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quinta-feira, 20 de junho de 2013

A Aventura do Louco em sua Autodescoberta: a Morte.

Olá pessoal. Esse é um dos passos críticos na Jornada do Herói. Aqueles que conhecem um pouco de Wicca lembrar-se-ão da descida da Dama ao Submundo [O Elias Mendes escreveu um texto muito bacana no Facebook que merece ser lido]. Mas iremos um pouquinho mais longe. Essa não será uma das experiências mais agradáveis, eu garanto. Evidentemente, você pode parar por aqui e continuar com a frase pronta “mas a Morte, o Arcano XIII do Tarô, é uma coisa boa, ela traz novidade, ela traz inícios, e os fins que ela representa são de coisas que não nos servem mais.” Inclusive, esse é o ponto de parada de muitos heróis que não superam a experiência do Arcano anterior. 

Hans Sebald Behan

Mas, se você chegou até aqui, talvez tenhamos algo mais para experimentarmos. Algo medonho e atraente que pode ou irá mudar a sua vida. Na Jornada do Herói, enfrentar a Morte face a face é um ponto essencial. Eu chamo aqui três mitos específicos, e seus desdobramentos nos trarão referências do que enfrentaremos.

Porque, bem sabemos, a morte é pessoal e intransferível, como a dor que é capaz de gerar.



O primeiro mito que evoco é o de Kore / Prosérpina / Perséfone, raptada pelo Senhor do Submundo e tornada Rainha do Reino Inferior.



O segundo mito que evoco é o de Orfeu, um dos únicos mortais que tiveram a capacidade de adentrar o Reino Inferior e voltar, vivo.



O terceiro mito que evoco é o da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Talvez o mais brutal dos três. Talvez o mais brutal registro que temos. Porque, convenhamos, essa história é contada há séculos com requintes de crueldade mórbida. 
A passagem do Arcano anterior para o atual não é confortável. 

O Enforcado corresponde também a um fruto que amadureceu na árvore e que precisa cair a fim de gerar nova vida e novos frutos. Esse deixar-se cair é vivido pelo fruto como a morte. Se ele se recusar a cair, ficará pendurado na árvore e ali apodrecerá aos poucos, sem ter gerado nova vida. Mas ele também não pode com isso evitar seu fim; ele apenas ficou estéril. (BANZHAF: 2007, 108) 


Os fatores que norteiam essa passagem são imprevisíveis, como o efeito borboleta. Sabe-se apenas que não são gratuitos: estão encadeados em outros eventos, em outras escolhas, e o passo só foi dado porque o momento foi oportuno, estável para receber a instabilidade da mudança. Nada é inocente. Tudo é baseado nos passos dados anteriormente. 

Como diria Petyr Baelish, a Raposa do Game of Thrones Lenormand:


“O Caos não é um poço. O Caos é uma escada. Muitos que tentam subir por ela falham, e nunca conseguem tentar novamente. A queda os quebra. Alguns recebem a chance de subir. Eles se agarram ao reino, aos deuses, ao amor. Mas apenas a escada é real. A escalada é tudo que existe.”

Nesse passo da jornada, perceba que as informações dadas foram muito mais pinceladas que diretas. Apenas a foice da Ceifeira é direta. Todo o restante é inesperado.
Se você tirou a Morte na posição da Separação, prepare-se para perder. Depois de tanto tempo estável, a instabilidade incomoda, e soa como perda. Mas todo investimento é uma escolha, e a vida exige um novo investimento. Se tirou na posição da Iniciação, dispa-se enquanto é tempo. A Morte leva tudo, menos a vida. Utilize esse trunfo a seu favor. Se tirou na posição do Retorno, prepare-se para se desfazer de algumas coisas - não dá para levar tudo com você. Não mesmo.

Os exercícios propostos e a bibliografia utilizada estão em um arquivo PDF. Para baixar, clique aqui. Caso queira conhecer outras versões dessa carta, clique aqui

quinta-feira, 28 de março de 2013

A Jornada do Louco em sua Autodescoberta: O Enforcado


Olá pessoal. Após apreender a habilidade do Arcano anterior, o Herói se defronta com um teste. Certamente pensará ser um teste final, dadas as dificuldades de superá-lo; contudo, é o primeiro de quatro testes (como, no primeiro arco, tivemos na Sacerdotisa a primeira de quatro habilidades): um teste difícil, moroso. Necessário, porém.


A carta denota surpresa, terror. O horror, o horror, ser pego com a boca na botija. Culpado ou inocente, as circunstâncias não permitem defesas. Armadilhado, é melhor ceder que se defender. Um momento mais apropriado virá, e esse momento não é agora. Chore um pouco, e deixe ir.



Interpretações mais recentes (convenhamos: podemos estender um pouco o conceito de recente para um oráculo com séculos de uso) apontam para o mártir, para o injustiçado, para o que cede voluntariamente sua vontade para uma circunstância maior. Em outras palavras, o herói, metamorfoseado temporariamente em vilão. Todos somos vilões, afinal, dependendo do ponto de vista.


Pescaria no Sri Lanka. Enforcados e enforcamentos. 
Pendurados e arrebatamentos
[de um mundo, a outro]

E, numa metáfora pertinente ao momento, o que é a pesca senão a vivência do Enforcado para um peixe? Sair de um mundo conhecido e confortável para uma experiência desconfortável e assustadora, contra a vontade, sem entender o que acontece, sem motivação alguma (compreensível para ele)? Aprendendo com a metáfora, ser Pendurado nada mais é que sair de um mundo, para o outro, extremamente desconfortável, de ponta cabeça, up is down. Falávamos de peixes em outro arco do Conversas Cartomânticas, um arco literário que nos aproximava do Rei de Copas [parte I e parte II] Isso nos lembra, inclusive, de um conto de fadas bem conhecido, que traz a lição do Enforcado em suas escamas: a pequena sereia.


