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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Um conversa com o Louco.

Existem encontros que nos marcam. Outros, que parecem marcados.
Estava eu em frente a uma igreja. Eu gosto de igrejas - são o registro mais fidedigno da arquitetura de uma época (vide a atualidade...). Passa um rapaz com dois cachorros.
- Você gosta de igrejas? É cristão?
- Perguntas diferentes, respostas diferentes. Gosto de igrejas. Não sou cristão (precisa ser cristão para gostar de igrejas?)
- Eu sou ateu. Isso (apontando com o queixo para a igreja) não significa nada.
- Você não pode negar que é lindo. Imponente. 
- É. Pode ser.



E, ao seguir, eu vejo seu rosto mal escanhoado, seus cachorros e seu passo cadenciado.

E então eu rio. 

Aprendi com o Louco que não é necessária lógica para uma conversa ser frutífera. Já que, do Louco, não se poderia esperar grande lógica, não é mesmo?


Abraços a todos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Quando o "não" é bem vindo.



Responder perguntas é uma arte. Quanto mais específica e direta, mais desafiadora é a função do cartomante. De certa forma, é muito mais fácil buscarmos na narrativa cartomântica prós e contras, sem, no entanto, arriscar-se um prognóstico direto. Entretanto, existe um ponto ainda mais difícil na leitura: quando é necessário dizer que não, os planos do consulente não caminham na direção que ele espera ou aspira.
Ainda assim, eu já tive casos em que a negação foi o melhor caminho. Puramente estratégico: não dar atenção a um aspecto da vida, ou negar uma opção, é permitir-se novos caminhos e opções diferenciadas. O jogo é isso - um mapa, onde nem sempre atalhos levam ao melhor lugar. 
Hoje eu tive uma experiência nesse sentido, e fiquei realmente muito feliz. Aflita, uma amiga pediu um palpite entre duas opções. Perguntei quais seriam as consequências de uma escolha ou outra - trabalhar em dois lugares ou dizer não à proposta que havia sido oferecida. Ela não sabia bem o que dizer, e realmente estava insegura sobre negar uma opção que, sabem todos os Deuses melhor que nós, poderia ser interessante a médio ou longo prazo. 
Como minha opinião vale menos que a minha leitura, propus que lêssemos o Tarot. Ela topou, procedemos com o início do ritual: a Carta Diagnóstico. Respirei, concentrei, embaralhei, cortei como de costume.



Cinco de Espadas.

Não.

Quando a primeira carta diagnóstico não abre, eu me concentro mais profundamente, buscando quais são os obstáculos para a leitura. A sensação que tive é que eu estava mexendo em algo que não deveria. Vamos lá, embaralhar novamente, cortar, tentar de novo.



Cinco de Espadas.

Não, como da primeira vez, mas esperamos que desta você entenda que não é não, Emanuel.

Avisei minha consulente. Ela abriu um jogo online. 



Nove de Espadas.

Não, tá? Chega.


A contragosto, ela decidiu dizer não à proposta que lhe ofereceram. Com uma confirmação tão poderosa, eu não tinha muito o que dizer, e fiquei pensativo. Sempre acredito no meu baralho, e sei que, quando ele nega, é porque o horizonte é melhor que o caminho escolhido. Isso não retira o amargo da escolha.


Menos de uma hora depois, ela me manda uma mensagem. Ela havia feito um concurso, para o qual não considerara as chances, e foi aprovada.

O não foi abençoado.


Abraços a todos.

domingo, 14 de agosto de 2016

Stranger Things, Stronger Things.

Todo Arcano do Tarô possui camadas. Acredito que, ainda que eu treine o estudo diariamente há anos e não tenha pretensão de parar tão cedo, não creio que consiga captar todas elas, já que o dinamismo das cartas está associado não apenas ao que significam, mas o que tendem a significar - o segredo que as abre é a pergunta, e cada geração tem suas próprias perguntas.
O segredo muda a cada geração, ainda que certas perguntas sejam sempre as mesmas. 
Houveram algumas tentativas de expor essas camadas, com as diversas leituras comparativas e associativas que as diversas escolas de mistério já fizeram. Tais registros nos permitem ler não apenas aspectos específicos aplicados de cada cartas, como também ler nas entrelinhas as perguntas que nortearam tais resultados. 
Camadas, cascas, escamas no Mistério. Algumas trarão luz, outras não. Outras, só trarão luz anos depois, quando seu sentido real for devidamente lido. Não dá muito para ter certeza fora do consenso, senão pela prática e pela experiência.
Cabe-nos fazer nossas perguntas e manter um registro dos resultados. Ainda que não tenhamos tempo de vida para ler os Arcanos em relação ao possível, ampliamos o campo do consenso - o lugar onde a Tradição permanece.


