Olá pessoal. O que era só uma perspectiva três anos atrás, tornou-se uma realidade: o Conversas Cartomânticas virou livro!
Com o melhor publicado nesse tempo, organizado de forma a termos todo o processo de aquisição do baralho até o encerramento da consulta. As experiências, comentários, diálogos, a teoria e a prática da Cartomancia, conforme conversamos por aqui.
O livro pode ser adquirido em e-book ou em edição impressa. Para adquiri-lo, clique no link abaixo:
Seguindo com nossa linha de interpretar textos e imagens à luz das cartas, vi essa tirinha do Carlos Ruas (903 - Sinceridades) e não tive como não postar.
Quinze de agosto de 1769. Nascia nessa data o Imperador Napoleão Bonaparte (Napoleone di Buonaparte, como córsego que era, filho de pais de ascendência nobre italiana). Lider político e militar do final da Revolução Francesa, sendo responsável por estabelecer a hegemonia francesa em diversos países europeus e sendo influente inclusive na história do Brasil - sua invasão a Portugal gerou a vinda da Família Real para o Rio de Janeiro em 1808, que mudou radicalmente os rumos da história do país. Não sei se teríamos os eventos posteriores relativos à independência e à proclamação da República com eficácia sem a presença da nobreza por aqui.
O curioso é que Napoleão, conforme consta, gostava de ter seu futuro lido, assim como sua primeira esposa, Josephine.
E sua leitora era nada mais, nada menos que Mlle. Lenormand.
São creditadas a Mlle Lenormand duas obras relativas a Napoleão: Um estudo quiromântico sobre a mão direita do imperador e o mais conhecido, o baralho com o qual consta que a sibila o atendia: Petit Lenormand.
A obra quirofisiognômica é póstuma, dificultando corroborar sua autenticidade; no caso da segunda, sabemos ser impossível, já que o baralho foi desenvolvido muito tempo depois de Mlle Lenormand ter construído sua fama. É muito mais adequado ao período que Mlle Lenormand utilizasse um Petit Etteilla, ou mesmo a Cartomancia tradicional francesa, na qual Etteilla se baseou para construir seu método de leitura.
Mas hoje, tomaremos o Imperador como personagem da Cartomancia. Uma forma lúdica de apreendermos conceitos aplicáveis à prática. ...E se Napoleão fosse uma carta? E se o tomássemos por uma imagem arquetípica?
No Tarô, evidentemente, seria o Imperador. Podemos, inclusive, comparar uma obra de David a uma obra de Pamela Smith, pela similitude dos atributos utilizados na elaboração das respectivas imagens. E não poderia deixar de fora o Imperador do Lenormand Tarot.
No Petit Lenormand, seria o Cavaleiro. Rápido, sagaz, realizador, veloz, com pouca experiência na espera. Quem o venceu, de fato, não foram homens; foi o inverno russo... que ele não soube esperar passar.
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No Sibilla della Zingara, algumas cartas poderiam ser encadeadas em uma biografia imagética. Concentramo-nos no fim de sua vida, nesse caso.
Fica aqui a experiência de um exercício muito divertido, do qual experiências muito ricas emergem: tente contar uma história com as cartas. Busque não só significados, mas encadeamentos. Como poderiam ser lidos nas cartas os fatos já consumados? Como poderiam ter sido evitados? Na verdade, poderiam ter sido evitados? Se houveram atrasos e erros de percurso, como poderíamos adiantar os eventos? Qual teria sido o melhor caminho? Conversaremos mais sobre isso adiante. Abraços a todos.
Olá pessoal. Vi, esses dias, no oceano de postagens do Facebook, uma pequena troça com alguns cartomantes com biografia semelhante à minha: Jogo Tarot desde os 13... e não tive professor de Tarot. Aprendi por aí com o mundo (Tum Dum Tss). O tom jocoso de uma frase como essa merece uma reflexão maior sobre o status do ensino-aprendizagem do Tarô no Brasil. Ainda temos alguns preconceitos e até mesmo um certo glamour no autodidatismo ou na hereditariedade que não são, no limite, interessantes para o crescimento e desenvolvimento da profissão.
