quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Das Serpentes.


Depois da blogagem sobre dragões, precisava complementar a análise iconográfica com suas contrapartes “reais”.  Quanto mais eu leio sobre a Serpente, mais a vejo imiscuída à ideia de Dragão; é muito complexo tentar separar onde um simbolismo termina e onde o outro começa. Paradoxalmente ao fato de termos encontrado quatro baralhos relativos somente a Dragões, não existe, ou pelo menos eu não encontrei, nenhum baralho dedicado exclusivamente às serpentes. Como símbolo, ela transcende a forma e se revela una enquanto múltipla.


Das relações entre Dragões e Serpentes.
Mais claro, impossível.

A serpente não apresenta, portanto, um arquétipo, mas um complexo de arquétipos ligado à noite fria, pegajosa e subterrânea das origens. 
(CHEVALIER E GHEERBRANT: 2009, 815)
Este é um dos casos em que se pode confiar nas aparências. Se você encontrar uma cobra da espécie 'Atheris hispida', é melhor correr: sua picada pode ser mortal. As escamas pontudas e os olhos enormes ajudam a serpente de 70 centímetros a ficar assustadora. Ela vive em florestas africanas. 

A serpente, conforme O Dicionário de Símbolos de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, é à parte, tanto quanto o homem, das demais espécies animais. Só que ao contrário
“Se o homem está situado no final de um longo processo genético, também será preciso situar essa criatura fria, sem patas, sem pêlos, sem plumas, no início desse mesmo esforço. Nesse sentido, Homem e Serpente são opostos, complementares, Rivais.” (idem, 814, grifo do autor)
Flóra Borsi

A serpente é um símbolo fálico relacionado sobremaneira com o feminino. “Ela brinca com os sexos como com os opostos; é fêmea e macho; gêmea em si mesma, como tantos deuses criadores que em suas primeiras representações sempre aparecem como serpentes cósmicas. (idem, 815, grifo do autor). E o autor continua: “Mencionamos a ambivalência sexual da serpente. Essa se traduz, sob esse aspecto do seu simbolismo, pelo fato de ser ao mesmo tempo matriz e falo” (idem, 822).
A sinuosidade da dança lhe pertence.




A adivinhação, em suas duas acepções, dionisíaca (êxtases) e apolínea (interpretações dos sinais) são características da Serpente. (idem, 820)


Para os Iorubá, a Serpente é Oxumaré, aquele que une o que está acima ao que está abaixo, que surge depois das chuvas e envolve o mundo; ele refresca o palácio de Xangô com as águas cá da Terra, num processo diverso daquele pluvial. “O arco-íris é uma serpente que mata a sede no mar”. (idem, 817)



Ainda que tenha sido demonizada pelo Cristianismo, a serpente possui ainda seu lugar simbólico ambivalente no Antigo Testamento: em Números 21, 8-9, Deus ordena a Moisés:
“’Faze para ti uma cobra ardente e coloca-a numa haste de sinal. E terá de acontecer que, quando alguém for mordido, então deve olhar para ela e assim terá de ficar vivo.’ Moisés fez imediatamente uma serpente de cobre e a colocou numa haste de sinal; e acontecia que, quando alguma serpente mordia um homem e ele fitava os olhos na serpente de cobre, então ficava vivo.”
Contudo, a forma da serpente mais conhecida é a do Gênesis (3,1): “A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado.” No mesmo capítulo, versículo 14, Deus a amaldiçoa: “Porque fizeste isso [convencer a mulher a comer do fruto proibido], serás maldita entre todos os animais e feras dos campos; andarás de rastos sobre o teu ventre e comerás o pó todos os dias de tua vida.” E no Apocalipse (12, 9): “Foi então precipitado o grande Dragão, a primitiva Serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Foi precipitado na terra, e com ele os seus anjos.” (grifo nosso). Percebamos que no primeiro e no último livro da Bíblia o simbolismo é evidente. E que o Grande Dragão partilha do simbolismo ctônico da primitiva serpente.

