Depois da blogagem sobre dragões, precisava complementar a análise iconográfica com suas contrapartes “reais”. Quanto mais eu leio sobre a Serpente, mais a vejo imiscuída à ideia de Dragão; é muito complexo tentar separar onde um simbolismo termina e onde o outro começa. Paradoxalmente ao fato de termos encontrado quatro baralhos relativos somente a Dragões, não existe, ou pelo menos eu não encontrei, nenhum baralho dedicado exclusivamente às serpentes. Como símbolo, ela transcende a forma e se revela una enquanto múltipla.
Das relações entre Dragões e Serpentes.
Mais claro, impossível.
A serpente não apresenta, portanto, um arquétipo, mas um complexo de arquétipos ligado à noite fria, pegajosa e subterrânea das origens.(CHEVALIER E GHEERBRANT: 2009, 815)
Este é um dos casos em que se pode confiar nas aparências. Se você encontrar uma cobra da espécie 'Atheris hispida', é melhor correr: sua picada pode ser mortal. As escamas pontudas e os olhos enormes ajudam a serpente de 70 centímetros a ficar assustadora. Ela vive em florestas africanas.
A serpente, conforme O Dicionário de Símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, é à parte, tanto quanto o homem, das demais espécies animais. Só que ao contrário.
“Se o homem está situado no final de um longo processo genético, também será preciso situar essa criatura fria, sem patas, sem pêlos, sem plumas, no início desse mesmo esforço. Nesse sentido, Homem e Serpente são opostos, complementares, Rivais.” (idem, 814, grifo do autor)
Flóra Borsi
A serpente é um símbolo fálico relacionado sobremaneira com o feminino. “Ela brinca com os sexos como com os opostos; é fêmea e macho; gêmea em si mesma, como tantos deuses criadores que em suas primeiras representações sempre aparecem como serpentes cósmicas. (idem, 815, grifo do autor). E o autor continua: “Mencionamos a ambivalência sexual da serpente. Essa se traduz, sob esse aspecto do seu simbolismo, pelo fato de ser ao mesmo tempo matriz e falo” (idem, 822).
A sinuosidade da dança lhe pertence.
A adivinhação, em suas duas acepções, dionisíaca (êxtases) e apolínea (interpretações dos sinais) são características da Serpente. (idem, 820)
Para os Iorubá, a Serpente é Oxumaré, aquele que une o que está acima ao que está abaixo, que surge depois das chuvas e envolve o mundo; ele refresca o palácio de Xangô com as águas cá da Terra, num processo diverso daquele pluvial. “O arco-íris é uma serpente que mata a sede no mar”. (idem, 817)
Ainda que tenha sido demonizada pelo Cristianismo, a serpente possui ainda seu lugar simbólico ambivalente no Antigo Testamento: em Números 21, 8-9, Deus ordena a Moisés:
“’Faze para ti uma cobra ardente e coloca-a numa haste de sinal. E terá de acontecer que, quando alguém for mordido, então deve olhar para ela e assim terá de ficar vivo.’ Moisés fez imediatamente uma serpente de cobre e a colocou numa haste de sinal; e acontecia que, quando alguma serpente mordia um homem e ele fitava os olhos na serpente de cobre, então ficava vivo.”
Contudo, a forma da serpente mais conhecida é a do Gênesis (3,1): “A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado.” No mesmo capítulo, versículo 14, Deus a amaldiçoa: “Porque fizeste isso [convencer a mulher a comer do fruto proibido], serás maldita entre todos os animais e feras dos campos; andarás de rastos sobre o teu ventre e comerás o pó todos os dias de tua vida.” E no Apocalipse (12, 9): “Foi então precipitado o grande Dragão, a primitiva Serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Foi precipitado na terra, e com ele os seus anjos.” (grifo nosso). Percebamos que no primeiro e no último livro da Bíblia o simbolismo é evidente. E que o Grande Dragão partilha do simbolismo ctônico da primitiva serpente.
A Morte
Dragons Tarot
São Jorge enfrenta o Dragão
E nesse contexto maniqueísta outras manifestações se apresentam: São Miguel, São Jorge. O Mal subjugado pelo Bem.
Mas, o dicionário de símbolos postula:
Apesar de séculos de ensinamento oficial obstinado em mutilar a sua polivalência, veremos que a serpente permanece senhor da dialética vital, o ancestral mítico, o herói civilizador, o dom-juam mestre das mulheres e, assim o pai de todos os heróis e profetas que, como Dioniso, surgem num momento determinado da história para regenerar a humanidade. (Opus cit, 822)
Renegar a vida original e a serpente que a encarna equivale a renegar todos os valores noturnos de que ela participa e que constituem o limo do espírito. (idem, 824-25)
A Serpente
Baralho Wicca
No Baralho Wicca, Sally Morningstar (MORNINGSTAR: 2008, 90) propõe para a serpente os significados de regeneração, energia criativa em apogeu, intimidade e sexualidade. A iconografia proposta é cristã por excelência: um casal ladeia uma macieira, onde uma serpente se enrola. Uma maçã pela metade está à frente.