Waterhouse, "a Mermaid"

Dentro da nossa jornada junto ao Louco, já aprendemos a afastarmo-nos das situações para enxergá-las melhor, a aproximarmo-nos das situações para resolvê-las melhor e a resistirmos às situações quando elas não são do nosso agrado. Agora, aprenderemos a desistir delas. 
Essa é a lição que o conto da Pequena Sereia nos dá: Toda escolha é uma desistência per se. Algo se perde, com certeza, quando existe somente a perspectiva de alcançar o que se almeja. Curiosamente, como podemos apreender do conto, algo é obtido - por vezes, melhor que o desejo inicial.
Desistir não significa perder. Significa optar conscientemente por aquilo que nos parece mais adequado, confortável ou pertinente ao nosso momento, sem garantias. Como quando meditamos: desistimos do mundo exterior em função da paz interior. E aqui também, a escolha consciente permite a passagem sem dor, mas não sem desistência. Upside down.


Contudo, por mais que o Herói possa, parcialmente, evitar a dor desta carta ao aceitar seus eflúvios conscientemente, caminhar entre armadilhas para lobos, caçando flores entre cardos, não fará mais palatáveis os espinhos e menos lacerantes as dores, tampouco mais funcionais suas justificativas. Porque, afinal de contas, só mensura a Dor a quem ela toca, e só se conhece a Dor quando por ela se é tocado (uma lição que Sidarta Gautama aprendeu depois de homem feito). A dor do outro será sempre incomensurável, ainda que plenamente inteligível (para quem já foi tocado por ela pelo menos uma vez). E ter (ou pedir) desculpas não nos faz menos culpados. E perdoar ou desculpar não nos faz mais santos. Observar o Enforcado de longe não torna sua experiência mais doce. Vivenciá-lo conscientemente, contudo, ameniza os hematomas.
Se você tirou essa carta na posição de Separação, sugiro que você leia a história de Sidarta Gautama até o ponto em que ele foge do palácio. Algo ali vai lhe tocar sinestesicamente, confie em mim. Se você tirou essa carta na posição da Iniciação, suas dores atuais vêm com código de barras. E está na hora de ler, para entender o fio condutor dos mais recentes eventos. Se você tirou essa carta na posição do Retorno, está na hora de deixar para trás as justificativas e arrependimentos. Escolhas são escolhas. Seus passos lhe trouxeram até aqui. Eles levarão você a partir de agora para onde você desejar.
Os exercícios propostos e a bibliografia utilizada estão em um arquivo PDF. Para baixar, clique aquiPara outras imagens desse Arcano, clique aqui

quinta-feira, 14 de março de 2013

A Jornada do Louco em sua Autodescoberta: A Força.


Olá pessoal. Chegamos à metade (numericamente falando) da viagem do Louco. O Herói não tem mais como voltar, mas ainda não sabe até onde poderá ir e, mais que isso, ele não sabe o que vai encontrar.
E, no Arcano de hoje, o herói, após aprender a afastar-se e aproximar-se dos eventos, melhorando sua ótica sobre os mesmos, aprenderá a diferença, finalmente, entre fora e dentro. Entre eu e não eu. De uma forma belicosa. Através do enfrentamento.
A Força, Firmeza ou Fortaleza é uma virtude. Torna-nos inabaláveis. Não porque nos defende, mas porque, após adquirirmos sua dádiva pelo esforço, nada poderá ser tão forte quanto o prévio processo para obtê-la.
A Força é uma das cartas que mais sofreram modificações atributivas na sua representação. E isso aponta para uma série de experiências possíveis para o herói nesse momento.



Em uma conversa no Facebook, Fábio Donaire me presenteou com essa pérola de sabedoria iconográfica:
É engraçado como a boca do leão, nos baralhos tradicionais, fica exatamente na região da vagina de uma mulher aparentemente velha, frígida, casta. Uma mulher com tantas roupas e que é mais sexualizada que a mulher nua abaixo da estrela. Uma boca aberta, como se o centro da vontade estivesse submetido ao desejo do coração e à razão. A mão que abre a parte superior da boca do leão está na altura do coração. E é só na Força que o chapéu do conhecimento mágico reaparece. O leão está obviamente entre as pernas da mulher, como se ela o prensasse. Ele sai do seu manto, que cobre-lhe a parte traseira. Como se quisesse esconder uma parte dos instintos que precisa se manter no inconsciente. A parte que emerge, emerge controlada. Mas faminta.
A Força é uma Virtude, e, como tal, oferece ao Herói um novo subsídio na jornada. E esse subsídio pode ser chamado contemporaneamente de resiliência. O termo
é utilizado no mundo dos negócios para caracterizar pessoas que têm a capacidade de retornar ao seu equilíbrio emocional após sofrer grandes pressões ou estresse, ou seja, são dotadas de habilidades que lhes permitem lidar com problemas sob pressão ou estresse mantendo o equilíbrio. (Fonte)

E aqui temos uma nova habilidade emergindo para a jornada, que será fundamental no enfrentamento dos próximos passos. Contudo, como bem o Fábio ressaltou, ela emerge faminta.


Giane Portal encarnando a Força.
Beauty and the Beast.
Existe perigo em seus olhos.
Em todos eles.

Se você tirou essa carta na posição da Separação, o confronto que você vivenciou ou está vivenciando nesse momento é fundamental para a guinada que sua vida irá dar nos próximos meses (ainda que, normalmente, isso ocorra em semanas). Se você tirou essa carta na posição da Iniciação, a sua Fera interior despertou. Você não consegue mais manter o mesmo comportamento diante de questões que, por pura etiqueta, você deixava passar. Para avançar, será preciso abrir caminho. Se você tirou essa carta na posição do Retorno, não adianta usar de etiqueta agora. Não existem desculpas cabíveis. Ou há paixão... ou não há. 

Os exercícios propostos e a bibliografia utilizada estão em um arquivo PDF. Para baixar, clique aqui. Caso queira conhecer outras versões dessa carta (e, em relação à Força, recomendo veementemente que você faça isso - todas as atribuições são importantes e, na maior parte das vezes, exclusivas...), clique aqui.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A Aventura do Louco em sua Autodescoberta: A Roda da Fortuna.