Roda da Fortuna
Tarô das Bruxas (Ellen Cannon Reed)
A hereditariedade é, ainda hoje, um status desejado. Todos nós desejamos deixar nossa marca no mundo - alguns, destruindo, outros, construindo. Essa marca normalmente é deixada pela tarefa que desempenhamos, na maior parte das vezes profissionalmente. Em outras épocas, o ofício era tão importante que virava sobrenome: Taylor, Schumacher... Ainda que Elisabeth fosse uma atriz e Michael um piloto de Fórmula 1. Tradições se mantém ainda que não tenham mais o sentido original.
E é aí que está. Nem sempre o que queremos passar encontra eco na alma daqueles que vem depois de nós, e não adianta dizer que filho de peixe, peixinho é porque nem sempre o mote funciona. A sociedade contemporânea ocidental carece de valores sólidos, por um lado, porque lutou pela sua liberdade de escolha e expressão, por outro. Toda ação gera uma reação.
E o oposto também é verdadeiro. Nem sempre o que queremos manter honra os nossos antepassados, ainda que tenha sido vivido por eles. Ninguém quer que seus sucessores tenham uma vida tão ou mais difícil que a que viveu. Buscam-se outras escolhas para os que vierem depois.
E aí correlacionamos tudo isso com Cartomancia. Entre aqueles que pertencem e simpatizam com o meio, ser Cartomante hereditário soa como algo pomposo, glamouroso. Acreditem no que digo: não é. Você aprender com um parente é maravilhoso, sinceramente. Mas não acrescenta nem diminui nada na carga de estudos que temos que manter, ou no desenvolvimento das faculdades de leitura, notadamente a intuição. Essas coisas não vem por herança pura e simplesmente - habilidades tem que ser desenvolvidas, senão atrofiam. E isso é um esforço diário do estudante, não do mestre.
Eu aprendi Cartomancia com a minha avó. Mas engana-se quem acha que ela era uma Feiticeira-reencarnada-depois-de-anos-sendo-queimada-vida-após-vida-pela-Inquisição. Minha avó era uma mulher comum, com casa para arrumar, animais para cuidar, rosas (suas flores favoritas) e outras plantas para regar, ou seja, tinha bem mais o que fazer do que ficar explicando por horas a fio as possíveis combinações entre as cartas. Ela me ensinou o básico e disse: TREINE.
Estou treinando até hoje.
E, aproveitando o link, tem outro título por demais glamouroso, para além do que merece. Autodidata. Acho fantástico quem aprende um instrumento musical sozinho. Violão, quer coisa mais linda? Aprender sozinho é excelente em alguns aspectos. Você dá sentido a cada passo a partir da sua própria experiência. Por outro lado, o risco de desistir é muito grande, no meio do caminho, por não saber qual é o próximo passo. Existe também o risco de se contentar com pouco. Com aquilo que conseguiu sozinho, ainda que frente à necessidade sua conquista seja algo incipiente.
Eu sou tarólogo autodidata. Aprendi a lidar com os setenta e oito arcanos sozinho. Sozinho não; com os feedbacks de diversos clientes nesses onze anos de prática. Olha a palavrinha aí de novo: prática. Acrescente a ela muito estudo. Mas muito mesmo.
Não sou autodidata por opção. Não tem nada de glamouroso nisso. Eu sou autodidata porque não tinha dinheiro para comprar um baralho, que dirá para pagar um professor! Eu tinha quinze anos e não trabalhava, como aprender? Se eu não me virasse, jamais aprenderia qualquer coisa.
Comprei um baralho de segunda mão. Era um Jean Payen com os Arcanos Menores de outra edição marselhesa. Vinha com uma revista, que é boa, por incrível que pareça. Os textos são de fato muito bons. E dá-lhe estudar. E jogar. Na Biblioteca Pública encontrei mais alguns livros, mas eram sobre o Waite-Smith. Perae, mas o Sol não tem dois menininhos? Daonde apareceu esse cavalo? Cadê o outro menininho? Será que isso muda o significado? Será que esse livro serve para eu estudar? Será que funciona?
