quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Enamorados e o poliamor: conceito moderno, possibilidade antiga...

Os Enamorados
Marseille Grimauld

Assisti por esses dias um documentário sobre o poliamor que me levou a refletir sobre diversos aspectos dos relacionamentos, sobretudo, por uma questão iconográfica que sempre me intrigou: afinal de contas, qual é a relação entre o rapaz Enamorado e as duas mulheres que o ladeiam em alguns baralhos clássicos? 

Amor
Master
Cupido, aquele que se diverte com isso tudo.

O poliamor é, grosso modo, a habilidade, ou capacidade de se envolver afetivamente por duas ou mais pessoas ao mesmo tempo, mesmo que não desenvolva um relacionamento com o objeto de tal sentimento (na verdade, para entender o comportamento adequadamente, sugiro que leia isso aqui e isso aqui também.). Em definição citada por Daniel Cardoso,

Haritaworn et alia (2006: 518) definem poliamor como «a suposição [assumption] de que é possível, válido e valioso [worthwhile] manter relações íntimas, sexuais e/ou amorosas com mais do que uma pessoa».

Entenda-se: numa relação desse naipe, não existe traição, dado haver consentimento de todos os participantes, e nem possui ênfase sexual, o que caracterizaria outros comportamentos, como o swing (vide as diferenciações aqui). É engraçado, dentro de uma tradição monogâmica, pensar em um jantar a três ou em um DR coletivo [#medo]. Mas essas relações são mais recorrentes do que se imagina (pensei em usar o termo comum, mas soaria contraditório. Nem tudo o que é recorrente é comum, ainda que seja normal)


Amantes
Ancient Italian

E lá está o nosso rapaz, Enamorado, entre suas (possíveis) amantes. Será devido a isso a carga tão intensa de significação relativa à escolhas? Ele tem que escolher. Ele não pode ficar com as duas. Loira ou morena? Gorda ou magra? Mais jovem ou mais madura? Tímida ou independente? Passe por essas opções, mas, sinto muito, todas você não pode ter. São antagônicas, pelo menos no que concerne ao corpo físico. Você tem que escolher, rapaz. Enamore-se de uma, esqueça (ou lamente-se pelo resto de sua vida) a outra.
Talvez, por esse sentido ser por demais tabu - se ele tem a escolha, é porque existe a possibilidade - a mulher à esquerda passou a ser a mãe. Ou o Vício; a da direita, a mulher virtuosa. Aquela que, de fato, é digna de ser amada no futuro, deixando a primeira no passado... E é para ela, para a futura esposa, que o safadinho Putto* aponta suas flechas. A flecha, por sua engenharia, foi elaborada para atingir um alvo por vez. E, para atingir um novo, deve ser retirada do primeiro. Logo... É bom escolher quem cai.

Amantes
Visconti-Sforza (US Games)

Divirto-me pensando o que ocorreria se o Putto do Marseille pensasse estar nos esponsais de Visconti e Sforza... e esquecesse que, ao invés de uma mulher, houvessem duas.


Amantes
Iniciático Golden Dawn
Sempre me perguntei qual é a atribuição do
mito de Perseu e Andrômeda à ideia de
apaixonamento e escolha. Nunca entendi.

Sigo pensando no papel do rapazinho (e em diversas outras questões, como a proposta acima). Ele ama, e ama as duas, e ama diferentemente as duas, ou ama, e ama as duas, e ama de maneira igual e manifestação potencialmente diversa as duas?
No campo dos relacionamentos, cada um é dono e senhor dos seus próprios pensamentos e sentimentos, competindo a si mesmo entregar a quem achar conveniente. Ou afogar-se em si mesmo, pois no plano dominado por Copas, quem não bebe da taça afoga-se em saliva.
Agora, se me dão licença, vou lá ler Dona Flor e seus dois maridos, porque falta-me inspiração para escrever mais. Hmmm... Mudei de ideia. Vou ler o final do segundo livro d'As Brumas de Avalon. :)

E, para você seguir pensando também, além das leituras supracitadas, aqui vai o documentário que motivou essa postagem:


Poliamor from Zé Agripino on Vimeo.


Ouviu a música dos créditos? É Secretly, de Skunk Anansie. O vídeo também aborda o poliamor, mas merece atenção o seu desfecho.




E por fim, uma música perfeita para tal postagem, Je n'aime que toi, do filme Les Chansons d'Amour (2007)




Abraços a todos.



*Putto (putti, no plural) é um termo que, no campo das artes, se refere a um menino nu, quase sempre de sexo masculino e representado frequentemente com asas. 
Utiliza-se esse termo, normalmente, quando não se existe a certeza de estarmos diante de uma representação de Cupido.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Conversas Cartomânticas: Ano III.




