domingo, 26 de agosto de 2012

Do poder das palavras.




Olá pessoal. Eu sempre me ative, aqui no Conversas Cartomânticas, às questões prementes à imagem. Cartomancia é imagem, é interpretação de imagens. É observação e educação do olhar ao que as imagens trazem.
Mas há que ser dito algo sobre a palavra. Porque, se bem refletirmos, de nada adianta uma imagem que não é entendida. Que não se faz inteligível. E, para entendermos e conversarmos sobre a imagem, demandamos... palavras. Aquelas mesmo que diz-se terem poder (para além do poder que de fato tem).
Senão, by the way, eu não teria um blog. Talvez um fotoblog. E ele falaria por si só. Mínimo esforço, máximo efeito.
Só que conversar, a proposta principal desse blog, demanda palavras. Várias. Vocabulário vasto ao gosto do freguês conversador. Só por isso já se justificaria falar sobre palavras. Mas aplicadas ao cotidiano do cartomante, ainda há o que dizer.
O conceito de uma carta se dá por alguns agrupamentos específicos que, combinados, e aplicados ao momento da consulta, geram efeitos, o que costumeiramente dá-se o nome de interpretação. Tão singulares que, ainda que sejam as mesmas imagens há séculos, de acordo com o oráculo utilizado, ainda se mantém contemporâneas – embora paradoxalmente vintage.
O primeiro agrupamento, e mais importante, é o das imagens. Delas haurimos o principal referencial interpretativo. Leonardo Da Vinci se vangloriava, com razão, de em uma tela colocar o que um poeta demandaria páginas e páginas para descrever. Observar uma tela do Bosch faz chegarmos à mesma conclusão. Uma imagem é captada com uma riqueza de detalhes simultâneos que chega a assustar... ou encantar. 
Há os números. Ordenam a série. São significáveis e interpretáveis. Mas, por alguma razão, suas ideias não são compartilhadas com unanimidade. Existem discrepâncias. E explicações que minimizam as discrepâncias. Mas elas ainda estão ali, e não tocaremos nelas por enquanto, e não esperamos consenso em momento algum quanto ao tema.
E existem os nomes. Ao contrário das imagens, que são universais – você pode até não entender o que significa uma imagem, mas esforçar-se-á para atribuir-lhe um significado – os nomes são oriundos de um idioma específico, que nem sempre é o que você possui (como as Runas, por exemplo, um alfabeto oráculo, ou o alfabeto hebraico, muito utilizado em algumas escolas de Tarologia). Mas ainda assim os idiomas são específicos em sua descrição. Uma cadeira não é uma carteira, a chair is not a hair. Rimam, mas não coadunam. São diferentes, são específicos. Ainda que sinônimos sejam de uma utilidade tremenda, quanto mais se conhece da linguagem, menos os usamos. Uma coisa é uma coisa, e não outra coisa que soaria como se fosse à primeira vista.
E, principalmente, os nomes são mnemônicos. A partir do nome, rememoramos a imagem. Se eu digo Monalisa, o quadro lhe virá à mente, instantaneamente. Você pode não ser capaz de descrevê-lo minuciosamente, mas saberá que não é, por exemplo, uma Madonna. A menos, claro que não o conheça; serei obrigado a descrevê-lo para continuarmos conversando. (By the way, já conversamos sobre a Monalisa aqui
Da mesma forma, se eu digo Mago, o Arcano I, com todos os atributos que você conhece, será lembrado com riqueza de detalhes. Se não os conhece, eu terei que fazer o trabalho dos livros de Tarô e dos professores da Arte – descrever suas minúcias e perspectivas interpretativas.
Para isso, as palavras são fundamentais. Evidente. E eu preciso, se quiser uma interpretação precisa, ser preciso. Três vezes “preciso” na mesma frase, três significados diferentes para uma mesma cacofonia. Sinônimos, por favor.
Por isso os livros de Tarô, e por isso não existe uma obra definitiva. Cada autor, a partir do mesmo conceito imagem + titulo + numeração irá fazer suas referências, tecer seus sinônimos, construir sua linha de raciocínio que busca uma coesão com o todo. Quando o Mago sair na jogada, ele será único. Não poderá ser confundido com o Diabo. Ainda que dialoguem (ambos de pé, ambos em suas respectivas tarefas). Nem com o Sol, ainda que 1; 19 = 1 + 9 = 10 = 1 + 0 = 1. 
Até mesmo nessa unicidade há o que dizer. Mesmo que saia duas, três, quatro vezes em uma mesma consulta, o Arcano acresce, não repete. Que palavras mais podem representar a mesma imagem em situação diversa, porém dialogante?
 Ler muito é fundamental nessa hora (e em todas as demais). Cada autor buscará descrever, a partir de sua vivência, experiência, estudos e vocabulário, aquilo que experimentou no trato com cada uma das cartas. E é do crescimento do nosso próprio vocabulário a partir dessa leitura é que seremos capazes de entender o que o Arcano quer dizer.
Espera-se, portanto, um mínimo domínio da linguagem para assim proceder. Ler Tarô é uma arte interpretativa. Não sei a que nível alçar escrever sobre Tarô. Um pouquinho mais alto, talvez. Porque para me levar a ver aquilo a que desejo Ver, o vocabulário tem que ser amplo, ainda que preciso. 
Parafraseando Gertrude Stein, uma rosa é uma rosa é uma rosa, mas não é Universo (Arcano XXI), nem Ramalhete (carta 09).
Deixemos de tautologia... E estudemos um pouco mais.
Palavras tem poder. Específico e intransferível.
Abraços a todos.