A Morte
Dragons Tarot
São Jorge enfrenta o Dragão

E nesse contexto maniqueísta outras manifestações se apresentam: São Miguel, São Jorge. O Mal subjugado pelo Bem. 
Mas, o dicionário de símbolos postula: 
Apesar de séculos de ensinamento oficial obstinado em mutilar a sua polivalência, veremos que a serpente permanece senhor da dialética vital, o ancestral mítico, o herói civilizador, o dom-juam mestre das mulheres e, assim o pai de todos os heróis e profetas que, como Dioniso, surgem num momento determinado da história para regenerar a humanidade. (Opus cit, 822)
Renegar a vida original e a serpente que a encarna equivale a renegar todos os valores noturnos de que ela participa e que constituem o limo do espírito. (idem, 824-25)


A Serpente
Baralho Wicca

No Baralho Wicca, Sally Morningstar (MORNINGSTAR: 2008, 90) propõe para a serpente os significados de regeneração, energia criativa em apogeu, intimidade e sexualidade. A iconografia proposta é cristã por excelência: um casal ladeia uma macieira, onde uma serpente se enrola. Uma maçã pela metade está à frente.
Se tratando de Tarô, a Serpente não está representada nos Marselheses. Em nenhuma carta desses baralhos mostra-se evidente. Ainda que...


Temperança, Marselha Grimauld
São João com a Taça Envenenada, Alonso Cano.

O líquido que a Temperança verte serpenteia entre os vasos. Serpente aquosa que rege o tempo e o infinito contido no efêmero agora. Veneno e antídoto, como o milagre de João Evangelista. Mas essa é uma interpretação poética, não literal (que, inclusive, vai encontrar mais eco no Príncipe de Copas, como veremos).
Vamos encontrar a Serpente em suas “releituras e retificações”. 

Eremita
Oswald Wirth Tarot

Na releitura de Oswald Wirth, a encontramos no Eremita – ele a empurra com o cajado; o Puro, o Virgem, que afasta o Mal que se aproxima. 

À esquerda, Tarô de Papus (1909; publicado no Brasil pela editora Ícone);
à direita, Tarô de Oswald Wirth, 1966.

Na Roda da Fortuna, a Serpente representa os perigos do Abismo (algo bem próximo do que Papus propôs, alguns anos antes - confira a comparação acima) e, falando de Papus, a mandorla do Mundo torna-se UroborusAqui, a circunferência vem completar o centro para sugerir, segundo Nicolau de Cuse, a própria ideia de Deus. (CHEVALIER & GHEERBRANT: 2009, 816)


No Waite-Smith, a serpente aparece em três Arcanos Maiores e em um Menor: Mago (o cinto), Enamorados (A Serpente Original), Roda da Fortuna (a Serpente Dragão Tífon. Surgida da ira, inveja e ciúme de Hera por ter Zeus gerado sozinho Athena) e Sete de Copas (saindo da taça).

A Morte
Thoth Tarot

O simbolismo da serpente é muito importante para Crowley. Tanto que, em seu baralho, ele a evoca vinte e três vezes. Nos Arcanos Maiores, no Mago ( á Água do cálice tem forma de serpente, há uma cobra enrolada no pé esquerdo e duas serpentes ladeiam o Caduceu que lhe encabeça), Imperador (são os ornatos de sua roupa), Hierofante (assim como no Mago, mas agora no pé direito da criança que ele tem em seu peito. Outra serpente ladeia sua cabeça, crivada por nove pregos), Enamorados (a Serpente está envolvendo o Ovo Órfico), Eremita (a mesma ideia do Ovo Órfico dos Amantes, e uma serpente de pé pronta para o ataque próxima à lâmpada), Luxúria (diversas serpentes saem do cálice, e a cauda da Besta também é uma serpente), Pendurado (Uma cobra se enrola em seu pé esquerdo, outra está enrolada abaixo de sua cabeça), Morte (envolvendo o peixe à esquerda), Diabo (no Cetro à frente), Torre (muito semelhante àquela encontrada na Luxúria, acima, à direita; No livro da Lei existe uma citação específica: No capítulo I, versículo 57, a deusa Nuit fala: “Invocai-me sob minhas estrelas! Amor é a lei, amor sob a vontade. Que os tolos não confundam o amor; pois existe amor e amor. Existe a pomba, e existe a serpente. Escolhei bem! Ele, meu profeta, escolheu, conhecendo a lei da fortaleza, e o grande mistério da Casa de Deus." [fonte])  Sol (envolvendo o monte à guisa de muro) Æon (na cabeça de Hórus Menino) Universo (nas mãos da Mulher).