Acabo de terminar a série Stranger Things. Confesso que assisti pelo buzz todo que ela fez, para ter certeza se era realmente bacana a releitura de elementos dos anos 80, uma tendência contemporânea que está em franco crescimento.
Ambientada no ano de 1983, Stranger Things decorre na fictícia cidade de Hawkins, Indiana, onde um garoto de 12 anos desapareceu misteriosamente sem deixar rastros. Enquanto procuram por respostas, a polícia local, a família e os amigos do menino acabam mergulhando em um extraordinário mistério envolvendo um experimento secreto do governo, forças sobrenaturais e uma garotinha muito estranha.
Não me arrependi nem um pouco. Foi uma aula sobre a Força do Tarô. Vista sob vários ângulos, explicitando significados que estavam até então circunscritos à possibilidades que os livros oferecem como palavras-chave. Embora costumeiramente busquemos personagens cuja natureza e comportamento lembrem algum Arcano, eu encontrei na verdade tantas situações que me remeteram ao mesmo Arcano que não deixa de ser algo a se repensar. Outra camada de leitura.

[SPOILER ALERT: talvez eu acabe escrevendo coisas que alterem a experiência de assistir o seriado. Assista primeiro, depois conversamos, tudo bem? Ou talvez você não ligue para isso, continue lendo e conversamos do  mesmo jeito. Ou talvez você queira um resumão, e eu particularmente me diverti bastante com esse aqui.]

Pensemos na estrutura do seriado. São três núcleos diferentes, em função da idade dos personagens: os protagonistas, crianças; os irmãos dos protagonistas, adolescentes; e os pais, adultos. A história cruza os três núcleos mas eles não se tocam completamente. Todos estão decididos a enfrentar a Fera. Cada um por motivos bem diferentes, que emergem da narrativa à medida em que ela se desenrola. 
O primeiro núcleo, das crianças, é o típico grupo de RPG (falei algo a respeito quando escrevi sobre o Quatro de Paus). Não só porque de fato jogam RPG, mas porque suas personalidades são complementares e o sucesso da amizade reside no fato de que os conflitos se resolvem com o mediador que sobra. 
Mike é o líder que tem a palavra final, Lukas é aquele que busca o caminho mais lógico, Dustin possui o raciocínio mais claro. Há regras na amizade entre eles, evocadas sempre que necessário. A Persuasão (citando deliberadamente o baralho Kier) reside na rememoração dessas regras. Sabemos pouco sobre Will, mas não deixa de ser uma evocação da vontade chamar por ele.


No núcleo adolescente, vemos a relação entre Jonathan Byers e Steve Harrington ao redor de Nancy Wheeler, que tem que escolher qual é o lado que lhe toca mais. Ela se transforma em função dos eventos do seriado, do importar-se, do enfrentamento. O próprio Steve se transforma, por enxergar aspectos que outrora era incapaz pelo reforço negativo que recebia dos companheiros. Jonathan descobre aspectos de si que não lhe soavam possíveis. 
A Força quebrando padrões.


No núcleo adulto, vemos Joyce Byers lutando pelo filho e contra a loucura. O Delegado Hopper luta pela cidade, e contra o seu passado. Os personagens, num geral, estão lutando contra o seu passado, que os impede de criar um futuro decente. 


E, claro, temos Eleven - cujo nome já a associa diretamente ao Arcano. Sua luta para sobreviver é matando um leão por dia (às vezes mais de um). Sua dificuldade com a fala, suas dores revividas em flashbacks e suas decisões por medo e amor aproximam-na da tessitura narrativa da Força. Dificuldades não se eliminam da memória: se superam. 


Existe uma teoria que diz que Eleven pode ser o Monstro. Eu não tenho muita certeza para concordar, pelos eventos do último capítulo com Will. E você, o que acha? 


Toda essa reflexão não seria possível sem eu ter visto a Força do Tarot Furtado no intervalo entre um episódio e outro. Mais que uma proposta estética, o Tarot Furtado é uma proposta interativa na qual a memória e o esquecimento são fundamentais. Nessa carta, quem foi Furtada foi a Mulher, e a sugestão do baralho é sê-la, própria e apropriadamente. Entretanto, minha familiaridade com o baralho clássico faz-me ver ela, ainda, ali. Está mas não está, como um reflexo do Mundo Invertido na parede. 
Fica o monstro, a Fera, o instinto, a saliva, o hálito, o sangue, as presas e as garras, sentadas incólumes numa figuração perigosa. O pitbull pulou o muro, mas não fareja comida. Talvez a carne tenha melhor gosto. 
Cabe a mulher, Menina, descobrir-se e (re)lembrar o que foi furtado de sua vida: o Amor. Conforme o autor do Tarô Furtado, o que primeiro foi Furtado foi o Amor, este devolvido na primeira jogada. 
Tarot Furtado é um Tarô de amor, porque ele devolve o perdido sem ter sido pedido.
É o amor que une Mulher e Fera, num laço de flor mais forte que qualquer cadeia. 


As luzes piscam, concordando.

O Demogorgon nomeado perde sua Força pelo toque da menina renomeada. Eleven passa a ser El, um dos Nomes de D'us. Intencional ou não, o eco do Nome garante o efeito. Nos Nomes, o poder. As mãos se estendem, mas não se tocam; Escher sorriria e, incrédulo, preencheria um sketchbook inteiro. Mas, num átimo, o que estava, não mais está. 
Mas, claro, essa é só mais uma camada. 
Ainda tenho muitas a descortinar.

Confira o Tarot Furtado no Clube do Tarô e no Zoe Tarot. E siga o Tarot Furtado no Facebook. 

sábado, 6 de agosto de 2016

O Eremita e o distanciamento.



