perdido – ainda que permitam a interpretação dos mesmos por seus sacerdotes. A interpretação, contudo, se adequa à época, ao grupo que lê, à forma como o sacerdote apresenta o texto. O texto não muda, e se permite novas leituras e interpretações futuras – algo mais complexo se estivéssemos lidando com uma tradição oral. Talvez por isso, ou justamente por isso, na iconografia cristã, o livro é o atributo de todos os Santos Doutores da Igreja.



Saber ler e escrever era tão importante que haviam profissionais específicos para lidar com a escrita: copidesques e escrivães. A escrita, inclusive, foi elevada ao status de arte no medievo pela Igreja Católica, com as iluminuras de seus livros. Talvez por isso essa carta também tenha sido correlacionada com a profissão. Nessa carta, vemos o trabalho do consulente, o emprego, os negócios; investimentos veremos na carta 34.



Dessa forma, quando sai num jogo, o livro aponta para questões que demandam maior entendimento e questionamento daquilo que se sabe atualmente. 



Se vocês prestarem bem atenção, conversamos até agora apenas sobre os Dez de cada naipe. O que essas cartas tem em comum? O que as diferencia? Conversemos sobre isso no curso de Petit Lenormand que darei no Rio de Janeiro.
Em tempo: Pepi Valderrama lançou seu Mystic d'Époque Petit Lenormand. Para baixar uma versão de avaliação, clique aqui.
Abraços a todos.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Fidelidade e Falsidade nos Sibillas Italianos

Vera Sibilla Italiana

Olá pessoal. Gostaria de falar hoje sobre duas cartas dos Sibillas italianos (do qual o Sibilla della Zingara é o mais conhecido por aqui): a Falsidade e a Fidelidade. A primeira, representada por um gato; a segunda, por um cão.


Tudo é uma questão de ponto de vista. Será? Estamos lidando com um oráculo e, por uma questão de funcionalidade, se a imagem não se aplicasse adequadamente ao conceito, não seria mantida. Em simbologia, sobrevive o símbolo mais facilmente decodificado pela interpretação corrente.


Segundo Cesare Ripa, em seu Iconologia, de 1593, a Fidelidade é representada por uma
Mulher vestida de branco, segura uma chave com a mão esquerda  e tem aos pés um cachorro. A chave é indício de sigilo, que deve ser tomado em coisas relativas à fidelidade da amizade singular de natureza instintiva que o cão significa, como já disse em outras ocasiões.*
Cartes Italienne

A força da imagem do cão como símbolo de fidelidade é evidente (inclusive, num diálogo imagético direto, já falamos sobre ele quando falamos da carta 18 do Petit Lenormand). Temos agora um problema em relação aos gatos. 

Cartes Italienne

Os gatos, em especial os pretos, são relacionados à bruxaria, à magia, aos aspectos ocultos do inconsciente, ao azar e ao demônio. Deve-se benzer o corpo, manda a cultura popular, quando um deles cruzar o seu caminho.


Superstições atributivas. Mas, pensando bem, eu ouvi tantas vezes o demônio ser chamado de Cão... e isso não alterou em nada seus aspectos luminosos de fidelidade e lealdade. Tem mais coisa aqui para vermos.

Flóra Borsi

Conforme o dicionário de símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, 
O simbolismo do gato é muito heterogêneo, pois oscila entre as tendências benéficas e as maléficas, o que se pode explicar pela atitude a um só tempo terna e dissimulada do animal. (grifo meu)
Dissimulação. Conforme o Dicionário Michaelis,
dis.si.mu.la.ção


sf (lat dissimulatione) 1 Ato ou efeito de dissimular. 2Fingimento, disfarce, falsa aparência. Antôn: franqueza.

Se falsidade é um adjetivo, dissimulação é uma habilidade. Aprende-se a ser de acordo com a necessidade. Agora, falsidade também é um ponto de vista; ser falso é, normalmente, uma tentativa de obter vantagens ou diminuir os danos em determinado evento. E existe também a possibilidade de se estar sendo falso em função ou a favor de alguém ou alguma coisa. Todo disse-me-disse tem um (ou mais) interessados que a informação confidencial chegue à algum lugar.

Gatos também são oportunistas. Em sua independência, estão sempre prontos para o inesperado, sem nenhuma expectativa.  Sob uma aparência indolente, está guardada energia para saltos cinematográficos e fugas espetaculares - o pulo do gato.