O Conversas Cartomânticas tem se mostrado um espaço de confluência entre artes e interpretações, tendo como ponto de partida e de encontro baralhos diversos e seus usos divinatórios. Digo "tem-se mostrado" porque é da inter-relação entre vocês e eu que ele tem evoluído nesse sentido. E o ano de 2011 tem-se mostrado - olha a frase aí de novo - um ano ímpar. Graças ao Arierom, temos o grupo Tarologistas. Grupo que pulula de temas correlatos aos que vemos por aqui, inspirador de diversas postagens. Gratidão profunda aos participantes. Cresci muito com vocês.
Além disso, tivemos esse ano três oportunidades de partilha presencial, que foram fantasticamente bem sucedidas: A Confraria Brasileira de Tarot, organizada pela Pietra di Chiaro Luna e pelo Edu Scarfon, em julho; o Fórum Nacional de Tarô, organizado por Nei Naiff, Vera Chrystina, Alexsander Lepletier e Giancarlo Schmid, em agosto; e a sala temática de Tarô, curadoria de Nei Naiff, na Mystic Fair 2011, organizada por Claudiney Prieto, em outubro. Duas coisas se mostraram evidentes nesses eventos: em primeiro lugar, o carinho desenvolvido virtualmente é real; em segundo lugar, rixas virtuais são ilusórias. Engraçado, não?
Somos sempre guiados para o melhor de nós. E daí lancei o mote: Eu fui... E eu irei.
E, nesse espírito de encontro e partilha, desenvolvi aqui no Conversas Cartomânticas a blogagem coletiva Arcanos e olhares, que apresentou a visão de um profissional para cada um dos Arcanos Maiores do Tarô. Essa postagem mostrou a riqueza de detalhes que a taromancia possui, e, mesmo estando diante de um mesmo objeto - o Tarô - tivemos formas de abordagem completamente diferentes, o que, de forma nenhuma, as tornou discrepantes. E então chegamos, na prática, à conclusão de que Tarô realmente é Tarô. Abordagens várias, metodologias várias, um único objeto, com diversas apresentações. E não paramos por aí: para breve, teremos a vivência dos Arcanos Menores, começando pela Corte. Aguardem!
E, falando em diversas apresentações, o Tarô, em especial, foi esse ano contemplado com análises musicais, palatais e pictóricas - desde quadros e filmes, até games!
E disso decorreu a lição mais importante desse ano. Cartomancia é algo cotidiano. É vivencial. Ou você encontra os Arcanos em tudo o que faz, ou os deixa lá em seu "altar", pegando pó e agregando esquecimentos.
Estudamos técnicas. Posicionamentos. Crescemos em análises. Aprofundamos em atribuições. Estreitamos laços. Sim, o Ano II do Conversas Cartomânticas foi excelente, graças a vocês!
E agora, estamos diante do Ano III. Regido pelo Hierofante e pela Lua. Touro/Lua, Hierofante e Sacerdotisa, se formos correlacionar as atribuições da Golden Dawn e irmos para além do evidente. Um diálogo interessante, diga-se de passagem. 
E, como é de praxe, em alguns dias teremos as promoções de fim de ano. Já vamos pensando nas relações entre o Arcano V e a Lua. 
Mas, desde já, meus agradecimentos a todos que por aqui passaram. Sou grato por seus comentários, por sua leitura, pela partilha. Cresci muito com vocês. E que diante de nós descortinem-se novos caminhos. 
Abraços a todos.

Ritual para magia cartomântica

Olá pessoal. Em um artigo para o Bruxaria.net, sugeri a possibilidade de elaborar feitiços a partir das Cartas dos Cristais de Água, do Dr. Masaru Emoto. Encontrei esse artigo no site da Llewellyn e o traduzi com meu inglês macarrônico. Para quem desejar ler o original, clique aqui
Esse artigo pertence originalmente ao livro Tarot Spells, de Janina Renée.


Organize-se para estar sozinho e tranquilo por algum tempo, o ideal é cerca uma hora. Se você tem música disponível, coloque algo calmo, sereno e meditativo. Tome um banho relaxante, imaginando fortemente que você está limpando não só o seu corpo, mas também sua alma e espírito. Vista-se e use, caso queira, jóias que tenham uma sensação "mágica"  particular para você.
Você vai precisar de uma superfície plana e limpa para usar como um altar  para colocar as cartas para o seu feitiço. Um mesa ou cômoda que vai permanecer intacta por tanto tempo quanto for necessário para o que irá fazer. (Nota do tradutor: No filme Tamara (2005), temos uma ideia que é fantástica, em minha opinião, para a montagem de um altar: a utilização de uma bandeja de café da manhã. Perfeito!
A ilustração dá um exemplo de como você poderia configurar um feitiço com cartas de Tarô  e os acessórios utilizados. Dispõe-se um incensário, duas ou mais velas (com as cores adequadas para o trabalho que você está fazendo, como sugerido nos feitiços individuais), e seu baralho de Tarô. Outros implementos mágicos podem ser sugeridos em conjunto com várias magias. Você também pode fazer o seu arranjo mais elaborado, acrescendo flores, cristais ou pedras preciosas, e usando panos coloridos sobre os quais disporá tudo.
Quando tudo estiver pronto, faça uma pausa para uma meditação silenciosa, colocando a mente em um estado sereno, receptivo. Mantenha esse estado, contemplativa silenciosa por tanto tempo quanto parecer apropriado. Em seguida, acenda as velas. Agora segure as mãos sobre a disposição em atitude de prece ou bênção e diga estas palavras ou outras semelhantes:

Invocação

"Eu chamo agora sobre a Terra,
Longínquas planícies e altas montanhas,
Para conceder poder e força ao meu encanto,
Enquanto acendo esta vela em convocação.