Ás de Espadas
Thoth Tarot

Nos Menores, ele a evoca no Dois de Paus (a base afiada dos dorjes), CincoSeis e Sete de Paus (mesmo cetro d’O Diabo), Príncipe de Copas (saindo da Taça que ele observa), Ás e Três de Espadas (a empunhadura da Espada), Cinco de Espadas (Espada imediatamente à esquerda), Princesa de Espadas (Cabelos da Medusa no elmo) e o Dois de Ouros (a Serpente Coroada).

07. A Serpente
Petit Lenormand

Em contraposição à riqueza e complexidade simbólicas encontradas nos baralhos de Tarô, vemos a carta 07 do Petit Lenormand restrita em significação. Estamos diante de um baralho de inspiração cristã e, sendo assim, os aspectos positivos e luminosos relacionados à serpente são aqui suprimidos. Estamos diante de fofocas, intrigas, discussões vazias, inveja - sobretudo a inveja - e diversos outros aspectos condenáveis em outras pessoas. Pense em tudo aquilo que os outros fazem e que acaba por lhe incomodar. Encontramos a Serpente aí. 
É a carta da amante, da alcoviteira, daquela (ou daquele) que perto é perigoso e longe, mais perigoso ainda. Devemos manter perto dos olhos e longe do alcance.
Seria a Serpente espelho?
Acho que se ela tivesse patas, seria as fendidas de um bode... expiatório. 
Nem por isso, quero ela por perto. 
Abraços a todos.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Promoção Conversas Cartomânticas: Ganhe uma consulta com o Dragons Tarot

Imperatriz
Tiamat
Dragons Tarot

Olá pessoal. Ao ganhar meu baralho no sorteio, o pessoal da USGames Brasil sugeriu que eu ofertasse uma leitura para alguém. Eu iria oferecer uma Mandala Astrológica com o Ancient Italian, mas, pensando bem, resolvi outra coisa, que vai ser bem mais rico para o ganhador e para mim.

Sacerdotisa 
Kur
Dragons Tarot

Eu ofereço uma Cruz Celta com o Dragons Tarot. Assim, eu mergulho mais profundamente no simbolismo dessas lâminas enquanto disserto sobre o simbolismo das mesmas e as escolhas que nortearam a construção desse baralho pela Lo Scarabeo. Vamos mergulhar de cabeça na vivência desses dragões, e ver com mais vagar o que as possibilidades interpretativas desse baralho oferecem em termos de vivência.

Cavaleiro de Copas
Ambientação oriental
Dragons Tarot

Para participar, basta colocar seu nome e e-mail como comentário dessa postagem (não valerão comentários no Facebook). O sorteio será feito pelo random.org no dia 15 de novembro.

Abraços a todos.

domingo, 30 de outubro de 2011

Dos Dragões. Dragons Tarot, Lo Scarabeo.

Caixa ainda fechada. Fotografei antes de abrir *.*


Cartas devidamente dispostas.

Olá pessoal. Ganhei, em um sorteio da US Games Brasil, um Dragons Tarot. Engraçado que, ou, melhor dizendo, sincronicamente, tenho passado por algumas experiências com essa imagem, assim como de sua gêmea siamesa, a Serpente. Falaremos sobre essa última em breve.
Pesquisando para escrever essa postagem, percebi que, nem que eu a dividisse em dez partes, chegaria perto de esgotar o tema como ele se apresenta para o Tarô. Existem muitos baralhos que utilizam sua iconografia.

Louco
Dragon Tarot

A US Games desenvolveu, em 1995, o seu baralho de Dragões – o Dragon Tarot, produzido por  Peter Pracownik e Peter Donaldson. (atualização em 31 de outubro: a Bárbara Guerreiro me apresentou o Imperial Dragon, mesmos autores, mesma editora [e arte bem semelhante], publicado em 2010. Obrigado, Babi!)