Olá pessoal. Como tratamos no começo desse ano, eu tenho atentado para como os dois Arcanos Maiores propostos para o ano - Torre e Eremita - tem se mostrado presentes em meu cotidiano. a subjetividade inerente à experiência é o maior obstáculo para a leitura, afinal de contas eu não estou lendo minhas experiências nos Arcanos, mas sim tentando encaixar minhas experiências nos Arcanos. O desafiador, no caso, é justamente desidentificar-se. Em outro contexto, com outra pessoa, eu veria a experiência como escopo de qual Arcano?
E, embora eu tenha reconhecido a Torre como tônica do ano até o momento - de fato, muitas estruturas que considerava sólidas ruíram com uma facilidade tremenda - eu tenho tentado também ler os eventos à luz do Eremita. Do macro ao micro, do solo ao grupal, o que eu vejo é uma constante busca por identidades perdidas ou mal lidas. Saber quem sou eu não basta; preciso saber quem sou eu no contexto em que estou.
Esse fragmentar-se em possibilidades de reação - afinal de contas, somos Legião - apresenta-se, sobremaneira, nas redes sociais. Eu tenho acompanhado algumas postagens, com meu Engov do lado, para ver até onde vai a intensidade do ódio destilado. Protegidos em suas casas, escudados por seus monitores e telas de celular, percebo o quão corajosos se tornam os indivíduos. Os justiceiros de internet não poupam imprecações contra quem quer que seja, sob a capa de é minha opinião! 

"Tomara que morra!"
"Essa pessoa faria o favor de se jogar na frente de um carro."
"Errou em ter nascido"
"Bem feito"

Eu não estou, nesse caso, questionando o que os odiáveis fizeram para merecer tais praguejares, estou questionando a disponibilidade que existe em odiá-los, sem consequências (imediatas, ao menos). É possível postar um "que o Diabo o carregue!" e continuar conversando com a mãe sobre a novela de ontem. É possível desejar que "um caminhão de lixo atropele" e ir ao banheiro, escovar os dentes. 



Isso não é possível fora do meio virtual. Da discussão ao combate, o reino de Marte não permite que você mude facilmente de ideia e siga a sua vida. A responsabilidade pelo (mal)dito é cobrada no fio da espada, cheirando a saliva e sangue. Que responsabilidade existe sobre o dito na internet, mesmo?
Ah, sim, o registro.
O que é escrito não se apaga, se esconde. Fica na timeline do Facebook, ou no meio de mil e um tweets passados. Mas não em branco - mais cedo ou mais tarde, eles virão à tona. Cuidado com seu ódio, semelhante atrai semelhante. 
Isso poderia ser uma maldição, mas é só uma dica. 
Cuidado com o que escreve, com o que ama e com o que odeia. Um dia ou outro, as coisas mudam e você tem ali o registro de sua imediatez, de seu instante, de seu momentum.
Se há um desejo sincero de minha parte, é de que você não se envergonhe. 

Serpente, eu te reconheço.

E, diante desse quadro tão digno do Arcano XVI, marcial por excelência, o Arcano IX mostra-se em sua beleza inegável: a lentidão dos passos, o distanciamento adequado, a reflexão e o silêncio para o correto agir, falar e portar-se. Se o afastamento pode ser uma forma de causar no outro a sensação da ausência, a não relação, a criação de confusão e desarmonia, por afastarmo-nos de tudo o que não gostamos - ouvi isso ontem - o Eremita ensina uma lição diferente. Só podemos ver panoramas distanciados daquilo que chama nossa atenção. De perto, detalhe, parte, foco. De longe, panorama, amplidão, possibilidades. Quem de nós nunca jogou para si mesmo e teve dificuldades, ouvindo na voz de outro cartomante tudo aquilo que o baralho havia dito e não foi capaz de ler, que atire o primeiro Louco ao precipício. De longe fica mais fácil reconhecer o real. O risco, como a internet bem nos mostra, é tornarmo-nos covardes diante do bom combate. É bom manter a clareza de quando estamos corretos e quando estamos acorrentados a uma ou outra perspectiva.



Então eu levo isso para a vida. O distanciamento tem o seu valor, para evitar a grosseria que tornou-se lugar comum no cotidiano. Não me vejo na obrigação de participar desse curso de ódio que estamos tendo em redes sociais. Não me vejo na obrigação de manter relacionamentos doentios e tóxicos. Não me vejo na obrigação de corresponder a expectativas menores que minhas possibilidades. 

Na dúvida, o importante é sorrir, deixar ir, e observar. 
Relacionamentos ilusórios se desfazem com o tempo. O que permanece, depois de Torres e Eremitas, é o que se leva. 
Leve.



Em direção à Estrela. 

Abraços a todos. 




segunda-feira, 25 de julho de 2016

Castelos de areia.



(...) ela se lembrou de quando tinha 4 anos e estava na praia, chorando porque o vento tinha vindo e desfeito o castelo que tinha construído. A mãe tinha dito que poderia fazer outro se ela quisesse, mas isso não impediu que chorasse, pois o que ela acreditava que era permanente não era permanente afinal, apenas feito de areia que desaparecia com a força do vento ou da água.