"Eu chamo agora sobre as águas,
Amplos lagos, córregos em movimento,
Oceano sem limites,
Para conceder poder e força para meu encanto,
Enquanto eu acendo esta vela em convocação.

"Eu chamo agora sobre os céus,
Os quatro ventos da Terra,
E os confins do espaço infinito,
Para conceder poder e força para meu encanto,
Enquanto eu eu acendo esta vela na convocação.

"Eu chamo agora sobre os profundos fogos 
Que queimam no núcleo da Terra,
Com as energias da própria vida,
Para conceder poder e força para meu encanto
Enquanto eu acendo esta vela na convocação. "

Aguarde o tempo correspondente a cinco batimentos cardíacos. Em seguida, pegue o baralho de Tarot e retire as cartas significativas para o seu feitiço, dizendo estas palavras ou outras semelhantes:

"Procurando intensamente  no passado arcaico
Eu atraio e elenco esses símbolos
para moldar o feitiço.
Oportunidades serão aqui tecidas, fortuna e sorte;
Meu desejo mais profundo será
rapidamente atingido. "

Neste ponto, volte-se para o encantamento específico que você deseja executar e colocar as cartas de acordo com o diagrama fornecido. Use visualizações cada vez que expor uma carta.
Depois de ter exposto as cartas e feito as meditações e visualizações apropriadas, com cuidado e com todo o sentimento  que você puder, leia em voz alta a afirmação fornecida pelo feitiço para o assunto da sua magia.
Para fechar este rito, você pode reabastecer o incensário, e resumir em suas próprias palavras o assunto que você está trabalhando para realizar. Mais uma vez, considere as cartas e visualize o evento acontecendo. Faça isso por um período de pelo menos 25 batimentos cardíacos. Tempo não é importante; a concentração total e completa sobre o que você deseja realizar, sim. Faça, e faça direito!
Em seguida, mantenha suas mãos sobre as cartas, cobrindo-as com o Poder que você visualizará delineando todo o corpo e para fora através de suas mãos. Diga com estas palavras ou semelhantes:

Afirmação

"Nestas cartas, dirijo grandes potências
Energia gerada a partir do meu interior,
E poder convocado das forças espirituais
Que estão trabalhando ao meu redor.
O grandes poderes decisórios
Marquem bem o que eu fiz aqui,
e trabalhem para torná-lo manifesto!
Assim será! "

"Peço-vos, ó seres da natureza ...
de planícies e montanhas, dos oceanos e lagos,
dos longínquos desertos, densas florestas, e tundras distantes.
Do coração do próprio planeta.
Marquem bem o que eu fiz aqui,
e trabalhem para torná-lo manifesto!
Assim será!

"Eu coloco meu pedido diante de ti,
Ó Terra, doadora de toda a vida,
e Céu, tu que és infinito e eterno.
Possam vós emprestar-me força e poder
Para este meu encanto!
Assim será! "

Permaneça diante do arranjo das cartas por um período de pelo menos 25 batimentos cardíacos, contemplando-as e visualize o assunto de seu feitiço como realizado. Apague as velas. Em seguida, beije a sua mão em saudação ou faça outra saudação aos poderes, e encerre.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Da vilania ou: como conseguir um antagonista para sua história.



Recentemente, a Luciana Onofre postou uma página de uma revista da revista Marvel+Aventura N° 4, p.11 (Panini Group)*. Era uma one shoot** do Dr Doom (Doutor Destino, aqui no Brasil). Ele consultava um baralho de Tarot (o Aquatic) e observava atentamente a Estrela. Fiquei doido para ler a revista. Qual não foi minha surpresa ao ir à banca e descobrir que ela custava menos de dois reais!


Dr Doom
Imagem da capa da revista


A história gira em torno da busca de Victor von Doom por um grande amor do seu passado. Ao invés de contratar um detetive, Victor procura oráculos diversos na América – local que ele particularmente detesta.
Conforme a Wikipédia, Doom possui poderes mágicos que o permitem invocar hordas de demônios ou criar escudos mágicos. Contudo, seus talentos mágicos são limitados devido à sua arrogância e recusa a admitir que ele não é um mestre em todas as habilidades. Quando ainda era uma criança, ele descobriu os artefatos místicos da mãe e começou a estudar as artes ocultas e também a desenvolver seu talento nato para a ciência. Começa aqui uma parelha de estudos que culminarão na atual conjectura em que ele vive. Numa soma de inveja de Reed Richards e orgulho desmedido de sua suposta superioridade, Doom começou a conduzir experiências extra-dimensionais muito perigosas. O foco da pesquisa de Doom era construir um dispositivo transdimensional de projeção com que poderia se comunicar com sua falecida mãe, Cynthia, uma Bruxa. Havia uma falha no projeto, indicada por Richards, mas o orgulho de Doom impediu-o de aceitar o conselho e consertar o dispositivo antes de o testar. A máquina trabalhou perfeitamente por 2’37”, durante os quais Doom descobriu que sua mãe estava presa na região do Inferno controlada por Mephisto (aonde está até agora). Em seguida o dispositivo explodiu, marcando sua face com uma longa cicatriz que sua vaidade encarava como uma desfiguração horrenda. Recusando-se a reconhecer sua própria culpa no ocorrido, Doom responsabilizou Richards pelo acidente, achando mais fácil de acreditar que Richards sabotara seu trabalho.