Eremita
Tarô dos Dragões Celtas

D.J. Conway, famosa e profícua escritora de temas pagãos, desenvolveu, com a Lisa Hunt, a mesma autora do Fairy Tale Tarot #wishlist, o Tarô dos Dragões Celtas, em 2001.

Estrela
Dragons Tarot

Manfred Toraldo desenvolveu a versão da Lo Scarabeo em 2006, com arte de Severino Baraldi, a versão que eu ganhei.  
Cada baralho, evidentemente, possui sua especificidade e possuem trabalhos artísticos absolutamente diversos. Nosso foco, o Lo Scarabeo, é interessante sobretudo pela pesquisa que norteou a elaboração de sua estrutura. 
Os Arcanos Maiores representam, cada um, uma lenda associada aos Dragões:

Os Enamorados 
Sigurd
Dragons Tarot

Louco, o Caçador de Dragões. (Acho que o mais inesquecível Dragon Slayer que conheço está no filme Coração de Dragão.)
Mago, Merlin.
Sacerdotisa, Kur (Dracena mesopotâmica [informações em inglês])
Imperatriz, Tiamat (A Deusa, não o personagem de Caverna do Dragão!)
Imperador, Tepheus (flagelo dos deuses gregos [informações em inglês]).
Hierofante, Leviatã (o monstro mítico cristão, não o livro).
Carruagem, Lung, ou Long (Dragão Imperial Chinês)
Força, o Dragão Celta, adormecido sob o Tor (familiar para quem leu As Brumas de Avalon)
Eremita, o Guardião (talvez a forma mais conhecida de Dragões, aquele que preserva tesouros - semelhante à Smaug, de O Hobbit)
Roda, os Dragões Chineses. 
Justiça, o Flagelo de Beowulf (também familiar para quem viu o filme Beowulf ou leu Coisas Frágeis, de Neil Gaiman)
Enforcado, Uther Pendragon (Cá voltamos às Brumas de Avalon e às lendas arthurianas em geral [informações em inglês])
Morte, São Jorge, o Matador de Dragões.
Temperança, Hidra de Lerna.
Diabo, Apep, ou Apófis, a Serpente Dragão egípcia.
Torre, o Grande Dragão Bíblico (que será libertado por pouco tempo nos tempos do Julgamento. Apocalipse 12, 3 ss)
Estrelas, a constelação de Dragão (Draco).
Lua, Python, a Deusa Pítia antecessora de Apolo em Delfos.
Sol, Ladon, o guardião das maçãs das Hespérides.
Mundo, Ouroboros, a serpente-dragão que envolve o mundo.

Cavaleiro de Paus
Dragons Tarot

Foram elencados dragões historicamente atuantes no imaginário de quatro grupamentos diferentes, refletidos nos naipes: Extremo Oriente (Copas), Americanos (Ouros), Africanos (Paus) e Europeus (Espadas).  
Os Dragões, ao contrário das serpentes, são seres mitológicos. Há sim, um dragão de fato, que na verdade é um lagarto grande: o Dragão-de-Komodo, ou crocodilo-da-terra (Varanus komodoensis).


via GIPHY

Como disse anteriormente, o dragão, mítico, parte do padrão existencial dos répteis, sobretudo os ofídios. O dragão passa a ser então, um sonho, um senhor do reino onírico, do qual ele mesmo faz parte. 


Esboço: Dragão atacando um leão
Leonardo da Vinci


Leonardo Da Vinci, como podemos ver acima, desenhou seu dragão - e, levando-se em consideração o grau de realismo que Da Vinci buscava em suas obras, desenhar o mítico não deixa de ser sui generis - a partir de morcegos e répteis.
Os dragões, símbolos da China, são essencialmente ligados às artes marciais orientais, tendo sido explorados nos filmes de ação e luta em diversas ocasiões. 


Príncipe Zouko e o Dragão vermelho.


Entre todas as possibilidades a se apresentar, creio que a que melhor define a relação entre homens e mitos quando isso se aplica à artes marciais está representado em Avatar: The Last Airbender, Livro III: Fogo, episódio 13: os Mestres Dobradores de Fogo.