Clary | Cidade das Cinzas, Cassandra Clare.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Mentiras fáceis.


Roberto FERRI. LIBERACI DAL MALE. 2013.
"Costumavam chamar o Diabo de pai das mentiras.Mas, para alguém cujo pecado significa orgulho, mentir deixaria algo como um sabor amargo.Fácil demais. Baixo demais. Coisa para covardes.Então, a minha teoria é a de que, quando o Diabo quer algo de você, ele não mente, de forma alguma.Ele te diz a verdade exata e literal.E ele deixa você encontrar, sozinho, o caminho para o inferno."

- "Crianças e Monstros", arco de Lucifer, #10, DC Comics, selo Vertigo. 
Algo muito apropriado para ser lido no dia de hoje.

domingo, 27 de março de 2016

XVIII. A lenda da vitória-régia.


Um dia, quando o mundo ainda engatinhava e o sol bocejava, a Lua foi homem. 
Depois ela foi mulher.
Depois ela aprendeu a ser o que bem entendesse.

Nós, que aqui estamos, com um mundo fazendo dieta e um sol fazendo crossfit (tudo pela aparência perfeita), não lembramos do luminar conforme sua história; passamos a criar histórias que preenchessem nosso vazio da presença dele. Como qualquer celebridade, ele não é muito afeito a esses assédios de paparazzi.


Então chegamos a ele de esguelha, fingindo pouco interesse, para que ele não nos perceba. Os que vieram antes, com seus olhos compassivos, lembram e contam histórias do tempo em que o mundo e o sol só queriam brincar. Naquela época, o luminar que hoje conhecemos como lua... Era homem. E gostava de moças bonitas.


Enquanto caminhava pelo seu campo negro, o luminar olhava o mundo e via o brilho dos olhos das moças, e sua beleza se refletia nelas. Não havia quem pudesse negar o seu abraço, e ao amanhecer, ele se recolhia com elas. 
Não todas; só as mais bonitas.


Havia uma moça muito bonita. Naiá era seu nome. Mas aquele que é a lua que hoje é  o que bem entender mas já foi mulher e um dia foi homem, parecia não se importar com ela. 
Naiá sonhava durante o dia e seguia insone, todas as noites, esperando que seus olhos trouxessem seu amado para seus braços. Mas ele parecia não ver seus olhos suplicantes.

Os mais velhos, que ninaram o sol quando este era um bebê e cercavam o mundo dos perigos para que ele crescesse forte, avisaram Naiá: aquelas que o luar levava, não voltavam mais. Tomadas pelo brilho do luminar, tornavam-se com ele unas no céu, na forma de estrelas. Algumas tropeçavam e caíam, e nessa hora se fazia um pedido: a cadente era salva e o pedido, atendido.

Naiá não se importava. Não comia, não bebia, mal dormia; e se ele, no seu descuido, estivesse olhando justo naquele instante e ela, distraída, não o visse?


Uma noite, Naiá caminhava, mudando o ponto para ver se o luar a via. O problema devia ser a aldeia: todas as moças eram bonitas e nenhuma havia sido levada até então. Naiá pôs-se a caminhar... Seus pensamentos divagaram... Dizem os mais velhos, que deram de mamar os sonhos que tornaram o sol forte e derramaram libações para que a terra se nutrisse, que quando a mente divaga os pés descaminham. Descaminhando, não se sabe aonde se chega, só se sabe que se chegará aonde se precisa chegar. Assim, os pés de Naiá a descaminharam até um lago, onde... Lá estava ele, se banhando! 
Sua pele prateada tirou seu fôlego. Seus contornos másculos a inebriaram e ela suspirou de prazer. Finalmente conseguiria se unir de corpo e alma, amante e amado, dois em um. 


E então, ela se jogou no lago. 
O impacto do corpo despedaçou o sonho em diversos fragmentos de luz; ele não estava lá! Onde ele estivera - ou não estivera, a água em seus ouvidos dificultava seus pensamentos - ondas se formavam e empurravam seu corpo para frente e para trás, e ela já não via mais a borda. 
E depois, ela já não via mais a superfície.
E depois, ela já não via mais nada.

O luar, que naquele instante mirava sua beleza em seu espelho d'água, ficou consternado por não ter visto aquela moça, tão bonita, tão apaixonada. O mundo estava crescendo a olhos vistos e ele já não corria seus dedos luminosos com a mesma facilidade pelo seu dorso macio. Quis trazer Naiá consigo, mas já era tarde: o lago já requerera seu quinhão. A beleza de Naiá lhe pertencia, pois ela de livre vontade abraçara-se a ele, ainda que não fosse seu o abraço desejado.

O luar, entretanto, era mais velho, pois ele ainda era homem e nós, que aqui estamos, não lembramos de quando ele foi homem, depois mulher, depois o que quisesse. E, eu não sei dizer o porque e nem quando foi decidido que assim seria, só sei que é assim: os mais velhos dizem o que os mais novos devem fazer, e os mais novos aprendem com a experiência dos mais velhos para viverem melhor. E o luar exigiu sua parte: o corpo era do lago, mas a alma de Naiá era sua. 