Cavaleiro de Copas (?)


Em 2003, Destino percebeu que limitava suas habilidades desnecessariamente ao se focar apenas na tecnologia, e somente ocasionalmente na sua herança mística. Ele se voltou novamente para o ocultismo e vendeu sua alma a um trio de demônios em troca de habilidades mágicas ilimitadas e uma armadura nova feita com a pele de Valéria, uma mulher que o amava desde sua juventude. 
É aqui que começamos. 
Cacei em minhas coleções de Dragão Brasil (revista dedicada ao RPG, atualmente fora de circulação) a matéria que falava de vilões. Ainda não a achei (rs), mas precisava só de uma frase para esse artigo. O que faz um vilão? Maldade? Ódio? Mesquinhez?
Não. Esses são fatores secundários.
Um motivo. Só isso. 
Acrescente à mistura os fatores secundários previamente apresentados.
Algo que foi dito. Algo que não foi dito. Algo mal dito. Algo bendito, mas para outra pessoa. Ausência de possibilidades. Excesso delas. E, evidentemente, o chavão da vilania: a vingança.
É impressionante a capacidade que vejo nas pessoas para a vingança. Dedicar-se à própria evolução é um esforço maior que a busca pela destruição de um inimigo. É simplesmente irracional.


Capa da primeira temporada


Saindo um pouquinho das HQ’s e indo para um seriado, tenho assistido com uma certa frequência Charmed, seriado de 1998 (antes que alguém pergunte “COMO eu não assisti isso ANTES???”, eu respondo que só não tive como. Makhtub). Nesse seriado, três jovens bruxas, as Charmed Ones, enfrentam inimigos deste e de outros planos. 
Conforme a Wikipédia, vilão
geralmente é uma figura ardilosa, que utiliza suas habilidades com o intuito de prejudicar alguém ou conseguir algo que deseja de formas escusas. Muitas vezes com planos, que são aplicados ao longo da trama, prejudicando normalmente o protagonista, mas ao término, é de praxe que para ter um final aceitável aos olhos do público, o vilão tem seu plano arruinado de forma heróica pelo personagem principal.
E eu fiquei pensando... Na “vida real”, mais que termos disciplina para crescermos como Filhos da Arte ao invés de termos poderes absurdamente overpower (como congelar o ambiente, por exemplo), nossos “inimigos”, se é que posso utilizar esse termo, são pessoas como a gente. São de carne e osso, e sonhos, como nós mesmos. Com qualidades, defeitos, características, perspectivas, planos, visões. Encaminham-se para pontos além, como nós mesmos. E, ainda assim, desejam o combate. Ou nos incitam a combatê-las. Ignorância? Talvez. Intolerância? De fato.
Convenhamos, ninguém gosta de ter um inimigo. Parece que eles só funcionam na novela, para dar colorido à trama e ao drama. É um saco encontrar um maledicente. Um limitador. Um juiz. Um bolinador. Um pervertido. E nem sempre tem-se forças ou formas de enfrentá-lo. Ele pode ter mais poder que nós, e cá não estamos falando de magia: um primo mais velho que bolina a priminha, ou espanca o irmão mais novo. Aquele filho da mãe que lhe colocou a culpa pela quebra da vidraça da vizinha. O antigo amigo que, de amigo, só tinha o compartilhar unilateral de segredos. Ou pior: você partilhava teus segredos que ele, por sua vez, partilhava com um grupo para mérito próprio ou demérito seu. O enganador, que lhe prometeu algo e não cumpriu. Aquele que lhe roubou. Aquele que lhe traiu. Aquele que xingou sua mãe. Que assediou sua namorada. Um homofóbico, um racista. Um fanático pelo time oposto ao seu que não entende que jogo é jogo. Um crédulo pertencente a uma religião de massas que diz que você está errado... mesmo que isso não tenha a menor importância para você.
O estômago embrulha diante dessas possibilidades medíocres e malditas de comportamento que, no entanto, são mais comuns e recorrentes que se imagina ou se permite imaginar. Elas são reais. Não creio que ainda existam “bolsas de valores de almas”, como sugerem Constantine e o próprio Dr Doom. Mas existem bolsas de valores da fama. Observemos o que recentemente a mídia faz com os artistas (aqui e aqui), e, mais recentemente, o que os artistas tem feito em contraposição (aqui e aqui).
Trazendo para a esfera do nosso cotidiano, temos a redução da escala só no que concerne à abordagem, porque o stress é o mesmo. Cada um sabe onde o sapato aperta (e, se não sabe, é só dar uma conferidinha no mapa astral atrás de Saturno, Netuno e Plutão que se descobre rapidinho).

E na Cartomancia? Onde encontramos a vilania?