E assim eu estudei Tarot por uns bons três anos, entre atendimentos e literatura escassa. Hoje temos a Priscilla Lhacer para trazer com grande facilidade baralhos importados e raros para nós. Mas antes, devíamos nos contentar com as poucas edições que encontrávamos por aqui. Notadamente, do Tarô de Marselha e outros ligados à Escola Francesa.
E, claro, o Tarô Mitológico. Um baralho que fez escola no Brasil. Muitos de nós que começamos na década de noventa do século passado devemos a esta obra o estudo dos Arcanos Menores. Ainda bem.
Eu agradeço, enormemente, àqueles que confiaram em mim e inclusive me presentearam com baralhos e livros que eu não poderia ter obtido nessa época. Sem esse carinho, seria impossível que eu estudasse. Não por falta de vontade; era falta de obras, mesmo.
Por outro lado, isso levou esse que vos fala a praticar muito. Olhar o Marseille Grimaud com olhos de primeira vez, sempre. Cada cor, cada forma, eram dissecadas ponto a ponto para que aquilo que o livro dizia fizesse sentido. Organizações das cartas estudadas à exaustão. Não haviam hierofanias ou desciam anjos para me contar segredos das cartas. Era só um olhar, e olhar era tudo.
Hoje, dado o esforço, dado o empenho, eu conheço minhas cartas o suficiente para saber que uma vida é pouco para conhecê-las. Eu não me ative ao posto de autodidata como um título, mas sim como um desafio. Creio que é assim que esse título deveria ser visto; não como um fim, mas como um meio, um caminho. Mais complicado de se trilhar, claro, mas ainda assim muito proveitoso.
Abençoado seja o momento em que vivemos. Em que temos um catálogo de obras muito legal e acessível a todos - se não a obra nova, temos a Estante Virtual para adquirir livros que já estão fora de catálogo. Temos acesso a uma miríade de baralhos, nacionais e importados. Se hoje eu tenho um Ancient Italian, meu baralho do coração, é porque a Nath trouxe para mim. Agora, é possível pedir para a Priscilla com pronta-entrega e competência. Hoje temos eventos que unem as pessoas em torno do ensino-aprendizagem: acabei de vir da Confraria Brasileira de Tarot e a Pietra e o Edu já organizaram outro seminário, desta vez de Tarô para Tarólogos. Quem estiver em São Paulo não pode perder. As possibilidades se ampliam. Cursos se multiplicam, tanto presenciais quanto virtuais, com professores renomados. Que, inclusive, possivelmente passaram pelas mesmas dificuldades/desafios que aponto aqui.
Aproveitem as oportunidades que se delineiam na profissão. E esqueçam pequenos arroubos egoicos que permeiam a arte. Já são por demais démodé para merecerem atenção.
Vinte e seis de julho, dia dos avós. Homenagem a Sant'Ana, mãe da Virgem. Aquela que foi capaz de acreditar até o fim na maternidade.
É curioso pensar no que é ser avô/avó na idade em que estou. Um quarto de século, mais um - vinte e seis. Mas, frente às gravidezes cada vez mais prematuras, não é difícil imaginar um avô de trinta anos. Mas a imagem permanece sendo de alguém que já enfrentou um bocadinho de aventuras nessa vida... e sobreviveu para contar.
É difícil para mim, esse ano, comemorar essa data. Minha avó materna achou que o corpo dela estava démodé demais e resolveu trocar de roupagem. Não dá para dizer que não dói. É um buraco na vida da gente que a gente não é preparado para cavar. Ainda que seja a única certeza da vida, a gente sempre espera que não seja tão certo, assim.
No Tarot, a carta que mais se aproxima, entre os Arcanos Maiores, da experiência de ser avó é a Sacerdotisa. Curioso que ela é a Virgem; mas é uma virgindade que se obtém, também, depois da menopausa - um novo ciclo hormonal na vida da mulher que pede os mesmos cuidados que pós-menarca. E a sabedoria que ela possui é obtida também da observação - um de seus conceitos - e, para observar, há que se ter tido tempo para isso.