Não se esqueça: Estarei, entre os dias 6 e 7 de outubro, no Rio de Janeiro oferecendo um curso presencial de Petit Lenormand para o cotidiano. Vale a pena. E, caso goste do que lê por aqui, adquira o livro Conversas Cartomânticas: Da escolha do baralho ao encerramento da consulta

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Curso presencial no Rio de Janeiro: Petit Lenormand para o cotidiano


Para quem tiver a oportunidade no Rio de Janeiro, estarei no espaço Tribbo Consciência nos dias 6 e 7 de outubro oferecendo o curso Petit Lenormand para o cotidiano.

Ementa: O Petit Lenormand é um oráculo formado por trinta e seis cartas numeradas, com correspondência no baralho comum (Ás, seis a dez, Valete, Dama, Rei dos quatro naipes), dotado de uma imagem simbólica e, por vezes, de um poema. A partir dele, no Brasil, desenvolveu-se uma escola de interpretação e até mesmo imagens próprias que deram origem ao assim chamado Baralho Cigano.
Neste workshop o participante aprenderá a utilizar as cartas do Petit Lenormand com fins divinatórios. Serão traçados os caminhos históricos de desenvolvimento do baralho, as interpretações de cada uma das cartas, abordando a imagem, o naipe, sua numeração e seu poema, conforme a interpretação na Europa e no Brasil; também a Mesa Real, jogada ampla e precisa que utiliza todas as cartas do baralho; jogos menores de pergunta e resposta.
O curso tem a duração de 20 h/a divididas em dois módulos. O primeiro, teórico, aonde são apresentados em detalhes os significados concernentes a cada lâmina; o segundo, prático, onde se aplicarão os conceitos oriundos da primeira parte.
Emanuel J Santos é cartomante hereditário, historiador e técnico em conservação e restauro de bens culturais. Escritor independente, responsável pelo blog Conversas Cartomânticas. Trabalha com Petit Lenormand desde 2002, e pesquisa o caminho que essas cartas percorreram simbolicamente entre Europa e Brasil, sempre dentro do contexto da Cartomancia.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Livro Conversas Cartomânticas: da escolha do baralho ao encerramento da consulta


Olá pessoal. O que era só uma perspectiva três anos atrás, tornou-se uma realidade: o Conversas Cartomânticas virou livro!
Com o melhor publicado nesse tempo, organizado de forma a termos todo o processo de aquisição do baralho até o encerramento da consulta. As experiências, comentários, diálogos, a teoria e a prática da Cartomancia, conforme conversamos por aqui.
O livro pode ser adquirido em e-book ou em edição impressa.  Para adquiri-lo, clique no link abaixo:


Compre aqui o livro 'Conversas Cartomânticas'

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Carlos Ruas e Lenormand


Seguindo com nossa linha de interpretar textos e imagens à luz das cartas, vi essa tirinha do Carlos Ruas (903 - Sinceridades) e não tive como não postar.
Interpretação literal ou sugestiva? 
Abraços a todos.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Napoleão, cartomancia e estudos cartomânticos



Quinze de agosto de 1769. Nascia nessa data o Imperador Napoleão Bonaparte (Napoleone di Buonaparte, como córsego que era, filho de pais de ascendência nobre italiana). Lider político e militar do final da Revolução Francesa, sendo responsável por estabelecer a hegemonia francesa em diversos países europeus e sendo influente inclusive na história do Brasil - sua invasão a Portugal gerou a vinda da Família Real para o Rio de Janeiro em 1808, que mudou radicalmente os rumos da história do país. Não sei se teríamos os eventos posteriores relativos à independência e à proclamação da República com eficácia sem a presença da nobreza por aqui.
O curioso é que Napoleão, conforme consta, gostava de ter seu futuro lido, assim como sua primeira esposa, Josephine.
E sua leitora era nada mais, nada menos que Mlle. Lenormand.


São creditadas a Mlle Lenormand duas obras relativas a Napoleão: Um estudo quiromântico sobre a mão direita do imperador e o mais conhecido, o baralho com o qual consta que a sibila o atendia: Petit Lenormand. 

A obra quirofisiognômica é póstuma, dificultando corroborar sua autenticidade; no caso da segunda, sabemos ser impossível, já que o baralho foi desenvolvido muito tempo depois de Mlle Lenormand ter construído sua fama. É muito mais adequado ao período que Mlle Lenormand utilizasse um Petit Etteilla, ou mesmo a Cartomancia tradicional francesa, na qual Etteilla se baseou para construir seu método de leitura.


Mas hoje, tomaremos o Imperador como personagem da Cartomancia. Uma forma lúdica de apreendermos conceitos aplicáveis à prática.
...E se Napoleão fosse uma carta? E se o tomássemos por uma imagem arquetípica?


No Tarô, evidentemente, seria o Imperador. Podemos, inclusive, comparar uma obra de David a uma obra de Pamela Smith, pela similitude dos atributos utilizados na elaboração das respectivas imagens. E não poderia deixar de fora o Imperador do Lenormand Tarot.


No Petit Lenormand, seria o Cavaleiro. Rápido, sagaz, realizador, veloz, com pouca experiência na espera. Quem o venceu, de fato, não foram homens; foi o inverno russo... que ele não soube esperar passar.

Clique para ampliar

No Sibilla della Zingara, algumas cartas poderiam ser encadeadas em uma biografia imagética. Concentramo-nos no fim de sua vida, nesse caso.