Aang e o Dragão Azul.


(aqui você tem o resumo, aqui você pode baixá-lo, e aqui você pode assistir a cena sobre a qual falo).
As artes marciais foram desenvolvidas através da observação dos animais e da relação entre seus movimentos e a eficácia de seus ataques. E, sendo o Dragão uma soma de diversas criaturas míticas, seria por excelência o professor, como no desenho.
Estou disposto a aprender com ele. Ou eles; estamos diante de setenta e oito possibilidades...
Abraços a todos.

sábado, 29 de outubro de 2011

(Dia do) (Simbolismo do) Livro.

26
Petit Lenormand

Olá pessoal. Vinte e nove de outubro, dia do Livro, um dos nossos parceiros mais inseparáveis na Arte. 

Conhecimento
Instant Ideas Tarot

Os livros são meios para um fim. Seja diversão, seja conhecimento, seja pesquisa, ele está ali, comunicando em páginas mudas, ainda que eloquentes. Para aqueles que não entendem seus códigos, um segredo; mas, ao contrário da linguagem falada, é mais fácil escrever que saber escrever com entonação, mais difícil ainda é ler na entonação do autor. Para além dos códigos/segredos próprios da escrita, temos uma comunicação mais sutil que se dá entre autor e leitor que leva-nos a perceber o que está ali, imiscuído entre as linhas, entrelinhas.
E, se Deus escreve certo por linhas tortas, ler Seu livro (seja ele qual for entre as opções que as religiões oferecem) é um desafio. Até que ponto ali é Deus escrevendo certo em suas linhas tortas, e até que ponto é ali o homem escrevendo torto em linhas que, dado o axioma, já eram previamente tortas?


A Sacerdotisa, Arcano II, já leu esse livro (e reitero que não sei qual das opções ela leu, escolheu e referenciou como d'Ele) e o conhece de cor. E não mais o lê: sua prévia leitura ficou marcada pela experiência e ela sobrevive, virgo inviolata, noite após noite contando-nos suas histórias por Mil e Uma Noites.

Sacerdotisa
Lover's Path

Eu sei que eu comecei a ler por causa da minha avó. Ela lia para mim uma história por noite, antes de eu dormir e dizia: "Você verá quando conseguir ler de carreirinha! Aí você vai ler o que quiser, sem precisar de mim!"

Sacerdotisa
Dream Enchantress 

Por isso, mais que segredo, eu relaciono o livro à ideia de independência. A leitura silenciosa foi uma das maiores conquistas da sociedade ocidental e, apesar de hoje não termos isso em mente com frequência, podemos ler o que quisermos - coisa que, há pouco mais, pouco menos de meio século, era, no mínimo, inviável. Seria nossa memória curta, a tecnologia célere ou o tempo evanescente demais?

Sacerdotisa
Lenormand Tarot

No Petit Lenormand, adicione-se aos significados de segredo e mistério as ideias de trabalho, estudos, ordenação, disciplina, rotina, aprendizagem. E, tá aí um motivo a mais para pensarmos na leitura: Mlle Lenormand, seja ela autora (ou não) dos manuais de cartomancia a ela creditados, foi na escrita desse livros que histórias começaram e se desenrolaram.
Escrevamos, leiamos ... que nossos diários, Livros das (nas) Sombras virem livros. Que nossas falas táteis sejam tateadas em outros contextos por outras mãos.
Como até hoje tateamos o Livro de um Deus em setenta e oito páginas... ou pelo menos me contaram assim.
Abraços a todos.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Tenho medo de jogar cartas... E agora?

A Glau, do blog Quitandoca, escreveu um post para as pessoas que tem medo de cozinha, que achei tão confortante e acalentador, que acabei inspirado para fazer o mesmo por aqui. Já falamos, previamente, sobre o começo da conversa com as cartas, mas focamo-nos nas conversas desejadas. E quanto se tem medo das cartas e do que elas podem oferecer?

"Jogar Tarô? eu? Imagine... Tenho medo dessas coisas!"