Existe uma questão nas cartas do Tarô que, por vezes, nos esquecemos. Sempre que aprendemos a lição da predecessora, temos uma lição tão desafiante quanto na carta que a sucede, que não necessariamente utilizará a habilidade da carta que a precedeu, senão por contraponto. Isso fica muito claro quando nos deparamos da passagem do Arcano IX para o Arcano X, sobretudo pela ótica da Jornada do Herói.
Lembra-se que, no Arcano anterior, o Herói foi convidado a colocar-se fora dos eventos, os observando em detalhe? Essa lição foi essencial naquele momento de afastamento e aceitação da própria culpa e responsabilidade. Mas, ao colocar-se fora e aprender a lição do Eremita, o Herói é colocado na periferia de uma estrutura para além de suas forças e entendimento.

Roda da Fortuna
Ancient Italian

Aí, a coisa fica feia. A Roda da Fortuna tem em sua periferia todos os possíveis pontos em uma aventura: chamado, clímax, resolução, término. Mas tem algo que devemos nos ater, com grande prestimosidade na interpretação do símbolo: existe um personagem para girar a Roda, mesmo que ele não esteja representado figurativamente. A Roda não gira sozinha.


A Roda nos mostra que a vida é "um processo de mistério e assombro em permanente transformação" (DICKERMAN: 1994, 145). Mas esse processo tem um guia. Seja ele a face do Deus único,  Hermes, as Parcas, não importa. Após o processo de isolamento do Eremita, descobrimos que existe uma força que atua nas circunstâncias a despeito dos atores. E seu nome é Fortuna. Se não nome, epíteto. Um dos Sagrados Nomes.


Não adianta querer, nesse momento da viagem, entender a personagem. Aqui, nos cabe obedecer - haverá um outro momento para conversarmos com ela. Nesse momento, aprendemos seus passos através dos seus atos. 


Como, anteriormente, o Herói, como Eremita, colocou-se na periferia, para observar os eventos, aqui ele se encontra em grande movimento. É na periferia que as coisas acontecem, sem controle. Nesse passo, um personagem ordinário se manteria agarrado à periferia, reagindo aos eventos; o Herói age. E vai em direção ao centro, onde tudo é possível, nada é imposto.
E, como um geógrafo, do centro ele é capaz de mapear aquilo que deve ser feito, traçando a sua estratégia para o próximo ciclo. Tarefa imprescindível para enfrentarmos o próximo desafio, proposto pelo Arcano XI.
Repare que, até então, essa foi a postagem com mais imagens. A Roda da Fortuna é mais compreensível como imagem do que como texto.
Assim como um mapa.

Se você tirou essa carta na posição da Separação, atente-se para o que ao seu redor está de pernas para o ar. Não é por acaso. Existe algo de deliberado aí, para que você caminhe melhor com suas próprias pernas... daqui a algum tempo. Se você tirou essa carta na posição da Iniciação, está na hora de mapear as circunstâncias atuais da sua vida. Quais planos devem ser abandonados? Quais planos estão fadados ao sucesso? E quais ainda não são previsíveis? Se você tirou essa carta na posição de Retorno, que dádivas você hauriu de diferenciar-se do todo? Quando foi que você sentiu paz, mesmo em conflito? É hora de oferecer um pouco de lucidez a uma situação mal resolvida.

Os exercícios propostos e a bibliografia utilizada estão em um arquivo PDF. Para baixar, clique aqui. Caso queira conhecer outras versões dessa carta, clique aqui
E aqui, um vídeo muito legal sobre a Jornada do Herói. Vale a pena ver.
Até o próximo Arcano.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A Aventura do Herói em sua Autodescoberta: O Eremita.


Olá pessoal. Vamos agora dar mais um passo na caminhada do Herói. 
Só que esse passo é para trás.

Eremita
Ancient Italian

Um eremita é um indivíduo que, usualmente por penitência, religiosidade, misantropia ou simples amor à natureza, vive em lugar deserto, isolado. O Eremita do Tarô tem dessas coisas. Ele é péssimo para ensinar, exceto pelo exemplo, e péssimo para aprender, exceto pela experiência. E não, ele não procura companhia.


O Eremita precisa experimentar. Nesse passo, o Herói está normalmente sozinho. Ou busca a solidão. Ou foge. Não importa como; ele irá se deparar com a necessidade de pensar com sua própria cabeça. Caminhar com seus próprios pés. No Arcano anterior, dispusemo-nos a julgar a nós mesmos. Aqui, assumimos a nossa culpa.
A culpa é uma das facetas da responsabilidade. Mas, enquanto podemos oferecer responsabilidades para os outros e seguirmos nossas vidas sem maiores problemas, só podemos assumir culpas. Outorgar culpas é sinônimo de problemas. Durante um certo tempo, soa convincente dizer que você não está no melhor dos seus dias devido a alguém. Mas, depois de um tempo... Não, você não está bem porque você não quer.
E a experiência do Eremita virá, de um jeito ou de outro. Ou porque você se isola, ou porque é isolado. Ninguém gosta de reclamações o tempo todo. Ninguém tem tempo para consolar os outros o tempo todo. Ninguém tem disposição para isso... A menos que esconda algo pior para si.
Porém, ao reconhecer a própria culpa, a própria parcela de responsabilidade sem desculpas, o Herói mergulha no silêncio. Não há ninguém a culpar. Não há ninguém a recorrer. E, nesse momento, e por um momento, se é completamente livre, para além da vida e da morte.
Reparemos nos elementos do Eremita: o manto, o cajado, a lanterna (ou a ampulheta, conforme alguns baralhos históricos): todos são elementos externos, que pouco ou nada tem a ver com o interior do Eremita, senão como auxiliares. São suas pernas que caminham, com o auxílio do bastão; são seus olhos que veem, com o auxílio da lanterna; é seu desejo passar incólume, com o auxílio do manto.
A lanterna, o manto, o bastão, estão fora como a Verdade - que só é descoberta e entendida com o distanciamento.
Se você tirou essa carta na posição da Separação, se sentir diferente não te faz diferente. Veja ao seu redor o que tem ocorrido para que você sinta o afastamento. Não é agradável, mas trago amargo também cura. Se você tirou na posição da Iniciação, veja como você chegou ao estado em que está. E assuma sua culpa. Foram seus passos que te trouxeram até aqui. Se você tirou essa carta na posição do Retorno, saiba que você já aprendeu - e muito! - com a experimentação. Que tal oferecer ao mundo seus dons?