Diabo
Thoth Crowley Harris
Um dos detalhes mais preciosos dessa representação de
Pan é seu sorriso. Ele não está nem aí para que o demonizem.
Ele é o próprio Demônio, mesmo...

Nos Arcanos Maiores do Tarô, Diabo. Nem é necessário pensar muito para a obviedade da relação Arcano/contexto. Nenhuma outra carta assume tão bem o papel pelo erro. Bode expiatório por natureza e vocação.
Nos Menores, Espadas. Mais uma vez, não é preciso pensar muito - talvez, devamos pensar um pouco para relativizar sua abordagem negativa e trevosa, e para isso recomendo o precioso texto do Marcelo Bueno. Ainda assim, Espadas é o naipe por excelência dos antagonistas (essa palavra vai ser fundamental mais à frente), dos inimigos, dos obstáculos. Algo de Paus, também - o Sete que o diga. Copas mostra muito mais os inimigos interiores que os exteriores. Em Ouros, faltam antagonistas - esse naipe é tão neutro, tão indiferente às pessoas e tão voltado às situações que é difícil pressupor de onde surgiriam inimigos. Talvez o quatro..? O sete..?
Talvez.
Mas, pesquisando para essa postagem, encontrei uma relativação temática que merece ser citada. Vilões são antagonistas... mas nem sempre antagonistas são vilões.
Conforme a Wikipédia
[Antagonista] não é sinônimo de vilão, pois no caso do protagonista ser um anti-herói, os antagonistas podem ser os verdadeiros heróis. Um exemplo é Mr.Brooks (Kevin Costner), no filme de mesmo nome, em que Brooks é um serial-killer e a antagonista é Tracy Atwood (Demi Moore), a detetive responsável pelo caso.O antagonista não precisa ser necessariamente um personagem, podendo ser o próprio ambiente onde se encontra o protagonista, um traço de personalidade ou sentimento do próprio herói contra o qual ele luta (como o ciúme em Otelo, o Mouro de Veneza) ou até mesmo uma ideia ou conceito que é a principal fonte dos conflitos da história (como um preconceito ou o capitalismo).
Alguém aqui lembrou de uma carta? Eu lembrei.

Torre
Ancient Italian


Preocupemo-nos, portanto, com situações, não com pessoas. Elas são amplas, e, para piorar, são também passíveis de ampliação. Pessoas vêm e vão. Situações permanecem até sua resolução. 
Ou, como costumo dizer... mudam os atores, permanece o roteiro.
Essa postagem vem a calhar num primeiro de dezembro. Dia Mundial de Combate a AIDS. Essa antagonista tem que ser combatida. De fato. 



* Agradecimentos especiais ao filho da Luciana, Andrés. Se não fosse por ele, não teria ido tão longe. Gratidão pela sua apresentação à sua mãe que, por sua vez, apresentou o conteúdo para nós todos. Obrigado.

**one shoot: aventura com começo, meio e fim numa única revista.

***stellium: acúmulo de planetas, segundo a Astrologia, em determinada casa.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Do (mal) juízo.

É inacreditável como conversas trazem insights. Às vezes, pontos obscuros de textos são trazidos à luz por um comentário fortuito feito numa conversa em tardes sem importância. Se isso é verdade em relação aos mais diversos assuntos - aprendi mais matemática desenhando que elaborando fórmulas, e mais biologia na herbologia da Arte que na escola - isso se torna inegável com o Tarô. Inegável. 
Conversava com a Zoe sobre a minha dificuldade com o Arcano Maior XX. O Julgamento, o Juízo Final, e, mais recentemente chamado Æon, é uma carta de conteúdo obscuro para além do óbvio. Estamos diante de um conteúdo cristão por excelência, talvez até mais cristão que o Arcano V. Se o Arcano V representa uma personalidade, o XX representa um evento


A Justiça
Tarocchi del Rinascimento (Giorgio Trevisan)

Ok, ok. Deveríamos comparar, na verdade, o Arcano XX com o VIII, diriam alguns. Mas a Justiça é uma ideia pré-cristã alçada ao status de virtude cardeal, e Ajustamento é uma adequação terminológica, não simbólica. É só reparar em duas questões: 
  1. A variabilidade da imagem d'A Justiça é mínima, talvez a menor dentre os Arcanos; 
  2. Até mesmo um leigo na Arte pode tecer considerações sobre essa imagem, e sobre seus atributos e símbolos, dado termos até hoje essa imagem representando os advogados e a Lei. 
Já o Julgamento... Soa-me, a priori, que a chave da interpretação se dilui no potencial escatológico cristão e perde-se muito do que ele proporia. 
Assisti hoje As Bruxas de Salem (The Crucible, 1996). Odiei. Não o filme em si, que é muito bom; justamente por isso, me inspira o que há de mais nobre: o asco pela mentira. E isso é odioso. (Confira um resumo do evento histórico que deu origem ao filme aqui.)