E não é isso que se espera de uma pessoa falsa, oportunista? Que ela seja surpreendente? A confiança é totalmente previsível. A desconfiança é um universo de possibilidades. E se tem algo que se pode dizer de gatos, é que são seres completamente imprevisíveis. Mas cuidado: quem não gosta de gatos, pode vir como ratinhos na próxima encarnação... (fonte



Conversando com a Giane Portal, que ama e entende de gatos como ninguém, recebi a seguinte perspectiva sobre a carta Falsidade, a partir do seu representante:
Os gatos não são imprevisíveis, são sutis. Não é um latido que denotará a ameaça... São pupilas dilatadas, a posição do corpo, entre outros sinais... Não é algo tão inesperado assim um ataque, se você souber ler os sinais. E justamente aqui está o ponto, a questão que faz o gato ser associado com a falsidade, talvez: A dificuldade das pessoas de perceberem esses sinais mais sutis, e encarar como “eu estava fazendo carinho, e do nada ele me arranhou”, dando a impressão de que o gato só estava esperando a “pobre vítima” se sentir confiante e vulnerável para atacar malevolamente e realizar sua "natureza traiçoeira"; então, como o gato já é uma animal MUITO castigado, vitima das maiores barbaridades e torturas, simplesmente por ser GATO, todos esses simbolismos que com razão você afirmou - o símbolo só se mantém na tradição porque as pessoas se identificam com ele - ajudam na realidade a reforçar um preconceito que pode acabar tendo consequências mais sérias: As pessoas sempre procuram algo para descarregar seu ódio. A principal questão aqui é cultural: dependendo da cultura, gatos trazem "muita sorte" ou "muito azar" - não são os gatos, que efetivamente, trazem sorte ou azar. São atribuições supersticiosas  ou folclóricas que acabam desenvolvendo uma mentalidade simbólica de acordo com a região em que são originadas. No Japão, por exemplo, jamais uma Sibilla com essa simbologia teria sido desenvolvida.  
Complexo o tema. Necessário um olhar particularizado sobre o baralho e amplo em relação à simbologia, para evitarmos equívocos interpretativos. Em última análise, devemos nos ater aos naipes - que norteiam a elaboração dos conceitos imagéticos em toda a cartomancia - para entendermos tais perspectivas. Mas isso é assunto para outra conversa.
Abraços a todos.

* No original: Donna vestita di bianco, con la sinistra mano tiene una chiave, & alli piedi un cane. La chiave è inditio di secretezza, che si deve tenere nelle cose appartenenti alla fedeltà dell'amicitia il che ancora per singolare instinto di natura la fedeltà significa per il cane, come si è detto in altre occasioni.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Um agradecimento a todos vocês.



Eu pertenço a old school. Tenho dificuldades com e-books. Estou tentando me adaptar aos novos tempos, mas ainda gosto do cheiro, da textura, do ato de folhear. Um livro ainda é um livro.
Acabou de chegar o meu livro em versão impressa. Por mais que eu tenha feito todo o processo de edição e envio para a editora, todo o processo foi virtual, à frente de um computador. Quando abri o pacote, e vi o livro em minhas mãos, senti uma emoção que jamais tinha sentido antes. Era parte de mim, à parte de mim, feito por mim. Era meu. 
Mas não fiz isso sozinho - são três anos, quase quatro, de conversas com os mais diversos públicos. Não teria acontecido se eu não tivesse com quem conversar. E isso me encheu de gratidão. Eu só tenho a agradecer.
Obrigado a todos aqueles que vem me ensinando há tempos sobre o ofício da cartomancia. Que, por concordar ou discordar, por acrescer ou questionar o que digo, não me permitem parar de estudar. Obrigado a todos os meus clientes, que me oferecem os feedbacks que me mantém no caminho. Obrigado aos colegas. Obrigado aos amigos. Obrigado, mesmo. 
Eu dediquei este livro a todos aqueles que decidiram dar um passo à frente, sem a menor noção do resultado. E que descobriram que o resultado foi bom.
Sem vocês, eu jamais saberia disso, ou mesmo teria dado um passo à frente. Obrigado.
E que, assim como senti, quando tiverem o meu livro em mãos, ou em e-book, que vocês também possam sentir que ele é, a partir desse momento, de vocês, também. 
Caso queira adquirir o livro, clique aqui.