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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A Jornada do Louco em sua Autodescoberta: A Justiça.


O Herói passou pelo primeiro portal. Ele firmou as pernas e é agora um homem. Ou, pelo menos, pensa que é  - e é bom que pense, mesmo. E agora ele defronta com os aspectos mais elevados daquilo que costumeiramente foi chamado de “certo” e sua contraparte, o “errado”.

Se pararmos para pensar um pouco, é como se ele retornasse, numa espiral ascendente, à experiência do sexto Arcano. Lá, ele pôde escolher. Aqui, forçosamente ele tem que escolher o correto. Lá, ele teve o apoio do anjo flecheiro. Aqui, ele só tem o peso do próprio coração, a terra de ninguém onde deuses e homens se calam num deserto sem fim. A casca do coração é sentimento, mas seu interior é oco – só assim é capaz de conter sangue e amor. Nos Enamorados, o Herói conheceu a casca; na Justiça, ele conhece o Vazio. Esse Vazio vai ser visto novamente, mais à frente, mas é confortável que a priori ele seja razoavelmente humano.

Justiça
Ancient Italian

Esse silêncio da sala da Justiça – sim, ela está em uma sala – é aterrador. Ele já conheceu as paredes seguras do templo da Sacerdotisa, onde a escuridão lunar era confortável como útero de mãe. Aqui, ao contrário, ele se vê diante do frio, do impessoal e do irredutível apelo da sua própria consciência (sugiro a leitura de William Wilson, para maior aproveitamento desse momento da jornada).
A Justiça é a única carta que consegue sustentar sem esforço a Espada. Existe um motivo para isso: ela não é humana, no sentido estrito da palavra. Ela é causa e resultado de ações humanas, mas está para além de todas elas. E, por isso, o medo e o frio da sala da Justiça apontam para uma virtude a ser desenvolvida. A elaboração de projetos e metas. A resiliência. Antever os obstáculos e perseverar em busca dos resultados. A Justiça é atemporal, mas o que ela pesa está em uma relação de tempo e espaço. Só porque ela está fora não indica que ela não participe (ativamente, inclusive).
A Justiça é a primeira virtude Cardeal de quatro que encontrar-se-ão na Jornada. Ela é a primeira porque ela é a visão de todas as outras. Sem enxergar com os olhos certos, é impossível encontrar as demais. Sua aparente intangibilidade se deve ao fato de que, embora seja uma experiência própria da espécie humana, é individual e intransferível a sua aplicação. Ainda que, num jogo de aproximação e afastamento, seus resultados escapem aos dedos de quem julgava lhe controlar.
A Justiça porta uma espada e uma balança. A espada “destina-se a eliminar a ignorância, a autocomiseração e todas as outras ilusões a respeito da vida. Isso propicia uma visão mais clara de nós mesmos.” A balança “representa a nossa capacidade de avaliar as experiências quando deparamos com elas, compreendendo claramente seu lugar na ordem das coisas.” (DICKERMAN: 1994, 167)
Lembremo-nos que só se pode julgar uma pessoa emancipada. Uma criança, uma pessoa fora do seu juízo normal, não pode ser julgada. Ou seja: aqui o Louco despe sua última capa. Ele não é mais criança e não é mais irracional. Ele está pronto para ser julgado. 
As férias acabaram faz tempo, mas é aqui que percebemos isso.
Se você tirou a Justiça como carta de Separação, acho melhor você ouvir a música "Não vou me adaptar" e perceber como ela tem escrito a sua história. Não está na hora de uma nova trilha sonora? Se você tirou essa carta como Iniciação, está na hora de se tocar de suas responsabilidades. Ser adulto tem lá as suas vantagens. Ser honesto também. Ser verdadeiro, mais ainda. E nenhum desses estados de ser é fácil, mas o que seria de nós sem desafios? Se você tirou essa carta de Retorno, é momento de você colher os frutos que plantou. Causa e efeito, por vezes nos esquecemos que é uma lei, não uma opção. 
Os exercícios propostos e a bibliografia utilizada estão em um arquivo PDF. Para baixar, clique aqui. Caso queira conhecer outras versões dessa carta, clique aqui.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A Jornada do Louco em sua Autodescoberta: Os Enamorados.




Olá pessoal. Curiosa e sincronicamente, o último passo da caminhada do Louco rumo a sua autodescoberta neste ano é justamente o Arcano regente do ano vindouro. Ou seja, temos aqui uma dica, um sussurro, um toque casual que nos lembra do que enfrentaremos nesses dias que virão.

Você confia que a Deusa Athena o afagará para sempre?

Até o momento, terminamos a aprendizagem com os quatro sábios. Será mesmo? Aqui, o Herói tem a tentação de parar, porque já está bom. Ou porque há tanto ainda a aprender com os Mestres... Ou por uma preguiça disfarçada de humildade que diz que, quando o Mestre quiser, ele dará um sinal e assim saber-se-á que a hora chegou. 
Sinto dizer. Tudo isso muito longe da verdade.
Nesse caminho ainda temos sangue e sêmen a jorrar.

