sábado, 17 de outubro de 2009

Alegorias e possibilidades de (me, se, nos) ouvir(-nos)



 Olá pessoal. Tenho refletido esses dias sobre os meus sentidos físicos e, acredito, não tenho sido muito bom em alguns deles. Começo pelo mais complicado de todos: a audição.
Aparentemente simples de compreender, a audição é complicadíssima, deveras complexa, se pararmos para pensar nas suas implicações. Nossa sociedade é barulhenta. Agora, enquanto escrevo, além do som das teclas do teclado, ouço carros passando, um desumidificador funcionando, alguns cliques do mouse de meu colega, a voz da recepcionista... Sem pensar muito. Para me concentrar, ponho uma música para ouvir. A escolha é a versão acústica de Drops of Jupiter, da banda Train, interpretado pelo Boyce Avenue. Considero uma boa escolha. Mas, enquanto eu ouço, sei que o meu colega pode estar incomodado porque esse não é seu naipe favorito e também pela altura (a recepcionista está um pouco longe, agora.)
O som é a forma mais invasiva de tocar alguém.
Ainda bem que, de certa forma, nossa audição é seletiva. Não conseguimos prestar atenção a todos os sons que nos permeiam ao mesmo tempo. O ruim é que a gente se acostuma com isso. E passa a ouvir cada vez menos, numa espécie de "surdez social" que limita nosso contato com nossos parceiros de jornada terrena. Quantas vezes pedimos para uma pessoa repetir o que dise há 30 segundos porque não estávamos dando-lhe a mínima atenção? Fere os preceitos da etiqueta, fere os preceitos da boa convivência, fere a quem fala. Fere.
A audição, por vezes é associada ao elemento Éter (ouvir a Voz de Deus), por vezes ao Ar (pela propagação do som). Enfim, deixo ao seu critério.
Acredito na beleza do ouvir consciente, porque eu também quero ser ouvido. Pensa como é tenso quando você fala aos quatro ventos e ninguém te ouve? Pensa como é tenso quando você precisa do silêncio e ao seu redor, só barulho? O exterior, quando acha brechas, rusgas em nós, entra sem pedir licença, se instala no sofá da sala e põe os dois pés na mesinha de centro. E de vez em quando ainda pede uma cerveja.
Aí que entra a pior surdez.
A surdez de si mesmo.
É horrível sentir-se surdo à própria voz. A depressão, o estresse, a tensão, a expectativa ou até mesmo apaixonar-se pela pessoa errada - todas essas possibilidades podem calar nossa voz ou nos fazer surdos a ela. O que eu considero pior, já que a voz continua a gritar até a exaustão, até a rouquidão, por vezes se fazendo ouvir por pessoas ao nosso redor que dizem: "hey, tudo bem?" "precisa de ajuda, amigo(a)?" "tá acontecendo alguma coisa?"
Como cartomantes, tarólogos ou amantes da música, somos treinados para ouvir, mesmo que não percebamos. O jogo transcorrerá normalmente se a pessoa não falar nada mas, atire a primeira pedra quem, em nenhuma situação, precisou de um feedbak de um cliente para entender uma combinação de cartas. Vamos, atire!
E nesse exercício falar-ouvir, eja de nós mesmos, seja de outrem, seja do mundo pra nós, seja de nós para o mundo, percebe-se o que há de instigador, de intímo e de intimidante no processo fala-escuta, exteriorização-interiorização. Como cartomantes, devemos estar atentos à nossa comunicação para evitar dubialidades, para sermos ouvidos com clareza e ouvirmos com interesse e modéstia.
(vocês chegaram a ler a letra de Drops of Jupiter? Não? Dá uma passadinha de olhos aqui, é muito bonitinha)
Ah, falando em coisas para ler, esse haikai da Alice Ruiz é um sonho.

 
De tanto não poder dizer
meus olhos deram de falar
só falta você ouvir

Um abraço a todos.

3 comentários:

  1. Ola amigo!
    Não achei a postegem da BlogGincana. vi, que vc. já está nos que terminaram.
    Não te encontrei.
    Pode me avisar. Também estou participando com o blog uma interação de amigos.
    Um abraço.
    Sandra

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  2. Gostei do texto. Ouvir é maravilhoso. Aprendemos muito.
    Já diz o ditado.:-" Temos dois ouvidos e um só boca".
    Saber ouvir e calar na hora certa, é uma sabedoria.
    Com carinho
    Sandra

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  3. Oi Sandra. Comentei sobre o blog Volta da Maré, da Menina do Mar. Muito bonito.
    Abraços!!! E obrigado por me ouvir! =)

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Quando um monólogo se torna diálogo...