Fica aqui a experiência de um exercício muito divertido, do qual experiências muito ricas emergem: tente contar uma história com as cartas. Busque não só significados, mas encadeamentos. Como poderiam ser lidos nas cartas os fatos já consumados? Como poderiam ter sido evitados? Na verdade, poderiam ter sido evitados? Se houveram atrasos e erros de percurso, como poderíamos adiantar os eventos? Qual teria sido o melhor caminho?
Conversaremos mais sobre isso adiante. 
Abraços a todos.

sábado, 4 de agosto de 2012

Biografia ou: da relação inversamente proporcional entre glamour e competência.

Olá pessoal. Vi, esses dias, no oceano de postagens do Facebook, uma pequena troça com alguns cartomantes com biografia semelhante à minha: Jogo Tarot desde os 13... e não tive professor de Tarot. Aprendi por aí com o mundo (Tum Dum Tss). O tom jocoso de uma frase como essa merece uma reflexão maior sobre o status do ensino-aprendizagem do Tarô no Brasil. Ainda temos alguns preconceitos e até mesmo um certo glamour no autodidatismo ou na hereditariedade que não são, no limite, interessantes para o crescimento e desenvolvimento da profissão.

Roda da Fortuna
Tarô das Bruxas (Ellen Cannon Reed)

A hereditariedade é, ainda hoje, um status desejado. Todos nós desejamos deixar nossa marca no mundo - alguns, destruindo, outros, construindo. Essa marca normalmente é deixada pela tarefa que desempenhamos, na maior parte das vezes profissionalmente. Em outras épocas, o ofício era tão importante que virava sobrenome: Taylor, Schumacher... Ainda que Elisabeth fosse uma atriz e Michael um piloto de Fórmula 1. Tradições se mantém ainda que não tenham mais o sentido original. 
E é aí que está. Nem sempre o que queremos passar encontra eco na alma daqueles que vem depois de nós, e não adianta dizer que filho de peixe, peixinho é porque nem sempre o mote funciona. A sociedade contemporânea ocidental carece de valores sólidos, por um lado, porque lutou pela sua liberdade de escolha e expressão, por outro. Toda ação gera uma reação.
E o oposto também é verdadeiro. Nem sempre o que queremos manter honra os nossos antepassados, ainda que tenha sido vivido por eles. Ninguém quer que seus sucessores tenham uma vida tão ou mais difícil que a que viveu. Buscam-se outras escolhas para os que vierem depois. 
E aí correlacionamos tudo isso com Cartomancia. Entre aqueles que pertencem e simpatizam com o meio, ser Cartomante hereditário soa como algo pomposo, glamouroso. Acreditem no que digo: não é. Você aprender com um parente é maravilhoso, sinceramente. Mas não acrescenta nem diminui nada na carga de estudos que temos que manter, ou no desenvolvimento das faculdades de leitura, notadamente a intuição. Essas coisas não vem por herança pura e simplesmente - habilidades tem que ser desenvolvidas, senão atrofiam. E isso é um esforço diário do estudante, não do mestre.
Eu aprendi Cartomancia com a minha avó. Mas engana-se quem acha que ela era uma Feiticeira-reencarnada-depois-de-anos-sendo-queimada-vida-após-vida-pela-Inquisição. Minha avó era uma mulher comum, com casa para arrumar, animais para cuidar, rosas (suas flores favoritas) e outras plantas para regar, ou seja, tinha bem mais o que fazer do que ficar explicando por horas a fio as possíveis combinações entre as cartas. Ela me ensinou o básico e disse: TREINE. 
Estou treinando até hoje. 


E, aproveitando o link, tem outro título por demais glamouroso, para além do que merece. Autodidata. Acho fantástico quem aprende um instrumento musical sozinho. Violão, quer coisa mais linda? Aprender sozinho é excelente em alguns aspectos. Você dá sentido a cada passo a partir da sua própria experiência. Por outro lado, o risco de desistir é muito grande, no meio do caminho, por não saber qual é o próximo passo. Existe também o risco de se contentar com pouco. Com aquilo que conseguiu sozinho, ainda que frente à necessidade sua conquista seja algo incipiente.
Eu sou tarólogo autodidata. Aprendi a lidar com os setenta e oito arcanos sozinho. Sozinho não; com os feedbacks de diversos clientes nesses onze anos de prática. Olha a palavrinha aí de novo: prática. Acrescente a ela muito estudo. Mas muito mesmo.
Não sou autodidata por opção. Não tem nada de glamouroso nisso. Eu sou autodidata porque não tinha dinheiro para comprar um baralho, que dirá para pagar um professor! Eu tinha quinze anos e não trabalhava, como aprender? Se eu não me virasse, jamais aprenderia qualquer coisa.
Comprei um baralho de segunda mão. Era um Jean Payen com os Arcanos Menores de outra edição marselhesa. Vinha com uma revista, que é boa, por incrível que pareça. Os textos são de fato muito bons. E dá-lhe estudar. E jogar. Na Biblioteca Pública encontrei mais alguns livros, mas eram sobre o Waite-Smith. Perae, mas o Sol não tem dois menininhos? Daonde apareceu esse cavalo? Cadê o outro menininho? Será que isso muda o significado? Será que esse livro serve para eu estudar? Será que funciona?
E assim eu estudei Tarot por uns bons três anos, entre atendimentos e literatura escassa. Hoje temos a Priscilla Lhacer para trazer com grande facilidade baralhos importados e raros para nós. Mas antes, devíamos nos contentar com as poucas edições que encontrávamos por aqui. Notadamente, do Tarô de Marselha e outros ligados à Escola Francesa.
E, claro, o Tarô Mitológico. Um baralho que fez escola no Brasil. Muitos de nós que começamos na década de noventa do século passado devemos a esta obra o estudo dos Arcanos Menores. Ainda bem.
Eu agradeço, enormemente, àqueles que confiaram em mim e inclusive me presentearam com baralhos e livros que eu não poderia ter obtido nessa época. Sem esse carinho, seria impossível que eu estudasse. Não por falta de vontade; era falta de obras, mesmo. 
Por outro lado, isso levou esse que vos fala a praticar muito. Olhar o Marseille Grimaud com olhos de primeira vez, sempre. Cada cor, cada forma, eram dissecadas ponto a ponto para que aquilo que o livro dizia fizesse sentido. Organizações das cartas estudadas à exaustão. Não haviam hierofanias ou desciam anjos para me contar segredos das cartas. Era só um olhar, e olhar era tudo.
Hoje, dado o esforço, dado o empenho, eu conheço minhas cartas o suficiente para saber que uma vida é pouco para conhecê-las. Eu não me ative ao posto de autodidata como um título, mas sim como um desafio. Creio que é assim que esse título deveria ser visto; não como um fim, mas como um meio, um caminho. Mais complicado de se trilhar, claro, mas ainda assim muito proveitoso.