A Rainha de Ouros também tem muito de avó - ela já experimentou no corpo o que é o ditame do espírito, e sobreviveu para contar a história. Sentimentalismos não mais a comovem. Mesmo porque, ser avó é ser mãe já conhecendo o script. Não há mais surpresa nem susto, há um reconhecimento de que aquela semente é fruto da semente que ela teve a habilidade de criar.
Já conhecendo o script, por que se estressar? Por que se preocupar tanto? Avó é conhecer os netos pela parte que lhes cabe, que é carinho e afeto. É ensinar coisas que vão ser tão anuviantes nos momentos de saudade, como barquinhos de papel com capota e jogos de paciência vários. É deixar os cinco sentidos atiçados com aquele cheiro de bolinho de chuva saindo do fogo, com direito a tapa na mão dos mais afoitos.
É uma ternura sem tamanho, mesmo nos xingos. A gente sempre sobrevive ao xingo de mãe, mas dói o xingo de vó. Claro que existem as avós que não são lá flor que se cheire; cravo de defunto também não é para cheirar, mas ainda assim ornamente o jardim. Mesmo lá de longe, é vó.
Feliz dia das avós, àquelas que tiveram a sorte de ser. E feliz dia para aqueles que ainda podem curtir seus avós. Eu tô aqui tentando encher esse buraco, mas ele tá tão forrado de ternura pelo que eu vivi com a minha, por ela ter me tornado o homem que me tornei, por ela ter colocado um baralho na minha mão tão na hora certa, mesmo parecendo que não... Que acho que esse buraco só vai durar pelo resto da minha vida. Obrigado, vó. Vivo com você para sempre, aninhada aqui no meu peito como eu costumava me aninhar no seu. Abraços a todos. E aproveitem seus avós, porque a Morte não costuma aceitar reclamações e nem oferecer justificativas para os seus atos.
Eu sou fã de videogames, não faço segredo disso. Mas existem alguns jogos que são para matar de raiva. Esse jogo, "saia do quarto", é um deles. Como é em primeira pessoa, chega um momento em que nos sentimos, de fato, tolhidos em nosso ir e vir. Para um Carruagem, não ver o horizonte é tortura e tormento. Quando, contudo, vemos a bendita porta se abrir, todo o esforço e desespero anteriores somem, dando lugar à perspectiva de um novo desafio. E aí a gente pensa "poxa, até que foi divertido..."
Essa postagem é um agradecimento. Obrigado a você, leitor, que acompanha o blog, comenta, questiona, concorda, não concorda, e em todos os âmbitos me ajuda a crescer.
Obrigado. Esse blog só tem razão de ser por ter você para conversar.
Olá pessoal. Estou deveras encantado pelo novo trabalho de Ciro Marchetti: Um Lenormand magnífico com a técnica e o cuidado que só ele sabe ter com as lâminas. E essa imagem me inspirou uma leitura diferente das que estava até então acostumado - o legal de conhecer novos olhares, novas iconografias, é que o nosso próprio caleidoscópio de interpretações ganha novas cores de vidro para os mesmos espelhos.
Ciro Marchetti e a redoma.
Conheci Ciro Marchetti pelo baralho adquirido pela Rhadra Calache (obrigado, querida!) e fiquei encantado. Não é um trabalho convencional; Ciro Marchetti talvez seja o maior artista digital dedicado ao Tarô na atualidade. Suas imagens são de natureza ímpar, com profundidades e transparências que nos levam a viagens diferenciadas na observação das mesmas imagens.
I've used Adobe Photoshop in my corporate work for a number of years, so I'm comfortable enough that it’s my software of choice, and allows me to pretty much reproduce most ideas and effects I wish. While I have a reasonably clear idea of my illustrations from the onset, I nevertheless use the capacity of layers, and color modes constantly, making adjustments to composition, color and light. This very often results in a different arrangement and mood to the one I originally planned. Another important feature is texture; I very deliberately break up the computer clean surfaces of the images by painting through a selection of custom prepared textured alpha channels. This adds a controllable tactile surface quality to the imagery where appropriate; i.e. rusted metal, rough stone.