Se tratando de Tarô, a Serpente não está representada nos Marselheses. Em nenhuma carta desses baralhos mostra-se evidente. Ainda que...
Temperança, Marselha Grimauld
São João com a Taça Envenenada, Alonso Cano.
O líquido que a Temperança verte serpenteia entre os vasos. Serpente aquosa que rege o tempo e o infinito contido no efêmero agora. Veneno e antídoto, como o milagre de João Evangelista. Mas essa é uma interpretação poética, não literal (que, inclusive, vai encontrar mais eco no Príncipe de Copas, como veremos).
Vamos encontrar a Serpente em suas “releituras e retificações”.
Eremita
Oswald Wirth Tarot
Na releitura de Oswald Wirth, a encontramos no Eremita – ele a empurra com o cajado; o Puro, o Virgem, que afasta o Mal que se aproxima.
À esquerda, Tarô de Papus (1909; publicado no Brasil pela editora Ícone);
à direita, Tarô de Oswald Wirth, 1966.
Na Roda da Fortuna, a Serpente representa os perigos do Abismo (algo bem próximo do que Papus propôs, alguns anos antes - confira a comparação acima) e, falando de Papus, a mandorla do Mundo torna-se Uroborus. Aqui, a circunferência vem completar o centro para sugerir, segundo Nicolau de Cuse, a própria ideia de Deus. (CHEVALIER & GHEERBRANT: 2009, 816)
No Waite-Smith, a serpente aparece em três Arcanos Maiores e em um Menor: Mago (o cinto), Enamorados (A Serpente Original), Roda da Fortuna (a Serpente Dragão Tífon. Surgida da ira, inveja e ciúme de Hera por ter Zeus gerado sozinho Athena) e Sete de Copas (saindo da taça).
A Morte
Thoth Tarot
O simbolismo da serpente é muito importante para Crowley. Tanto que, em seu baralho, ele a evoca vinte e três vezes. Nos Arcanos Maiores, no Mago ( á Água do cálice tem forma de serpente, há uma cobra enrolada no pé esquerdo e duas serpentes ladeiam o Caduceu que lhe encabeça), Imperador (são os ornatos de sua roupa), Hierofante (assim como no Mago, mas agora no pé direito da criança que ele tem em seu peito. Outra serpente ladeia sua cabeça, crivada por nove pregos), Enamorados (a Serpente está envolvendo o Ovo Órfico), Eremita (a mesma ideia do Ovo Órfico dos Amantes, e uma serpente de pé pronta para o ataque próxima à lâmpada), Luxúria (diversas serpentes saem do cálice, e a cauda da Besta também é uma serpente), Pendurado (Uma cobra se enrola em seu pé esquerdo, outra está enrolada abaixo de sua cabeça), Morte (envolvendo o peixe à esquerda), Diabo (no Cetro à frente), Torre (muito semelhante àquela encontrada na Luxúria, acima, à direita; No livro da Lei existe uma citação específica: No capítulo I, versículo 57, a deusa Nuit fala: “Invocai-me sob minhas estrelas! Amor é a lei, amor sob a vontade. Que os tolos não confundam o amor; pois existe amor e amor. Existe a pomba, e existe a serpente. Escolhei bem! Ele, meu profeta, escolheu, conhecendo a lei da fortaleza, e o grande mistério da Casa de Deus." [fonte]) Sol (envolvendo o monte à guisa de muro) Æon (na cabeça de Hórus Menino) Universo (nas mãos da Mulher).
Ás de Espadas
Thoth Tarot
Nos Menores, ele a evoca no Dois de Paus (a base afiada dos dorjes), Cinco, Seis e Sete de Paus (mesmo cetro d’O Diabo), Príncipe de Copas (saindo da Taça que ele observa), Ás e Três de Espadas (a empunhadura da Espada), Cinco de Espadas (Espada imediatamente à esquerda), Princesa de Espadas (Cabelos da Medusa no elmo) e o Dois de Ouros (a Serpente Coroada).
07. A Serpente
Petit Lenormand
Em contraposição à riqueza e complexidade simbólicas encontradas nos baralhos de Tarô, vemos a carta 07 do Petit Lenormand restrita em significação. Estamos diante de um baralho de inspiração cristã e, sendo assim, os aspectos positivos e luminosos relacionados à serpente são aqui suprimidos. Estamos diante de fofocas, intrigas, discussões vazias, inveja - sobretudo a inveja - e diversos outros aspectos condenáveis em outras pessoas. Pense em tudo aquilo que os outros fazem e que acaba por lhe incomodar. Encontramos a Serpente aí.
É a carta da amante, da alcoviteira, daquela (ou daquele) que perto é perigoso e longe, mais perigoso ainda. Devemos manter perto dos olhos e longe do alcance.
Seria a Serpente espelho?
Acho que se ela tivesse patas, seria as fendidas de um bode... expiatório.
Nem por isso, quero ela por perto.
Abraços a todos.






































