Você é um bom oraculista, conhece seu instrumento, tiradas, símbolos... Mas, sempre tem aquela carta, aquele signo que você não queria que estivesse alí. Então, perguntamos para a primeira blogagem coletiva de 2011: qual arcano te faz ter um treco quando aparece na leitura?
É pessoal, as meninas sempre surpreendem com os temas...
No microssegundo após ler a proposta já tinha minha carta medonha em mente: Dez de Espadas. Ô cartinha encardida!
Contudo, após refletir um bocado, pensei em escrever sobre algumas cartas. As ditas "piores", conforme a literatura que eu conheço, no Tarot, no Baralho Petit Lenormand e no baralho comum.
Sendo o Tarot composto por três estruturas interdependentes, a saber, os Arcanos Maiores, as Cartas da Corte e as Cartas Numeradas, escolhi falar sobre uma carta de cada grupo. Certamente não estou querendo encontrar essas cartas juntas em nenhum momento desta, ou de qualquer outra, encarnação.
Nos Arcanos Maiores, a Torre.Tudo bem que é a carta da cirurgia e da cura, mas vamos combinar que ela é uma carta muito densa. Quatro vezes quatro. O número da matéria ao quadrado. O quadrado do quadrado, a prisão por excelência. Talvez por isso seja relacionada com a Bastilha - e a queda desta. Vocês não sabem o quão chateado eu fiquei quando vi o Tarô Mitológico pela primeira vez, e vi que essa era a carta destinada a Poseidon! Depois eu entendi o que isso queria dizer. Poseidon realmente é ciumento e irascível.
Mas, independente do baralho escolhido, a Torre é muito difícil de ser interpretada de forma leve. Ela tende a tornar a leitura revolucionária, no sentido etimológico de revolver as estruturas criadas pelo consulente para o seu conforto. Acho que foi isso que o Shaman quis dizer com o clipe Fairy Tale (Dá uma olhadinha por volta dos 2'00)
Nas Cartas da Corte, temos duas em especial, mas me dedicarei apenas a uma: Rainha e Valete (Princesa) de Espadas, sendo que falarei desta última.
O Valete representa a intriga. Quem é que diz que o "que vem de baixo não atinge"? Atinge sim! Que diga a Princesa elaborada por Crowley, que está voltada para cima, ainda que o maior perigo esteja no terreno onde seus pés não encontram apoio!
São sussurros, são ventilações maldosas sobre nossa natureza e comportamento, que nem sempre carecem de fundamento. Por vezes, uma palavra (mal) dita pode dar pano para manga de vestido de noiva cigana! Essa carta pede o comedimento, não só por este ser uma virtude, mas porque, nesse caso, é o único meio de ter alguma chance de sobreviver ao açoite sem osso de uma lingua ferina.
A pessoa representada por um Valete de Espadas nem sempre tem consciência que seus ataques advêm de uma falta de refereciais internos. Afinal de contas, quando passamos a cuidar de nossa própria vida, pouco tempo, ou mesmo tempo nenhum, sobra para cuidarmos da vida dos outros.
Nas numeradas, temos várias para pensarmos, de acordo com a postagem, tenho que escolher a que mais me assusta. Bem, no caso, o Dez de Espadas, a Ruína, para Crowley, é para mim de longe a mais assustadora. Poderíamos falar do cinco e do sete de Ouros, do três e do nove de Espadas, do sete e do oito de Copas, do Dez de Paus; mas como o Dez de Espadas, acho que não temos referência.
Derrota, ruína, falha, perda, escândalo, vexame, tudo o que possa afetar nossa imagem, nosso ego, nossa existência. Acidentes, atrasos, perdas, roubos, ataques inesperados. Complexo de autodestruição. Horrível de se ler!
Seus melhores aspectos decorrem da transformação que isso proporciona em nossas vidas. Tudo vem abaixo para que possamos enxergar o que estávamos fazendo de nós mesmos. É bem o que o Jack faz quando descobre quem é Tyler Durden, em o Clube da Luta. Mete um tiro no meio da boca.
(Ok, se você não viu o filme, saiba que isso não é um spoiler. Nem a frase, nem o vídeo; só assistindo o filme para entender.)
No Petit Lenormand, nem tem muito o que pensar: A carta 08 é de longe a que mais assusta, só de ver! Tanto é que possui mais representações diferentes que qualquer outra carta desse baralho. Pode ser uma vela, uma caveira, mas comumente é um caixão, mesmo.
No poema da carta, temos, em tradução livre: Caixão, é má sorte / é doença ou morte. / Se o caixão está afastado / menos negativa esta carta é.
A tentativa de suavizar essa lâmina, inclusive, levou alguns artistas a representarem esquifes egípcios. O que, fora a egiptomania que se alastrava pela Europa e pelo mundo na época em que este baralho estava sendo desenvolvido, não tem nenhum sentido.
Um adendo: olha essa versão do Lenormand que eu achei! Inspirado diretamente no Rider-Waite, desenvolvido por Edmund Zebrowski. Muito bacana!
Enfim, essa carta representa morte, doença, perdas, roubos, o que há de denso e negativo na vida e no cotidiano. Contudo, com a 09, o ramalhete, aponta para vivências passadas - ou, no caso de um consulente que não tenha abertura para esse tipo de conversas, fatores inconscientes, possivelmente provenientes da infância, manifestados no tempo de jogo. De qualquer forma, é um resgate para uma posterior limpeza de um espaço psíquico na vida do consulente. Mas uma limpeza que é bem desagradável... Ainda que necessária.
Já nas cartas comuns de jogar, pelo método que minha avó ensinou, as cartas mais complicadas são a Rainha de Espadas - que pode tanto representar a mulher intrigueira quanto a intriga em si -, o 5 de Espadas (doença) e o Sete de Paus invertido (desgosto). Achei por referência à Cartomancia essa carta ilustrada, onde o Cinco de Espadas, mais que doença, tem por nome... Morte. Sem a suavidade do Arcano Maior homônimo.
Creio que seriam essas. Contudo, depois de apresentá-las, é importante ressaltar algo em negrito, itálico e caixa alta:
1. TODAS AS CARTAS SÃO NECESSÁRIAS AO BARALHO, E É NA MÃO DO BOM CARTOMANTE QUE ELAS DIRÃO A VERDADE, SENDO MAIS SUAVES OU MAIS INCISIVAS, DEPENDENDO DA TIRAGEM UTILIZADA E DA PERGUNTA FORMULADA.
2. TODAS AS CARTAS MOSTRAM-SE RELATIVAS ÀS FUNÇÕES DADAS A ELAS DENTRO DE UM JOGO.
3. UM BOM CARTOMANTE DEVE TRANQUILIZAR SEU CONSULENTE, PREPARANDO-O PARA TOMAR POSSE DE SUA VIDA APÓS O DIAGNÓSTICO DAS CARTAS, INDEPENDENTEMENTE DESSE DIAGNÓSTICO SER BOM OU RUIM.
Ufa! Recado dado!
Abraços a todos!
















