Abençoado seja o momento em que vivemos. Em que temos um catálogo de obras muito legal e acessível a todos - se não a obra nova, temos a Estante Virtual para adquirir livros que já estão fora de catálogo. Temos acesso a uma miríade de baralhos, nacionais e importados. Se hoje eu tenho um Ancient Italian, meu baralho do coração, é porque a Nath trouxe para mim. Agora, é possível pedir para a Priscilla com pronta-entrega e competência. Hoje temos eventos que unem as pessoas em torno do ensino-aprendizagem: acabei de vir da Confraria Brasileira de Tarot e a Pietra e o Edu já organizaram outro seminário, desta vez de Tarô para Tarólogos. Quem estiver em São Paulo não pode perder.
As possibilidades se ampliam. Cursos se multiplicam, tanto presenciais quanto virtuais, com professores renomados. Que, inclusive, possivelmente passaram pelas mesmas dificuldades/desafios que aponto aqui.
Aproveitem as oportunidades que se delineiam na profissão. E esqueçam pequenos arroubos egoicos que permeiam a arte. Já são por demais démodé para merecerem atenção.
Abraços a todos.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Dia dos avós. Cartomancia. E saudade.



Vinte e seis de julho, dia dos avós. Homenagem a Sant'Ana, mãe da Virgem. Aquela que foi capaz de acreditar até o fim na maternidade.
É curioso pensar no que é ser avô/avó na idade em que estou. Um quarto de século, mais um - vinte e seis. Mas, frente às gravidezes cada vez mais prematuras, não é difícil imaginar um avô de trinta anos. Mas a imagem permanece sendo de alguém que já enfrentou um bocadinho de aventuras nessa vida... e sobreviveu para contar.
É difícil para mim, esse ano, comemorar essa data. Minha avó materna achou que o corpo dela estava démodé demais e resolveu trocar de roupagem. Não dá para dizer que não dói. É um buraco na vida da gente que a gente não é preparado para cavar. Ainda que seja a única certeza da vida, a gente sempre espera que não seja tão certo, assim.

Sacerdotisa
Marseille-Grimaud

No Tarot, a carta que mais se aproxima, entre os Arcanos Maiores, da experiência de ser avó é a Sacerdotisa. Curioso que ela é a Virgem; mas é uma virgindade que se obtém, também, depois da menopausa - um novo ciclo hormonal na vida da mulher que pede os mesmos cuidados que pós-menarca. E a sabedoria que ela possui é obtida também da observação - um de seus conceitos - e, para observar, há que se ter tido tempo para isso.

Rainha de Ouros
Marseille Grimaud

A Rainha de Ouros também tem muito de avó - ela já experimentou no corpo o que é o ditame do espírito, e sobreviveu para contar a história. Sentimentalismos não mais a comovem. Mesmo porque, ser avó é ser mãe já conhecendo o script. Não há mais surpresa nem susto, há um reconhecimento de que aquela semente é fruto da semente que ela teve a habilidade de criar.
Velha Senhora
Sibilla della Zingara

Já conhecendo o script, por que se estressar? Por que se preocupar tanto? Avó é conhecer os netos pela parte que lhes cabe, que é carinho e afeto. É ensinar coisas que vão ser tão anuviantes nos momentos de saudade, como barquinhos de papel com capota e jogos de paciência vários. É deixar os cinco sentidos atiçados com aquele cheiro de bolinho de chuva saindo do fogo, com direito a tapa na mão dos mais afoitos. 
É uma ternura sem tamanho, mesmo nos xingos. A gente sempre sobrevive ao xingo de mãe, mas dói o xingo de vó. Claro que existem as avós que não são lá flor que se cheire; cravo de defunto também não é para cheirar, mas ainda assim ornamente o jardim. Mesmo lá de longe, é vó.

Feliz dia das avós, àquelas que tiveram a sorte de ser. E feliz dia para aqueles que ainda podem curtir seus avós. Eu tô aqui tentando encher esse buraco, mas ele tá tão forrado de ternura pelo que eu vivi com a minha, por ela ter me tornado o homem que me tornei, por ela ter colocado um baralho na minha mão tão na hora certa, mesmo parecendo que não... Que acho que esse buraco só vai durar pelo resto da minha vida.
Obrigado, vó. Vivo com você para sempre, aninhada aqui no meu peito como eu costumava me aninhar no seu.
Abraços a todos. E aproveitem seus avós, porque a Morte não costuma aceitar reclamações e nem oferecer justificativas para os seus atos.



quarta-feira, 25 de julho de 2012

Do desespero de sair, das saudades de desafios.