Enamorados
Ancient Italian

A carta dos Enamorados está entre as cartas do Tarô com maior número de representações diferentes, e em todas o tema amor está em evidência. Mas, como enquadrar o amor no Caminho do Herói? Não temos, em português, palavras definidoras do amor como em grego. Temos adjetivantes, mas partem do mesmo amor. Do mesmo conceito.
Da mesma forma, essa carta representa escolhas. Caminhos a se seguir, ou não. Uma perspectiva para essa análise deu-se pelo fato do jovem estar entre duas mulheres. Lembra-se que eu disse que o Hierofante prepararia um caminho que seria trilhado nas duas cartas seguintes? Começamos a ver isso delinear-se aqui. Se outrora o Hierofante ocupava papel preponderante entre os dois noviços, aqui o homem é equalizado às duas mulheres. Ele não vê de forma clara suas motivações, tendo que ouvir uma e outra para fazer sua escolha, ou, em outra análise, sendo guiada por uma em direção à outra.
Portanto, nesse momento da caminhada, o Herói perde o senso de referência analítico proposto pelo Hierofante. Só pode contar com os instintos, com o pulsar do coração, com o resfolegar da respiração. Só pode contar com o fato de que está vivo.
E, estando vivo, qualquer coisa é possível.
Há quem considere, portanto, esse o primeiro passo da aventura. Na verdade, esse é o encerramento da primeira etapa, a preparação. O Herói nunca estará pronto na verdade; pronto ele só estará quando ver o sucesso, o encerramento. Estar pronto é quase como dizer que ele conhece o fim da jornada. Ele se prepara para o Desconhecido, e o Desconhecido é sempre uma surpresa.
Por isso é bom conhecer o máximo de probabilidades possível, um leque de referências, mas não se ater a elas senão como adendos à própria capacidade. Aqui, tomado de terror, o Herói descobre que ele só pode contar consigo mesmo, já que ninguém, nesse mundo ou no outro, pode fazer qualquer escolha ou tomar qualquer atitude em seu lugar sem levar toda a aventura à derrocada.
Eu não disse que a parte divertida começava agora?
Se os Enamorados saíram na posição da Separação, está na hora de você sair da sua zona de conforto. Esqueça o que você já fez, esqueça as justificativas, esqueça as desculpas. E comprometa-se com o seu futuro, o passado está perfeito e polido demais, não precisa mais dos seus préstimos. Se saiu na posição da Iniciação, o momento é agora. Pelo quê seu coração pulsa mais forte? O que tira seu ar? Como foi que você reencontrou seu motivo para viver? Responda e aja, sem pensar muito – você já pensou o suficiente. Se essa carta saiu na posição do Retorno, sim, você fez o suficiente. Mas o que resultou dessa suficiência? Está na hora de abraçar apenas o essencial. Onde está o seu coração, está o seu tesouro.
Os exercícios propostos e a bibliografia utilizada estão em um arquivo PDF. Para baixar, clique aqui. Caso queira conhecer outras versões dessa carta, clique aqui.
Abraços a todos, até o próximo passo. Espero que vocês tomem a decisão correta. Ou ao menos, enfrentem o seu Destino, de peito aberto. Ou talvez, simplesmente deem outro passo, sem a menor certeza do que virá – tudo é válido nesse momento.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A Jornada do Louco em sua autodescoberta: O Hierofante.


Olá pessoal. Encontramo-nos hoje com o quarto e último sábio desse momento da jornada. O Hierofante rege nossa interação com os outros. Se, na Sacerdotisa, aprendemos a lidar com nosso mundo interno, na Imperatriz com o mundo externo e no Imperador com os limites, no Hierofante aprendemos a lidar com as possibilidades. O Pontífice – feitor de pontes – nos ensina a criar caminhos entre os nossos limites e os limites do outro. Através de diálogos somos capazes de ir além do nosso mundinho.




Se na lição anterior o herói aprendeu a lidar com os seus limites, aqui, no Hierofante, ele aprende a lidar com os limites dos outros através da comunicação sincera.

Todos nós, em algum momento da vida, nos deparamos com a chamada “comunicação sem palavras”. É aquele entendimento que transcende explicações. Também, em algum momento, nos deparamos com a sensação de pertencimento, como se, desde sempre, estivéssemos em contato com um lugar, com uma pessoa, com uma situação ou serviço, com um grupo. Na verdade, ansiamos por isso – todos aqueles testes de “qual é o signo que combina com o seu”, “qual é seu número pessoal”, “qual é seu arcano pessoal” e afins nos levam à mesma conclusão: em nossa individualidade, precisamos nos encaixar em alguma categoria.
A carta do Hierofante também é um umbral de uma nova parte da aventura, que se liga às duas cartas seguintes. É a primeira carta da sequência numérica que possui mais de um personagem.Os dois noviços à sua frente tem sido interpretados de diferentes maneiras, de acordo com a linha tarológica que se propõe. Como aqui se propõe utilizar os baralhos inspirados em Marseille, são dois noviços. Depois de encontrarmos o limite do nosso universo pessoal no Imperador, somos convidados a entender os limites dos universos daqueles que nos rodeiam, estejam ou não no mesmo nível que nós.
O risco que corremos nessa etapa, contudo, é o mais perigoso entre os quatro sábios. Na Sacerdotisa, corríamos o risco de dedicarmo-nos integralmente às nossas emoções; na Imperatriz, o mesmo risco em relação às sensações; no Imperador, o risco de temermos por perder o espaço conquistado, vivendo uma eterna defesa de fronteiras; mas, no Hierofante, o risco é de acreditar que a aventura está completa por termos apreendido algum sentido para ela.
Nada mais longe da verdade. Agora que a parte divertida começa. 
Se o Hierofante sair na posição de Separação, é hora de conhecer seu potencial como um todo. Lembre-se, você é fruto de uma linhagem hereditária, que formou o seu DNA e o seu caráter. Quem é você frente à isso? Se o Hierofante sair na posição de Iniciação, é hora de você começar a por em prática aquilo que já conhece na teoria. É muito bacana conhecer coisas, mas saber como usá-las são outros quinhentos. A aventura o desafia a colocar em prática a teoria que tanto lhe é familiar. Por outro lado, se o Hierofante sair na posição de Retorno, o que você aprendeu na viagem que considera essencial? Reveja os seus conceitos. Ainda há muito o que aprender.
Os exercícios propostos e a bibliografia utilizada estão em um arquivo PDF. Para baixar, clique aqui. Caso queira conhecer outras versões dessa carta, clique aqui.
Abraços a todos, até o próximo passo.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A Jornada do Louco em sua Autodescoberta: O Imperador