Sua trilogia Gilded, Dreams e Legacy of Divine Tarot são, além de obras-primas da criação tarológica, um caminho de observação, tanto do crescimento do autor na produção de seus baralhos mais recentes como também do acréscimo e retirada de elementos para clarificar as ideias próprias da lâmina. O processo criativo não respeita fronteiras e, quem, sinceramente, não terminou um desenho ou obra pensando "eu poderia ter feito melhor/diferente/mais um pouquinho aquele detalhe ali"?
Atualmente o próprio Gilged possui uma nova versão - Royale - facilmente obtida com a Priscilla Lhacer no Amor, o Próprio. Mas falemos sobre o Lenormand, que está ainda em processo de criação.
Fonte: Facebook do autor
Mais que conversarmos sobre os significados recorrentes dessa carta, conversemos sobre as ideias de Jardim e Redoma em dois contos franceses: La Belle et la Bête e Le Petit Prince.
Em a Bela e a Fera, a vida fica contida na rosa e na redoma, mesma redoma que continha o primeiro amor do Pequeno Príncipe. Acho que fica aqui uma dica que o que a redoma guarda é perecível. Pode se perder, por puro descuido. Mas, ao contrário de um broche ou anel, se você perder uma planta, ela de fato se foi. Isso aponta, em contrapartida, para o cuidado constante que um jardim necessita. Não é de qualquer forma, não é de qualquer jeito que o jardim prospera. Mas, por um mero descuido, ele se desvanece nas próprias plantas que antes o embelezaram. É curioso, também, perceber no processo o quanto nos envolvemos com o Jardim que criamos, que sobrevive a eventos vários. Parece que, ao cultivar, ao replantar, ao tirar mudas e ampliar horizontes, aquela vida multiplica-se em possibilidades antes oriundas de um único risco. Para quem assistiu A Orfã, um filme extremamente tenso e revoltante, mas por isso mesmo recomendadíssimo, a visão de um ramalhete pode ser odiosa. Mas deixemos Ramalhetes para outras postagens. Voltando à Bela e à Fera, a história corre em torno de um roubo em um Jardim. Ao invés de joias e brocados, Bela, a mais jovem filha de um mercador, pede-lhe somente uma rosa. Após ser cuidado em todas as suas necessidades, o mercador, ao partir do castelo da Fera, sem desconfiar do que pode acontecer a partir de seu ato. Aquela rosa valia mais para o senhor do castelo que todas as suas riquezas.
É curioso, para àqueles que utilizam o Tarô Mitológico, reparar como esse conto aparentemente bebeu nas fontes de Eros e Psiquê. Bela vai à sua casa ver seus parentes e é seduzida pela língua bífida de suas irmãs - dizem uma coisa, apontando para outra. E eu fico pensando aonde está, de fato, a beleza. Na efemeridade de uma flor, ou na eternidade de um diamante.
E em efemeridades e eternidades, o Pequeno Príncipe chora por saber que sua Rosa, tão una, é encontrada em profusão e turbilhão num Jardim.
Mas aconteceu que o pequeno príncipe, tendo andado muito tempo pelas areias, pelas rochas e pela neve, descobriu, enfim, uma estrada. E as estradas vão todas em direção aos homens. - Bom dia! - disse ele. Era um jardim cheio de rosas. - Bom dia! - disseram as rosas. Ele as contemplou. Eram todas iguais à sua flor. - Quem sois? - perguntou ele espantado. - Somos as rosas - responderam elas. - Ah! - exclamou o principezinho... E ele se sentiu profundamente infeliz. Sua flor lhe havia dito que ele era a única de sua espécie em todo o Universo. E eis que havia cinco mil, iguaizinhas, num só jardim! "Ela teria se envergonhado", pensou ele, "se visse isto... Começaria a tossir, simularia morrer, para escapar ao ridículo. E eu seria obrigado a fingir que cuidava dela; porque senão, só para me humilhar, ela seria bem capaz de morrer de verdade..." Depois, refletiu ainda: "Eu me julgava rico por ter uma flor única, e possuo apenas uma rosa comum. Uma rosa e três vulcões que não passam do meu joelho, estando um, talvez, extinto para sempre. Isso não faz de mim um príncipe muito poderoso..."
E, deitado na relva, ele chorou.