A Paula, do Cozinha do Quintal, postou no blog dela sobre o livro. Acessem, não só por isso, mas porque é um blog admirável. É delicioso o reconhecimento das pessoas que amamos.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Para o entendimento do Arcano 18 do Petit Lenormand.

Em outubro de 2010, escrevi um artigo sobre o filme Hachiko, que se aplica muito bem ao estudo que estamos fazendo. Portanto, reformulei-o, retirando o material referente ao Tarô e concentrando-me no Petit Lenormand.



A carta 18 do Petit Lenormand é representada por um cão, corresponde ao Dez de Copas e seu poema (Carta Mundi em inglês, tradução livre): "Companheiro, o cão brincalhão / fiel e amigável todos os dias, / ao menos enquanto está perto de você / e distante das nuvens."
Uma excelente carta para se ter como companhia de jornada.



Enquanto escrevo isso, caem ainda lágrimas sobre o teclado (espero que isso não o danifique) - dois anos se passaram e eu ainda sinto o mesmo efeito. Assistir o filme Sempre ao seu lado é reconhecer a lealdade em uma história real. Meu pai já o havia assistido e, tendo se emocionado bastante, me recomendou assistir também. Só que filmes encontram seus momentos e este não havia encontrado sua hora. 
E agora vou assistir novamente.

Hachiko (忠犬ハチ公), foi um cão da raça Akita nascido em 10 de Novembro de 1923 na cidade de Ōdate, na Prefeitura de Akita. É lembrado por sua lealdade a seu dono, que perdurou mesmo após a morte deste.




Excerto do blog "Os uivos da Loba":

Era 1924 quando um cão da raça Akita foi enviado à casa de seu futuro proprietário, o Dr. Eisaburo Ueno, um professor do Departamento Agrícola da Universidade de Tóquio. A história dá conta de que o professor ansiava por ter um Akita há anos, e que tão logo recebeu seu almejado cãozinho, deu-lhe o nome de Hachi, ao que depois passou a chamá-lo carinhosamente pelo diminutivo, Hachiko. Foi uma espécie de 'amor à primeira vista', pois, desde então, se tornariam amigos inseparáveis!



O professor Ueno morava em Shibuya, subúrbio de Tóquio, perto da estação de trem que leva o mesmo nome. Como fazia do trem seu meio de transporte diário até o local de trabalho, já era parte integrante da rotina de Hachiko acompanhar seu dono todas as manhãs. Caminhavam juntos o inteiro percurso que ia de casa à estação de Shibuya. Mas, ainda mais incrível era o fato de que Hachiko parecia ter um relógio interno, e sempre às 15 horas retornava à estação para encontrar o professor, que desembarcava do trem da tarde, para acompanhá-lo no percurso de volta a casa.
No dia 21 de maio de 1925, Hachiko, que na época tinha pouco menos de dois anos de idade, estava na estação pacientemente como de costume, e de rabinho abanando, à espera de seu dono. Só que o professor Ueno não retornaria naquela tarde de 21 de maio: sofrera um derrame fatal na Universidade que o levou ao óbito. Destarte, ainda que alheio a realidade, naquele dia o leal e fiel Akita esperou por seu dono até à madrugada.




Após a morte do professor Eisaburo Ueno, parentes e amigos passaram a tomar conta de Hachiko. Mas, tão forte e inexpugnável era o vínculo de afeto para com seu amado dono — lealdade, fidelidade e incondicional amor levados ao extremo —, que no dia seguinte à morte do professor ele retornou à estação para esperá-lo. Retornou todos os dias, manhã e tarde à mesma hora, na incansável esperança de reencontrá-lo, vê-lo despontar da estação de Shibuya. Às vezes, não retornava à casa por dias!
Foi assim por dez anos seguido  repetindo a mesma rotina, quiçá já não tão feliz, razão pela qual já era uma presença familiar e pitoresca para o povo que afluía à estação. E ainda que com o transcorrer dos anos já estivesse visivelmente debilitado em conseqüência de artrite, Hachiko não se indispunha a ir diária e religiosamente à estação. Nada nem ninguém o desencorajava de fazer sua peregrinação!
Em 8 de março de 1935, aos 11 anos e 4 meses, Hachiko é encontrado morto no mesmo lugar na estação onde por anos a fio esperou pacientemente por seu dono, onde durante dez anos se tinha mantido em vigília.