Que Cartomancia é um ato de magia, é quase consenso. Magia, nesse caso, é tomada na mesma acepção de Arte - trocentos conceitos, nenhum consenso sobre qual é o mais preciso e adequado, usamos o termo esperando a compreensão de quem o recebe, sem a menor certeza se o que dizemos é o que é ouvido (ou lido). Mas, se tomarmos os atos de magia como atos de Vontade, Cartomancia é, sim, um ato de magia. É a manifestação do desejo intrínseco do homem de perscrutar o futuro, no limite, o devir.
E isso dá medo.


Nove de Espadas
Waite-Smith Tarot
A realidade pode ser dura, mas a imaginação perversa é mais.

Evidente; ninguém quer antecipar, nem o maior dos ansiosos, uma situação difícil, ruim ou limitadora. Sofre-se várias vezes até o sofrimento final (quando a previsão se mostra, afinal, correta). Então, com o tempo, a gente aprende a não discutir. Não é um fatalismo, longe disso; mas, se está ali, para quê discutir? Está ali, eu sei que é verdade. Resta me adaptar e adequar ao melhor caminho, que minhas cartas apontam.
Primeiro medo: as cartas funcionam.
Segundo medo: as cartas funcionam! Paradoxal pensar nisso, mas existem ainda pessoas que temem justamente o fato das cartas funcionarem! Talvez, convencidos por Machado de Assis que o caminho é justamente o oposto daquele lido pela Cartomante, se surpreendam justamente pela eficácia do oráculo! Em qualquer outra profissão, o esperado é que as coisas funcionem como propõem-se que funcionem. Só nas mancias eu ainda vejo as pessoas buscando um atendimento só para terem certeza de que estavam certas em não acreditar em nada disso.
Como se, para a Cartomancia funcionar, fosse necessário acreditar em alguma coisa...
Terceiro medo: Sim, elas funcionam. Darei eu conta de entender o que elas querem dizer? Sim, dará. O mote as cartas não mentem jamais é real. E elas são tão sinceras que desmascararão qualquer um que se proponha a jogar sem se dedicar, sem apreender. Poderia eu falar sobre estudar, mas não é esse o caso. Sensibilidade não é como estudo. Estudo se cria. Quero saber sobre os nabos do Tibet? Google it. Eu não sabia, passo a saber. 
Isso não funciona quando falamos de sensibilidade. Sensibilidade se desenvolve. 
Então, você pode estudar a relação entre as cartas, e sim, você será um cartomante. Você pode se sensibilizar para o que elas representam, e sim, você será um cartomante. Mas é da união do estudo com a sensibilidade que nasce a segurança que afugenta o medo. Está ali na mesa, você vê, e você sabe; não é uma visão fugidia, é uma combinação de cartas que atrai sua atenção para passar uma determinada mensagem. Não tem que discutir, não tem que temer. É só falar. E funciona. Você entendeu o que elas quiseram lhe dizer, naquele contexto.
Partamos então para o contraponto. Zoe de Camaris, citada pelo Leo Chioda, diz, e eu assino embaixo: só na posição de consulente é que se sabe do poder do tarólogo. E é deles, dos consulentes, que parte o quarto medo. 
Ok, você já superou o fato das cartas funcionarem, e já consegue manter um diálogo com elas. E o medo do consulente? Medo aqui, em duas acepções: medo do consulente em relação à consulta (aquele mesmo medo que você já experimentou e já superou, então tem a compreensão de como ele funciona) e medo do Cartomante em relação ao seu cliente.
Esse talvez seja o medo mais fácil de perder, por isso mesmo aquele a que tende-se a se agarrar mais. Jogue. Muito.
Cartomante não é terapeuta, não é psicólogo, não é psiquiatra, não é médico, a menos que seja além de ser cartomante. Então, pasme: o consulente não veio para lhe ver. Ele veio para saber o que as cartas têm a dizer, e por isso veio lhe ver.
Você é o profissional que intermedia essa relação, não é muito importante. E, por isso, é importante: você é capaz de ler, mas são as cartas quem vão dizer o que você tem a dizer. Ninguém valoriza uma carta pelo escriba, mas sim pelo conteúdo - e do conteúdo procede o valor do escriba. E ninguém deveria valorizar uma consulta pelo cartomante, mas pelo que é dito. 
A Cartomancia apresenta o cartomante, não o contrário. Não sei para você, mas para mim isso é extremamente confortador. Você não é o consolo, você não é o apoio, você não é o conselho. As cartas são, e você só as interpreta. Partem delas as informações precisas que você deve repassar.
E é por isso que deve-se jogar muito, para perder o medo. Cada consulente é um, cada consulente vem de um jeito, busca informações de um jeito, apresenta-se de um jeito. Se focarmo-nos em como nós podemos auxiliar cada um deles, teríamos que nos utilizar de um universo de técnicas que não são fundamentais à nossa profissão. Nós temos um baralho - ou mais de um - e isso basta: confiemos no que ele(s) diz(em). Reitero: cartomante não é terapeuta, a menos que o seja.
Eu aprendi cartomancia desde pequeno, não sei muito bem sobre o medo das cartas, porque nunca tive; sei do medo do que se ouve, sei do medo do que se cria em fantasmas na mente que sequer possuem grilhões no mundo real (seja lá a amplitude que tenha o termo "real").
E esteja atento ao diálogo das cartas. Se elas estiverem falando claramente, ótimo. Se não, pense se não é você que está precisando limpar os ouvidos e treinar mais... para perder o medo.
Abraços a todos.