Ela não é única, ainda que seja a única importante. Foi o tempo dedicado à Rosa que a fez tão importante. Aqui, vê-se que não é só o cuidado que o Jardim inspira que o faz uma carta tão especial: o tempo investido também, que é deliberadamente demorado. Os resultados não são imediatos. Mas são evidentes. Em ambas as histórias, vemos o Jardim, a Redoma que o contém, sendo o limite entre a selvageria e a civilidade, entre o liberto e o contido, entre o amplo e o foco. O cuidado deliberado mantém a salvo a vida daquilo que a observa. Fora do Jardim do Éden, tudo é cardo e espinho, e a lembrança da antiga ordem rege o progresso da corrente.
Sigo aguardando, ansioso, pela publicação desse baralho. Abraços a todos.
Mandala (मण्डल) é a palavra sânscrita que significa círculo, uma representação geométrica da dinâmica relação entre o homem e o cosmo. De fato, toda mandala é a exposição plástica e visual do retorno à unidade pela delimitação de um espaço sagrado e atualização de um tempo divino. (...) Em termos de artes plásticas, a mandala apresenta sempre grande profusão de cores e representa um objeto ou figura que ajuda na concentração para se atingir outros níveis de contemplação. Há toda uma simbologia envolvida e uma grande variedade de desenhos de acordo com a origem. (...) O processo de construção de uma mandala é uma forma de meditação constante. É um processo bastante lento, com movimentos meticulosos. O grande benefício para os que meditam a partir da mandala reside no fato de que a imaginaram mentalmente construída numa detalhada estrutura tridimensional. No processo da construção de uma madala, a arte transforma-se numa cerimônia religiosa e a religião transforma-se em arte. Quando a mandala está terminada, apresenta-se como uma construção extremamente colorida. Depois do ciclo é desmanchada, a areia é depositada, geralmente, na água. Apenas uma parte é guardada e oferecida aos participantes. Um monge inicia a destruição desenhando linhas circulares com seu dedo, depois espalham a areia e a colocam em uma urna. Quando a areia é toda recolhida, eles apagam as linhas que serviram de guia à construção e despejam a areia nas águas do rio.
Mandalas são centros meditativos profundos, são representações da eternidade do efêmero - termo que utilizo para me referir a situações inesquecíveis, porém de curta duração. Assim como as lembranças. Ativam de forma semelhante espaços diferentes. Lembranças levam-nos a lugares não esperados, não deliberados, mas que estavam ali. Como se você imprimisse e começasse a colorir uma dessas mandalas, agora. As cores todas já estão ali, esperando você a escolher. Tá percebendo que eu estou variando o tempo verbal entre uma frase e outra? Sim, isso é deliberado. Porque um único tempo reúne essas duas ideias, e esse tempo é agora. Tempo de reintegrar o que passou e valeu a pena. Tempo de reintegrar ao mundo aquilo que já é real na imaginação. Tempo de deixar passar o que não tem mais valor. Aquilo que doeu. A dor é momentânea, o aprendizado é eterno. Pinte a mandala de sua vida de novas cores, começando por imprimir uma mandala dessas aqui. E lembre-se que, num universo como o nosso, o imutável... é a mutação.
Fortuna
Visconti-Sforza (USGames)
Ainda que tudo mude, você ainda é o centro de referência de sua vida. Reintegre-se ao centro, de onde nunca deveria ter saído, senão para conhecer. Abraços a todos.
Atenção: Sugiro que você ouça essa música aqui, durante a leitura.
Depois de visitar o desencantamento, à convite da Rute, eu fiquei pensando em toda a abrangência do termo. Embora eu tenha focado o despertar, percebi, ao ler o que os demais participantes escreveram, que eles foram a fundo naquilo que eu queria evitar, as dores emocionais, os relacionamentos que não deram certo. Não à toa, essa foi, sem dúvida, a Blogagem Coletiva mais difícil de que já participei. E, diante das participações e do que foi dito, escrevo um pouquinho mais, focando-me nos aspectos mais dolorosos do desencantamento. Esse é um texto sombrio, direto no queixo. Não leia se tiver um coração sensível e lentes cor-de-rosa. Eu não tenho nem um, nem outro. Perdi há um bom tempo, e se alguém encontrar, por favor... não me devolva.