Hachiko, como não poderia deixar de ser, tornou-se um marco, um referencial de amizade talvez jamais igualável em qualquer era anterior ou futura na história. Sua descomunal lealdade e fidelidade receberam o reconhecimento de todo o Japão. Em 21 de abril de 1934, praticamente um ano antes de sua morte, uma pequena estátua de Hachiko, feita de bronze pelo famoso artista japonês Ando Teru, foi desvelada em sua honra numa cerimônia perto à entrada da estação de Shibuya, local onde morreu. Era a memória de Hachiko sendo imortalizada.




Durante a 2ª Guerra Mundial, para aplicar no desenvolvimento de material bélico, todas as estátuas foram confiscadas e derretidas, e, infelizmente, entre elas estava a de Hachiko.
Após a guerra Hachiko foi duramente esquecido. Todavia, como toda história que se preze precisa ter um final feliz, em 1948 a The Society For Recreating The Hachiko Statue, entidade organizada em prol da recriação da estátua de Hachiko, convidou Ando Tekeshi, o filho de Ando Teru para esculpir uma nova estátua. Até os dias de hoje a réplica encontra-se colocada no mesmo lugar da estátua original, em símbolo de um tributo à lealdade, confiança e inteligência da raça Akita.



Uma belíssima história, que me tocou profundamente, facilmente relacionável à carta 18 do Petit Lenormand; em um nível mais físico, representa os aliados e amigos, sendo passível inclusive de representar o Anjo da Guarda do consulente, ou um espírito amigo (como em todos os casos que transcendam a interpretação corrente, é importante respeitar e adequar a linguagem às crenças do consulente, para que ele possa assimilar a informação sem se assustar).




De qualquer forma, o cão é um observador - ele vela o sono enquanto o dono dorme, ele enxerga aquilo a que o dono não deu a devida atenção. Serve como alerta para o que ele estiver observando; apesar de não causar dano direto, o dano indireto pode ser evitado pela antecipação oriunda da visão clara.
clique para ampliar

O Fábio Coala postou uma tirinha que é exatamente a ideia que o Cão oferece. Ele não se afeta pelo dano direto, nem mesmo vindo pelo dono. Uma das questões que percebo em minhas leituras é que o potencial positivo do Cão é tão poderoso que cancela ou atenua o efeito negativo das cartas que a ladeiam. Essa é de fato uma carta afortunada - quem tem um amigo, tem (mais que) um tesouro. A fidelidade do Cão é sobretudo, ao que acredita, ao que é; em seguida, ao que atende.
Contudo, a lealdade, a fidelidade não devem ser esperadas. Devem ser vividas. Semelhante atrai semelhante. Quanto mais leais formos, mais fiéis formos, mais facilmente atrairemos esses valores para nós, com pessoas de mesma ressonância. Nunca soube de um cão que oferecesse seu amor condicionalmente.
Abraços a todos.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Para o entendimento da carta 03 do Petit Lenormand.


Olá pessoal. A carta 03 do Petit Lenormand representa um Navio, está relacionado ao Dez de Espadas, e seu poema diz (Cartamundi, versão em inglês, tradução livre): "O navio é sempre um bom sinal / Ele anuncia, verdadeiramente, / uma jornada feliz e lucros, / e talvez uma herança para você."
Uma carta tão bonita, tão ampla, que merece uma reflexão e tanto. Espero que possamos trilhar juntos essa viagem.


Neste baralho, acima do Navio temos o avião.
Um acréscimo atributivo que auxilia na interpretação 
contemporânea dos conceitos da carta.

Para nós, homens e mulheres do século XXI, a ideia do Navio está longe de ser clara. Primeiro, porque Navios não são mais o meio de transporte intercontinental por excelência: temos os aviões, agora. Segundo, porque tudo é muito mais rápido do que costumava ser na época em que esse baralho foi feito.
Para nós, Navios correspondem a cruzeiros românticos de férias... Não mais questões prementes e imediatas a resolver. E esse é um ponto a se pensar. Você faz ideia do quão primordial foi a presença dos Navios na história do mundo? Sem Navios, talvez ainda engatinhássemos em nossas próprias culturas, confinadas em nossas próprias geografias. E um mundo desconhecido, povoado por monstros ou pelo fim do mundo, estaria . Duas letrinhas que contém tantas possibilidades..!