Olá pessoal. Encontramo-nos com o terceiro dos quatro sábios da iniciação. O Imperador rege a praticidade e a lógica por trás de nossas ações. Até o momento, nos deparamos com qualidades receptivas, denotativas de nossa ação no ambiente. Com o Imperador somos convidados a sairmos do nosso “mundinho” e, mais que isso, gerarmos modificações no mundo dos outros. Estivemos até o momento receptivos às informações hauridas de sentimentos e sensações; agora, confiemos em nosso espírito combativo e empenhemo-nos em fazer valer nossa Vontade.


A nossa vontade é soberana. Acredite se quiser.
(...)fazemos nossas próprias leis, definimos as nossas realidades e depois nos vemos agindo dentro das restrições das nossas interpretações da realidade. (DICKERMAN, 78)
O Imperador é o senhor dos limites. E, interpretando corretamente essa frase, percebemos o universo de possibilidades que existem em um único limite. Somos treinados o tempo todo a superar os obstáculos, e é essa energia, esse momento do Caminho do Herói que nos norteia. Aqui, o Herói descobre que ele, a exemplo dos seus antepassados, consegue manter os limites descobertos anteriormente e os faz valer. Nessa carta, obtém-se a segurança de que, ainda que existam reinos a serem descobertos, o reino do Eu está em regularidade e segurança.
Se você tirou o Imperador na posição da separação, está na hora de enfrentar a escolha de ser independente, ainda que a bagagem que conseguiu o deixe à vontade em parar. Não é momento de obedecer, mas de servir – e aqui fica a reflexão entre a diferença entre uma coisa e outra. Se o Imperador saiu na posição da iniciação, está na hora de você manter. Ainda que seja conveniente encontrar novos rumos e inícios, ainda que sejamos o tempo todo bombardeados pelo novo, a segurança do que já se tem é o tema da questão. Agradeça. Se você tirou o Imperador na posição do retorno, a quem é que você deve uma explicação? Quem está te sentindo inconstante? O que foi que você construiu e deve se orgulhar?
Os exercícios propostos e a bibliografia utilizada estão em um arquivo PDF. Para baixar, clique aqui. Caso queira conhecer outras versões dessa carta, clique aqui.
Abraços a todos, até o próximo passo.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A Jornada do Louco em sua Autodescoberta: A Imperatriz


Olá pessoal. Seguindo com nossa série, vamos hoje nos encontrar com o segundo momento de sabedoria dentro da iniciação: as sensações. O corpo, a forma, o limite, a possibilidade, a fertilidade, o crescimento, a expansão dos limites pessoais - todos aspectos da Imperatriz.

Imperatriz
Ancient Italian

Após lidarmos com os sentimentos (e aí? Como foi passar esses quinze dias pensando sobre seus sentimentos?), deparamo-nos agora com as sensações. Quando descobre-se individual e intransferível a partir dos próprios sentimentos, o Herói para a descobrir também os seus limites corporais. O plano dito real passa a fazer sentido. Nossas necessidades biológicas passam a ter um interesse especial, porque são elas que nos dão gás para motivarmo-nos a modificar o espaço que nos cerca. De nada adianta sentir algo sem ser capaz de realizar algo. Saímos do mundo dos sonhos e passamos para o mundo dos projetos. Da mesma forma que com a Sacerdotisa, sugiro que, nesses quinze dias que nos separam da próxima postagem, você reflita sobre seu corpo, sua saúde, seus projetos e o caminho para realizá-los. A Imperatriz é a carta que representa a imaginação criativa, ou seja, a imaginação que traz ao mundo cotidiano seus influxos de forma palpável.
Este Arcano encarna a imagem arquetípica da mãe. Da mãe terrena, mesmo, que tem defeitos mas ainda assim é a melhor mãe do mundo. Como é sua relação com sua mãe? Tem sido boa nos mais recentes seis meses? Você sente falta de algo?
Se você é mãe, como é sua relação com seus filhos? Você dá a eles estrutura para que eles elaborem seus próprios saltos, suas próprias iniciativas? 
Se você tirou a Imperatriz na posição da separação, está na hora de você rever seus parâmetros de qualidade de vida. O que está faltando para que você atinja a plenitude? Se a Imperatriz saiu na posição de iniciação, o que é que vem desafiando você no plano material? Um novo emprego, um novo estudo, uma mudança de residência... o que pede nesse momento toda a sua criatividade para superar? Se, por outro lado, a Imperatriz saiu na posição de retorno, está na hora de você oferecer sua sabedoria no plano material para algo ou alguém, seja auxiliando uma causa nobre, seja dando mais atenção ao seus filhos e familiares.
Os exercícios propostos e a bibliografia utilizada estão em um arquivo PDF. Para baixar, clique aqui. Para conhecer outras versões dessa carta, clique aqui

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A Jornada do Louco em sua Autodescoberta: A Sacerdotisa.


Olá, pessoal. Passamos à segunda etapa da nossa jornada, a iniciação. Encontraremos os quatro sábios do primeiro setenário: A Sacerdotisa, a Imperatriz, o Imperador e o Hierofante. Cada um deles rege um dos quatro elementos e uma experiência específica, dentro dessa jornada. 