Recentemente, eu fui picado por uma abelha. Na palma da mão direita. A despeito de todo o simbolismo que isso venha a ter, nunca na minha vida eu senti uma dor tão intensa. Isso porque já fraturei o nariz duas vezes.
Um misto de surpresa, impacto, que move simultaneamente em direção à catatonia e ao berserk, um pulso elétrico que se movimenta pelos filamentos de todos os músculos e que se mostra incontrolável. E, quando você volta a si, percebe que tudo isso aconteceu em segundos.
Os dias passam. A memória da dor permanece como um parâmetro. Como pode doer tanto? Mas a dor física passa, pouco a pouco, devagar ela se dilui nas necessidades do dia-a-dia. Esse passar da dor pode decrescer, como no caso da picada de abelha, gradualmente; ou, como no caso de uma Lesão por Esforço Repetitivo, inversamente oposta. Com as dores crônicas, a gente se acostuma.
As dores surpreendentes são as que de fato doem.
E, nesse caso, as ditas dores de amor recebem o Oscar de melhor efeito especial. São sempre apoteóticas. Chamam a atenção. Afinal de contas, a "compaixão" aqui é vestido e capa de uma autocomplacência que deveria ser desnudada.
Mas não. Uma coloca a anágua "ele não presta"; outra põe um godê guarda-chuva de "você encontrará alguém melhor". Outra vem e coloca um corpete de loja de artigos para maiores "como assim você, essa delícia, está chorando por ele?" Mais um, atraído pelo burburinho e encantado pela semivestida persona, veste-lhe uma blusa recém comprada de "gente, nunca tinha reparado na cor dos seus olhos... as lágrimas os deixaram mais bonitos". E, de peça em peça, num strip tease às avessas, um personagem é criado para sair às ruas mostrando sua vestimenta rica, paga com moedas de lágrimas. Mártir, sofredor, coitadinho. Dolorosamente merecedor da atenção de todos aqueles que, independentemente das próprias necessidades, estão ali para confortar (leia-se: deixam suas dores por serem feias demais para alguém as vestir. Tais dores permanecem nuas, mas presas no porão). Mas o personagem, a bela e sincera mocinha virginal, esqueceu a calcinha em casa. Um ventinho (algumas doses de uma bebida forte, uma música mais intensa, alguns olhares, um recadinho no MSN) e todo o paramento deixa de fazer sentido no flash de um paparazzi. Toda vestida de drama, mas não deixa de ser uma rameira.
Autocomp... Nazaré Tedesco.
Porque se escreve "boite" mas se fala "boate".
Ou buatchy. Vá saber.
Autocomplacência, rameira que faz o peito de qualquer um o bordel de mais alta classe. Ou não.
Colocar a autocomplacência amarrada ao pé da mesa não faz, ao contrário do que eu pensaria, com que qualquer evento doa menos. A dor é sempre dor. E, para piorar um pouco as coisas, dor não é parâmetro de comparação. O que você viveu/vive pouco ou nada interessa para quem vive, naquele instante, sua própria dor. É um consolo (leia-se: um uppercut na autocomplacência) saber que outras pessoas passaram por eventos diferentes, piores. Mas, por piores que sejam, não foram experimentados como reação química na carne que você veste. Você entende, mas não interage com nada aí dentro. Só faz sentido.
Ninguém passa por nada sem merecer, ainda que não entenda muito bem.
Não quero dizer que não existem momentos em que realmente precisamos de ajuda. Tem horas que só mantemos a sanidade porque tem alguém ali pronto para estender a mão. Tem horas que o desespero está quase se transformando em uma bala enterrada no meio da cabeça. Ninguém é plenamente autosuficiente para não precisar de colo de vez em quando.
Lembra que eu disse que dor não se mensura? Então. A sua dor nunca será vivenciada por esse conjunto de nervos que está aqui no meu corpo. A memória, não, eu não terei. Eu terei parâmetros. E talvez sejam justamente os meus parâmetros que te tragam um pouco de sanidade, diante de uma dor que você considera forte demais para aguentar.