O Navio transporta, mas, ao contrário do Cavaleiro, o transporte aqui é por longa distância. É possível carregar mais peso, mais variedade. E mais: um Navio é uma Casa em alto-mar, o estável na instabilidade, podendo ser chamada de Lar por muitos. O Navio é o meio do caminho entre a carta 01 e a 04. Só que é um "meio do caminho" que vai além.


Recebi da Silvia Saccheto (uma querida!) o vídeo acima. Fora o fato de ter chorado de soluçar (meio difícil não acontecer), elementos interpretativos do Navio estão evidentes no vídeo. Acho bacana assistir antes de continuar a ler.



Partir. Chegar. Interlúdio entre ambos.
E nada mais é o mesmo, nem para quem vai, nem para quem fica, porque o Tempo não tira férias. Navega-se pelo Mar da Vida uma vez só. Não é algo que dê para voltar. Isso a relaciona também a questões de saúde: o corpo é o navio com o qual navegamos esse Mar de oxigênio, gente, carros e pessoas.



Falando em Mar, aqui no Brasil essa carta foi reinterpretada a partir desse parâmetro. A essa carta foi sincretizada Iemanjá, a Rainha do Mar, Mãe de todos os Orixás. A atribuição de Orixás às cartas é devera recente, frente à origem do oráculo (conta com pouco mais de duas décadas). Porém funciona. É o tipo de jogada que recomendo apenas para quem se identifica com as religiões afrobrasileiras. Mais sobre a forma cigana de jogar, aqui
Quando o Navio sai no jogo, é importante atentar-se para onde ele está indo. O caminho é seguro, mas lento; correto, mas inexorável. Sabe-se aonde se quer chegar e, a menos que hajam acidentes de percurso, não se mudará de ideia.


Aproveitando a postagem, gostaria de divulgar o projeto Under the Roses Lenormand. Um baralho suave, intenso, belíssimo. Está em andamento, você pode acompanhar a publicação das cartas aqui.




Vale a pena.
Abraços a todos.
Fonte das imagens: Rozamira Oracles

Para quem gostou do texto e mora no Rio de Janeiro, estarei dando um curso presencial entre os dias 6 e 7 de outubro de Petit Lenormand para o cotidiano. E, para quem gosta do que lê por aqui, o Conversas Cartomânticas virou livro, podendo ser adquirido aqui.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Para o entendimento da carta 15 do Petit Lenormand.


A carta 15, do Petit Lenormand, representa um Urso, relacionado ao dez de Paus, e seu poema (Lenormand Cartamundi, tradução livre) fala "Bem-estar e alegria é a mensagem com o urso está à vista; mas, diz ele, atente cuidadosamente para a inveja , malevolência e despeito." É tida por Katja Bastos e J. Dellamonica como a "pior carta do Tarô Cigano". Existe um dégradée interpretativo entre as ideias de alegria e bem estar até a inveja e olho gordo conforme interpretado aqui no Brasil. E é esse dégradée que buscarei abordar nesse texto. 


Do site Yahoo!:
Um campista foi dilacerado até a morte por um urso no Parque Nacional do Alasca, nos Estados Unidos, após tirar fotografias do animal, disse neste domingo o Serviço de Parques Nacionais desse estado.
A vítima, de San Diego, Califórnia, estava fotografando o animal a menos de 45 metros de distância - contrariando as diretrizes do Parque Nacional Denali - na sexta-feira, quando foi atacado.
"Três visitantes descobriram uma mochila abandonada (...) e depois viram evidências de uma luta violenta, com roupas rasgadas e sangue", disse Servilo de Parques sobre o ataque, o primeiro registrado na reserva do Alasca.
"As evidências iniciais indicam que o ataque aconteceu nas proximidades do rio Toklat e que depois o urso levou a vítima para um local mais afastado", disse o comunicado.
O animal foi capturado e morto no sábado, segundo o Alaska Dispatch, que cita como fonte o superintendente do Parque Nacional Denali, Paul Anderson.