E assim, entre os mundos do lago e da lua, do laço entre imagem e espelho, surgiu uma planta, cuja forma está firmemente ancorada no lago, mas cuja força está na delicadeza de suas pétalas buscando o abraço do luar.  E se você for cuidadoso, e olhar de esguelha quando o luar estiver se mirando no lago, poderá ver os olhos de Naiá faiscando. E com ela aprendemos que, ao querer a Lua, é melhor evitar o lago.



Esse texto veio meio por acaso. Estamos tão acostumados a associar certas cartas com gêneros que esquecemos que os gêneros nos pertencem, não ao baralho. Um Imperador pode representar uma mulher, pois ele não é o personagem que aparenta: ele é o adjetivo que a localiza naquele instante. 
Afirmarmos que o gênero é reforçado pelas imagens de um baralho é um equívoco que acontece às vezes... Então, como exercício, eu mesclei imagens do Tarô a imagens da lenda da Vitória Régia,para vermos como uma imagem é associativa e não reforçadora. O reforço está na nossa fortuna (ou pobreza) crítica.
Se aprendermos direitinho com Naiá, saberemos que devemos olhar o Luar, não o Lago - e essa é a lição do arcano XVIII. Ela é mais velha que nós e nós aprendemos com ela, para evitarmos os tropeços do caminho.
Porque aquele que está no céu e que chamamos de lua é o que bem entender, mas um dia já foi mulher... E antes, foi homem.
E gostava de moças bonitas. 

domingo, 13 de março de 2016

Do Mago.



NÃO SE ILUDA COM o aparente descaso do Mago; embora blasé, ele está te olhando. De soslaio, oblíquo, com seu sorriso diáfano. Ele está atento à plateia - é assim que ele domina: Dando atenção indistinta a todos, sem prestar reverência a ninguém.

Traz consigo uma bolsa amarela tecida e recheada com todos os sonhos roubados de centenas de pessoas. Voilà! E mais um sonho, à guisa de enfeite, parte do antigo dono para o novo possuidor. O homem do saco, ameaça corrente, lenda urbana, em outra roupagem. 

Te afana do essencial, deixando o supérfluo. Senão, você sentiria falta.

Mestre das mágicas de cálices e varinhas, confira, sorrindo, a prataria quando ele sair. Hábil em somar para si, não raro subtrai dos outros. O show tem que continuar.

Nem jovem, nem velho, jovial; sempre um pouco mais experiente, não raro o mais imaturo experimentador. É ele quem vai na frente - e volta, para contar o que viu. À pé, é imbatível no seu foco. Ganha de qualquer homem, mas o castigo vem a cavalo.

Sua língua é prata líquida que escorre em nomes antigos e vislumbres de futuro. Todo Mago fala demais, mas quando quer dizer, a mensagem chega translúcida e sem ruído algum. Foco, eu disse.

Suas vestes são ricas, gypsies ou steampunk demais - naturalmente, o Mago é um vitoriano. Algo do gracejo da Belle Époque ecoa ali, mas ele insiste em manter uma aparência que vá na frente dizendo quem pode ou não se aproximar um pouco. Novamente, oblíquo. Todos lhe tem acesso, poucos sobrevivem ao Labirinto, menos ainda querem contar a história. 

Amar o inalcançável tem lá suas mazelas.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Das alegorias e das ilustrações: quando encontramos referências à intenção do ilustrador.

Olá pessoal. Essa postagem está longe de ser definitiva, é apenas uma sinalização de algo que venho percebendo, um tema sobre o qual pretendo me debruçar nos próximos meses mais aprofundadamente. Entretanto, aqui e ali pincelo algumas noções, alguns meandros do que vejo. 
Desde o começo do blog, faço comparações entre a cultura e a cartomancia, sobretudo no que concerne às artes bidimensionais. A pintura e a gravura são, no limite, a mesma técnica usada na construção das imagens de um baralho. Entretanto, quais são as fontes para uma e outra categoria artística? Até onde podemos supor limites e possibilidades para uma e para outra?
Estou longe de me contentar com as respostas que obtive até o momento, e mais longe ainda de oferecer uma contribuição à altura dos meus questionamentos. Nesse ínterim, vou postando coisas que percebo associáveis e, à maneira do livro Conversas Cartomânticas: da escolha do baralho ao encerramento da consulta (breve teremos uma segunda edição, revista e ampliada - aguardem!), um dia terei material suficiente para oferecer em formato de livro.

Estava eu passeando numa galeria com os Emblemas de Alciato, e me deparei com a gravura XXIII, que posto abaixo. Imediatamente me lembrei do cinco de ouros desenvolvido por Arthur Edward Waite e Pamela Collman Smith para seu baralho.   