Três de Espadas
Marseille Grimaud
Eu tenho uma abordagem do Três de Espadas um pouco dura (dá uma olhada no texto que eu escrevi para o Clube do Tarô). Saturno em Libra, conforme a atribuição da Golden Dawn. Não dá para ser por menos. O Ceifador olhando para os relacionamentos. O Do Golpe Certeiro relacionando-se com o signo das dúvidas e indecisões. Ah, e para constar, Ele anda exaltado por ali. Se nos aplicarmos, juntos, as ideias do Três de Espadas para a questão dos relacionamentos, o exercício aqui seria de se colocar em terceira pessoa, mesmo quando a dor for sua. Você está com a peça de roupa que corresponde à sua parte de autocomplacência pela dor alheia. Olhe de novo. Você ainda a quer vestir aquela peça? Se sim, vista de peito aberto sua dor, porque, como todo e qualquer sentimento, ela é passageira. Fica só o registro. Agora... se você é incapaz de enfrentar de peito aberto o motivo da sua dor... Se você só consegue "buscar conselhos" de amigos... Se você diz que ele não presta, mas ainda mantém contato com ele, dizendo que o ama... Se você o traiu, e traição aqui em amplo sentido - um pedido de não faça isso quebrado pode doer mais que relacionar-se com um batalhão de pessoas - e (ainda assim) se arrependeu...
Faz um favor para mim. Cale a sua boca. Agora.
Muito sofrimento pode ser evitado assim. Se você é incapaz de conversar diretamente com quem lhe causa dor, é melhor não conversar movido pela paixão com ninguém mais. A gente costuma mudar de ideia quando a raiva dá lugar à razão. E arrependimento não é desculpa, é consequência de uma fala mal... dita.
Lave seu rosto. Olhe-se no espelho. Despido daquilo que considera ser real. Olhe de novo. E mais uma vez.
Agora sim. Dê um passo. Sem a mesquinharia de quem acha sua dor a maior do mundo, com a autocomplacência de quem se acha a maior vítima do destino. Todos sofremos por amor de vez em quando. A maior parte de nós sobrevive a isso.
Lembre-se... Sua dor só é incomparável, mas jamais será a maior do mundo. Doi ler isso? Sim, eu sei. Para escrever, doeu também. Dor é coisa que dá e passa. Como a de eu escrever e você ler. Saturno em Libra tem dessas coisas, ainda mais se representativo de uma carta como o Três de Espadas. Voltamos a nossa programação normal, com postagens mais agradáveis.
Ah, quase me esqueço: além das leituras dos meus parceiros de Blogagem Coletiva, o texto é motivado pela inter-relação entre o Três de Espadas do Medieval Scapini com uma música do OneRepublic, Secrets. Quem sabe te inspiram também.
I need another story
Something to get off my chest
My life gets kind of boring
Need something that I can't confess
Till all my sleeves are stained red
From all the truth that I've said
Come by, it honestly I swear
Thought you saw me wink, no, I've been on the brink, so
Tell me what you want to hear
Something that'll like those ears
Sick of all the insincere
So I'm gonna give all my secrets away
This time
Don't need another perfect lie
Don't care if critics never jumped in line
I'm gonna give all my secrets away
My God, amazing how we got this far
It's like we were chasing all those stars
Whose driver shining big black cars
And everyday I see the news
All the problems that we could solve
And when a situation rises
Just write it into an album
Sitting straight, too low
And I don't really like my flow, oh, so
Tell me what you want to hear
Something that'll like those ears
Sick of all the insincere
So I'm gonna give all my secrets away
This time
Don't need another perfect lie
Don't care if critics never jump in line
I'm gonna give all my secrets away
Got no reason
Got no shame
Got no family
I can blame
Just don't let me disappear
I'mma tell you everything
Tell me what you want to hear
Something that'll like those ears
Sick of all the insincere
So I'm gonna give all my secrets away
This time
Don't need another perfect lie
Don't care if critics never jump in line
I'm gonna give all my secrets away
Em tempo: O Ciro Marchetti preparou um vídeo sobre o Três de Espadas do seu Legacy of Divine Tarot. Vale a pena assistir.