Oito de Espadas
Waite-Smith
Repare que, embora amarrada e vendada,
a mulher ainda pode caminhar.

Eu sou fã de videogames, não faço segredo disso. Mas existem alguns jogos que são para matar de raiva. Esse jogo, "saia do quarto", é um deles. Como é em primeira pessoa, chega um momento em que nos sentimos, de fato, tolhidos em nosso ir e vir. Para um Carruagem, não ver o horizonte é tortura e tormento. Quando, contudo, vemos a bendita porta se abrir, todo o esforço e desespero anteriores somem, dando lugar à perspectiva de um novo desafio. E aí a gente pensa "poxa, até que foi divertido..."



Supere esse desafio. 
Abraços a todos.


sábado, 21 de julho de 2012

Dark Lady, The Queen of Fortune Tellers







The fortune queen of New Orleans
Was brushing her cat in her black limousine
On the back seat were scratches
From the marks of men her fortune she had won
Couldn't see through the tinted glass
She said, "Home James" and he hit the gas
I followed her to some darkened room
She took my money, she said, "I'll be with you soon"

Dark lady laughed and danced
And lit the candles one by one
Danced to her gypsy music
Till her brew was done
Dark lady played black magic
Till the clock struck on the twelve
She told me more about me
Than I knew myself

She dealt two cards, a queen and a three
And mumbled some words
That were so strange to me
Then she turned up a two-eyed jack
My eyes saw red but the card
Still stayed black
She said the man you love is secretly true
To someone else who is very close to you
My advice is that you leave this place
Never come back and forget you ever saw my face

Dark lady laughed and danced
And lit the candles one by one
Danced to her gypsy music
Till her brew was done
Dark lady played black magic
Till the clock struck on the twelve
She told me more about me
Than I knew myself

So I ran home and crawled in my bed
I couldn't sleep because of all the things she said
Then I remembered her strange perfume
And how I smelled it once in my own room
So I sneaked back and caught her with my man
Laughing and kissing till they saw the gun in my hand
The next thing I knew they were dead on the floor
Dark lady would never turn a card up anymore

Dark lady laughed and danced
And lit the candles one by one
Danced to her gypsy music
Till her brew was done
Dark lady played black magic
Till the clock struck on the twelve
She told me more about me
Than I knew myself

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Dia do Amigo, ou: tenha Conversas Cartomânticas com quem você gosta.

Sol (detalhe)
Tarô Lombardo

Essa postagem é um agradecimento. Obrigado a você, leitor, que acompanha o blog, comenta, questiona, concorda, não concorda, e em todos os âmbitos me ajuda a crescer.
Obrigado. Esse blog só tem razão de ser por ter você para conversar.
Abraços.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O Jardim da Fera e uma Rosa intempestiva: Ciro Marchetti e o Petit Lenormand


Olá pessoal. Estou deveras encantado pelo novo trabalho de Ciro Marchetti: Um Lenormand magnífico com a técnica e o cuidado que só ele sabe ter com as lâminas. E essa imagem me inspirou uma leitura diferente das que estava até então acostumado - o legal de conhecer novos olhares, novas iconografias, é que o nosso próprio caleidoscópio de interpretações ganha novas cores de vidro para os mesmos espelhos.

Ciro Marchetti e a redoma.

Conheci Ciro Marchetti pelo baralho adquirido pela Rhadra Calache (obrigado, querida!) e fiquei encantado. Não é um trabalho convencional;  Ciro Marchetti talvez seja o maior artista digital  dedicado ao Tarô na atualidade. Suas imagens são de natureza ímpar, com profundidades e transparências que nos levam a viagens diferenciadas na observação das mesmas imagens.
I've used Adobe Photoshop in my corporate work for a number of years, so I'm comfortable enough that it’s my software of choice, and allows me to pretty much reproduce most ideas and effects I wish.  While I have a reasonably clear idea of my illustrations from the onset, I nevertheless use the capacity of layers, and color modes constantly, making adjustments to composition, color and light.  This very often results in a different arrangement and mood to the one I originally planned.  Another important feature is texture; I very deliberately break up the computer clean surfaces of the images by painting through a selection of custom prepared textured alpha channels. This adds a controllable tactile surface quality to the imagery where appropriate; i.e. rusted metal, rough stone.
Sua trilogia Gilded, Dreams e Legacy of Divine Tarot são, além de obras-primas da criação tarológica, um caminho de observação, tanto do crescimento do autor na produção de seus baralhos mais recentes como também do acréscimo e retirada de elementos para clarificar as ideias próprias da lâmina. O processo criativo não respeita fronteiras e, quem, sinceramente, não terminou um desenho ou obra pensando "eu poderia ter feito melhor/diferente/mais um pouquinho aquele detalhe ali"?


Atualmente o próprio Gilged possui uma nova versão - Royale - facilmente obtida com a Priscilla Lhacer no Amor, o Próprio. Mas falemos sobre o Lenormand, que está ainda em processo de criação.