Sacerdotisa
Ancient Italian

A Sacerdotisa oferece-nos a oportunidade de entendermos o mundo relativo aos sentimentos. Então, para além da experiência dos exercícios propostos, sugiro que você se atenha aos seus sentimentos nesses quinze dias que nos separam da experiência seguinte. 
O herói, em seu caminho para a Totalidade e para a realização da sua tarefa, tende a aprender a lidar com os quatro elementos - que observou com curiosidade sobre a mesa do Mago, ainda que não tenha tido habilidade para lidar com eles. 
O primeiro plano com o qual o Herói da Jornada tarológica se depara é o emocional. As emoções são nossa diferenciação do mundo. Só podemos sentir o que corresponde às emoções individuais, ou por compaixão, aproximarmo-nos da experiência dos outros. Mas sempre através de um crivo pessoal. Somos protagonistas de nossas próprias histórias. Somos indissociavelmente individuais. Esse mundo é bem conhecido e frequentado por poetas e artistas em geral, aqueles que, a partir da experiência do todo, fazem sua parte pelo mundo.
Ler o livro/pergaminho da Sacerdotisa é como ler seu próprio diário ou perscrutar um espelho. É reconhecer-se como protagonista, atender ao chamado, reconhecer seu potencial de forma crítica, e, evidentemente, observar as modificações que a passagem do tempo causaram em você. 
Se você tirou a Sacerdotisa na posição de Separação, é importante questionar como seus sentimentos estão, de fato. Você ainda consegue ouvir a voz interior ou ela já se calou há muito tempo? Você tem medo de experiências extra-sensoriais? Se você tirou a Sacerdotisa na posição de Iniciação, a sua Voz Interior está pedindo para ser ouvida, através de estímulos externos cada vez mais audíveis, podendo ser confundida com sincronicidades. Se a Sacerdotisa sair na posição de Retorno, você recuperou uma parte da sua individualidade, da sua identidade. Não perca isso novamente.
Os exercícios propostos e a bibliografia utilizada estão em um arquivo PDF. Para baixar, clique aqui. Caso queira conhecer outras versões dessa carta, clique aqui


Caso você se identifique com o baralho Waite Smith, sugiro que leia meu texto sobre a Sacerdotisa, aqui.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A Jornada do Louco em sua autodescoberta: o Mago


Olá pessoal. Defrontamo-nos agora com o Mago, nessa etapa do nascimento. Você reconhece suas habilidades e competências, reconhece suas possibilidades e áreas de atuação. Trocamos a vontade pela Vontade, o desejo pelo Desejo. Agora sim, o incômodo frente ao comum, cotidiano, pode ganhar forma em algo plenamente realizável – ainda que a realização não seja imediata. 

O Mago faz milagres diante da ignorância e da escuridão.

Alexandra Collins Dickerman
Mago
Ancient Italian

O Mago e o Louco se intercambiam como o herói da aventura. Tanto que alguns baralhos não têm o Louco como Zero ou Sem Número, mas sim como 22 – ele encerra o que o Mago começa. São cartas inversamente proporcionais, plenamente complementares. O Mago é a consciência da necessidade de mudança, frente o incômodo modificador proposto pelo Louco. O Mago sabe quem é, mas pode ser muito mais que isso.

Nesse momento, o que você quer de fato? Raramente pensamos em nossas vontades. É mais fácil pensarmos nos problemas a resolver, nas contas a pagar, na estabilidade (ou ausência dela). Mas o que você quer da vida? Se isso for muito tempo, o que você quer dos próximos três meses? O que você quer deste ano?
Querer. Um dos verbos mágicos, assim como saber, ousar, calar. Como as palavras têm (de fato) poder, o que é que você quer manifestar imediatamente? 
Em outro momento, em outra carta, teremos a oportunidade de filtrar essas vontades. Mas não agora. Para dar um passo, é necessário querer dar um passo, antes de qualquer outra coisa.
Lembre-se do Louco e do incômodo dessa primeira vontade. E agora, foque na meta. Ainda temos muito pela frente, mas a discriminação é necessária. Podemos tudo, mas não tudo ao mesmo tempo. E tem coisas que, mesmo podendo, não queremos – não correspondem a quem somos, nem ao que queremos ser. Conhecer-se é ter a completa noção do próprio desejo.
Se o Mago saiu para você na posição de separação, será mesmo que você está trilhando um caminho por escolha própria... ou por força das circunstâncias? Aonde foi que você deixou seu poder de decisão? Quais foram os passos que te trouxeram até aqui? Quando foi sua mais recente paixão? Qual seria o seu desejo, se você não precisasse cumprir suas obrigações? Se o Mago saiu na posição de iniciação, pense se a situação em que você está não está cômoda o suficiente para que você possa tentar ampliar seus horizontes. Você não precisa abandonar nada, está tudo com você. Pense se não está na hora de comunicar os seus desejos ou tirar o livro da gaveta. Se o Mago saiu na posição de retorno, quem é mesmo você? Quais foram as habilidades que você desenvolveu para ser adjetivado com os dons que possui? Não está na hora de oferecer seus dons ao mundo, não?
Os exercícios propostos e a bibliografia utilizada estão em um arquivo PDF. Para baixar, clique aqui. Caso queira conhecer outras versões dessa carta, clique aqui.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

A Jornada do Louco em sua autodescoberta: O Chamado


Olá pessoal. Começamos agora nossa jornada. Primeiro passo: o nascimento. Você desperta para a necessidade que advém do novo. Já é pressuposto desafios e dificuldades nesse momento. 