sábado, 22 de outubro de 2011

Falando em videogames... 8-bit Tarot.


Olá pessoal. Depois da postagem anterior, onde apresentei duas imagens dialogantes – pelo menos para mim, o que não é grande coisa; eu vejo Tarot em tudo! – eu decidi apresentar para vocês o 8-bit Tarot, um projeto ousado e que eu, particularmente, acho lindo. 
Quando eu digo que vejo Tarot em tudo, eu realmente não estou brincando. Músicas, textos, imagens (sempre imagens!), danças, comidas, bebidas. Tarot é meu cotidiano. E se eu sou gamer, por que não jogos, se o Tarot, antes de ser qualquer coisa, não passa de um jogo? 

Sonic the Hedgeog
SEGA Master System

E, falando em jogos, minha infância foi videogame. Amo até hoje, apesar de ter ficado nos 32 bits (no máximo; tem jogos que eu não consigo entender a mecânica participativa do jogador!). Ainda assim, minha paixão são os jogos dos games de 8 e 16 bits, dos videogames NES (8 bits), Super NES (16 bits) (Nintendo) e Master System (8 bits) e Mega Drive/Genesis (16 bits) (SEGA).
Diante dos jogos de hoje, é praticamente impossível pensar em jogos que você comandava o personagem com um ou dois botões mais o direcional. Mas é tão divertido... Pode ser preciosismo de minha parte; mas eu me divirto bem mais.
E pelo jeito eu não sou o único... 


O 8-bit Tarot é um baralho inspirado no Rider Waite, em que cada carta foi redesenhada  por Índigo Kelleigh na resolução de 88 x 152 pixels utilizando apenas as cores padrão da paleta de cores Mac OS 8 bit (acima). A técnica, e até mesmo o grafismo, remetem imediatamente à ideia dos jogos do NES – como Mario Bros. É precioso!

A caixa, com tampa, contém um baralho de 5,8 x 8,9 cm 
e uma carta adicional descrevendo o projeto.

Esse poster mostra todas as cartas (que são visíveis individualmente no site do autor)...


E aqui temos o(s) Mago(s). Juro que meus olhos brilham enquanto eu escrevo...

À esquerda: Waite-Smith; à direita: 8-bit.


O autor, Índigo Kelleigh (Indy) vive em Portland, OR. Trabalha essencialmente com desenhos feitos à mão, incorporando elementos digitais aos trabalhos. 


Sua ilustração remete-se, mesmo nos momentos mais sombrios, ao cartoon. Seus trabalhos coloridos são criados digitalmente com o auxílio do Photoshop, Illustrator ou Painter. É familiarizado com técnicas vitorianas de design e impressão. E parece ser um cara bem bacana (para criar um Tarot desses..!)
Para entrar em contato com ele, acesse o Lunar Bistro ou mande um email para indigo@lunarbistro.com.