O texto para o cinco de ouros, traduzido por Cleyde Helena Monteiro Steigleder, diz:

Dois mendigos em uma tempestade de neve passam por um vitral iluminado.Significados divinatórios: a carta traz problemas materiais, sobretudo se na forma ilustrada - ou seja, destituição ou outra coisa. Para alguns cartomantes, é uma carta de amor e namorados - esposa, marido, amigo, amante; também concórdia, afinidades. Essas alternativas não conseguem ser harmonizadas. Invertida: desordem, caos, ruína, discórdia, dissipação.
Embora tenha vários pontos no texto que valem uma discussão sobre a proposta editorial de Waite e a função do texto na criação da imagem - algo que ele deixa claro na introdução do livro - o que pretendo mostrar com essa imagem é, na verdade, como os emblemas de Alciato podem nos auxiliar no entendimento da imagem em si (o que pode ou não concatenar com a proposta de Waite, nosso problema iconográfico por excelência: ao afirmarmos algo para além do texto que acompanha o baralho, estamos concordando ou discordando do autor?
Vejamos a imagem XXIII.


O texto para a imagem diz (tradução livre):
Um homem cego ajuda um homem coxo. O coxo lhe empresta seus olhos. Cada um provém o que o outro não tem.

Perceba que, embora Smith tenha proposto um casal na imagem - talvez uma tentativa de Waite de harmonizar os dois significados apreendidos em sua pesquisa para o livro - a ideia de auxílio mútuo está ali, colocada tal como no emblema.
Muitos questionamentos podem ser feitos, a partir daí.
  • Waite, ou Pamela, tinham conhecimento dos Emblemas de Alciato ou obra equivalente?
  • A ideia proposta era a mesma do Emblema?
  • A ilustração corresponde à ideia do idealizador?
  • Houve algum limite criativo, de caráter material ou simbólico?
  • Podemos adicionar o significado de "ajuda mútua" (o título do emblema) ao conteúdo simbólico do Cinco de Ouros?
  • Seria o Cinco de Ouros a carta mais adequada para associar-se esse significado?
Como eu disse no começo desse texto, não tenho pretensão de propor ou obter uma resposta a curto prazo. Só a possibilidade já me deleita.
Abraços a todos.

Fontes consultadas:

ALCIATO. Liber emblemata. 
WAITE, Arthur Edward. O tarô ilustrado de Waite. trad. Cleyde Helena Monteiro Steigleder. Porto Alegre: Kuarup, 1999.
WAITE, Arthur Edward. Tarô: a sorte pelas cartas. Trad. David Jardim Júnior. Ediouro, s/d. 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Medo.


Aprender a lidar com os próprios medos nunca foi tão divertido. E compreensível.

sábado, 1 de novembro de 2014

Magia, Tarô/Cartomancia, eletricidade e método científico.

Dizer que algo não é possível com o Tarô – ou com qualquer outro instrumento psíquico – é uma falácia usual. Circunscrita [com ressalvas] sua área de atuação em divinações e perspectivas terapêuticas, vejo soar improvável a perspectiva de utilização da ferramenta na magia ritual ou mesmo em práticas não usuais, como contato com outros planos. Não é porque algo não funciona para você que esse algo não funcione, oras. É como afirmar que lentes de contato não funcionam só porque você não tem um problema de vista que se corrija com lentes.
O problema não está nas lentes. O problema não está nos seus olhos. A relação entre um e outro é que é problemática.
Em termos de magia – que nada mais é que uma grande metáfora da criação aplicada num plano menor – o Tarô é um instrumento como outro qualquer. Vai funcionar para uns, não irá para os demais passar de um instrumento de adivinhação, e ainda terão aqueles que verão ali só um baralho diferente. Todos estão certos, nem todos experimentarão a melhor parte da brincadeira, mas... quem disse que tem que ter a melhor parte para ficar satisfeito?
Uma dos programas mais bacanas da minha infância era o Mundo de Beakman. Nesse programa, eram feitas, entre outras coisas, uma série de experiências passíveis de serem reproduzidas em casa. Um desses episódios falou sobre o método científico, tendo por referência a eletricidade. 

sdds, Mundo de Beakman.
Resumindo, o acender da lâmpada, a corrente que segue, não é devido à água. Não é o sal. Não é a bateria. Não é a lâmpada. Nem os fios.
O efeito é resultado da combinação de todas essas causas. Bingo. E a água salgada, em especial, é a condutora pela combinação de seus elementos. Bingo, de novo.
Embora o fenômeno elétrico possa ser compreendido à luz das explicações que temos hoje, ela não passou a funcionar porque teve uma explicação, e nem passou a ser interessante por ter uma explicação. Ela foi testada sem entendimento, utilizada e nos testes a explicação se mostrou. Consequência, não causa.
É assim também com a magia. Não faço ideia dos motivos pelos quais a magia funciona. Sei que funciona. Utilizo porque funciona. E testo meus padrões de análise dos efeitos, mensurando os resultados obtidos, mantendo registro do que me foi útil, retificando o restante.

Mas... E quando ela não funciona? 
E para quem ela não funciona?
Significa que ela não existe?

Revejamos nossos conceitos sobre a prática, sobretudo sobre a prática dos outros. Não é porque algo é teu limite que será limite do outro. Mas você só saberá quais são os seus limites... Se você for até o limite. 
Como eu não acredito em coincidências, enquanto buscava a referência para esse texto encontrei essa imagem. Ela resume tudo.



Abraços a todos. E testem seus limites. E atenham-se unicamente a eles. 
São seus limites que dizem quem vocês são.

P.S.: Relendo o texto, percebo que ficou faltando uma ressalva. Eu digo para você testar, você praticar, você ir ao seu limite. Você.