Fonte: Facebook do autor

Mais que conversarmos sobre os significados recorrentes dessa carta, conversemos sobre as ideias de Jardim e Redoma em dois contos franceses: La Belle et la Bête e Le Petit Prince.
Em a Bela e a Fera, a vida fica contida na rosa e na redoma, mesma redoma que continha o primeiro amor do Pequeno Príncipe. Acho que fica aqui uma dica que o que a redoma guarda é perecível. Pode se perder, por puro descuido. Mas, ao contrário de um broche ou anel, se você perder uma planta, ela de fato se foi.
Isso aponta, em contrapartida, para o cuidado constante que um jardim necessita. Não é de qualquer forma, não é de qualquer jeito que o jardim prospera. Mas, por um mero descuido, ele se desvanece nas próprias plantas que antes o embelezaram.
É curioso, também, perceber no processo o quanto nos envolvemos com o Jardim que criamos, que sobrevive a eventos vários. Parece que, ao cultivar, ao replantar, ao tirar mudas e ampliar horizontes, aquela vida multiplica-se em possibilidades antes oriundas de um único risco. Para quem assistiu A Orfã, um filme extremamente tenso e revoltante, mas por isso mesmo recomendadíssimo, a visão de um ramalhete pode ser odiosa. Mas deixemos Ramalhetes para outras postagens.
Voltando à Bela e à Fera, a história corre em torno de um roubo em um Jardim. Ao invés de joias e brocados, Bela, a mais jovem filha de um mercador, pede-lhe somente uma rosa. Após ser cuidado em todas as suas necessidades, o mercador, ao partir do castelo da Fera, sem desconfiar do que pode acontecer a partir de seu ato. Aquela rosa valia mais para o senhor do castelo que todas as suas riquezas.


Quatro de Copas
Tarô Mitológico


É curioso, para àqueles que utilizam o Tarô Mitológico, reparar como esse conto aparentemente bebeu nas fontes de Eros e Psiquê. Bela vai à sua casa ver seus parentes e é seduzida pela língua bífida de suas irmãs - dizem uma coisa, apontando para outra.
E eu fico pensando aonde está, de fato, a beleza. Na efemeridade de uma flor, ou na eternidade de um diamante.




E em efemeridades e eternidades, o Pequeno Príncipe chora por saber que sua Rosa, tão una, é encontrada em profusão e turbilhão num Jardim. 

Mas aconteceu que o pequeno príncipe, tendo andado muito tempo pelas areias, pelas rochas e pela neve, descobriu, enfim, uma estrada. E as estradas vão todas em direção aos homens.
- Bom dia! - disse ele.
Era um jardim cheio de rosas.
- Bom dia! - disseram as rosas.
Ele as contemplou. Eram todas iguais à sua flor.
- Quem sois? - perguntou ele espantado.
- Somos as rosas - responderam elas.
- Ah! - exclamou o principezinho...
E ele se sentiu profundamente infeliz. Sua flor lhe havia dito que ele era a única de sua espécie em todo o Universo. E eis que havia cinco mil, iguaizinhas, num só jardim!
"Ela teria se envergonhado", pensou ele, "se visse isto... Começaria a tossir, simularia morrer, para escapar ao ridículo. E eu seria obrigado a fingir que cuidava dela; porque senão, só para me humilhar, ela seria bem capaz de morrer de verdade..."
Depois, refletiu ainda: "Eu me julgava rico por ter uma flor única, e possuo apenas uma rosa comum. Uma rosa e três vulcões que não passam do meu joelho, estando um, talvez, extinto para sempre. Isso não faz de mim um príncipe muito poderoso..."
E, deitado na relva, ele chorou.



Ela não é única, ainda que seja a única importante. Foi o tempo dedicado à Rosa que a fez tão importante. Aqui, vê-se que não é só o cuidado que o Jardim inspira que o faz uma carta tão especial: o tempo investido também, que é deliberadamente demorado. Os resultados não são imediatos. Mas são evidentes.
Em ambas as histórias, vemos o Jardim, a Redoma que o contém, sendo o limite entre a selvageria e a civilidade, entre o liberto e o contido, entre o amplo e o foco. O cuidado deliberado mantém a salvo a vida daquilo que a observa. Fora do Jardim do Éden, tudo é cardo e espinho, e a lembrança da antiga ordem rege o progresso da corrente.


Sigo aguardando, ansioso, pela publicação desse baralho.
Abraços a todos.

domingo, 15 de julho de 2012

Blogagem Coletiva Amor aos Pedaços: Da sutil arte de estar no centro.



Olá pessoal. Continuando nossa participação na blogagem coletiva, vamos hoje trabalhar o conceito de reintegração dentro da arte cartomântica.
Reaquisição, recuperação, restabelecimento. Reintegrar é devolver. E o que devolvemos na cartomancia?
O olhar condescendente com o passado, o olhar esperançoso com o futuro, a presença de espírito, agora, que garante um e outro através do entendimento.
Sabe o texto de ontem, sobre a Dor? Então. Vamos partindo dele. Sugiro que você ouça isso aqui enquanto lê.


Falemos de mandalas. Mandalas, Tarot e reintegração.






Segundo a Wikipédia

Mandala (मण्डल) é a palavra sânscrita que significa círculo, uma representação geométrica da dinâmica relação entre o homem e o cosmo. De fato, toda mandala é a exposição plástica e visual do retorno à unidade pela delimitação de um espaço sagrado e atualização de um tempo divino.
(...)
Em termos de artes plásticas, a mandala apresenta sempre grande profusão de cores e representa um objeto ou figura que ajuda na concentração para se atingir outros níveis de contemplação. Há toda uma simbologia envolvida e uma grande variedade de desenhos de acordo com a origem.
(...)
O processo de construção de uma mandala é uma forma de meditação constante. É um processo bastante lento, com movimentos meticulosos. O grande benefício para os que meditam a partir da mandala reside no fato de que a imaginaram mentalmente construída numa detalhada estrutura tridimensional.
No processo da construção de uma madala, a arte transforma-se numa cerimônia religiosa e a religião transforma-se em arte. Quando a mandala está terminada, apresenta-se como uma construção extremamente colorida. Depois do ciclo é desmanchada, a areia é depositada, geralmente, na água. Apenas uma parte é guardada e oferecida aos participantes.
Um monge inicia a destruição desenhando linhas circulares com seu dedo, depois espalham a areia e a colocam em uma urna. Quando a areia é toda recolhida, eles apagam as linhas que serviram de guia à construção e despejam a areia nas águas do rio.