Princesa de Espadas / Abigail Williams (interpretada por Winona Ryder)
Thoth Tarot

Abigayl Williams (Winona Ryder, impecável). Assassina fria e cruel, dotada de uma arma pior que paus, pedras, adagas, punhais, revólveres e bombas atômicas: snaketongue. Sua língua bífida é capaz de voltar-se contra tudo e todos que a ameacem, com uma certeza no tom que beira a santidade. Maldita Princesa de Espadas, entregaria a mãe para obter o que deseja, ainda que o medo que a descubram em suas mentiras seja mais poderoso que a capacidade de obter vantagens.


Danforth e sua visão equivocada.
Rei de Espadas, Waite-Smith Tarot (detalhe)


Mas não é ela que me irrita, de fato; é o Juiz Thomas Danforth (Paul Scofield). Como pode ser tão parcial. Tão crédulo; ainda que seja parcial até mesmo em sua credulidade. Rei de Espadas mal aspectado. Invertido até para quem não usa cartas invertidas. Matar dezenove pessoas foi-lhe simples, até o momento deixou de ser irrisório pensar sobre o assunto. 
Quando um Rei de Espadas nega sua faculdade principal, o resultado não pode ser outro que não o desastre.
E daí vamos ao Julgamento.


O Parecer, Tarocchi del Rinascimento (Giorgio Trevisan)
O Julgamento de Salem


Como disse anteriormente, o Julgamento é um evento. Talvez, dissecando-o, percebamos outros detalhes sobre sua possibilidade divinatória.
Todo julgamento é um chamado. A Justiça é cega e age por meios misteriosos; o Julgamento não; as regras devem ser claras, ainda que falsas. Só se julga na presença do réu. Existem práticas, métodos para que haja clareza na sentença, sendo esta compreendida tanto pelo réu quanto pelos presentes. 
Acho curioso, nesse sentido, que cada vez mais nos especializamos na compreensão da infraestrutura dos julgamentos, ainda que não entendamos (quase) nada de Direito. Seriados pululam por aí. Para quem, como eu, está dez anos atrasado no cinema (correndo atrás do prejuízo a olhos vistos), resta (re)assistir Filadélfia e o Advogado do Diabo. E prestar atenção às sugestões dos leitores, rs.  
E daí a segunda questão: um Julgamento tem testemunhas. Tem presentes, expectadores, que estão na cômoda posição de terceira pessoa. Não, não, você está enganado. Não existem testemunhas na imagem, você deve estar pensando. Todos os presentes na clássica cena são participantes. 
E eu te respondo, com outra pergunta: qual é o seu papel diante das cartas, senão testemunha de um evento? 


Tarô de Nostradamus


A cena ocorre, mas é você quem observa, quem interpreta em condição cômoda de alheio à cena (a menos, evidentemente, que você seja o consulente e tema da presença do referido Arcano). É você quem julga a relação entre os presentes na cena e a situação-tema da consulta.
Terceira questão: há a presença de advogados e promotores. Há quem acuse, há quem defenda. Não existe Julgamento no Arcano VIII. Não existem testemunhas, advogados ou promotores por lá. Só causa e consequência, que são efeitos de outras causas e decorrência de outras consequências.








Mesmo que sejam imaginários, eles estão ali. Guiando, norteando, degladiando. O que aponta para outra questão própria d'O Julgamento: seu caráter maniqueísta. Aqui existe bem x mal, seja lá o que isso signifique - se todas as religiões escatológicas estiverem corretas no que concerne à ideia de salvação, eu realmente não sei como é que tanta gente certa pode ser tão discrepante quanto aos mesmos pontos.


Se eles estão desesperados... quem poderá nos defender? rs...


Por essas e outras esse Arcano me deixava pensando tanto. Como tais referenciais prévios poderiam ser disassociados dos seus aspectos mais obscuros, parciais, sectaristas e ainda manter a sua homogeneidade ideológica? Como o símbolo pode ser lido na sua acepção contemporânea sem perder sua proposta original?
Para isso, precisamos ver como ele tem sido representado nos Tarôs transculturais, já que os símbolos clássicos já foram previa e devidamente interpretados por Ricardo Pereira.
Mas isso já é outra história, para outro post.
Abraços a todos.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Princesa de Copas.

Pessoal, participei de um concurso de desenho proposto pela USGames Brasil e, sinceramente, assumo que foi um desafio e tanto. Mas, diante do desafio, percebi o quanto os Arcanos se integram à gente, ao ponto de serem como Auguste Gusteau para o ratinho Rémy. 



Parte de nós sendo à parte de nós.

Desenhar essa carta foi um desafio de compreensão. Engraçado que, quando vi a proposta, já pensei de cara no Ás de Copas; fui estudando alguns baralhos, procurando referências ao naipe e representações anteriores (afinal de contas eu não sou artista, sou historiador da arte...) e comecei a desenhar. O desenho não me dava sossego; lá ia e madrugada adentro desenhando espirais no papel e nos sonhos. Quando o Ás virou Princesa eu não sei, só sei que foi assim.
E Ela me acompanhou uma noite inteira até ficar pronta. A Artista, pois é o que Ela É, me deu trabalho, porque ora posava de um jeito, hora se ajeitava pedindo revisão. E lá ia eu ter que modificar os meus planos, já que os planos eram Dela. E eu, de escriba, virei desenhista. Lá vamos nós.