Nós, brasileiros, conhecemos ursos a partir de circos e zoológicos, quando temos sorte, ou em filmes, ou, na pior das hipóteses (pelo menos no viés interpretativo do Petit Lenormand) apenas como seres fofos e peludos que pulam pelas campinas saídos de uma Nuvem Rosa oferecendo amor e carinho #UrsinhosCarinhosos. Nós não nos relacionamos com o animal. Ele não faz parte de nosso cotidiano. Não faz parte de nossa história, de nosso habitat. Parece pouco, mas isso causa efeitos em nossa interpretação. No texto anterior, falei sobre a ideia de conceito no Tarô ser o resultado da soma imagem + nome + número. No Petit Lenormand não é muito diferente. Aqui, a ideia é formada pela soma da figura + título (quando se aplica) + naipe


Ao invés de Urso, certos baralhos brasileiros de inspiração cigana chamam essa carta de Falsidades. O olho atrás dele não traz as ideias de observação e visão clara, próprias da sua simbologia. Aqui temos o olho gordo, a inveja, o despeito, o desejo de ver você na lama escondido atrás de um sorriso amarelo. E bem sabemos que o olho gordo pode até adoecer uma pessoa. Energias, energias. Mas, apesar de o olho nos ser familiar e garantir o acesso a parte do significado da carta, perceba que só por esse significado limita-se (e muito!) as perspectivas que ele pode oferecer.

Gatsu, protagonista do mangá Berserk

O espírito do Urso (e aqui tomo o termo no sentido de inspiração, de motivação, de exemplo muito mais que em energia transcendental identitária) motivou inclusive uma classe de guerreiros, os Berserk (tradução possível: "capa de urso", dado vestirem-se com peles do animal). Guerreiros que enlouqueciam religiosamente no calor do combate, a ponto de não ligarem para a dor e cometer atrocidades sem consciência e reflexão sobre o ato. Atualmente o termo indica fúria incontrolável, loucura assassina.

Só isso já me faz ver a carta com certa reserva. Mas tem mais.

O Urso pardo (Ursus arctos) "é um animal solitário, contudo sabe conviver pacificamente quando existe abundância de alimento." Ou seja, é um animal selvagem no melhor sentido do termo, o mais selvagem dos animais presentes no Petit Lenormand. Mas não é o mais perigoso.
Ele não vai procurar deliberadamente contato com os humanos. O contato será fortuito, a menos que ele esteja com fome e/ou o humano seja inconsequente demais para procurar por sua morte. Porque o resultado é esse ou uma fuga... Torço pela segunda opção.

Portanto, quando ver o Urso em uma jogada, lembre-se que seus influxos podem ser evitados. Não entre em seu território. Não invada seu espaço. Não altere sua rotina. Viva e deixe viver. Talvez esse seja o maior desafio diante dessa carta - é muito difícil respeitar limites quando estes são colocados no meio da jornada.
Como representante de uma personalidade (adjetivando as cartas 13, 28 e 29), o Urso indica um humor indócil, taciturno, casmurro, protetor e solitário. Conseguir o amor de uma pessoa assim é difícil, mas não impossível - e é um amor difícil de perder... 


...Mesmo que se queira. Ciúme, possessividade, por vezes levados às últimas consequências. Não é só em filmes que ouvimos a famigerada frase "se não for meu/minha, não será de mais ninguém", infelizmente. O Urso é um egoísta, no amplo sentido do termo. Tudo é dele, para ele, senão não interessa, senão não é bom e não vale a pena.


Existe também a possibilidade de correlacionar o Urso a subgrupo homônimo da cultura LGBT. Conforme a Wikipedia,
Urso em comunidades GLBT é uma referência metafórica ao animal do mesmo nome com notáveis características semelhantes. Essas características incluem seus pêlos, suas proporções, e seu perceptível poder masculino. O urso é gordo e poderoso, e da conciliação destas duas qualidades é o cerne do conceito de urso. É também não é coincidência que ursos são normalmente muito semelhantes à aparência do ideal do norte-americano de lenhador. Lenhadores frequentemente encontram ursos e os dois sempre foram associados entre si. 

Ainda que possível, é bom utilizar tal perspectiva hype com cuidado. É visível a correlação com a primeira parte do poema Cartamundi, por relacionar-se a um ideal de beleza - que traz bem-estar e alegria (fiquei MUITO TENTADO a colocar referência a um super-herói que tem essas características e inclusive foi lenhador no Canadá, só que não. Eu tenho amor à vida. Prefiro citar um texto e fiquem à vontade para pensar sobre isso.). Mas nada garante que  opressão faça parte do pacote. Aparência física não garante um humor belicoso... Ou garante?
Que possamos ver a carta 15 em seu devido lugar: longe, sem problemas; seu egoísmo e sua aversão à dependência (sua, não dos outros) lhe mantém seguro frente aos seus influxos. Perto... pode ser perto demais.
Abraços a todos.