Mandalas são centros meditativos profundos, são representações da eternidade do efêmero - termo que utilizo para me referir a situações inesquecíveis, porém de curta duração. Assim como as lembranças. Ativam de forma semelhante espaços diferentes. Lembranças levam-nos a lugares não esperados, não deliberados, mas que estavam ali. 
Como se você imprimisse e começasse a colorir uma dessas mandalas, agora. As cores todas já estão ali, esperando você a escolher.
Tá percebendo que eu estou variando o tempo verbal entre uma frase e outra? Sim, isso é deliberado. Porque um único tempo reúne essas duas ideias, e esse tempo é agora. Tempo de reintegrar o que passou e valeu a pena. Tempo de reintegrar ao mundo aquilo que já é real na imaginação. 
Tempo de deixar passar o que não tem mais valor. Aquilo que doeu. A dor é momentânea, o aprendizado é eterno. 
Pinte a mandala de sua vida de novas cores, começando por imprimir uma mandala dessas aqui. E lembre-se que, num universo como o nosso, o imutável... é a mutação.


Fortuna
Visconti-Sforza (USGames)


Ainda que tudo mude, você ainda é o centro de referência de sua vida. 
Reintegre-se ao centro, de onde nunca deveria ter saído, senão para conhecer.
Abraços a todos.


sábado, 14 de julho de 2012

Dor.

Três de Espadas
Waite Smith

Atenção: Sugiro que você ouça essa música aqui, durante a leitura.


Depois de visitar o desencantamento, à convite da Rute, eu fiquei pensando em toda a abrangência do termo. Embora eu tenha focado o despertar, percebi, ao ler o que os demais participantes escreveram, que eles foram a fundo naquilo que eu queria evitar, as dores emocionais, os relacionamentos que não deram certo. Não à toa, essa foi, sem dúvida, a Blogagem Coletiva mais difícil de que já participei. E, diante das participações e do que foi dito, escrevo um pouquinho mais, focando-me nos aspectos mais dolorosos do desencantamento. Esse é um texto sombrio, direto no queixo. Não leia se tiver um coração sensível e lentes cor-de-rosa. Eu não tenho nem um, nem outro. Perdi há um bom tempo, e se alguém encontrar, por favor... não me devolva.

Recentemente, eu fui picado por uma abelha. Na palma da mão direita. A despeito de todo o simbolismo que isso venha a ter, nunca na minha vida eu senti uma dor tão intensa. Isso porque já fraturei o nariz duas vezes.
Um misto de surpresa, impacto, que move simultaneamente em direção à catatonia e ao berserk, um pulso elétrico que se movimenta pelos filamentos de todos os músculos e que se mostra incontrolável. E, quando você volta a si, percebe que tudo isso aconteceu em segundos.
Aí você grita.

Três de Espadas
Monalisa Tarot

Os dias passam. A memória da dor permanece como um parâmetro. Como pode doer tanto? Mas a dor física passa, pouco a pouco, devagar ela se dilui nas necessidades do dia-a-dia. Esse passar da dor pode decrescer, como no caso da picada de abelha, gradualmente; ou, como no caso de uma Lesão por Esforço Repetitivo, inversamente oposta. Com as dores crônicas, a gente se acostuma.
As dores surpreendentes são as que de fato doem.
E, nesse caso, as ditas dores de amor recebem o Oscar de melhor efeito especial. São sempre apoteóticas. Chamam a atenção. Afinal de contas, a "compaixão" aqui é vestido e capa de uma autocomplacência que deveria ser desnudada. 

Mas não. Uma coloca a anágua "ele não presta"; outra põe um godê guarda-chuva de "você encontrará alguém melhor". Outra vem e coloca um corpete de loja de artigos para maiores "como assim você, essa delícia, está chorando por ele?" Mais um, atraído pelo burburinho e encantado pela semivestida persona, veste-lhe uma blusa recém comprada de "gente, nunca tinha reparado na cor dos seus olhos... as lágrimas os deixaram mais bonitos". E, de peça em peça, num strip tease às avessas, um personagem é criado para sair às ruas mostrando sua vestimenta rica, paga com moedas de lágrimas. Mártir, sofredor, coitadinho. Dolorosamente merecedor da atenção de todos aqueles que, independentemente das próprias necessidades, estão ali para confortar (leia-se: deixam suas dores por serem feias demais para alguém as vestir. Tais dores permanecem nuas, mas presas no porão). Mas o personagem, a bela e sincera mocinha virginal, esqueceu a calcinha em casa. Um ventinho (algumas doses de uma bebida forte, uma música mais intensa, alguns olhares, um recadinho no MSN) e todo o paramento deixa de fazer sentido no flash de um paparazzi. Toda vestida de drama, mas não deixa de ser uma rameira.

Autocomp... Nazaré Tedesco.
Porque se escreve "boite" mas se fala "boate".
Ou buatchy. Vá saber.