Princesa de Copas

Explicando a imagem. Princesa normalmente é correlacionada à Sephira Malkuth, o Reino, enquanto o Ás é correlacionado a Kether, a Coroa. A Coroa emblematiza aquele que representa o Reino. E aqui o Ás está seguro, sustentado, melhor dizendo, pela mulher nua que se inebria com seus influxos. Como pedra em um lago, as ondas ressonantes partem da vesica piscis central rumo ao alto e além. Apesar de ser a Solidez da Água, aqui vemos insetos alados se aproximando da Luz que emana do cálice – um primeiro passo para o Arcano seguinte. Uma gota d’água cai do cálice em cachoeira, como diz a música do Coldplay: every teardrop is a waterfall, ou a clássica Cry me a river.
A Princesa é chorona. Mas, justamente por isso, não sobram resíduos em sua alma. Ela representa o outono, estação em que as folhas caem, apodrecem, e são reaproveitadas pela mesma árvore que as deixou cair. Nada se perde, e o resíduo se vai. Sua alma é limpa, porque o excesso sai pelos olhos. Já a experiência... fica.
Não possui rosto porque não é expressiva, é impressiva. Ela se volta para dentro, e dentro encontra seu tesouro. Então, por que seu rosto está voltado para a taça? Estaria a taça fora... ou fora é aforismo de dentro?
Seu cabelo é evanescente, iridescente, como seus chackras. Sua beleza externa sempre será um reflexo da própria riqueza interna. Evidentemente, o oposto é verdadeiro; a Princesa de Copas não tem máscaras. Ela não precisa, mesmo que precise.
Conversando com a Claudia Mello e com o Janus, eles viram na imagem identificações com Oxumaré, o Orixá do Arco-Íris. Inicialmente não me passou pela cabeça mas, não é que existe razão de ser? A imagem se amplia, não se restringindo à proposta de quem a desenvolve, mas à experiência de quem observa.
Desenhar essa carta e entrar em contato com sua natureza me colocou diante dos primeiros lampejos de criatividade satisfatória – sendo que satisfação é o óbulo que se paga à Alma pela oportunidade de agir. E eu realmente estou satisfeito com os primeiros influxos que essa carta me trouxe, de refletir sobre o conteúdo dos Arcanos desenhando-os com todos os materiais disponíveis (pelo menos por ora - lápis de cor, têmpera e nanquim).
Eu preciso agradecer, particularmente, a uma pessoa por essa imagem. Sarah Helena, uma artista e tarófila (em sua própria definição), pelos dois cursos dos quais participei. Uma Força e uma Torre brotaram em sala e, da técnica obtida, vejo que outros virão. Obrigado.





Bem, e, evidentemente, devo agradecer à USGames Brasil pela oportunidade de participar e pelo segundo lugar que eu obtive. Com isso, fui premiado com um Thousand and One Nights Tarot, um baralho magnífico, desenvolvido por Leon Carré. Já até encomendei os volumes para estudá-lo à luz dos contos de Sherazade. 


Conte-me uma história, Sherazade.
Até termos 78 histórias para contar.


Sugiro aos amantes do Tarô que adicionem seu perfil. São sorteados baralhos sempre que o grupo atinge determinada cota de membros, promoções-relâmpago (concorra a um baralho respondendo corretamente uma pergunta) e concursos como este. 


Em breve, novidades sobre esse baralho que, sem nenhuma novidade, é lindo.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Resultado da promoção: Ganhe uma consulta com o Dragons Tarot

Dez de Copas
Dragão Imperial da Água
Dragons Tarot

Olá pessoal. Ganhar um oráculo, para mim, sempre é uma responsabilidade. Existe algo nas cartas que me chegam que demanda cuidado, geração, comprometimento e entrega. É um novo mundo dentro de um universo que me é familiar.
Ser privilegiado num sorteio tem lá seus caminhos e descaminhos. Esse baralho veio como uma dádiva, abriu um horizonte interpretativo aqui no Conversas Cartomânticas, ampliou, inclusive, minha percepção de outros oráculos. O Dragons Tarot, não canso de dizer, é uma pesquisa séria, dentro do âmbito dos baralhos transculturais, produzido com uma iconografia magnífica, e cada carta corresponde a uma experiência particular de estudo e integração mitológica. Parece exagero né? Mas é fato. Pelo menos para mim.
E, como dádiva boa é dádiva compartilhada, compartilharei, com o ganhador dessa promoção, a visão desse baralho com o objetivo de perscrutar o porvir. Vamos divinar.

Infanta de Ouros
Kukulkan protege a criança.
Dragons Tarot

Por ordem de postagem, os participantes são:

 1. Iony
 2. Isabel
 3. Lilian
 4. Tamires
 5. Patricia F
 6. Lucia
 7. ang.crist
 8. Bárbara M
 9. Marcia
10. Danielli
11. Poliana
12. Gizelda
13. Luciana O
14. Sonia
15. Patricia C
16. Edy
17. Luciane
18. Barbara G
19. Flávio
20. Josie
21. Francine
22. Flávia
23. Luciana G
24. Carlos
25. Paula
26. Juliana
27. Daniela
28. Amanda
29. Rhadra
30. Ana Karla
31. Carolina
32. Hélita
33. Igor
34. Ana Cláudia

Sol
Ládon e as maçãs das Hespérides
Dragons Tarot

... E o sorteado é...