O Louco é mais que o herói da aventura. Talvez por seu papel trickster entre os Maiores, é tido como o protagonista da história. Mas é muito temerário acreditar que ele atravessa a viagem incólume. Ele amadurece a cada passo e, sem deixar de ser quem é, já não é mais o mesmo. Poderíamos o tomar por permeável às influências das demais cartas/passos. Mas ele representa, talvez mais que o próprio personagem, um evento. O Chamado.
Por mais confortável que seja a situação em que se encontra agora, quando o chamado é recebido nada é mais como antes. Não adianta tentar se esconder na rotina, sobre a pena de trair a si mesmo. 
Pense no que você precisa agora. Qual é o passo que você quer dar, agora. 
Se o Louco saiu para você na posição de separação, pense se não está na hora de empreender um novo caminho, uma nova tarefa, um novo passo, uma viagem. Como essa é uma situação que lhe "empurra", pode ser que você seja motivado por algo ou alguém do seu círculo. Esteja atento aos sinais e feedbacks. Se o Louco saiu na posição de iniciação, verifique se não está na hora do salto para o qual vem se preparando (e protelando) já há algum tempo. Não dá para ensaiar e adiar para sempre. E lembre-se que o improviso também é habilidade e arte, como ensaio. Nem sempre dá certo, mas quando dá certo - e quando se trata d'O Louco, a chance é grande - o improviso surpreende plateia e ator. Se o Louco sai na posição de retorno, pense no que é de fato essencial nesse momento. O que é que você pode ofertar ao mundo? Uma flor, um sorriso, um abraço? Ninguém, ninguém pode fazer o que você faz. Mesmo que seja o mesmo gesto, não é você. Você é único e precisa se lembrar disso.
Os exercícios propostos e a bibliografia utilizada estão em um arquivo PDF. Para baixar, clique aqui. Caso queira conhecer outras versões dessa carta, clique aqui.

Sem mais delongas, os participantes da promoção foram (em ordem de comentário válido na postagem precedente):

1.  Christiane
2.  Iony
3.  Lindsay
4.  Claudia
5.  Edy
6.  Flávio
7.  Michele
8.  Lilian
9.  Osvaldo
10. Silvia
11. Rhadra
12. Piter
13. Marcia
14. Rachel
15. Jacqueline
16. Paty
17. Gabriel
18. Márcio
19. Michele Serinolli

E o vencedor da promoção é...



Gabriel! Parabéns! Entrarei em contato pelo e-mail cadastrado e providenciarei o envio do seu presente. 
Abraços a todos, e continuemos nossa jornada!

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A Jornada do Louco em sua autodescoberta: Uma vivência com os 22 Arcanos Maiores do Tarô


Olá pessoal. Vamos viver, em 24 postagens quinzenais, cada um dos Arcanos do Tarô? Eu disse viver, não estudar. Viver. O aprendizado das cartas passa por diversos níveis, sendo que a absorção das imagens arquetípicas, através de vivências e do estudo sistemático de seus atributos, é o mais seguro e corrente. Demanda um tempo, e muitos jogos, inumeráveis, para começarmos a dançar seguros os passos desse bailado - embaralhar, cortar, interpretar, aconselhar. Mas, na nossa experiência pessoal, temos a oportunidade de um quinto passo: o vivenciar. E é esse quinto passo que dançarei com vocês. 
Kelma Mazziero, sincronicamente, postou a seguinte colocação:

É totalmente possível perceber a carta que se vivencia durante um período ou fase de vida. Basta estar conectado e devidamente informado. Daí a minha postura um tanto reticente quanto a jogar Tarô para tudo ou qualquer coisa. Chega um dado momento, é de bom tom conseguir perceber os sinais, além de estar atento aos acontecimentos em busca de associações. É, inclusive, uma maneira saudável de entender melhor uma carta e aprofundar suas características, já que sentir na pele ensina mais do que qualquer elucubração (já diria Shakespeare: "todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente").
Existem diversas formas de vivenciarmos os Arcanos. A meditação talvez seja a mais corrente. Diversos métodos se delineiam para isso. Nesta proposta, experimentaremos, nas próximas quinzenas, cada um dos Arcanos Maiores do Tarô, dentro do contexto da Jornada do Herói.
A Jornada do Herói (ou monomito) é um roteiro reconhecível em praticamente todos os mitos que conhecemos. Talvez por isso, seja mais fácil para nós vivenciarmos seus aspectos: temos as referências de todos os heróis que nos precederam. Sua estrutura básica é composta por três elementos: separação-iniciação-retorno.
Conforme Joseph Campbell:
Um herói vindo do mundo cotidiano se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes. (CAMPBELL: 1988, 36)

Para começarmos essa vivência, sugiro o seguinte experimento: embaralhe os Arcanos Maiores do seu baralho. Retire três cartas: Uma para a separação (qual é a situação da sua vida cotidiana que lhe empurra para o novo, o que deve ser modificado pela sua ação individual?); uma para a iniciação (qual é o processo desafiador que você encontrará pelo caminho? Qual é o dom que será desperto? O que deve ser trabalhado unicamente por você?) e uma para o retorno (Qual será sua oferta ao mundo ao fim da jornada?
À medida em que formos vivenciando cada um dos Arcanos, aqueles que lhe tocaram nesse experimento dialogarão diretamente com a sua experiência do momento da jornada. Você está pronto para isso?
Para acompanhar bem essa série, sugiro que adquira um diário. Anote suas impressões e expressões - ao fim da jornada, terá um relato fiel dos seus próprios passos.
A bibliografia axial da vivência é composta por quatro livros, que recomendo veementemente a aquisição:

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1988. 
DICKERMAN, Alexandra Collins. A aventura da autodescoberta: Usando os símbolos do Tarô, os mitos e as imagens que revelam a sua vida interior. São Paulo: Cultrix, 1994.
NICHOLS, Sallie. Jung e o tarô: uma jornada arquetípica. São Paulo: Cultrix, 2000.
BANZHAF, Hajo. O Tarô e a Viagem do Herói: A chave mitológica para os Arcanos Maiores. São Paulo: Pensamento, s/d.

A cada carta vivenciada, outros livros serão necessários, e referenciados adequadamente na postagem. Para adquirir a bibliografia básica, clique aqui



E, para começarmos a jornada com o pé direito, a Editora Pensamento disponibilizou para nós caminhantes um exemplar do livro O herói de mil faces, de Joseph Campbell, um dos livros axiais (senão a própria raiz) da série.  Para participar, seja seguidor do blog, deixando um comentário nessa página com nome, cidade e e-mail. Só valem participações de residentes no Brasil. O sorteio será feito no dia 4 de outubro, através do random.org, e será divulgado aqui, no Conversas Cartomânticas.
Nos vemos em quinze dias, sabendo quem será o caminhante a vivenciar já com o livro seu primeiro passo.