Procurar uma pessoa para efetuar tais viagens em seu nome é outra história. 
Na magia, é sempre melhor seguir os próprios conselhos.

E também não estou dizendo que só porque não posso fazer algo, que esse algo será possível de ser feito. Em magia, quanto mais andamos, mais próximos dos nossos limites estamos. Isso inclui o limite do provável. Na dúvida, aceito o desafio de estar errado - se é provado que estava errado, meus limites se ampliam. 
Ninguém perde por ter limites flexíveis. A perda está em cravar dogmas na pedra. 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Vanitas Vanitatum.

Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!


Com esse mote, retirado do Eclesiastes, toda uma categoria de obras de arte - as Vanitas - fizeram-se presentes, sobretudo no Barroco. E esse é um dos vícios capitais (nova nomenclatura para os antigos pecados capitais) mais curiosos de se estudar e mais recorrentes como chamados para a aventura, dentro da perspectiva do monomito, que estamos estudando na Jornada do Louco em sua Autodescoberta).
Estava eu procurando uma imagem para ilustrar a carta Soberba, dos Sibillas - como o  Sibilla Della Zingara - e acabei me dando conta que esse tema perpassa todos os oráculos cartomânticos sobre os quais já conversamos. Não estou, necessariamente, falando do conceito de soberba/orgulho/vaidade, mas sim da representatividade pictórica do mesmo. Acho que essa conversa dá pano para manga, para mais de um artigo; gostaria de falar hoje sobre um insight em especial, que fez toda a diferença. 
Reparem nas obras a seguir (que foram retiradas deste blog e reorganizadas para nossa argumentação). 

Abraham Mignon (1640-1679)-'a Natureza como um símbolo de Vanitas'- óleo sobre tela. (1665-1679)    Darmstadt-Hessisches Landesmuseum

A primeira obra que temos aqui diz muito pelo título, e é uma das mais curiosas. Assim como as naturezas mortas, aqui temos a evanescência da vida retratada em sua magnitude e aparente perenidade. Tudo é passageiro, tudo nos toca. O imutável é a mutação, e o mutável nos muda, nos revolve. Repare, portanto, na natureza como referência em sua vida e impermanência ao conceito de Vanitas
Cace no[s] seu[s] baralho[s] referências a essa frase. 

Pieter Claeszoon (1597-1660); anteriormente atribuído a Clara Peeters (fl 1607-1621)-'vanitas ainda vive'- óleo sobre painel -1630 The Hague-Maurithuis

Essa imagem é uma das mais icônicas da ideia de Vanitas. A caveira, símbolo da finitude humana e do nosso resto e pó diante da Eternidade. Da personalidade nada sobra; de lembrança, um osso. Apenas. Aparece em muitas imagens de santos, como sua disponibilidade em desapegar-se definitivamente de sua vida pregressa. Encontramos aqui novas referências. Cacemos em nossos baralhos. 

Adam Bernaert (trabalhou no período entre 1660-1669)-'vanitas'- oleo sobre painel- cerca de 1665. Mount Vernon-Walters Art Museum

Essa obra, por sua vez, já nos traz um cenário mais intimista, cuja natureza nos leva ao Vanitas mas suplanta o primeiro significado de efemeridade. Aqui temos as obras humanas que suplantam sua própria existência. Tudo muito belo, mas que só tem sentido e significado com o reconhecimento do indivíduo - e isso me lembra as lágrimas de Alexandre. Sim, cacemos nos nossos baralhos.

Antonio de Pereda (1611-1678)-'Alegoria da Vaidade'-(1632-1636). Wien-Kunsthistorisches Museum Gemäldegalerie

Essa imagem me atraiu muito - sobretudo pela presença de um baralho espanhol aqui no canto inferior direito. É divertido perceber o uso desse baralho que, a despeito de seu pouco conhecimento cá no Brasil, tem sua referência, representatividade e uso. Buscamos apresentar um pouco dele em um artigo para o Clube do Tarô, mas existe muito, mas muito mais, por fazer. Mas temos as cartas não em seu sentido adivinhatório, mas como alegoria do jogo - as moedas que lhe ladeiam atestam o fato. Já apontei algumas prerrogativas diretas, encontremos outras em nossos baralhos.

Pieter Boel (1622-1674)-'Vanitas- alegoria das vaidades do mundo'- óleo sobre tela -1663 Lille-Palais des Beaux-Arts

Por fim, a imagem que me incentivou a escrever esse artigo. Aqui, tudo é metáfora, compondo uma alegoria complexa e passível de diversos níveis. Tudo é deliberado, nada inocente, para uma leitura que demandasse horas de educação visual.  Mas aos meus olhos evidenciou-se a ideia de um arcano específico do Tarot.


Vanitas Vanitatum. Tudo é vaidade aos olhos de Il Tredici. Olhe o que ela ceifa. Não cabeças de um rei e de um plebeu. Ceifa metáforas. Ceifa qualquer um que vista a carapuça.

Conte para mim nos comentários quais mais referências ( e a quais baralhos) você encontrou. Acredito que temos muito mais a ver, ainda. 
Abraços a todos.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

VIDEO: Decifrando o passado - o segredo das cartas de baralho.