Autocomplacência, rameira que faz o peito de qualquer um o bordel de mais alta classe. Ou não.
Colocar a autocomplacência amarrada ao pé da mesa não faz, ao contrário do que eu pensaria, com que qualquer evento doa menos. A dor é sempre dor. E, para piorar um pouco as coisas, dor não é parâmetro de comparação. O que você viveu/vive pouco ou nada interessa para quem vive, naquele instante, sua própria dor. É um consolo (leia-se: um uppercut na autocomplacência) saber que outras pessoas passaram por eventos diferentes, piores. Mas, por piores que sejam, não foram experimentados como reação química na carne que você veste. Você entende, mas não interage com nada aí dentro. Só faz sentido.

Ninguém passa por nada sem merecer, ainda que não entenda muito bem.
As Moiras (Parcas, Nornes) são atentas.
Elas tecem muito bem.
Três de Espadas
Tarô das Deusas

Então... Bora assumir a própria dor?
Não quero dizer que não existem momentos em que realmente precisamos de ajuda. Tem horas que só mantemos a sanidade porque tem alguém ali pronto para estender a mão. Tem horas que o desespero está quase se transformando em uma bala enterrada no meio da cabeça. Ninguém é plenamente autosuficiente para não precisar de colo de vez em quando.
Lembra que eu disse que dor não se mensura? Então. A sua dor nunca será vivenciada por esse conjunto de nervos que está aqui no meu corpo. A memória, não, eu não terei. Eu terei parâmetros. E talvez sejam justamente os meus parâmetros que te tragam um pouco de sanidade, diante de uma dor que você considera forte demais para aguentar.

Três de Espadas
Marseille Grimaud

Eu tenho uma abordagem do Três de Espadas um pouco dura (dá uma olhada no texto que eu escrevi para o Clube do Tarô). Saturno em Libra, conforme a atribuição da Golden Dawn. Não dá para ser por menos. O Ceifador olhando para os relacionamentos. O Do Golpe Certeiro relacionando-se com o signo das dúvidas e indecisões. Ah, e para constar, Ele anda exaltado por ali.
Se nos aplicarmos, juntos, as ideias do Três de Espadas para a questão dos relacionamentos,  o exercício aqui seria de se colocar em terceira pessoa, mesmo quando a dor for sua. Você está com a peça de roupa que corresponde à sua parte de autocomplacência pela dor alheia. Olhe de novo. Você ainda a quer vestir aquela peça? Se sim, vista de peito aberto sua dor, porque, como todo e qualquer sentimento, ela é passageira. Fica só o registro. 
Agora... se você é incapaz de enfrentar de peito aberto o motivo da sua dor... Se você só consegue "buscar conselhos" de amigos... Se você diz que ele não presta, mas ainda mantém contato com ele, dizendo que o ama... Se você o traiu, e traição aqui em amplo sentido - um pedido de não faça isso quebrado pode doer mais que relacionar-se com um batalhão de pessoas - e (ainda assim) se arrependeu...
Faz um favor para mim. Cale a sua boca. Agora.
Muito sofrimento pode ser evitado assim.
Se você é incapaz de conversar diretamente com quem lhe causa dor, é melhor não conversar movido pela paixão com ninguém mais. A gente costuma mudar de ideia quando a raiva dá lugar à razão. E arrependimento não é desculpa, é consequência de uma fala mal... dita.
Lave seu rosto. Olhe-se no espelho. Despido daquilo que considera ser real. Olhe de novo. E mais uma vez.
Agora sim. Dê um passo. Sem a mesquinharia de quem acha sua dor a maior do mundo, com a autocomplacência de quem se acha a maior vítima do destino. Todos sofremos por amor de vez em quando. A maior parte de nós sobrevive a isso. 
Lembre-se... Sua dor só é incomparável, mas jamais será a maior do mundo.
Doi ler isso? Sim, eu sei. Para escrever, doeu também. Dor é coisa que dá e passa. Como a de eu escrever e você ler. Saturno em Libra tem dessas coisas, ainda mais se representativo de uma carta como o Três de Espadas.
Voltamos a nossa programação normal, com postagens mais agradáveis.
Abraços a todos.

Três de Espadas
Medieval Scapini

Ah, quase me esqueço: além das leituras dos meus parceiros de Blogagem Coletiva, o texto é motivado pela inter-relação entre o Três de Espadas do Medieval Scapini com uma música do OneRepublic, Secrets
Quem sabe te inspiram também.





I need another story
Something to get off my chest
My life gets kind of boring
Need something that I can't confess

Till all my sleeves are stained red
From all the truth that I've said
Come by, it honestly I swear
Thought you saw me wink, no, I've been on the brink, so

Tell me what you want to hear
Something that'll like those ears
Sick of all the insincere
So I'm gonna give all my secrets away
This time
Don't need another perfect lie
Don't care if critics never jumped in line
I'm gonna give all my secrets away

My God, amazing how we got this far
It's like we were chasing all those stars
Whose driver shining big black cars

And everyday I see the news
All the problems that we could solve
And when a situation rises
Just write it into an album
Sitting straight, too low
And I don't really like my flow, oh, so

Tell me what you want to hear
Something that'll like those ears
Sick of all the insincere
So I'm gonna give all my secrets away
This time
Don't need another perfect lie
Don't care if critics never jump in line
I'm gonna give all my secrets away

Got no reason
Got no shame
Got no family
I can blame
Just don't let me disappear
I'mma tell you everything

Tell me what you want to hear
Something that'll like those ears
Sick of all the insincere
So I'm gonna give all my secrets away
This time
Don't need another perfect lie
Don't care if critics never jump in line
I'm gonna give all my secrets away


Em tempo: O Ciro Marchetti preparou um vídeo sobre o Três de Espadas do seu Legacy of Divine Tarot. Vale a pena assistir.