Bárbara Mançanares!
Parabéns!
Favor entrar em contato para podermos marcar seu horário.

Hierofante
Leviatã
Dragons Tarot


Aos demais, minha gratidão pela participação e aguardem novas promoções. Fim de ano pede, não é? 
Preparemo-nos para o Ano do Hierofante...
Abraços a todos!

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Cartas encardidas e seus conselhos alvejantes

Olá pessoal. Acabei de ler o texto da Pietra sobre as cartas encardidas* em posição de aconselhamento. Fiquei pensando sobre minha própria experiência com as referidas. Afinal de contas, uma coisa é interpretar uma carta para outrem – por mais compaixão que se sinta, ali não deve haver sentimentalismo que impeça a plena compreensão do contexto pelo maior interessado, o próprio consulente. As cartas devem ser lidas como se apresentam. Mas... e quando o mesmo ocorre em relação a nós mesmos, seja em jogos particulares, seja em consultas das quais sejamos consulentes?
Não vou mentir. É um saco.


Valete de Espadas
Marseille Grimauld

Por maior que seja a imparcialidade com a qual você trata seu oráculo, quando você vê um dos cincos ali, em evidência, ou o Pajem de Espadas, ou a Torre, entre outras... Dá um gelinho sim, na espinha. Por um micromilésimo de segundo, perpassa a mente: “eu podia ter ficado sem essa...”. E é o segundo seguinte que definirá tudo na sua leitura. Ou você aceita o que viu, pestanejando, mas já planejando os próximos passos, ou olha bem para a carta com as lentes cor-de-rosa que se plasmaram imediatamente nos seus olhos e diz: “não, essa carta pode significar tantas coisas, por que seria algo ruim justo dessa vez?”


Happy Squirrel
Simpsons

Voltamos aqui à experiência lá dos Simpsons. Parece-me conveniente que, por vezes, nos enganemos, justamente nos aspectos que nos desagradariam mais. O chato é que esse não é o caso. Quando vemos e interpretamos, sim, a primeira impressão é a que fica. Quando interpretam para a gente, também.
Eu tive a experiência de jogar Tarô com uma garotinha de doze anos, mais ou menos. Ela só via desgraça. Deus me livre! Até na Imperatriz, no Sol (ela jogava só com os Maiores, não sei se ainda joga só com eles) ela conseguia ver, com precisão, o pior lado da carta. Demorou para eu entender como deveria levar a leitura. Ela tinha mais a oferecer que eu poderia perceber, a priori.
Ela me fez ver certas cartas como realmente são. Não tão boas. Evidentemente, não tão ruins como ela via. Mas para isso serve o filtro mental - a ideia do oráculo é levar o consulente a pensar, não a obedecer.
E aí, em contrapartida, acabei aprendendo um pouco mais sobre as encardidas. Elas não são desejáveis, fato; mas elas são necessárias. Necessárias como aquele "não" que você diz ao seu colega que não sabe que você parou de fumar e lhe oferece um cigarro. Evidentemente, é só um cigarro... que pode tornar-se bem mais que um maço por você ter quebrado seu juramento de não mais fumar. Acrescente à essa lista as vezes em que quebrou um regime, furou uma fila, omitiu sua opinião sincera, mentiu. 
Por melhores que fossem suas intenções, por menores que fossem os danos, você fez companhia ao incomensurável número de almas boas de comportamento ruim que fizeram residência no cortiço infernal. E isso não é bom.


Apego ao Passado
Cinco de Água/Copas
Osho Zen Tarot


E por isso as encardidas. Elas são o "não" da nossa consciência superior ao caminho mais fácil, porém, menos favorável. Elas são o "não" da nossa consciência ao investimento errôneo de nossos esforços. Elas são a consequência, no limite, de nossos atos menos nobres.
O interessante é perceber que a maior parte delas revela padrões mentais inadequados.  Medo lidera o ranking. Em segundo lugar, pesar e arrependimento. Seguem-se a eles raiva, insegurança, pesadelos, maledicência, crueldade, sadismo, masoquismo. A lista é enorme, mas não é infinita.
Existem estudos interessantíssimos sobre os aspectos sombrios dos Arcanos e evidentemente, sobre as encardidas. Tenho me dedicado a esse tema com certo vagar, porque, apesar do Diabo não ser tão feio quanto lhe pintam, nem é tão bonito quanto acreditamos que seja. E no limite entre o pessimismo e o otimismo pueril existe um oceano de possibilidades que deve ser singrado com cuidado.


Mente
Valete de Espadas
Osho Zen Tarot


Mas, na leitura, aceitar o conselho alvejante - que elimina toda mancha mental, toda a lixeira que costumamos manter quando as expectativas não correspondem ao esperado - é realmente libertador. Mesmo que dolorido.
Abraços a todos.


Cartas encardidas: cartas desagradáveis, indesejadas, complicadas de vivenciar. Quando disse isso pela primeira vez foi crise de riso geral...