Olá pessoal. Eu já vi esse documentário algumas vezes, mas sempre vale ver de novo. Didático e objetivo, além de bastante lúdico. Aproveitem.



Decifrando o Passado - O Segredo das Cartas de... por BlackMessiahTDC

Abraços a todos.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Ás de Copas.



Qual é mesmo a sensação de beijar alguém pela primeira vez?
Sim, sei que haverá quem diga que essa é a experiência do dois, mas não; a experiência dos casais desperta algo em mim, em você, em qualquer expectador. E despertar é função dos Ases. 


)

sábado, 22 de março de 2014

Das heranças da Golden Dawn: The Golden Dawn Tarot, de Robert Wang.


O Tarô da Golden Dawn é um baralho desenvolvido com o simbolismo da Ordem da Aurora Dourada, conforme o Liber Tum compilado das referências sobre os Arcanos utilizadas pela Ordem em seus rituais e meditações, que veio a influenciar a produção de Tarôs em todo o século XX. Conforme sabemos, as cartas de Tarô, para efeito de meditação, são mais que imagens. São portas.
Caso não leia em inglês, a versão em português do Liber T está disponível no livro Aurora Dourada, de Israel Regardie, publicado pela Madras Editora.
Embora a base dessas portas para outros níveis de consciência fosse o simbolismo adotado pela Ordem, a ornamentação era pessoal. Os membros eram convidados a inspirarem-se nas imagens desenvolvidas e atributos correlacionados para criarem seus próprios baralhos, compilando os símbolos. Dessa forma, o estilo e a técnica de cada autor mesclava-se à ideia singular que norteava a criação, gerando uma miríade de possibilidades de voltar à mesma Fonte. Podemos fazer um teste, observando alguns baralhos que partilham dessa mesma origem textual: Thoth, Rider, Hermetic, Iniciático, Liber T, e, com algumas ressalvas e adaptações, o Tarô das BruxasO baralho original da Golden Dawn, ao que parece, foi desenvolvido por MacGregor Matthers e pintado por sua esposa, mas tais cartas nunca foram publicadas e, sendo emprestadas aos membros para serem copiadas no processo de criação, em algum momento desapareceram, para o desespero dos colecionadores e amantes da arte.
O livro foi escrito e o baralho ilustrado por Robert Wang, sob orientação de Israel Regardie – o mesmo que citamos no texto sobre o Thoth Tarot e que foi homenageado no nove de ouros desse mesmo baralho, cuja efígie está representada nos glifos astrológicos de Marte e Mercúrio.
Este é um trabalho síntese. Publicado pela primeira vez em 1977, este é, portanto, o terceiro na cronologia dos baralhos desenvolvidos por membros da Ordem que obtiveram sucesso, estando atrás do Rider (1909) e do Thoth (1943). Suas imagens são delicadas e pueris, estando entre os traços marcantes de Pamela Smith e o rebuscado traçado tridimensional de Fireda Harris. A ideia aqui é, traduzindo em imagens, auxiliar o praticante a entender os ensinamentos da Ordem (aquilo que Waite buscou velar e Crowley revelar).
Os Arcanos Maiores respeitam a paleta de cores oferecida no 777 de Aleister Crowley (outro livro ainda não traduzido, infelizmente. O mais próximo que cheguei dessa tabela, em português, foram os livros da Ellen Cannon Reed: Tarô das Bruxas, editado pela Pensamento Cultrix, e o recomendadíssimo Cabala das Feiticeiras, editado pela Bertrand Brasil.) Como instigador da curiosidade, sugiro que vejam o uso do amarelo nos baralhos supracitados, em especial no nosso objeto de estudo de hoje, no primeiro Arcano: O Mago.

Waite, Crowley, Wang

A Corte é formada por Rei, que aqui é representado imageticamente como o Cavaleiro - Algo que Crowley eximiu para manter o baralho matrifocal - Rainha, Príncipe e Princesa. Como os atributos são os mesmos, não serão de todo estranhos para alguém que estude o Thoth Tarot. 

Thoth, Golden Dawn, Initiatory Golden Dawn

As cartas numeradas, por outro lado, possuem maior similitude com o Tarô de Marselha: uma ou mais mãos portam os atributos de cada naipe, inter-relacionando as quantidades em padrões geométricos - o que o aproxima do Marselha (e dos primeiros estudos do MacGregor Matthers)



Para conhecer mais sobre o pensamento de Robert Wang sobre este Tarô em especial, existe um livro de 158 páginas escrito por ele, sem tradução, e sobre o Tarô Cabalístico, em geral, é fundamental ler seu livro, homônimo. Uma das melhores sínteses em português sobre o assunto, serve de referência tanto para quem utilizar este baralho aqui, como para quem usar os demais listados. Para baixar, aqui.


Por que comprar esse baralho? Porque ele vai expandir sua visão do que é Tarô Cabalístico. Você entenderá o que são, inclusive, os atributos agregados aos baralhos clássicos que permitiram a elaboração de tantos baralhos transculturais. Verá seu baralho de coração com outros olhos, sobretudo se for o Rider Waite ou o Thoth.
Talvez, nele, encontre o seu baralho de coração. 

Deseja adquirir baralhos USGames? Coelestium.